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11 agosto 2014

IMPRENSA: A HISTÓRIA É ANTIGA

O 'Mercado de Notícias' no século 21


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Assistir ao filme O Mercado de Notícias, do diretor gaúcho Jorge Furtado, é uma maneira de analisar a reputação da imprensa junto à classe média tradicional das grandes cidades, ou seja, pode-se perceber o sentimento que a imprensa provoca em seu público mais característico pelas reações da plateia no cinema.
Classificado como documentário, o filme é quase um produto jornalístico, ao propor uma avaliação das práticas do jornalismo contemporâneo e oferecendo como referência a visão que se tinha da imprensa em seu nascimento, nas ruas de Londres no século 17.
Basicamente, o roteiro apresenta cenas da peça teatral “O Mercado de Notícias”, escrita pelo dramaturgo inglês Benjamin Jonson e encenada pela primeira vez em 1626, como uma sátira ao surgimento dos folhetins semanais que traziam notícias impressas, de forma organizada e periódica. Intercaladas a cenas da peça, produzidas exclusivamente para o filme, Jorge Furtado apresenta entrevistas com jornalistas brasileiros que ele considera representativos da melhor imprensa nacional.
Da mesma forma em que é apresentado na obra de Jonson, o jornalismo ainda é visto hoje como um negócio que busca o lucro sob o escudo de uma justificativa moral fundada no interesse coletivo. “Pecúnia”, personagem-símbolo do lucro na obra do dramaturgo inglês, sobrevive na imprensa contemporânea como o contraponto de uma visão ideal do jornalismo.
Os profissionais entrevistados, de modo geral, buscam elaboradas formas de interpretação para sustentar a ideia de que o jornalismo ainda é uma atividade nobre, apesar de seus muitos defeitos. Como não poderia deixar de ser, perpassa quase todas as entrevistas a questão do partidarismo exacerbado que caracteriza a mídia tradicional no Brasil.
Repórteres, editores e colunistas aparecem para dizer que atuam como mediadores de interesses diversos, mas alguns exemplos coletados pela produção revelam, como pano de fundo, que vale tudo no propósito de demonizar um dos lados do confronto político-ideológico que se instalou no país no último quarto de século.
O “Picasso” do INSS
Um dos momentos mais emblemáticos do filme relata uma das mais bizarras “barrigadas” da imprensa nacional, que começou na Folha de S.Paulo no dia 7 de março de 2004, foi reproduzida nos dias seguintes pelos outros meios de comunicação e nunca esclarecida: o caso do “Picasso” do INSS.
Naquela data, um domingo, o jornal paulista publicou na primeira página, sob o título “Decoração burocrata” (ver aqui o texto publicado no interior do jornal), uma reportagem informando que um precioso desenho do pintor Pablo Picasso podia ser visto sob as luzes fluorescentes de uma repartição do instituto de previdência social. Na primeira página daFolha, a foto principal mostrava, perto da suposta obra de Picasso, um retrato do então presidente da República, o ex-sindicalista Lula da Silva.
O teor da edição induzia o leitor a acreditar que o governo do ex-líder metalúrgico não sabia reconhecer o valor de uma obra de arte, além de tratar com descaso o patrimônio público. Em meio às cartas de leitores que reforçavam o preconceito contra o então presidente, um e-mail do próprio Jorge Furtado ao então ombudsman da Folha alertava para a possibilidade de se tratar de uma mera cópia, dessas que se compra em lojinha de museu por dez dólares.
Mesmo alertados para o erro grosseiro, que a essa altura já era reproduzido como verdade pela imprensa internacional, os jornais brasileiros mantiveram o engodo. Mais de um ano depois, em 29 de dezembro de 2005, um incêndio na sede do INSS em Brasília trazia o fac-símile de volta ao noticiário: os jornais anotaram que a obra havia sido resgatada das chamas, intacta. Na Folha, já é uma “obra atribuída a Picasso” (ver aqui); porém, mais uma vez alertados por leitores atentos, os jornais seguem sustentando a bobagem, e surge a teoria de que o quadro teria sido dado ao INSS em pagamento de dívida.
Esse episódio provoca na plateia do filme manifestações semelhantes às que surgem com outras histórias, como o caso da Escola Base, e permitem observar como o público enxerga a imprensa nacional. Declarações de jornalistas tentando justificar erros como esses provocam muxoxos dos espectadores.
A comparação com o jornalismo precário dos primeiros anos da imprensa é inevitável: estamos na Inglaterra do século 17.
 
 
 

12 outubro 2012

CRÔNICA


Como pintar um quadro de 11 mil euros



Mazé Leite, em seu Blog

François Cluzet e Omar Sy, atores do filme
Neste final de semana, às vésperas das eleições municipais, fui assistir ao filme “Intocáveis”, dos diretores franceses Eric Loredano e Olivier Nakache.

É um belo filme, do começo ao fim. A história, tocante. Conta como Driss, um senegalês morador da periferia de Paris, consegue um emprego de “tomador de conta” de um rico aristocrata, Phillipe, que ficou tetraplégico após uma queda de parapente. O filme é baseado na história real entre o milionário Phillipe Pozzo di Borgo e seu acompanhante, o argelino Abdel Sellou.

O papel desempenhado pelo ator Omar Sy, que morou na periferia de Paris assim como seu personagem Driss, traz à tona algumas reflexões. Em primeiro lugar, como se trata de uma história de amizade onde se cria uma profunda relação de confiança entre dois homens de duas classes tão distintas, o grau de humanidade implícita nessa história é muito comovente. De um lado, um negro pobre, que mora com a mãe e irmãos num pequeno cubículo de um bairro da periferia. Sua mãe é faxineira em prédios de escritórios. Seu irmão mais novo, traficante. Ele próprio, passou uma temporada no presídio por alguma infração cometida anteriormente. Do outro, um homem rico, branco, que mora num apartamento imenso e luxuosamente decorado, mas que está tetraplégico e depende, assim, completamente dos cuidados de Driss.

O filme mostra, todo o tempo, as diferenças entre o mundo de Phillipe – o dos ricos – e o mundo de Driss e sua família – os pobres.

Não indo muito longe na interpretação, me atenho ao que mais me interessa desse roteiro. Além das evidentes diferenças entre os dois mundos, o filme também mostra como existe uma lacuna muito grande dentro da cultura e da arte, que também opera uma separação de classes. Intencionalmente ou não, o filme ridiculariza a prática cultural burguesa: a arte contemporânea é um embuste, uma forma a mais de investimento financeiro; as sessões de ópera e música clássica, para platéias da elite “bem-arrumada” são, aos olhos de Driss, pura chatice; os poemas que Phillipe (François Cluzet) costuma recitar, ele também ridiculariza. A educação que o menino pobre e negro recebeu em sua escola não é a mesma educação refinada do patrão Phillipe: o acesso à literatura, a museus, a recitais de música, a assimilação dos símbolos da tradição cultural e artística ocidental passaram bem longe da cultura “aprendida” por Driss na rua, nos guetos, na luta pela sobrevivência.

Há uma cena em que Drissacompanha Phillipe a uma galeria onde está havendo uma exposição de arte contemporânea. Os dois param diante de uma tela em branco, com uma mancha vermelha de tinta jogada na tela. Phillipe diz que aquilo lhe transmite calma. Driss, gozador do modo de vida do patrão, lhe garante que poderia fazer melhor do que aquilo. Uma atendente se aproxima e anuncia o valor do quadro: mais de 40 mil euros! Driss não se conforma como alguém pode pagar tão caro por uma tela branca manchada de tinta. O mesmo que dizer que o mundo burguês de Phillipe tem também códigos culturais guiados pelo valor monetário. Nesse mundo onde as regras de etiqueta tornam tudo uma perfeita chatice, os valores subjetivos e as relações humanas estão também submetidos ao poder do dinheiro. Driss parece mostrar a Phillipe que em seu mundo falta naturalidade, espontaneidade e, num certo sentido, profundidade e sinceridade nas relações.

Mas Driss resolve pintar um daqueles quadros. Se vale tanto assim, não custa tentar. Phillipe, que já se divertia com esse ajudante que ia contra as regras de seu mundo em todos os momentos, resolve sugerir a um amigo, rico como ele, que comprasse o quadro de Driss por 11 mil euros. O amigo, um investidor, não se arrisca a perder um provável grande negócio. Enquanto isso, Driss e Phillipe se divertem. E nós, na platéia, nos divertimos com o ridículo desses signos burgueses que incluem a chamada arte contemporânea. Que não diz nada, não significa nada. Mas vale muito dinheiro!