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22 setembro 2014

IGNORÂNCIA E PRECONCEITO

O Brasil sem educação


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



O erro constatado em um conjunto de planilhas da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad), com os números de 2013, divulgados na quinta-feira (18/9) pelo IBGE, foi pouco explorado pela imprensa no fim de semana. Na verdade, os dados produziram um curioso editorial no jornal O Estado de S. Paulo, que reconheceu na segunda-feira (22/9) uma melhora gradual nas condições de vida do brasileiro nos últimos anos e contradiz as manchetes negativas publicadas na sexta-feira sobre o mesmo assunto.
A correção de informações sobre o índice de Gini, que mede a desigualdade de renda domiciliar, elimina o argumento usado pela mídia tradicional para desqualificar a política econômica e os projetos sociais do governo. Com os números corretos, a imprensa se vê obrigada a voltar atrás e afirmar, ainda que de forma dissimulada, que “vive-se melhor no Brasil”, como diz o editorial do Estado. Evidentemente, como não podia deixar de ser, a mídia observa que ainda há muito a fazer, principalmente no que se refere ao resgate das populações que ainda vivem em condições degradantes.
O erro cometido por técnicos do IBGE será apurado em cerca de trinta dias, segundo anunciam os jornais. Mais interessante do que isso, porém, é constatar como a imprensa, em peso, recebeu e digeriu gostosamente os indicadores errados, aproveitando-os para criticar a política econômica e social, sem perceber que havia ali uma contradição importante. A incongruência dos dados sobre desigualdade era evidente, como destacou este observador na sexta-feira (ver aqui).
Nas estatísticas complexas, que medem fatores diversificados, é preciso ler as relações cruzadas e analisar as tendências, ou seja, leva-se em conta a direção que os fatos tomam em determinado período, no seu conjunto e em questões específicas. Por exemplo, no caso da renda média do trabalho é importante considerar não apenas o valor dos salários formais, mas também a receita do trabalho informal e a redução da mão de obra infantil.
O que a imprensa fez, diante da pesquisa do IBGE, foi garimpar os dados negativos e publicá-los com destaque, sem considerar o emaranhado de relações entre os fatores retratados e o contexto geral de evolução do quadro social.
Ignorância e preconceito
Há um aspecto importante no qual os jornais acertaram, mesmo levando em conta a correção do erro nas planilhas do índice de Gini: o principal desafio do Brasil é melhorar a qualidade da educação. No entanto, o debate proposto pela mídia tradicional vai na direção errada: nossa tragédia não é apenas a baixa qualidade do ensino oferecido pelo sistema escolar oficial – o problema é o analfabetismo funcional de grande parte da sociedade, incluída a própria imprensa e seus leitores típicos, que compõem a elite social e econômica do país.
Assim como um aluno da escola pública da periferia tem grande dificuldade para elaborar um texto compreensível ou para compreender um texto de relativa complexidade, boa parte dos brasileiros com muitos anos de escolaridade sofre de um grave bloqueio na hora de ler a realidade nacional. Entre esses analfabetos funcionais pode-se alinhar um enorme contingente de jornalistas, muitos deles assentados em cargos de responsabilidade nas redações ou agraciados com espaços generosos nos principais meios de comunicação.
O típico estudante da periferia tem dificuldade para compreender um texto de geografia, tanto quanto um assinante de jornal tem dificuldade para fazer a leitura crítica do texto jornalístico. As duas deficiências têm origens diferentes, mas produzem um fenômeno comum de má educação: o analfabeto funcional que não sabe interpretar um texto e uma elite que se nega a conhecer a realidade. Num caso, falta vocabulário; no outro, sobram preconceitos. A mídia tradicional deseduca um e outro com sua pauta de futilidades, seu conservadorismo e seu viés reacionário.
A educação precisa ser vista como uma das funções da comunicação. Trata-se de capacitar os indivíduos para que construam um pensamento da realidade o mais próximo possível da natureza da realidade. Nesse sentido, deve-se fazer com que a tarefa de educar seja ampliada do ambiente escolar para toda a sociedade, e a imprensa deveria ter um papel fundamental nessa missão.
Mas imprensa não pode educar se ela não tem educação.
 
 
 

30 outubro 2013

UM BRASILEIRO

Darcy Ribeiro: brasileiro e
                       desenvolvimentista



Paulo Kliass, na Agência Carta Maior



  
Arquivo
Se ainda estivesse vivo em 26 de outubro passado, Darcy Ribeiro teria completado 91 anos de idade. Lamentavelmente, porém, ele nos deixou em fevereiro de 1997, ainda com 74 anos. Uma grande perda, de alguém que deixou um expressivo legado para as futuras gerações, contribuições elaboradas ao longo de um vida de muita luta e de muita criação. Entre livros acadêmicos, romances e os resultados de sua ação na esfera política e governamental, o mestre plantou sementes essenciais para a conformação da brasilidade.

Considerado como um dos mais importantes antropólogos brasileiros – sua vocação inicial, embora ele atuasse em áreas variadas -, Darcy fez parte de uma geração de brasileir@s que deixaram como marca de sua passagem por esse mundo uma engajada militância em torno de um projeto diferente de País. As décadas de 1950 e 60 foram um período em que se abriu uma tênue possibilidade de mudança do padrão histórico de se fazer política no Brasil.

O período coincidiu com a afirmação do terceiro mundo e a descolonização da África e da Ásia, no impulso desenvolvimentista do pós Segunda Guerra. O amadurecimento intelectual e ideológico a respeito de uma via brasileira, rumo a uma sociedade mais justa e menos desigual combinou-se a um aprofundamento da luta política e social. Em especial, o segundo governo Vargas e o mandato de João Goulart abriram a possibilidade de que algumas dessas propostas viessem a ser implementadas por meio de políticas públicas no plano federal. Pode-se dizer, sem exagero que ao período de substituição de importações na esfera industrial correspondeu uma espécie de “substituição de pensamento” na esfera das ciências sociais em boa parte da periferia do mundo.

Desde as idéias de Celso Furtado na economia, passando pelas experiências inovadoras na área da cultura (com o Centro Popular de Cultura, o Teatro de Arena, o Cinema Novo) esbarrando no encaminhamento da Reforma Agrária, tangenciando as importantes evoluções no setor da saúde, até as mudanças na área educacional. Como pano de fundo para todo esse processo de transformação, um embate duro em torno do desenho de um projeto nacional e desenvolvimentista. E isso implicava o abandono da forma antiga com que as elites sempre haviam tratado o Estado brasileiro, impedindo que ele se colocasse a favor de uma direção que levasse em conta os interesses e as necessidades da maioria de seu povo.

Esse período de acelerada efervescência política e intelectual conheceu vários processos em que uma parcela expressiva da população buscava conhecer melhor a essência mesma daquilo que seria uma alma brasileira, a forma brasileira de ser e os caminhos da transformação mais profunda da sociedade brasileira. O reconhecimento da natureza dependente de nosso modelo econômico frente ao modelo imperialista e à divisão internacional do trabalho sugeria a necessidade de adoção de um caminho que incorporasse graus mais elevados de autonomia e soberania. A identificação da profundidade dos desníveis sociais e econômicos verificados entre os diferentes setores e classes apontava para a urgência de reformas de base, que removesse obstáculos à uma modernização democrática

O caminho da mudança era árduo e as tarefas exigiam muita força política para se viabilizarem. Darcy percebeu que não poderia se negar a travar as batalhas também no interior do Estado. Aceitou o convite do Presidente recém-eleito Jânio Quadros para criar um projeto educacional inovador, que se materializaria na Universidade de Brasília em 1961. Não apenas o poder se interiorizaria, mas o saber buscaria nova legitimidade, fora do sul-sudeste litorâneo.

Em razão de seu envolvimento com a matéria, acabou por ser nomeado o primeiro reitor da UnB. Na seqüência foi indicado para chefiar o Ministério da Educação em 1962, ainda no breve período do parlamentarismo, que se seguiu à renúncia de Jânio. E quando João Goulart vence o plebiscito restaurador do regime presidencialista, Darcy passa a ocupar o estratégico cargo de Ministro Chefe da Casa Civil. Foi um período de intensa luta política, em razão da tentativa de implementação das reformas de base. As forças da reação não aceitavam tal marca progressista do governo de Jango. Essa trajetória será interrompida em 1 de abril de 1964, com o golpe militar, a cassação e o exílio.

A interrupção violenta do projeto transformador, por meio da repressão e da ditadura, não arrefeceu o ânimo de Darcy nem da maioria dos integrantes dessa geração de nacionalistas e democratas. Havia a percepção nítida da necessidade de articular a resistência e de continuar a luta por outras vias. Assim, o antropólogo brasileiro – e a essa altura educador, político e agitador cultural -  foi prestar assessoria para governos de outros países latino-americanos, cujos governos estavam buscando um caminho que os militares haviam impedido de continuar por aqui. Darcy cooperou com as experiências, também nacionalistas e desenvolvimentistas, de Allende no Chile e de Velasco Alvarado no Peru. Não por acaso, ambos foram alijados do poder por golpes militares de orientação direitista e conservadora, com forte apoio dos Estados Unidos.

Com os primeiros sinais da tendência de redemocratização no País, Darcy retorna e continua seu percurso – a eterna busca de conciliar a produção intelectual com a materialização de projetos pela via da política. Nas eleições de 1982, é eleito vice-governador do Rio de Janeiro, na chapa com Leonel Brizola, com quem estreitou afinidades no exílio. Ao longo dessa experiência vai concretizar um pouco de seu sonho mudancista na educação. Data dessa época o modelo do CIEPs (Centro Integrado de Ensino e Pesquisa), no qual se pretendia oferecer escola pública de qualidade, com horário integral e potencial de se prestarem serviços também à comunidade.

Em 1990, Darcy completa sua última etapa no ciclo político, ao se eleger Senador pelo Rio de Janeiro, sempre pelo PDT. Exerceu seu mandato até o final da vida, tendo conseguido aprovar, entre muitos outros, um importante projeto. Foi de sua autoria como Relator a versão definitiva da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, promulgada em 20 de dezembro de 1996, 3 meses antes de sua morte.

Darcy é autor de algumas dezenas de livros. Mas muitos analistas consideram “O povo brasileiro”, publicado em 1995, como sua obra síntese. Ali ele busca as raízes da formação popular da nacionalidade e, na tradição do pensamento crítico, os vetores básicos para a construção de um projeto desenvolvimentista inclusivo e soberano. Algo que ele chamava, com graça e vigor, de “socialismo moreno”.

(*) Doutor em economia pela Universidade de Paris 10 (Nanterre) e integrante da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal.

18 janeiro 2013

OPINIÕES

A síndrome Safatle/Dutra - Parte II


Izaías Almada, na Agência Carta Maior




“Ao afirmar que os condenados do mensalão não seriam desligados do partido, ao aceitar organizar uma contribuição para manter tais condenados a pagarem as multas aplicadas pelo STF e, agora, ao achar normal que alguém condenado em última instância assuma uma vaga no Congresso, o PT age como um avestruz que coloca a cabeça na terra e erra de maneira imperdoável.”
Vladimir Safatle em artigo na Folha de São Paulo 

“... todos os que o conhecem nunca tiveram um minuto de dúvida quanto à sua integridade de caráter e quanto à limpidez de sua trajetória de vida. Entre eles estou eu, admirador que sempre o considerou um militante exemplo pela sua dignidade, a coragem e a lucidez...”
Prof. Antonio Candido, em carta ao deputado José Genoíno

Com a contextualização em relação ao título desses meus artigos feita no primeiro deles atempadamente pela amiga Conceição Lemes – do VIOMUNDO - volto ao assunto sobre as opiniões do professor Vladimir Safatle e do ex-governador gaúcho Olívio Dutra. Vamos em frente.

Em 1997 tive o privilégio de coordenar, junto com os jornalistas Granville Ponce e Alípio Freire, o livro de memórias de prisioneiros políticos TIRADENTES: UM PRESÍDIO DA DITADURA. Privilégio acrescido com a honra de ter como apresentador da obra o professor Antonio Candido de Mello e Souza, um de nossos mais brilhantes intelectuais. No seu prefácio, o professor Antonio Candido destaca o seguinte trecho dos organizadores à página 16, referindo-se aos memorialistas: “Ninguém é vítima ao aderir a uma causa (a opção pela luta armada) de livre e espontânea vontade, mesmo considerando a possibilidade de uma ou de outra falha no recrutamento de um militante. É curioso notar, inclusive, que de todos os textos que recebemos, não há nenhum em que o autor faça qualquer alusão a uma eventual condição de vítima daquele processo de luta política. E só não comete erros quem não ousa”.

De certa maneira, a autocrítica daquele processo de ousada luta política foi feita por muitos que após e experiência da luta armada se incorporaram à criação do Partido dos Trabalhadores, que teve o professor Antonio Candido como um de seus fundadores. Autocrítica que pressupunha a crença em valores democráticos ainda por conquistar. Entre eles estavam José Genoíno e José Dirceu. 

Vencida a ditadura em alguns dos seus aspectos mais sensíveis e visíveis, como a liberdade de reunião e a volta dos sindicatos, das organizações estudantis, o fim da censura a imprensa, a retorno do ‘habeas corpus’, o direito de ir e vir, o cessar das mortes e desaparecimentos de opositores ao regime, parte representativa da esquerda e não só, organizou e fundou o PT. E partidos políticos, ao que se sabe, se organizam para chegar ao poder político, como é óbvio, e se possível chegar ao mais alto cargo governamental republicano, o que foi conseguido em 2002 com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Refém de uma economia de mercado atrelada aos interesses rentistas e corporativos, nacionais e internacionais, bem como de um quadro político partidário anômalo, fisiológico e bastante conservador, o PT – como qualquer outro partido de esquerda progressista e democrático – apesar das seguidas vitórias eleitorais viu-se jogado às feras numa arena onde a platéia dividia-se entre a esperança e o medo. Diariamente, desde então, jornais, rádios, televisões, revistas semanais vêm tentando colocar o PT, seus militantes e seus eleitores no “seu devido lugar”. A Casa Grande mostrava e continua a mostrar as garras através dos seus porta-vozes.

Visto pelas lentes da dialética pode-se dizer que para os seus eleitores, o PT trouxe a esperança; para os adversários, em particular os mais conservadores, o medo, o receio. Quem não se lembra da campanha contra Lula em 1989? Do ponto de vista interno, entretanto, há o natural medo de não se corresponder à imensa responsabilidade de governar o país consoante as expectativas criadas e, na contramão desse medo, a esperança dos adversários pelo fracasso nesse sentido. E governar não é ir para um baile de debutantes ou praticar boas ações para ganhar o reino dos céus. Essa, quando muito, será a visão edulcorada de um medievalismo tardio, de uma cultura acadêmica afrancesada, de tempos inquisitoriais ou de exacerbado e ingênua recato quase religioso diante do poder econômico dominante.

Passados poucos mais de 40 anos, nos quais muito se fez para o estabelecimento de um pensamento único no mundo, após a queda do socialismo real na Europa, proclamando-se para isso até o fim da História, os vários discursos neoliberais vão tendo vencidas as suas datas de garantia de uso, a última delas em 2008, já com algumas trombetas de alarme soando na Europa, nos EUA e no Japão para dias futuros. 

Também após esses 40 anos é possível encontrar a sensibilidade e a solidariedade, entre centenas de milhares de brasileiros, de um professor Antonio Candido, por exemplo, que atento ao que se passa à sua volta, escreve a carta que escreveu ao deputado José Genoíno Neto, de cabeça erguida, ao contrário de outros que abandonaram, senão a luta, os caminhos escolhidos pelo PT.

Também durantes esses 40 anos, novas gerações de brasileiros se formaram e se prepararam para as mais diversas atividades no campo do saber e do fazer. E cada geração, mesmo bebendo nos clássicos a sua formação e especialização, e amparada pelo conhecimento já comprovado e contínuo pelas ciências exatas ou humanas, sabemos que será sempre influenciada pelo confronto das idéias no seu dia a dia, por novas descobertas e avanços da humanidade. Ou por teorias ainda carentes de comprovação, quando não estas são lançadas apenas como estratégia de espalhar a dúvida e a confusão. Nesse confronto, nessa batalha de idéias, será preciso algum discernimento e, se necessário, saber remar contra a maré, quando for o caso. 

Para os mais novos haverá sempre a tentação de reinventar a roda ao assumir a realidade do dia a dia como sendo a expressão de toda e qualquer realidade. Pedir a um partido que faça autocrítica das suas ações no atual contexto da política brasileira é direito que assiste a qualquer cidadão. Até porque, as condenações de uma ação penal ainda não concluída, é bom lembrar, não o foram em “última instância”, mas em ÚNICA INSTÂNCIA. Contudo, é preciso distinguir, no caso do PT, se tal avaliação provém de uma reflexão histórica consistente de quem vive o jogo político por dentro ou é fruto de um desejo subjetivo de escaramuças intelectuais obtidas em salas acadêmicas e redações midiáticas. Ou como diria o grande filósofo Millor Fernandes: “Certas coisas só são amargas, se a gente as engole”.

Voltarei ao tema.

Escritor e dramaturgo. Autor da peça “Uma Questão de Imagem” (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro “Teatro de Arena: Uma Estética de Resistência”, Editora Boitempo.



























Os epicentros das guerras 
imperialistas
Emir Sader, em seu Blog




Entra ano e sai ano da era da hegemonia imperial norte-americana, a agenda das guerras não deixa de se alongar. Ao Afeganistão e ao Iraque se somaram a Líbia e a Síria e a lista só tende a ser maior.

Os presidentes dos EUA, em cada aniversário da invasão do Afeganistão e do Iraque, se felicitam pela vitória nessas guerras. Quem olha para esses países e se lembra das promessas de instauração de democracias – estilo ocidental –, só pode achar totalmente absurdas essas afirmações. Bastaria perguntar para algum deles se gostariam de passar as férias em algum desses países, se mandariam seus filhos ou netos estudar lá, para que eles mudassem na hora de fisionomia.

Eles se consideram vitoriosos, diante de países completamente devastados, que continuam a ser assolados pela violência cotidiana, porque seu critério é outro. Os EUA consideram que lograram seu objetivo, porque este era que não houvesse mais atentados como aqueles de 2001. O que lhes interessa é restabelecer a invulnerabilidade do seu território, ao preço que seja. 

Não importa se devastaram a civilização mais antiga da humanidade, se militarizaram totalmente a vida daqueles dois países, com centenas de milhares de mortos. Estão contentes porque, desde então, os surtos de violência nos EUA se dão nos massacres nas escolas, feitos por norte-americanos, com armas norte-americanas.

Desde então vieram os bombardeios na Líbia, agora o armamento da oposição na Síria e as contínuas ameaças ao Irã. É esse o cenário da Pax Norte-americana no mundo.

Enquanto isso, na África a fragilidade dos Estados neocolonizados se vê às voltas, cada vez mais, com rebeliões. Sociedades sem nenhuma coesão, sustentadas por exércitos treinados e armados pelos EUA e pelas potências neocoloniais europeias, com sociedades dilapidadas pela exploração de suas riquezas naturais, são frágeis diante da coesão que grupos religiosos permitem. Dispondo de armamentos que as próprias potências imperialistas despejam em grande quantidade em conflitos em que se envolvem – como, por exemplo, na Líbia e na Síria -, esses grupos vêem como presas fáceis os Estados sustentados militarmente pelas FFAA e pelo apoio externo.

O Mali é apenas um dos tantos casos. Depois de ser considerado um modelo de democracia pela mídia ocidental, em abril as FFAA derrubaram sem nenhuma resistência ao presidente eleito, e não foram convocadas eleições até hoje. Os ataques dos grupos que já controlam o norte e parte do centro do Mali encontram resposta armada da França, que bombardeia sistematicamente as regiões controladas pelos opositores. Mas não há nenhuma condição de ocupar esses territórios, mesmo militarmente.

O conflito é um pântano em que a França se meteu e onde, cada vez mais, vai se afundar. Hoje, 75% da população francesa – por enquanto, quando ainda não chegam cadáveres de franceses – apoiam a ação militar e 84% da esquerda o apoia. Isso confirma que o elemento neocolonial francês sobrevive, e conta com os socialistas para isso. Mas a aventura vai custar caro à França e ao próprio governo Hollande.









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Mercantilização na saúde e no
ensino superior

Paulo Kliass, na Agência Carta Maior






A divulgação recente de más notícias sobre o desempenho de empresas atuantes da área da saúde e do ensino superior traz à tona o necessário debate a respeito da preocupante mercantilização dos serviços públicos em nosso País. À medida que parcela expressiva destes setores passou a ser composta de corporações capitalistas, os impactos negativos se fazem sentir pela maioria da população.

No início do ano, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) acabou por decidir pela interdição de 225 planos de saúde operados por 28 empresas atuantes no setor. Esse tipo de medida não é uma grande novidade. Antes disso, em outubro passado, esse órgão regulador do sistema havia proibido 301 planos de venderem seus produtos. E ainda em julho de 2012, a lista de proibição contemplava 268 planos. Ainda que tais fatos possam passar a idéia de que o Estado está agindo e fiscalizando, a pergunta que deve ser feita vai em sentido oposto. Como é possível que uma área tão sensível, como a saúde, chegue a tal extremo de descontrole e regulamentação?

Outra decisão que causou grande impacto foi a operação de venda da empresa líder de saúde privada, a Amil. Em novembro de 2011, o Estado brasileiro autorizou que ela fosse comprada por uma das maiores operadoras globais, a norte-americana United Health, pelo valor de R$ 10 bilhões. Além das dificuldades envolvendo a internacionalização do setor, a decisão gerou muita polêmica por afrontar o impedimento legal de que hospitais (também incluídos no pacote) sejam propriedade de grupos estrangeiros.

Ensino superior privado: mercantilização crescente
Na área do ensino superior, em dezembro passado, o Ministério da Educação proibiu 207 cursos de realizarem concursos vestibulares para novos alunos e no início do presente ano comunicou que outros 38 cursos haviam sido punidos com a proibição de expandirem o número de vagas, tal como solicitado pelas instituições proprietárias. A educação universitária também vem sendo objeto de profunda transformação empresarial e corporativa, de modo que o crescimento da parcela de setor privado no conjunto do sistema é bastante expressivo.

De acordo com os dados oficiais do INEP, existem 2.365 instituições de ensino universitário no Brasil. A repartição de tais faculdades e universidades revela que 88% do total são entidades privadas, restando apenas 12% no setor público (considerando o conjunto federal, estadual e municipal). Em termos numéricos: 2081 privadas e 284 públicas. Se a análise for para o total de alunos inscritos, o setor privado oferece 76% do total e o setor público fica com apenas 24%.

Em termos de matrículas, a expansão quantitativa foi expressiva ao longo da última década. Em 2002 havia 3,5 milhões de matrículas no ensino superior e em 2011 atingiu-se o marco de 6,7 milhões de alunos inscritos. Porém, a maior parcela desse crescimento de 75% deveu-se ao setor privado. As matrículas no setor público cresceram 69% ao longo dos 10 anos, ao passo que as do setor privado cresceram 105%.

Esse crescimento expressivo das escolas particulares encontrou na própria formulação de políticas públicas um importante aliado. Por um lado, pelos longos períodos em que a orientação de contenção de gastos públicos provocou um verdadeiro sucateamento do modelo das universidades públicas, em especial as federais. Restrições orçamentárias em seqüência contribuíram para inviabilizar investimentos necessários da rede física e de seus equipamentos, Além disso, a política de recursos humanos não contribuía para atrair e manter pessoal qualificado. 

PROUNI: socialização dos custos da baixa qualidade
Por outro lado, o governo criou um programa de apoio a bolsas de estudos para as escolas privadas. Através desse modelo, as empresas do setor passaram a ter praticamente assegurada uma significativa da receita correspondente às vagas oferecidas. O discurso oficial soltava loas a um modelo que parecia agradar a todos, menos a um futuro com educação de qualidade assegurada. A população de baixa renda via finalmente chegar o sonho do diploma de ensino superior. As empresas operantes no sistema de educação privada reduziram de forma significativa o risco em suas operações e nem se preocupavam com os resultados obtidos, pois o Estado assegurava suas receitas operacionais, por meio das bolsas oferecidas.

Atualmente, o PROUNI custeia 1,1 milhão de bolsistas, sendo 740 mil na modalidade integral (100% do valor da mensalidade) e 360 mil na modalidade parcial (50% do valor da mensalidade). Além disso, existe a opção do financiamento a juros subsidiados. O programa FIES oferece recursos para pagamento de despesas com matrículas e mensalidades. As regras existentes prevêem um período de carência durante o curso e o reembolso posterior a juros anuais de 3,4%, quando o beneficiário teoricamente tiver obtido ganhos salariais derivados de sua formação. Com esse incentivo, as empresas que operam na educação universitária passaram a ter um mercado cativo para suas vagas. 

Saúde e educação: mercadoria ou direito universal?
Esses dois exemplos evidenciam os impactos negativos do caminho da mercantilização crescente das áreas de serviços públicos. A conversão desses direitos democráticos - acesso à saúde e à educação – em simples mercadorias oferecidas pelas leis de oferta e demanda compromete a qualidade desses importantes pilares de cidadania e de construção de uma sociedade inclusiva e sem desigualdades de natureza social ou econômica.

Dentre as conseqüências do período de hegemonia absoluta do pensamento neoliberal, encontra-se a tentativa de disseminação da idéia de que a ação pública é sempre ineficiente e prejudicial ao conjunto da sociedade. Assim, a melhor solução seria sempre aquela encontrada nos termos das relações de troca, no ambiente determinado pelas leis do mercado. Direitos e serviços públicos, a exemplo da saúde e da educação, passam a ser encarados e tratados como simples mercadorias, a exemplo de todas as demais existentes em uma economia capitalista. Conceitos como oferta, demanda, cliente, preços, taxa de retorno, multa, contrato, inadimplência, valor de prestação, carência, entre outros, passam a fazer parte do dia-a-dia de quem convive com categorias como saúde, doença, vida, morte, educação, pesquisa, ciência, conhecimento. Uma inversão completa de valores!

Ora, parece evidente que esse processo de mercantilização é contraditório com aquilo que se pretende justamente com sistemas de educação e de saúde portadores de qualidade para seus usuários e para o próprio País. 

Quando a lógica de operação de um hospital ou de uma universidade passa a ser a da maximização do retorno do investimento realizado a qualquer custo, está comprometida a própria natureza pública do serviço a ser oferecido. As prioridades estratégicas, as áreas de maior urgência social, a distribuição espacial de acordo com necessidades regionais, a remuneração dos trabalhadores nos sistemas, tudo isso passa a ser relegado a um segundo plano nas decisões empresariais.

Serviço público: interesse social ou lógica privada?
A contabilidade fria do modelo capitalista busca a realização do lucro por meio da dinâmica de elevação de receitas e redução das despesas. Essa abordagem favorece o atendimento dos interesses dos proprietários e acionistas da empresa, mas quase nunca satisfaz as necessidades de áreas socialmente sensíveis. Essa é a principal razão, inclusive, que levou boa parte dos países do mundo capitalista à opção por delegar ao Estado a prestação de tais serviços. Ou então, pela constituição de modelos que contam com subsídios públicos destinados a instituições privadas, mas que demonstram efetiva competência e qualidade naquilo que oferecem à sociedade.

No nosso caso, o risco do processo que atravessamos é o de ficarmos com o pior dos mundos. As áreas de excelência do setor público estão, aos poucos, sendo sucateadas e perdendo competência e qualidade. As áreas de expansão do setor privado encontram um potencial de crescimento com baixa capacidade de regulação e fiscalização do Estado. A mercantilização tende a provocar uma segmentação baseada no nível de rendimento dos usuários dos sistemas, com a complementação de recursos públicos sem a correspondente qualidade na prestação dos serviços “públicos” oferecidos. A relação mercantil pressupõe um contrato. E o contrato estabelece a restrição do uso ao pagamento prévio. 

Os recursos orçamentários deixam de ser utilizados para reforçar e reconstruir um sistema público à altura das necessidades de nossa população. Na verdade, são drenados para apropriação privada em um sistema onde a lógica predominante é a da remuneração do capital.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.









13 julho 2012

EDUCAÇÃO e POLÍTICA


O que quebrará o País?



Vladimir  Safatle,  na Revista CartaCapital 


O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nos últimos dias que a elevação dos gastos com a educação ao patamar de 10% do Orçamento nacional poderia quebrar o País. Sua colocação vem em má hora. Ele deveria dizer, ao contrário, que a perpetuação dos gastos em educação no nível atual quebrará a Nação.
Alunos de universidades públicas de todo país se reúnem em frente ao Museu Nacional da República para reivindicar uma audiência o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Foto: Agência Brasil
Neste exato momento, o Brasil assiste a praticamente todas as universidades federais em greve. Uma greve que não pede apenas melhores salários para o quadro de professores e funcionários, mas investimentos mais rápidos em infraestrutura. Com a expansão do ensino universitário federal, as demandas de recurso serão cada vez mais crescentes e necessárias. Isto se quisermos ficar apenas no âmbito das universidades públicas.
Por trás de declarações como as do ministro, esconde-se a incompreensão do que é o próximo desafio do desenvolvimento nacional. Se o Brasil quiser oferecer educação pública e de qualidade para todos precisará investir mais do que até agora foi feito. Precisamos resolver, ao mesmo tempo, problemas do século XIX (como o analfabetismo e o subletrismo) e problemas do século XXI (como subvenção para laboratórios universitários de pesquisa e internacionalização de sua produção acadêmica). Por isto, nada adianta querer comparar o nível de gasto do Brasil com o de países com sistema educacional consolidado como Alemanha, França e outros. Os desafios brasileiros são mais complexos e onerosos.
O investimento em educação é, além de socialmente importante, economicamente decisivo. O governo ainda não compreendeu que o gasto das famílias com educação privada é um dos maiores freios para o desenvolvimento econômico. Vivemos em um momento no qual fica cada vez mais clara a necessidade de repactuação salarial brasileira. A maioria brutal dos empregos gerados nesses últimos anos oferece até um salário mínimo e meio. A proliferação de greves neste ano apenas indica a consciência de que tais salários não podem garantir uma vida digna com possibilidade de ascensão social.
Há duas maneiras de aumentar a capacidade de compra dos salários: aumento direto de renda ou eliminação de custos. Nesse último quesito, os custos familiares com educação privada são decisivos. A criação de um verdadeiro sistema público de educação seria o maior aumento direto de salário que teríamos.
O governo teima, no entanto, em não perceber que o modelo de desenvolvimento conhecido como “lulismo” está se esgotando. Lula notou que havia margem de distribuição de renda no Brasil sem a necessidade de acirrar, de maneira profunda, conflitos de classe. De fato, sua intuição demonstrou-se correta. Mas o sucesso momentâneo tende a cegar o governo para os limites do modelo.
Com a ascensão social da nova classe média, as exigências das famílias aumentaram. Elas querem agora fornecer aos filhos condições para continuar o processo de ascensão, o que atualmente passa por gastos em escola privada. Esses gastos corroem os salários, além de pagar serviços de baixa qualidade. A escola brasileira, além de cara comparada a qualquer padrão mundial, é ruim.
É fato que o aumento exponencial dos gastos em educação coloca em questão o problema do financiamento do Estado. Ele poderia ser resolvido se o governo tivesse condição política para impor uma reforma tributária capaz de taxar grandes fortunas, transações financeiras, heranças e o consumo conspícuo para financiar a educação. Lembremos que, com o fim da CPMF, o sistema de saúde brasileiro viu postergado para sempre seus sonhos de melhora.
Tais condições exigiriam um tipo de política que está fora do espectro do lulismo, com suas alianças políticas imobilizadoras e sua tendência em não acirrar conflitos de classe. O Brasil paulatinamente compreende a necessidade de passar a outra etapa e, infelizmente, poucos são os atores políticos dispostos a isto.


26 maio 2012

SOCIEDADE/POLÍTICA/EDUCAÇÃO/FUTEBOL

COMO ENCARAR UMA GREVE?



A pigarra tucana



Saul Leblon, no Blog das Frases

 
É um velho truque do conservadorismo brasileiro reiterado ao longo da história: quando a raiz dos problemas repousa nas entranhas de seu aparelho administrativo ou no descaso histórico com as prioridades da população, desfralde-se a bandeira udenista da sabotagem perpetrada por 'agitadores'. 

A lenga-lenga exala naftalina e remete ao linguajar pré-golpe de 64, mas encontra em São Paulo 71 quilômetros de motivações para ser ressuscitada com regularidade suíça pela pigarra do PSDB. Nessa rede escandalosamente saturada e curta do metrô --inferior a da cidade do México, por exemplo, com 200 kms-- os registros de panes, acidentes e interrupções tem exibido frequência preocupante: só este ano foram 143 ocorrências, 33 delas sérias. 

Nesta 4ª feira, a pigarra conservadora aproveitou a greve salarial dos metroviários para isentar a gestão temerária por trás dos transtornos renitentes. A narrativa é a de um 'jornal da tosse'; gargantas raspando pastilhas Walda emitem denúncias de sabotagem e insinuam 'incêndios do Reichstag' de olho nas eleições municipais. Agitadores conturbam o ambiente da metrópole; não fosse isso, os serviços públicos tucans deslizariam no azeite fino de oliva. 

O ' jornal da tosse' por definição é pouco informativo: faltam-lhe pernas para driblar números adversos. Em 2011, o governador Alckmin investiu R$ 1,2 bi dos R$ 4,5 bilhões previstos para a expansão do metrô e não deixou por menos na ponta ferroviária: as compras de trens caíram à metade.No conjunto do sistema o recuo do investimento foi da ordem de 20% sobre 2010. A média tucana de  expansão dos trilhos tem sido de 2,35 kms/ano. Significa que nas mãos do PSDB a rede precisará de cinco décadas para se equiparar a do México.Até lá as gerações de paulistanos terão a oportunidade de vivenciar o sentido da expressão 'sardinha enlatada', com todos os riscos que a lata encerra. 

O 'jornal da tosse' passa ao largo dessas miunças que fazem do metrô de São Paulo o sistema de transporte mais saturado do mundo, com 11,5 milhões de passageiros/por km. Seu forte é a frase lacerdista. Com a palavra, um virtuose na arte, o comentarista da tosse José Serra, que limpa a garganta, ajeita a gengivite e sapeca: "É muito fácil hoje você paralisar o funcionamento de uma linha qualquer. Uma gravata, uma blusa na porta de uma vagão pode provocar [a paralisação]", disse o ex-governador e pré-candidato do conservadorismo ao comando da capital paulista. "Não digo que todas [as ocorrências) foram sabotagem, mas que algumas delas -- com certeza-- têm a ver com isso".( UOL 23-05).

Depois, com uma tossinha matreira o governador Geraldo Alckmin emenda: ' "Ano passado não teve eleição, nem nenhuma greve, este ano tem (eleição e greve). Será que é só coincidência?"(UOL, 23-05). 

O 'jornal da tosse' tem uma visão de mundo que o dispensa de atualizar o noticiário. Em setembro de 2010, em plena eleição presidencial, o metrô de São Paulo registrou uma megapane, seguida de protestos com 17 composições apedrejadas. A pigarra tucana emoldurou então a voz do governador em exercício Alberto Goldman, que não perdoou: 'Puseram uma blusa na porta de um vagão paralisando o sistema;isso cheira a sabotagem'. 

Dias depois, perícia do Instituto de Criminalística comprovou que a pane fora causada pelo colapso técnico do metrô paulistano. 'Mas a blusa estava lá', deu de ombros o pigarrento Goldman. Justiça seja feita, a narrativa tucana tem feito esforços de renovação. Soninha Francine, do PPS, incorporou-se à bancada da tosse desde o episódio de 2010, quando era chefe de campanha de Serra na Internet e comentou assim,pelo twitter, o acidente que deixou 250 mil pessoas a pé: "“Metrô de Spaulo tem problemas na proporção direta da proximidade com a eleição. Coincidência? #SABOTAGEM #valetudo #medo”.

Bela pigarreada, Soninha. No engavetamento do último dia 16 , quando duas composições colidiram numa pane do comando automático, ela reafirmou a disposição de injetar ar fresco no script udenista e dedilhou toda faceira no twitter: "Metrô caótico, é? Não fosse pela TV e o Twitter, nem saberia. Peguei linha verde e amarela; sussa". Convenhamos, 'sussa', num acidente com 143 feridos é uma pérola. A Soninha achou o tom da coisa: conservadorismo fantasiado de Vila Madalena. Essa pigarra leva jeito.



Greve expõe problemas no processo de
expansão do ensino superior



Brasília - A greve deflagrada pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN), na quinta (17) passada, segue forte, com adesão crescente. Já são 42 universidades paradas, além de dois institutos e de um centro de formação técnica. Duas outras instituições já oficializaram ingresso no movimento a partir da próxima segunda. Os servidores técnicos-administrativos discutem a adesão e assembleias estudantis representativas, em todo o país, referendam o processo. Cenário raro em tempos de desmobilização do movimento sindical. 

Para o professor da Universidade Federal do Rio Grande (UFRG), Billy Graeff, membro do Comando Nacional de Greve do Andes-SN, a surpreendente mobilização se ancora no fato de que esta é uma greve atípica, centrada não na luta mais imediata da categoria por reajuste salarial, mas em questões conjunturais que afetam o conjunto da comunidade acadêmica. E, consequentemente, o projeto de oferta de um ensino público de qualidade no país.

A pauta de reivindicações da categoria está centrada em dois pontos principais: a reestruturação da carreira docente, considerada pouco atraente e funcional há décadas, e a melhoria nas condições de trabalho. 

A primeira, segundo o Sindicato, já havia sido negociada com o governo, para ser implantada até o final de março deste ano, junto ao reajuste de 4%, acordado em 2010. O reajuste saiu, por meio de medida provisória enviada ao congresso pela presidenta Dilma Rousseff em 14 de maio, mas a reestruturação da carreira permaneceu pendente. “Nós estamos negociando desde agosto de 2010, mas o governo se mostra intransigente frente às nossas reivindicações”, justifica. 

A segunda decorre de uma insatisfação latente da categoria, compartilhada com estudantes e servidores técnicos-administrativos. “Os professores não suportam mais esses anos de expansão universitária irresponsável”, afirma o professor. Ele se refere ao programa de expansão universitária iniciado durante o governo Lula, o Reuni, mais efetivamente entre 2006 e 2008. Segundo o professor, aumentou-se o número de alunos matriculados nas universidades, sem a devida contrapartida em contratação de pessoal e ampliação da infraestrutura.

“Estamos preparando um dossiê da precarização para mostrar a verdadeira face do Reuni”, conta Billy. Conforme ele, os problemas são inúmeros, principalmente nos campi novos e nos cursos recém implantados. Faltam professores, laboratórios, bibliotecas, restaurantes universitários, casas do estudante e até banheiros. “Estamos levantando também a qualidade dos prédios recém construídos e os problemas ambientais decorrentes dessas obras. As denúncias são alarmantes”, antecipa. 

Em entrevista coletiva nesta quarta (23), o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, disse que todos os acordos firmados em 2011 com os professores universitários da rede federal foram cumpridos pelo governo. Segundo ele, a negociação referente à reestruturação da carreira é para 2013 e ainda está aberta. E acrescentou que há tempo até 31 agosto para enviar a proposta para a aprovação do orçamento no Congresso. “A greve faz parte da democracia, mas quando se faz um acordo e o governo cumpre, não consigo ver razões e necessidade de uma greve. Não há qualquer prejuízo material para os docentes”, esclareceu. 

O ministro acrescentou que uma paralisação, neste momento, não contribui para o esforço que o Brasil faz para desenvolver o ensino superior. “São 220 mil novas vagas, 14 universidades e 132 novos campi para dar suporte a esse 1 milhão de matrículas. Desde 2005, investimos R$ 8,4 bilhões na reestruturação da rede federal. Somente em 2012, o investimento é de R$ 1,4 bilhão. Temos 3.427 obras”, anunciou. 

Expectativas
No próximo dia 28, os professores realizam nova reunião com o governo para tentar solucionar o impasse. 

No dia 5/6, outras categorias de servidores públicos federais se juntam aos professores para realizar uma marcha à Brasília. Após o protesto, realizarão plenária unificada em que será discutida a possibilidade de paralisação de novas categorias, a partir de 11/6. 

Os servidores públicos defendem pautas específicas, mas também uma com eixos comuns, como a definição da data-base em 1° de maio; política salarial permanente com reposição inflacionária e reajuste linear em 22,08% (referente a soma da inflação de maio de 2010 e maio de 2012 e a variação do PIB neste mesmo período); e valorização do salário base e incorporação das gratificações.

Os servidores reivindicam, também, a retirada do Congresso dos projetos de lei e medidas provisórias que, conforme análise das categorias, ferem direitos conquistados pelos trabalhadores.



Fonte: www.cartamaior.com.br 




DIREITOS HUMANOS


(Brasil, te cuida!)


Anistia Internacional critica governos que
não respondem às demandas sociais


Marcelo Justo - De Londres
Londres - Em meio à crise econômica e política no mundo árabe e na União Europeia o informe anual da Anistia Internacional criticou duramente os governos por sua falta de resposta às demandas sociais. “De Nova York e Moscou a Londres e Atenas, de Dakar e Kampala a La Paz e Cuernavaca, de Phom Penh a Toquio, as pessoas saíram às ruas. Foi patente o contraste entre a valentia dos que exigem direitos e a incapacidade dos líderes para responder com medidas concretas”, assinalou o secretário geral da Anistia Internacional Salil Shetty”.

O informe global 2012 da organização de direitos humanos com sede em Londres envolve desde as rebeliões que sacudiram o mundo árabe a partir da imolação de um vendedor ambulante tunisiano no início do ano passado até as manifestações contra os programas de austeridade que sacodem o mundo desenvolvido. “A crise econômica expôs uma ruptura do pacto social entre o governo e a cidadania. No melhor dos casos, os governos se mostraram indiferentes. Muitas vezes só se preocuparam em proteger os poderosos”, destacou Shetty.

No mundo árabe esse pacto social era uma quimera que só começou a aparecer com o começo da rebelião. “A resposta dos governos à Primavera Árabe foi brutal e o Ocidente se preocupou mais em manter o status quo do que em promover a democracia, tudo agravado por uma retórica crescentemente xenófoba da União Europeia ante o considerável número de refugiados que começaram a chegar do norte da África. Hoje a Primavera Árabe está se convertendo em muitos aspectos em um inverno”, disse à Carta Maior Javier Zuñiga, assessor do secretário geral da Anistia Internacional.

O Egito é um caso paradigmático. Divulgado no mesmo dia das eleições presidenciais nesse país, o informe assinala que os ideais revolucionários estão em perigo. O Conselho Supremo das Forças Armadas, que assumiu o poder após a queda de Hosni Mubarak, com a promessa de dirigir a transição, processou ou levou aos tribunais mais de 12 mil civis, muito mais do que ocorreu durante os 30 anos do governo de Mubarak.

As mulheres foram especialmente afetadas. Em março de 2011, as forças de segurança obrigaram um grupo de detidas em uma manifestação a submeter-se a “provas de virgindade”. A Anistia Internacional destaca que um tribunal administrativo egípcio determinou que tais provas não tinham valor legal, mas quando a organização pediu aos partidos políticos que se comprometessem a proteger princípios básicos de direitos humanos, os dois partidos que obtiveram a maioria dos votos nas eleições parlamentares se negaram a fazê-lo. O Partido da Liberdade e da Justiça, da Irmandade Muçulmana, que conseguiu 235 cadeiras (47%), não respondeu à petição e o partido salafista Al Nur, que ficou em segundo lugar com 121 cadeiras (24%), negou-se a promover os direitos das mulheres ou a abolição da pena de morte.

Austeridade, multinacionais e direitos humanos
A Anistia Internacional é igualmente dura com os países desenvolvidos e sua resposta à crise econômica. Coerente com a extensão feita do conceito de direitos humanos para o campo econômico e social, em seu informe de 2009, a Anistia critica “as políticas internas que levaram à persistente crise econômica e a uma grande tolerância com a desigualdade”. Os protestos na Europa e na América do Norte mostraram que “as pessoas perderam a fé nos governos que desprezaram várias vezes a prestação de contas, a justiça e a promoção da igualdade”. Esta crescente deslegitimação teve um claro impacto político: desde o início da crise da dívida, 16 países dos 27 que formam a União Europeia mudaram de governo.

Dada a profundidade da crise, a legitimidade dos novos governos não dura muito e diminui ainda mais com a repressão policial dos protestos. “Na Grécia, a polícia utilizou reiteradamente força excessiva e fez amplo uso de produtos químicos contra pessoas que protestavam pacificamente. Na Espanha, houve um uso excessivo da força contra manifestações que pediam mudanças políticas, econômicas e de política social”, assinala o secretário geral da Anistia Internacional.

Este “singular fracasso da liderança nacional e internacional” é também evidente, segundo o informe, no crescente poder das multinacionais para evitar toda regulação e obter benefícios a custa das comunidades locais. “Desde a Shell, no delta do Níger, até a Vedanta Resources, em Orissa, Índia, os governos não garantem que, minimamente, as empresas respeitem os direitos humanos. Em muitos países, centenas de milhares de pessoas são alvo de remoção forçada quando chegam as empresas mineradoras e reclamam as terras onde há recursos naturais”, diz ainda o secretário geral Salil Shetty. 

A Anistia elogia o papel das novas tecnologias na democratização, mas critica muitas de suas empresas. “Ficou demonstrado que empresas que, aparentemente, se dedicam à expressão e ao intercâmbio de opiniões (e se beneficiam disso), como Facebook, Google, Microsoft, Twitter, Vodafone e Yahoo, estão colaborando na promoção de violações de direitos humanos”, acrescenta o secretário geral.

Sobre a América Latina, a Anistia Internacional destaca que a demanda por direitos humanos foi ouvida por toda a região durante 2011: nos tribunais nacionais, no sistema interamericano e nas ruas. “As petições de justiça realizadas por cidadãos individuais, defensores e defensoras dos direitos humanos, organizações da sociedade civil e povos indígenas seguiram ganhando força e, frequentemente, foram encaminhadas por setores que realizavam enfrentamento direito com poderosos interesses econômicos e políticos”, diz Shetty.

Os contextos políticos mais dramáticos dessas mobilizações se deram com os massacres promovidos pelo narcotráfico no México (mais de 12 mil mortes no ano passado) ou pelo conflito armado na Colômbia. No caso do Brasil, o elevado índice de criminalidade violenta e as práticas das forças de segurança foram os pontos mais ressaltados pela Anistia que destacou que o atentado contra a juíza Patricia Acioli “mostra o alcance e a confiança com que operam as milícias”. A isso, soma-se a expulsão, frequentemente violenta, de grupos indígenas de suas terras tanto no Brasil, como na Colômbia, Guatemala ou México. “Às vezes multinacionais, outras vezes grupos nacionais, iniciam explorações petroleiras, mineiras ou de recursos florestais sem respeitar os direitos indígenas e das comunidades que vivem no lugar”, disse Javier Zuñiga à Carta Maior. 

Uma nova oportunidade
Segundo a Anistia, os governos terão uma nova oportunidade, em julho de 2012, de reverter essa situação e mostrar uma nova liderança quando se reunirem para acordar o texto definitivo do tratado para o comércio de armas. “Um tratado sólido impediria a transferência internacional de todo tipo de armas convencionais, incluindo as armas pequenas, armas leves, munição e componentes-chave, para países onde exista um risco provável de que sejam utilizadas para cometer graves violações do direito internacional humanitário e dos direitos humanos. Para atingir esse objetivo, o tratado exigiria que os governos realizassem uma rigorosa avaliação do risco para os direitos humanos antes de conceder uma licença de exportação de armas”, assinala Sajil.

No informe, a Anistia é cética. Em 2010, pelo menos 70% do total das exportações importantes de armas corresponderam aos seguintes países: Estados Unidos (30%), Rússia (23%), França (8%), Reino Unido (4%) e China (3%). “ Em todo o mundo, o fluxo irresponsável de armas procedentes destes cinco países causou inúmeras mortes de civis e outras graves violações dos direitos humanos e das leis da guerra”, enfatizou o secretário geral da organização Salil Shetty.

Tradução: Katarina Peixoto


Fonte: www.cartamaior.com.br




FUTEBOL E POLÍTICA

         UMA CRÔNICA


A VITÓRIA DA GILETE


Antigamente eles tinham barba. 

Quando falo “antigamente”, não quero dizer pré-história. E quando falo “eles”, não quero dizer australopitecos.

Quero dizer umas décadas atrás e jogadores de futebol.

Você que é dos tempos d.c, depois do computador, pode não acreditar, mas havia vários jogadores que usavam barba. 

Quereis nomes? Dou-vos. 

Havia, por exemplo, Gerd Muller, até hoje o maior artilheiro da seleção alemã. Ele tinha apenas 1,74m, pernas grossas, barba (pensando bem, talvez realmente lembrasse um australopiteco) e jogava muito. Foi campeão mundial com a seleção em 1974 e pelo Bayern em 1976. 

Aliás, no mesmo Bayern de Munique havia outro lendário barbudo: Paul Breitner. Era um lateral-esquerdo excelente. Depois foi para o meio-campo, sendo a estrela do Real Madrid em meados dos anos 70. Abandonou o futebol aos 31 anos, dizendo que ainda gostava de futebol, mas que estava cansado das coisas que aconteciam fora do campo. Numa polêmica entrevista, Breitner declarou-se socialista e leitor de Mao Tse Tung. E eis aí uma das características dos jogadores barbudos: muitos eram politicamente engajados. 

Sócrates é o nosso maior exemplo. Politizado e opinativo, ele foi uma das grandes estrelas da campanha das Diretas Já. Mas houve outros, como Afonsinho, também médico e barbudo, um dos primeiros a lutar pelos direitos dos jogadores.

Maradona é outro que teve sua fase de pelos faciais. E não se pode dizer que seja um sujeito apático politicamente. É a favor de Cuba e tem posições controversas sobre todos os assuntos. 

A barba é uma espécie de marca registrada dos sujeitos que gostam da ideia de mudar o mundo. Ela pode ser vista nos rostos comunistas de Marx e Engels, nos revolucionários Fidel e Che, no anarquista Bakunin, em Jesus, Maomé e Freud.

É como se estes homens dissessem que não têm tempo para se preocupar com a aparência, pois têm que pensar, escrever, agir. 

Mas hoje as barbas sumiram dos campos. Na verdade, até os cabelos andam desaparecidos, já que muitos deixam suas cabeças totalmente peladas. Especialmente os zagueiros, como Domingos, que mais parece uma estátua da Ilha de Páscoa.

Na política não é muito diferente. Por lá as barbas também estão de molho. E, quando há alguma, é aparada com o mesmo esmero com que uma drag queen faz suas sobrancelhas.

Em vez de barbas desleixadas, a moda é usar os pelos como logotipo. É o caso de Valdívia, com seu bigode de ladrão mexicano, de Marcelinho Paraíba, com seus cabelos loiros, e principalmente de Neymar, com seu moicano mutante.

Trocaram-se as barbas emaranhadas pelo cabelo cuidadosamente elaborado, o “não ligo para minha aparência” por horas nas cadeiras dos salões de beleza. 

Hoje em dia, talvez o uruguaio Loco Abreu, do Botafogo, que se formou em jornalismo e tem opiniões firmes, seja o único barbudo legítimo do futebol brasileiro. É pouco.

As barbas fazem falta. No futebol e na política.

PS: Falei em favor da barba, mas esta semana deixei o clube dos barbudos. É que Catarina, minha sobrinha de três anos, negou-se a beijar meu espinhento rosto. Então não tive dúvidas: raspei tudo. O que não se faz pelo beijo de uma senhorita...

José Roberto Torero é formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles O Chalaça (Prêmio Jabuti e Livro do ano em 1995), Pequenos Amores (Prêmio Jabuti 2004) e, mais recentemente, O Evangelho de Barrabás. É colunista de futebol na Folha de S.Paulo desde 1998. Escreveu também para o Jornal da Tarde e para a revista Placar. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa Como fazer um filme de amor. É roteirista de cinema e tevê, onde por oito anos escreveu o Retrato Falado.


Fonte: www.cartamaior.com.br 



ECONOMIA ECONOMIA ECONOMIA





MUITO CUIDADO, PRESIDENTA


Ciro Gomes

 Brasil tem hoje a menor taxa de juros de sua história moderna. Mas é ainda a segunda maior taxa do mundo. Em verdade, na América, na Europa e no Japão a taxa de juros é negativa há já algum tempo. Quer dizer, taxas inferiores às respectivas taxas de inflação. Portanto, se há uma oportunidade para o Brasil trazer sua taxa de juros a um patamar civilizado e em linha com o padrão internacional é agora.
E o governo da presidenta Dilma está claramente buscando isto. Mas não creio que será assim tão fácil. Mais que isso, duvido que seja indolor. E sei por experiência própria. Foi eu falar claro sobre isto em minha campanha à presidência e o mundo do poder real em nosso País desabou em cima de mim. E Lula viu a necessidade e a oportunidade de escrever a famosa “carta aos brasileiros”. Acusei o golpe e a chamei de carta aos banqueiros. Foi bom pro Brasil, afinal.
Volto ao assunto só porque acho, comovidamente, que nuvens escuras se aproximam por sobre nosso governo. Parte é visível, parte clandestina.
Na parte visível, as penas alugadas já germinam grande pressão sobre o Banco Central. Tombini, que conduz com grande profissionalismo a diretoria do BC, já sentiu necessidade de declarar que as decisões são técnicas, “independentes”, querendo responder à provocação de que Dilma controla o Banco Central. E é uma graça pra quem tem minha vivência, ver os bancos privados correrem atrás da decisão dos bancos públicos de saírem do oligopólio e baixarem unilateralmente suas taxas de juros na ponta da freguesia, aonde o abuso e a usura são ainda mais escandalosos e sem precedente no mundo.
Esta pressão vai se agudizar muito proximamente. É a taxa Selic aloprada que causava a artificial taxa de câmbio, valorizando o real de maneira a que fica mais barato viajar pra Miami, saindo de São Paulo, do que viajar para Fortaleza, quando todo mundo sabe que Fortaleza é muito melhor do que Miami.
Baixam os juros, a taxa de câmbio desliza, desvalorizando o real. Isto restaura a competitividade sistêmica da economia produtiva brasileira, especialmente naqueles setores vinculados à exportação. Isto sinaliza, a futuro, uma inversão da atual tendência à desindustrialização do País. Persistindo no caminho, isto e só isto, pode acenar para uma parte importante da superação de nosso mais explosivo problema estratégico, o cavalar, aliás, recorde, déficit em nossas transações correntes com o estrangeiro.

Isto então é muito bom, certo? Não é bem assim na ferramentaria que pretende colocar nossa economia política em piloto automático, leia-se, fora do controle público democrático.
Modernamente – e isto os brilhantes técnicos que imaginaram o Plano Real aprenderam – os preços relativos de uma economia tendente à integração internacional são imediatamente sensíveis a um único preço relativo: o preço do dólar.
Funciona assim, perdoem-me os iniciados: o povo não compra dólar mas compra pão. Pão é trigo…e trigo é dólar pois não produzimos por aqui o suficiente; e temos que pagar ao estrangeiro em dólar. O povão não especula com câmbio, mas anda sofridamente de ônibus. O principal item de custo da passagem é combustível. Combustível é petróleo; petróleo é commoditie internacional e a nossa Petrobras ainda tem, em parte, saudade de FHC. Quer cotar o barril não pelo custo de produção, bem mais barato, mas pelo preço de Roterdã.
Nosso povo, tratado como bicho na rede pública de saúde, não pratica carry-trade (comprar moedas a juros internacionais negativos e aplicar em nossos juros de agiota com segurança “triple A”) mas precisa comprar remédios. Remédio é química fina, e o Brasil importa mais de 80% dos pozinhos e líquidos de nossos remédios, em dólar.
Assim, estamos próximos de chegar a uma armadilha, montada às pressas para esconjurar a crise brasileira de 1999, três providenciais meses depois da reeleição de Fernando Henrique Cardoso: baixam os juros, os preços, e alguns índices adredemente criados para dolarizar tarifas de setores privatizados e internacionalizados (IGPM, por exemplo), acusam quase instantaneamente o golpe. Tendem a subir. Subindo, como inevitável, o inflation target, entre nós batizados de meta de inflação, obriga o Banco Central a… subir os juros, restaurando-se a mamata rentista.
Este será o desafio que nosso governo terá que enfrentar proximamente.
E, temo, que o fará não só contra a falsa ciência defendida ardorosamente pelas penas e vozes alugadas em nossa grande mídia, mas também com a ferramentaria clandestina da desmoralização, do escândalo e da tentativa de corrosão da autoridade e da legitimidade da presidenta.
O mandato do Banco Central brasileiro tem que ser alterado para o padrão internacional e para a melhor doutrina: manter a menor inflação a pleno emprego! É esta contradição que dá aos bancos centrais do mundo civilizado a tarefa complexa de achar o equilíbrio entre desenvolvimento e inflação, não esta coisa tosca que ainda mantemos dez anos depois que o povo desautorizou esta modelagem.


Fonte: www.cartacapital.com.br 




O LIBERALISMO DE JABUTICABA 


Luis Nassif 




Há anos, por seu alcance, o sistema Globo tornou-se a principal influência na opinião pública, inclusive em questões econômicas. TV Globo, Globonews, CBN, jornal O Globo, portal G1, constituem-se na mais formidável caixa de irradiação de opiniões no país.
Por isso mesmo, é um bom laboratório para se analisar como se formam consensos, especialmente em temas ligados ao mercado e à economia.
Em geral, o discurso assenta-se em bordões de fácil assimilação  que, pela repetição, vulgarizam-se, podendo ser repetidos desde executivos com pouca formação econômica até papos de boteco. Paradoxalmente, essa banalização de conceitos responde pela extrema superficialidade da análise e, ao mesmo tempo, por sua enorme eficácia.
Até agosto do ano passado, esse discurso mercadista era facilitado pelo sofisma da prioridade única. Todas as análises tinham como mote a inflação. Justificava-se qualquer nível de taxa de juros porque era anti-inflação. Criticava-se qualquer redução da Selic, por mínima que fosse, por acirrar a inflação.
Não havia a menor necessidade de pensar. Baixou a taxa, imediatamente rebimbava o coro anti-inflação. Aumentou em percentuais ínfimos gastos sociais, acordava o coro contra a gastança.
Quando, em fins de agosto passado, o Banco Central reduziu a Selic e a inflação continuou caindo, o discurso desmoronou. Seria preciso refazer o discurso, recriar bordões.  E aí o sistema deu tilt.
Por exemplo, a boa análise econômica sabe que não é possível desenvolvimento sustentável sem dois eixos bem azeitados: consumo e investimento.
Primeiro, trata-se de montar o mercado – o interno, através da ampliação da base de consumo, e o externo, através de instrumentos de apoio à exportação.
Dado o mercado, garantir o investimento, através de ferramentas fiscais, financeiras e cambiais.
Cria-se o mercado interno. Estimula-se o investimento na produção. Amplia-se a capacidade produtiva do país, geram-se empregos mais qualificados e, por conseguinte, mais consumidores, completando o ciclo virtuoso do crescimento.
Sem o investimento, esse crescimento será apropriado pelo produto importado até o limite do estrangulamento externo. Não se completaria o ciclo. Mas não se investe sem dispor de um mercado de consumo em expansão.
No entanto, anos de defesa de juros altos criaram um pensamento anti-crescimento irracional – que é repetido de cabo a cabo por todo aparato midiático das Organizações Globo.
Ontem, as medidas de redução do custo do financiamento foram taxadas de temerárias por induzir o consumidor ao “endividamento irresponsável”.
Ora, o discurso econômico das Organizações é fundamentalmente neoliberal.
É princípio elementar do liberalismo o pleno direito de opção ao consumidor, ao investidor, à empresa. Ao Estado compete apenas criar condições adequadas, sem pretender tutelar os agentes econômicos.
Na hora de criar o bordão, esquece-se o livre arbítrio do consumidor, as ferramentas de análise de crédito dos bancos, o monitoramento da inadimplência pelo Banco Central, o fato do financiamento de automóvel ser garantido pelo próprio veículo, aspectos técnicos e conceituais.
Em Wall Street – onde esse pessoal se espelha -, seria motivo de chacota.


Fonte: www.cartacapital.com.br