22 setembro 2011

IMPRENSA

O acordo da Al Jazeera com Washington

Por Heloisa Villela, de Washington, no blog Viomundo:

A notícia é estarrecedora. Mas não foi manchete na imprensa mundial. O diretor geral da rede Al Jazeera, Wadah Khanfar, entregou o cargo ontem sem explicar porque e sem dizer o que fará daqui prá frente. Khanfar é palestino, foi correspondente da Al Jazeera no Iraque, entre outros lugares, e dirigia o jornalismo da empresa há oito anos. É apontado como grande responsável pelo crescimento da tevê que hoje é a mais assistida no mundo árabe e mereceu elogios até da secretária de Estado, Hillary Clinton, o que por si só já seria motivo para deixar qualquer cético de orelha em pé.


Pois agora as dúvidas vieram à tona. Mais uma vez, a cargo do site WikiLeaks. O New York Times teve acesso ao material e contou que em um telegrama diplomático de outubro de 2005, o embaixador americano Chase Untermeyer descreve um encontro com Wadah Khanfar no qual foram entregues ao diretor da Al Jazeera cópias de relatórios da Agência de Inteligência do Departamento de Defesa americano sobre as reportagens feitas pela Al Jazeera a respeito da guerra no Iraque. Segundo o telegrama, Khanfar informou que o Ministério das Relações Exteriores do Qatar já havia fornecido a ele os mesmos relatórios, o que sugere um elevado grau de consultas entre os dois governos e a Al Jazeera.

O telegrama diz ainda que Khanfar salientou a necessidade de manter secretas as consultas. E criticou qualquer referência, por escrito, a um entendimento entre os Estados Unidos e a Al Jazeera. De acordo com o telegrama, Khanfar afirmou: “O acordo era de que seria sem papel. Como uma organização jornalística, não podemos assinar acordos dessa natureza, e tê-lo aqui por escrito nos preocupa muito”. Na mesma reunião, Khanfar admitiu que a rede modificou detalhes das reportagens para satisfazer pedidos dos americanos. Por exemplo: retirou do ar imagens de crianças feridas, em um hospital, e de uma mulher com o rosto muito machucado.

Com relação a uma segunda reclamação dos americanos, o diretor da Al Jazeera se mostrou relutante, mas prometeu colaborar. “Não imediatamente”, relata o embaixador americano no telegrama, “porque provocaria comentários, mas em dois ou três dias”.

Se isso acontece com uma rede financiada pelo governo do Qatar, imagine a que tipo de pressão não cedem os diretores de jornalismo americanos? O que não fica claro, nessa história toda, é o motivo pelo qual o diretor da Al Jazeera cedeu. Em troca do que? Acesso? Espaço no mercado americano? Ontem, Wadah Khanfar entregou o cargo. Despediu-se dos colegas e subordinados por carta. Destacou o crescimento que a Al Jazeera experimentou nos últimos oito anos, enquanto ele esteve à frente da direção de jornalismo.

Nem uma palavra, dele ou da empresa, a respeito dos documentos do WikiLeaks. Mas que ele deixou a empresa depois que os documentos foram divulgados, isso é fato.
 
 
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Jovens jornalistas: criados com os lobos
 

por Luís Nassif, em seu blog, no 22.09.2011, sugerido pelo José Rezende Jr.


Tinha menos de dois anos de formado o jovem repórter que tentou invadir o apartamento de José Dirceu no Hotel Nahoum. Pelo que soube em Brasília, voltou para a casa da mãe.

Não sei a idade do repórter da Folha que iludiu a confiança do tio, no caso Battisti. Mas foi exposto de forma fatal pelo próprio tio, em um artigo demolidor. E inspirou um artigo da ombudsman do jornal, no qual afirmava que era ingenuidade confiar em jornalistas. Tornou-se exemplo de como não se deve confiar em jornalistas. Dificilmente conseguirá fontes dispostas a lhe passar informações relevantes.

A campanha eleitoral do ano passado expôs outros jovens jornalistas, alguns com belo potencial, mas que tiveram a imagem afetada no alvorecer de suas carreiras, por conta de métodos inescrupulosos empregados em suas reportagens.

Culpa deles? Apenas em parte. Esse clima irracional foi fomentado por chefias que não se pejaram em jogar os repórteres aos lobos.


Processo semelhante ocorreu na campanha do impeachment, mas com resultados inversos. Uma enorme quantidade de mentiras divulgada, aceita pelos editores e pelos leitores sob o álibi de que valia qualquer coisa contra Collor. Foi um período vergonhoso para a mídia, no qual os escândalos reais não eram apurados, mas divulgava-se uma enxurrada de mentiras que não resistiam a um mero teste de verossimilhança. Dizia-se que Collor injetava cocaína por supositório, que ficava em estado catatônico e precisava ser penetrado por trás por um assessor, que fazia macumba nos porões do Alvorada.

Os que mais mentiram se consagraram, ganharam posições de destaque em seus veículos. Premiou-se a mentira e a falta de jornalismo, porque os escândalos reais demoravam mais para serem apurados e nem de longe de aproximavam do glamour da notícia inventada.

Processo similar ocorreu durante e após a campanha do mensalão. Surgiu uma nova geração de repórteres sem limites, hoje em dia utilizados pelas chefias para atingir adversários através da escandalização de fatos normais.

Agora, em plena era da Internet, ocorre o inverso. Esses jovens ambicionam a manchete, a aprovação das chefias, o curto prazo. Mas o registro de seus malfeitos estará indelevelmente registrado na Internet. A médio prazo, será veneno na veia para suas carreiras.

Pior, está-se criando uma geração de jornalistas para quem o jornalismo virou um vale-tudo: vale mentir, inventar, enganar, espionar, supor sem comprovar.

A reação de Caco Barcelos na Globonews nada teve de política ou ideológica – no programa sobre a tal Marcha Contra a Corrupção, depois editado para tirar suas afirmações mais impactantes contra o mau jornalismo. Ao denunciar esse jornalismo declaratório, simplesmente fazia uma defesa do jornalismo que aprendeu a praticar, de respeito aos fatos, de apuração das denúncias, de cautela nas acusações.

Em muitos outros jornais há uma geração de jornalistas mais velhos formados sob esses princípios, mas que a falta de opções obriga a se calar ante tais abusos. Há igualmente uma jovem geração saindo do forno das faculdades que entendeu a diferença entre os princípios jornalísticos e esse arremedo que a era Murdoch lançou sobre a mídia mundial – especialmente sobre a brasileira.

No final dos anos 80, quando a mídia brasileira abraçou o jornalismo sensacionalista, considerava-se ter entrado em linha com os grandes veículos globais – para quem a notícia é espetáculo, não serviço público.

Nos últimos anos, Roberto Civita importou de forma chocante o padrão Murdoch para a mídia brasileira – rapidamente imitada por outros jornais carentes de personalidade jornalística própria. A cada dia que passa, esse estilo – ainda que influenciando setores mais desinformados – parece cada vez mais velho e anacrônico.

Muitos dizem que o problema da velha mídia é não saber como se colocar nas novas tecnologias. Penso que é outro: é ter desaprendido as lições do velho jornalismo legitimador.


Fonte: http://www.viomundo.com.br/

 
 
 

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