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07 junho 2014

NO CAIS JOSÉ ESTELITA

Quando o interesse do dono é a voz
do jornal


André Raboni, no Observatório da Imprensa



No silêncio da noite do último dia 21 de maio, tratores e escavadeiras do Consórcio Novo Recife (formado pelas construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galvão, Ara Empreendimentos e GL Empreendimentos) iniciaram a demolição de antigos armazéns de açúcar do Cais José Estelita, no Recife. Pegos de surpresa pela informação do início da demolição, dezenas de pessoas se articularam madrugada adentro pelas redes sociais, formaram grupos de carona coletiva e, ocupando o local, impediram bravamente a derrubada das edificações históricas na calada da noite. O #OcupeEstelita já dura mais de dez dias e culminou em um domingo entusiasmante de manifestações políticas e culturais onde estiveram presentes mais de 7 mil pessoas.
Ao longo desses dez dias imperou na cidade uma cobertura suspeitíssima sobre o assunto por parte dos três principais jornais impressos, além da rede globo local. Notícias incompletas e com pouco destaque. Para coroar a cobertura do bolo, um caderno especial sobre o projeto “Novo Recife” foi pago pelo Consórcio nos três principais jornais impressos. Com uma cobertura bem feita, divergiram da norma apenas um pequeno impresso local chamado Destak e o portal de notícias LeiaJá.
Chamou bastante a atenção a cobertura do Jornal do Commercio, impresso de maior tiragem no estado e detentor de três concessões públicas: uma de TV e duas de rádio (FM e AM). A empresa colocou toda a sua força para fazer uma defesa (ainda) não declarada do projeto “Novo Recife”. Escalado como porta-voz do jornal, seu principal blogueiro chegou a publicar um texto cujo título carregava mais de quatro estridentes exclamações – num claro furor intestinal – em defesa do projeto.
Vitória das mídias digitais
No sábado (31/05), o editorial do Jornal do Commercio tentou ridicularizar os manifestantes contrários ao projeto (entre eles artistas, professores, arquitetos, urbanistas, engenheiros, historiadores, filósofos, médicos, juristas, promotores, advogados, jornalistas, estudantes) dizendo serem “inaceitáveis” os protestos. O jornal tomava de vez o partido em defesa do projeto. É saudável quando um veículo declara seu posicionamento de forma clara. Infelizmente essa declaração nem sempre é acompanhada da honestidade que o ofício do bom jornalismo necessita para manter sua credibilidade social.
O editorial omitiu o ponto crucial que está por trás de toda a “cobertura” da empresa: seu dono João Carlos Paes Mendonça é um dos maiores interessado no projeto “Novo Recife”. Os protestos são “inaceitáveis” para o empresário porque há pouco mais de dois anos o empresário ergueu um opulentoshopping center localizado exatamente no outro lado da Bacia do Pina – de frente às janelas dos pretensos futuros moradores das 12 torres de luxo com mais de 40 andares previstas no projeto.
O Shopping RioMar seria a principal paisagem da poesia melancólica dos seus privilegiados moradores. Obviamente este shopping também seria seu principal equipamento de lazer familiar. A alta classe média recifense é notoriamente conhecida por desprezar espaços públicos abertos para convivência, o que explica os muros de cinco metros previstos para cercar as torres do “Novo Recife”, formando uma ilha de luxo e requinte em meio à pobreza histórica das comunidades vizinhas.
O jogo de cartas é facílimo de decifrar: os veículos do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação garantem a defesa do projeto diante da opinião pública, supostamente defendendo a “modernização da cidade”, e em troca seu dono teria a garantia do sucesso financeiro de seu maior empreendimento no Recife – que todos na cidade sabem que não vai muito bem das finanças.
Bingo! Está montada a estrutura econômica que moveu toda a máquina da comunicação social nas mãos do empresário. Perde a sociedade. Perde o jornalismo.
Curiosamente, depois das manifestações de mais de 7 mil pessoas no cais José Estelita, e de todo o ativismo nas redes sociais, todos os veículos locais amanheceram nesta segunda-feira com um outro tom em suas coberturas. Mais uma vitória das mídias digitais contra o bloqueio imposto pelo velho modelo empresarial de comunicação.
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André Raboni é historiador e analista de comunicação digital
 
 

15 março 2013

CAOS URBANO

Cidades no Brasil: sair da perplexidade
e passar à ação

Ermínia Maricato, na Agência Carta Maior



Um sentimento de perplexidade parece acometer profissionais, acadêmicos e parte da população urbana que acompanham as mudanças pelas quais as cidades brasileiras estão passando. Essa constatação tem sido feita nas inúmeras cidades onde tenho feito palestras e conferências. Os comentários se concentram, principalmente, no engarrafamento viário, onde multidões perdem horas inúteis paradas e na especulação imobiliária que cria torres e mais torres em bairros de ruas já congestionadas e com insolação comprometida.

De fato, a atual tsunami que vivemos no país todo, nos últimos 5 anos, tem origem quando a venda de automóveis, incentivada pelos subsídios, passa a marcar recordes por um lado e o Programa Minha Casa Minha Vida, lançado em 2009, coloca em prática os mecanismos de financiamento, securitização e registro cartorário, além da liberação de recursos públicos, semipúblicos e privados. Essas medidas impactaram cidades que já carregavam uma herança pesada gerada pelo desprezo ao interesse público, social e ambiental, subordinados, historicamente, a interesses privados. 

As iniciativas do governo federal pretenderam, e durante um certo tempo conseguiram, fazer frente à crise internacional de 2008, mantendo o crescimento da economia e do emprego no Brasil. Entupidas por automóveis e vivenciando uma explosão nos preços dos imóveis (“a mais alta do mundo”, segundo a revista Exame de maio de 2011), as cidades, no entanto, estão passando por um impacto profundamente negativo. Queixa-se a classe média, mas os que mais sofrem são os despejados, os que moram em favelas incendiadas e os que estão sendo empurrados para novas periferias, mais distantes ainda como para a Área de Proteção dos Mananciais, ao sul, e para o norte da metrópole paulistana. 

Vive-se o paradoxo dos efeitos caóticos e predatórios exatamente quando um governo federal decidiu, após 29 anos, retomar o investimento público em habitação e saneamento. Caso os munícipios cumprissem seu papel constitucional de dar prioridade ao transporte coletivo, controlar o uso do solo seguindo as leis e os planos diretores e regulamentar a atividade imobiliária visando o interesse social, orientado pelo Estatuto da Cidade, esse impacto poderia ser bem menos violento. Mas não é o que acontece. 

Não vamos repetir aqui as consequências desse modelo de crescimento para a saúde e para o meio ambiente. Basta ler o que foi escrito no ano de 2012, nesta mesma Carta Maior ou procurar sites que trazem dados preocupantes como Saúde e Sustentabilidade. 

Em muitas cidades a lei tem sido “flexibilizada”, na Câmara Municipal, nos gabinetes ou nos Conselhos da “sociedade civil”. Como sempre, no Brasil, a lei tem sido aplicada de acordo com as circunstâncias. Não é pouco frequente observar que há juízes que não conhecem leis urbanísticas, especialmente quando se trata de despejos de favelas ou de comunidades pobres, de um modo geral. 

Como parte desse quadro, a recente articulação construída por empreiteiras de construção pesada (que estão incorporando a atividade imobiliária entre seus negócios) com as empresas imobiliárias constitui uma força que não encontra adversários à altura. A relação com o financiamento de campanhas eleitorais pode amolecer até os mais recalcitrantes. Os que resistirem são atropelados. Os megaeventos – Copa do Mundo de Futebol, Olimpíadas e a Exposição Tecnológica, que está sendo prevista na zona norte de São Paulo,potencializam o poder dessa máquina voraz que se combina também aos capitais que vêm de fora nessas oportunidades. 

É estranho como essas iniciativas ligadas ao urbanismo do espetáculo são plasmadas à ideia de progresso. Mesmo quando o movimento promove a exclusão social pela especulação (renda fundiária, imobiliária e financeira), mesmo quando alguns capitais desmontam a possibilidade da racionalidade social e ambiental, a aparência é de progresso para a qual muito contribuem os veículos de comunicação. 

Tenho ouvido de profissionais arquitetos, urbanistas, engenheiros, advogados, geógrafos afirmações indignadas sobre a violação das competências legais, ou sobre a violação das posturas do Plano Diretor ou de determinadas leis. Todos cobram dos prefeitos e dos vereadores a reação a determinados fatos (embora haja vereadores e prefeitos que também estão perplexos). Todos têm denúncias para fazer. Enfim, ouço pessoas indignadas, mas... paralisadas. 

O recuo observado nos movimentos sociais durante os últimos 10 anos também parece contribuir com esse quadro. 

Vou repetir aqui o que tenho dito nessas ocasiões frequentes.

Os capitais, os prefeitos e os vereadores também respondem à correlação de forças e à voz que vem das ruas. Isso é óbvio, mas não parece. É preciso passar da perplexidade para a ação. É preciso entender o que está acontecendo e agir, cada entidade, cada movimento e cada pessoa dentro das entidades e dos movimentos. Agir com criatividade, com inventividade, de forma inovadora, porque o mundo está mudando. Aí estão as redes sociais, os boletins, as revistas, às quais temos acesso. 

São Paulo, por exemplo, é, dentre 24 metrópoles mundiais, a que apresenta o pior quadro de doenças emocionais (depressão e ansiedade mórbida, por exemplo). Nossa vida urbana atual produz patologias como revelam as pesquisas dos professores da USP (Ver site ‘Saúde e Sustentabilidade’). Para quem não quiser ler as pesquisas sobre o assunto, recomendo parar para observar, por alguns momentos, o comportamento das pessoas no trânsito para perceber o nível de stress, raiva, mau humor, nervosismo. Como aguentamos conviver com isso? Você já pensou na vida dos motoristas de ônibus? Aliás, poucas pessoas têm sensibilidade (ou tempo) para observar o outro. A vida parece estar escorrendo pelas mãos (e, de fato, está). 

As atuais taxas de emprego devem ser festejadas, mas existem outras formas, menos predatórias, de promover empregos na indústria automobilística e na construção civil. 

Apenas repito que não podemos e não devemos nos conformar com isso. 

*Erminia Maricato é urbanista, profa. colaboradora da USP e profa. visitante da Unicamp. Autora do livro “Impasse da política urbana no Brasil”.