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14 janeiro 2015

UMA PAUTA TENDENCIOSA

Uma cobertura doentia


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



O escandaloso caso de médicos que recebiam propina para recomendar próteses caríssimas e nem sempre necessárias, revelado em reportagens do programa Fantástico, da Rede Globo, ganha nova dimensão com um ou outro episódio que denuncia cirurgiões que realizam cirurgias cardíacas e vasculares utilizando materiais com validade vencida. No entanto, o leitor abre o jornal nos dias seguintes, procura e não acha qualquer referência a esses assuntos.
Curioso, o cidadão ou cidadã mais exigente vai aos arquivos e compara o noticiário sobre saúde desses dias com os acontecimentos de um ano atrás, quando a imprensa promoveu uma enxurrada de notícias negativas sobre o Programa Mais Médicos. Lançado em julho de 2013, por Medida Provisória, foi no início de 2014 que o plano sofreu o grande bombardeio por parte das entidades profissionais da medicina, inicialmente com o argumento de que os médicos formados no exterior não teriam qualificação adequada; depois, as críticas passaram a visar o valor pago aos profissionais trazidos de Cuba.
Em doze meses, o programa superou a meta estabelecida nos estudos que levaram à sua criação, reduzindo em mais de 20% o encaminhamento de pacientes a hospitais, com o atendimento básico ampliado em 35% nos postos de saúde. O resultado vem sendo omitido pela imprensa, num momento em que a medicina corporativa tem seus vícios escancarados no noticiário sobre pagamentos de propina, mau atendimento e ações de quadrilhas que visam os segurados dos planos privados e o Sistema Único de Saúde.
Segundo as reportagens da televisão, a máfia da medicina promove todo tipo de falcatrua para aumentar o rendimento de suas atividades, desde o uso de advogados para forçar o serviço público a pagar por tratamentos e materiais de necessidade duvidosa, até a falsificação de prontuários para aumentar o valor cobrado dos grupos privados de seguridade.
Na comparação entre os dois setores, o lado representado pelo Programa Mais Médicos tem um balanço positivo a oferecer, e a imprensa o ignora; o lado representado pela medicina privatizada mergulha em escândalos, e os jornais apenas fazem uma referência aqui e ali.
Uma pauta tendenciosa
Na edição de terça-feira (13/1), o Globo toca num ponto curioso, ao tentar demonstrar que o Programa Mais Médicos falhou no propósito de descentralizar a oferta de profissionais por meio da distribuição de vagas do Sisu (Sistema de Seleção Unificada). A reportagem afirma que as universidades federais oferecem mais cursos de Medicina nas grandes cidades do Sul-Sudeste e do litoral, enquanto o interior do Brasil é atendido principalmente por faculdades particulares. No entanto, o mapa publicado pelo jornal mostra que houve um grande aumento de vagas no Nordeste, que oferece quase 80% a mais de postos do que as escolas federais do Sudeste.
O assunto apresenta muitas variáveis, como, por exemplo, as três maiores universidades públicas de São Paulo – USP, Unicamp e Unesp – terem vestibulares próprios e não participarem do Sisu, o que altera o quadro geral e exige uma abordagem diferenciada. Além disso, a reportagem deveria considerar outras questões importantes, como o fato de que essas instituições, principalmente a Faculdade de Medicina da USP, não terem como prioridade formar médicos clínicos, mas pesquisadores.
Há casos de médicos com doutorado que são incapazes de fazer um diagnóstico corriqueiro nos postos de saúde. Essa distorção, tema de polêmica nos conselhos universitários, tende a ser corrigida no longo prazo pela determinação de que, desde o dia 1º deste mês de janeiro, os alunos que ingressam na graduação deverão atuar por dois anos em unidades básicas de saúde e nos postos de emergência e urgência do SUS. O propósito dessa medida é estimular a formação de médicos com mais sensibilidade para os aspectos sociais de sua profissão.
Somada à ampliação de vagas – mais 11,5 mil alunos de graduação até 2017 e 20 mil novos especialistas formados até 2020 – esse conjunto de medidas faz parte da estratégia do programa de colocar a medicina a serviço da sociedade.
Por que a imprensa omite esses fatos e não se empenha em investigar o escândalo das propinas? Porque a pauta é definida pelo interesse de desmoralizar o sistema público e justificar a predominância da medicina privada.
 
 
 

30 dezembro 2014

CORRUPÇÃO RAMIFICADA

Meu médico não é assim


Roxana Tabakman, no Observatório da Imprensa



É fácil reconhecer a corrupção na cara suja de um político, no sorriso oblíquo de um cartola, no olhar distraído de um empresário rico. Décadas de jornalismo investigativo prepararam nossa percepção para saber que com frequência os ideais não são eternos e os sistemas de controle são insuficientes. Servidor público corrupto não surpreende – azar dos honestos que são muitos mais. Nenhuma área está livre de que seus representantes cometam abusos, mas a julgar pelo que divulga a mídia, a transgressão moral na área de saúde parece ser “apenas” um assunto de superfaturamento ou desvio de dinheiro nos hospitais públicos, fatos que aparecem dia sim dia não nas manchetes brasileiras. Um crime organizado que envolve a poucos, pessoas que a gente nunca viu nem verá de perto.
Na última semana do ano, porém, a imprensa começou a mostrar que os médicos corruptos não são tão poucos. A jornalista Cecilia Ritto publicou na Veja a matéria “Três stents e uma viagem“ sobre práticas mafiosas da classe médica. Basicamente, ela descreve uma prática profissional na qual as decisões não são tomadas apenas com critério científico. Se o texto da Veja parece focado nas empresas e hospitais do Rio de Janeiro, que estão sendo devidamente investigados pela Polícia Federal, fica evidente na leitura das cartas dos leitores que o caso não e único: é apenas exemplar. Sem dúvida não são os 400.000 médicos do Brasil os que ferem a ética médica; mas, seja qual for o número, são suficientes como para manter vivo o sistema. E teriam que sê-lo também para atrair mais atenção da mídia.
O poder da informação
Todos somos pacientes, porém poucos podemos escolher os médicos. Quando é o caso, e critério de seleção é a confiança que o olhar dessa pessoa de jaleco branco nos inspira. A sua capacidade não vem definida em cavalos de força como nos caso dos motores, nem sua qualidade recebe estrelas como os hotéis. As avaliações ao estilo Trip Advisor, que alguns propõem, também não resolvem o problema essencial: não temos como saber como o homem ou a mulher que cuida de nossa saúde responde às pressões indevidas. Mas, ainda assim, a mídia pode ajudar ao consumidor com mais informação.
Os medicamentos são desde sempre uma potencial fonte de riqueza para os profissionais da saúde que os prescrevem, e a escolha de um remédio ou outro atinge diretamente o bolso do consumidor – que no Brasil paga cerca de 70% dos medicamentos que se usam. Nunca é pouco dinheiro, e depois de determinada idade os aniversários se percebem basicamente pela necessidade de comprar mais remédios. Os avanços da terapêutica permitiram tornar crônicos males que antes eram mortais e a enfermidade deixou de ser algo que acontece para passar a ser algo que sempre está.
Em um país que em oito anos passou de décimo para o sexto lugar no mercado mundial de medicamentos (e há previsões que o situam no quarto, em 2016) é e imprescindível mostrar ao público como funciona o sistema comercial farmacêutico. Informar que o controle sobre a prescrição, que quantifica a fidelização dos médicos a um laboratório determinado, se faz habitualmente na farmácia (quando o vendedor registra o CRM da receita, por exemplo, ou outras maneiras mais sofisticadas). É preciso mostrar também que fórmulas de controle mais complexas estão em andamento e podem, de acordo com o uso, melhorar ou piorar a situação.
Em Brasília está se discutindo um projeto sobre as práticas de prescrição (ver aqui). A fidelização dos médicos a uma empresa determinada pode logo ter um aliado no receituário eletrônico.
No sábado (27/12), o jornal argentino La Nación publicou uma corajosa reportagem – “El negocio detrás de las recetas“ (O negócio por trás das receitas) – na qual os jornalistas Pablo Tonino e Fabiola Czubaj mostram o lado escuro do receituário. O texto indaga sobre as compensações que recebem alguns médicos por escrever um nome e não um outro. Depois de falar com 22 fontes, muitas delas off the records, os jornalistas concluíram que as especialidades mais vulneráveis são dermatologia, traumatologia, reumatologia, oncologia e urologia. Os “canetas”, como os corruptores chamam aos corruptos, recebem às vezes compensações em viagens, outras em dinheiro vivo.
Corrupção ramificada
As mentes mais brilhantes e prestigiosas são as mais influentes, e portanto podem ser as mais importantes para manter esse sistema. Na hora da apuração, fica difícil para um jornalista pensar em brigar com as suas melhores fontes – parece um suicídio profissional. Mas pode ser desnecessário, já que a procura dos culpados não deve obedecer a impulsos voyeurísticos de filmar pessoas sendo presas, mas levar a uma subsequente melhora do sistema.
Para a imprensa, essas investigações são tão difíceis de fazer como de publicar. Produzir informações sobre a prática médica exige do repórter muito mais do que saber fazer as perguntas certas. O positivo é que os jornalistas estão cada vez mais conectados, a ideia da transparência não para de crescer; e as leis, as recomendações éticas e os códigos de conduta da prática médica são mais o menos os mesmos em muitos países. Como os delitos também o são, talvez uma investigação jornalística transnacional sobre as práticas clássicas de fidelização dos médicos, que logo vai ter um aliado no receituário eletrônico, não seria uma ideia ruim.
O meu 2014 termina com a esperança de que o 2015 seja um ano em que os jornalistas de saúde vamos contar a verdade, sem fingir que foi isso o que sempre fizemos. Desejo para 2015 que possamos investigar o que todos sabemos, sem medo de brigar com as nossas melhores fontes, nem receber pressões dos editores. Que ninguém tenha medo de dizer que no ambiente médico a corrupção é ramificada e poderosa: começa nos consultórios do bairro e acaba infectando até o centro cirúrgico mais especializado.
2015 pode ser um bom ano para iniciar as boas ações.
***
Roxana Tabakman é bióloga e jornalista, autora de A saúde na mídia – Medicina para jornalistas, jornalismo para médicos (Editora Summus)
 
 
 

12 dezembro 2013

LEGALIZAÇÃO DA MACONHA

A fama do Uruguai corre novamente
o mundo


Flávio Aguiar(*)


O Uruguai é um país de muitas famas
O Uruguai é um país de muitas famas
Do Ártico à Antártida, da Califórnia à costa da China, dando a volta ao mundo por todos os seus lados, latitudes e longitudes,  a fama do Uruguai cresce.
Agora, por conta da mais completa e total legalização do ciclo da popular maconha, a científica cannabis. Não só por causa do feito épico de 16 de julho de 1950… Mas mudemos de assunto, ou voltemos ao assunto principal.
O Uruguai é um país de muitas famas. Algumas geográficas: num continente de gigantes, é um país diminuto, sem montanhas, cuja costa é banhada por um único rio (o da Prata), que seus habitantes chamam de “mar”,  e alguns quilômetros de oceano.
Outras negativas: o Uruguai teve fama de centro de lavagem de dinheiro (Mas que país não conta com suas lavanderias? E alguns outros países ou territórios parecem viver quase exclusivamente disto…). E não apenas recentemente. Isto vem dos tempos em que a burguesia brasileira, por exemplo, ao lado de outras, premida pela proibição do jogo, deixava os cassinos em Poços de Caldas, no Quitandinha, e alhures, ia gastar nas fichas das roletas et alii em Punta del Leste ou Carrasco.
Também houve fama sanguinária, das disputas entre Blancos e Colorados resolvidas algumas vezes no fio da faca no pescoço… Mas ora, lembremos dos também sanguinários conflitos entre Maragatos e Pica-Paus no Rio Grande do Sul, da triste série de degolas em Canudos…
Extermínio de índios, como na guerra contra os charruas, alguns dos quais foram se refugiar no Brasil (!), chegando a lutar na Revolução Farroupliha? Ora, quem são seus vizinhos para falar disto? Brasil, Argentina, Chile, até o Paraguai e a Bolívia… E quanto à Europa, nem é bom falar. Muito menos os Estados Unidos. E em escala mundial.
Ditadura sanguinária? Não só os países ao redor as conheceram também, como, convenhamos, as monarquias, repúblicas e ditaduras europeias e a democracia norte-americana não foram menos sanguinárias. E na África e no Oriente? Ásia?
Bom, mas há Uruguai das famas boas. Com latifúndio e tudo, possui historicamente um dos melhores rebanhos do mundo. Coisa de dar inveja a argentinos e brasileiros. Pouca gente conhece, mas o Uruguai é um produtor de grandes aguardentes. E vinhos Tannat, para dizer o mínimo.
País avançadíssimo, na atrasada fama sul-americana, no que toca aos direitos da cidadania, à educação pública, à saúde, e também no que toca à laicidade do Estados. Quem viveu, lembra dos tempos em que, por exemplo, os casais brasileiros que queriam legalizar sua situação, depois de separações, tinham dois caminhos tradicionais: casar na Embaixada do México, no Rio de Janeiro, ou… no Uruguai. Era até chique! Ou “chick”, como se escrevia na época.
Durante a cerimônia fúnebre em honra a Nelson Mandela, ouvi  os discursos exaltando sua capacidade de emergir de 27 anos de cárcere sem ressentimento.
Um monumento à dignidade humana. Mas que dizer do atual presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, emergindo de anos e anos numa solitária de três metros de diâmetro e não sei  quantos de profundidade, sem uma frase de vingança, só de reconciliação e justiça? Tivemos a honra, nós da equipe Carta Maior, de fazer uma inesquecível entrevista com ele e sua esposa na sua chácara nas lindes de Montevidéu, quando ele foi eleito presidente do Senado, na posse de Tabaré Vásquez como presidente. Ele então nos confidenciou – naquela época em primeira mão – que aprendera a conversar com os insetos, com as formigas que, segundo ele, entre outras coisas, gritam. Só uma sensibilidade infinitamente superior à daquela que é dada ao comum dos mortais alcança isto.
Agora novamente o Uruguai espanta o mundo. É o primeiro país a legalizar completamente o ciclo da popular maconha, a cientíifca cannabis. Tudo: plantação, distribuição, venda e consumo. Mais: oh!, heresia das heresias, blasfêmia das blasfêmias! Na contramão das superstições da ortodoxia neoliberal, tudo fica sob o estrito controle, senão manejo,  do Estado. Este, talvez, seja o maior desafio do repto que o Uruguai tem pela frente e coloca diante do mundo epustuflado pela ousadia. Garantir que o Estados não seja “fonte” de corrupção sistêmica, mas sim um saneador de um campo minado com o da circulação de drogas.
As estimativas falam que circulam no diminuto Uruguai algo entre 30 e 40 milhões de dólares anualmente, nas veias do narcotráfico ligadas à produção ou importação (dos países vizinhos) de maconha. Dinheiro sujo a ser lavado, livre de impostos, controle, fonte de outras contravenções e crimes. Convenhamos: mutatis mutandis, o narcotráfico é a quintessência da prática neoliberal: livre do Estado, regras definidas inteiramente pela liberdade de mercado, sem impostos – bom talvez se possa compreender as inevitáveis propinas a autoridades policiais e outras como uma forma de impostos…
É contra tudo isto, além dos preconceitos generalizados em torno da criminalização e culpabilização dos usuários, que o Uruguai, Pepe Mujica e a Frente Ampla se levantam.
Tomara que dê certo.
Cumprimentos ao épico Uruguai.
Mas sem outro 16 de julho, por favor…
 
 
Flávio Aguiar é correspondente internacional da agência brasileira de notícias Carta Maior, em Berlim.
 
 

10 outubro 2013

toma-lá-dá-cá

Quando a barganha funciona



Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa




Em meio à polêmica sobre a aliança entre a ex-ministra e ex-senadora Marina Silva e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, quase passa sem a devida atenção a notícia de que o Conselho Federal de Medicina recuou de sua posição contrária ao Programa Mais Médicos.
Um acordo simples faz com que a entidade aceite transferir para o governo a atribuição de conceder registros aos profissionais formados no exterior, para atuar no programa de emergência. Em troca, a base aliada no Congresso vai discutir a criação de uma carreira para os médicos no funcionalismo federal.
Termina assim, na base do toma-lá-dá-cá, um dos casos mais desgastantes de confronto entre uma entidade profissional e o poder público. Desde a criação do programa, as representações dos profissionais de saúde, lideradas pelo Conselho Federal de Medicina, vinham protagonizando ações de boicote, cuja principal consequência tem sido o atraso no atendimento de populações carentes.
Os jornais de quarta-feira (9/10), com exceção do Estado de S.Paulo, descrevem o processo de negociação – que chegou a ser tumultuado por manobra da bancada ruralista mas foi confirmado pela votação, que ocorreu na madrugada.
Com seu processo de edição encurtado pelas mudanças feitas em abril, o Estado informou seus leitores apenas que a Medida Provisória que cria o Programa Mais Médicos havia “começado a ser discutida no plenário da Câmara”. O Globo e a Folha de S.Paulo foram além, acompanhando a sessão até o início da madrugada, e puderam oferecer aos seus leitores uma versão mais atualizada, que muda completamente a interpretação dos fatos.
No fim das contas, passados três meses de confronto, período em que muitos médicos saíram às ruas, chegando a agredir colegas estrangeiros, e as associações médicas tentaram obstruir na Justiça a aplicação do programa, fica demonstrado que a motivação das entidades profissionais da saúde era o velho e bom interesse corporativo.
Nesse processo desgastante, consultas à opinião pública mostraram que a maioria da população apoiava o plano de contratar no exterior os médicos que faltam às periferias das grandes cidades e às comunidades mais distantes das metrópoles.
A prática do discurso
O episódio mostra como, em determinadas circunstâncias, até mesmo o jogo de barganhas que caracteriza o regime democrático pode ser produtivo, no interesse da sociedade, mas também confirma a percepção de muitos analistas de que algumas forças políticas legalmente eleitas funcionam exclusivamente nos seus interesses específicos.
Um exemplo é a obstrução dos trabalhos feita terça-feira (8) na Câmara dos Deputados pela bancada ruralista, que tentou impedir o acordo na área da saúde. Os representantes do agronegócio queriam forçar a instalação de uma comissão especial destinada a apressar a tramitação de uma Proposta de Emenda Constitucional que dá ao Congresso poderes para decidir sobre a demarcação de terras indígenas. Não faltou em suas intervenções nem mesmo a referência ao conceito da “função social” da propriedade agrícola.
Aqui é que as duas vertentes do noticiário encontram um ponto comum: a ser levada a sério a aliança entre o PSB e o grupo político liderado pela ex-ministra Marina Silva, essa será uma questão importante a ser observada nos debates eleitorais de 2014.
Uma das origens da falta de representatividade do Parlamento reside no fato de que as alianças compostas apenas para a disputa das urnas se desfazem imediatamente com a posse dos eleitos, e todas as decisões que chegam pelo Congresso precisam passar pelos diversos filtros corporativistas, onde o interesse público se corrompe na massa das ambições particulares.
Se quiserem ser realmente considerados como agentes de mudança, os “sonháticos”, utopistas e quaisquer outros ativistas de uma ação progressista precisam identificar claramente onde estão os pontos contaminados do sistema democrático, e fazer de sua extinção um objetivo de governo.
Assim como a questão das desigualdades sociais foi enfrentada com políticas públicas assertivas, o problema do aperfeiçoamento do sistema republicano exige propostas objetivas.
O discurso quase esotérico, com frases de efeito do tipo “um ato de legítima defesa da esperança”, pertence ao campo da religião. Em política, é preciso definir claramente o que fazer com aliados que, depois de eleitos, vão atuar exatamente como fazem os “socialistas” da bancada ruralista.
 
 

01 outubro 2013

SAÚDE: DIREITO DE TODOS

Patifaria moral

A Constituição diz que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Belas palavras sabotadas cotidianamente

 
Paulo Moreira Leite, em seu blogue
 

Nunca pensei que se chegaria a fase atual da evolução da humanidade. Para quem gosta de imagens bíblicas, assistimos a um desfile dos Cavaleiros do Apocalipse.
Entre a saúde e a doença, prefere-se a morte em tom de celebração, indiferença e fatalidade. Seria possível combater doenças e epidemias, iniciativas que, em última análise, permitem salvar vidas. Também seria possível fazer tratamentos preventivos. Mas evita-se aquilo que a medicina permite e o progresso tecnológico tornou possível porque não se quer atrapalhar os ganhos da medicina privada em todas as suas formas.
Brasil e Estados Unidos assistem, hoje, a dois casos exemplares dessa situação especialmente mórbida.
No Brasil, o programa Mais Médicos encontra apoio decidido da população e oposição absoluta dos empresários da medicina e das entidades da categoria.
O governo consegue trazer médicos estrangeiros, dispostos a assumir vagas que os doutores brasileiros não querem ocupar, mas enfrentam a burocracia, a sabotagem e o espírito corporativo para tentar impedir que possam atuar em regiões carentes. Com apoio resoluto de uma oposição que torce para que toda iniciativa que possa auxiliar a reeleição de Dilma Rousseff venha dar errado, custe o que custar, o que se quer, nos próximos meses, é criar um ambiente de hostilidade e agressão para convencer possíveis candidatos a desistir de mudar-se para o Brasil. Num prazo mais longo, o plano é conseguir, na Justiça, sentenças que mandem os estrangeiros de volta, num ambiente de tumulto e descrédito.
Nos Estados Unidos, país que abriga a maior economia do mundo, chegou-se a um impasse inacreditável. Para manter uma política de austeridade econômica, a oposição republicana faz uma chantagem. Só autoriza a contratação de novos financiamentos, indispensáveis para o funcionamento cotidiano da máquina do Estado, se o governo de Barack Obama suspender a reforma de saúde por um ano. Com um descaramento que talvez se possa atribuir a algum aspecto da franqueza anglo-saxã, também aqui se tenta obrigar a população mais pobre a arcar com o peso principal das guerras eleitorais.
Não somos ingênuos, mas é difícil habituar-se à noção de que o lucro privado deve ter prioridade sobre todas as coisas. Vidas humanas não podem ser oferecidas nem negociadas como se fossem carcaças num açougue.
Desde quando o homem saiu das cavernas, nós sabemos que o interesse material alimenta elementos vitais de toda sociedade e até pode contribuir para o progresso da maioria das pessoas. Não é preciso teorizar a respeito. Mas estamos falando de outra coisa.
Homens e mulheres que têm direito, como eu e você, de usufruir, ao menos parcialmente, dos avanços da medicina são excluídos de ambulatórios, hospitais e consultórios por uma razão muito simples. São cidadãos incapazes de gerar lucro para quem administra a saúde humana. A doença deles não é uma mercadoria compensadora nem pode ser lucrativa.
Talvez porque não tenham recursos para pagar um plano médico. Ou porque não tenham meios para deduzir, mais tarde, suas despesas da conta do imposto de renda a pagar.
Diferentes em vários aspectos, os espetáculos nos EUA e no Brasil são idênticos num ponto essencial. No Brasil e nos Estados Unidos, querem impedir que os mais pobres possam ir ao médico. Veja bem. Não é que não existam recursos para levar essas pessoas a uma consulta. Por caminhos diversos, os governos dos dois países têm meios de fornecer, de forma direta ou indireta, os recursos necessários.
O que se quer é impedir de todas as maneiras que os pobres façam uma chapa de pulmão para saber o que acontece quando estão tossindo demais, ou possam se consultar com um especialista quando enfrentam dores inesperadas e permanentes na região do abdômen, ou que tenham direito a prevenir-se de um enfarto caso sejam portadores de doenças cardiovasculares.
Essa é a patifaria moral que se exibe cotidianamente diante de nossos olhos.
Uma sociedade que sacrifica vidas humanas sem necessidade, sem o mais leve sentimento de solidariedade e sequer compaixão, pode parecer sofisticada nos bens de consumo que adquire, nos livros e espetáculos que frequenta, quem sabe nas roupas que veste e nos automóveis que dirige.
Mas é mórbida em seus valores fundamentais. Assume e reproduz noções que implicam na ampliação da miséria e da desigualdade entre os homens e mulheres. Mantém-se indiferente diante da desgraça e da tragédia dos mais fracos. Tolera assassinatos sociais – é disso que se trata, no fim das contas – como se fossem acidentes naturais.
Não é, contudo, uma articulação espontânea. Por vias diversas, tivemos iniciativas que foram capazes de atingir a soberania popular nos negócios do Estado.
O limite histórico de gastos imposto ao Estado americano é uma vitória que procura transformar a austeridade, tão cara ao setor financeiro, no principio básico das políticas públicas. Mesmo que você tenha um presidente eleito, com mandato para zelar pelas necessidades da população, ele não dispõe de autonomia para definir gastos e financiamentos, questões elementares na definição de qualquer governo. Estará sempre sujeito a limites e chantagens da oposição.
No Brasil, temos uma constituição que diz que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. São belas palavras, que têm sido sabotadas cotidianamente pelo esforço cotidiano de cortar recursos para a saúde pública e privilegiar empresas privadas de saúde.


 


05 setembro 2013

MÉDICOS CUBANOS

Jornalismo, desinformação e
preconceito


Muniz Sodré (*), no Observatório da Imprensa


Dois anos atrás, minha apertada poltrona num vôo internacional era vizinha à de um cidadão, com quem conversei um pouco ao longo da viagem. Era um próspero fazendeiro do interior paulista, que retornava de uma estada em Cuba, onde tinha ido tratar-se de uma doença grave. Aberto a revelações, ele me disse seguir outros conhecidos em sua região, também clientes do sistema de saúde cubano, que era eficiente e baratíssimo. A informação sobre essa demanda brasileira era uma surpresa e eu, que jamais estive em Cuba, quis saber mais sobre os sentimentos dele com relação àquele país. Tive, então, a segunda surpresa: o rosado beneficiário desatou em ofensas ao país e ao povo, para ele coniventes com a falta de liberdades civis. Nenhuma palavra de gratidão para os médicos que tentavam lhe salvar a vida.
O episódio vem-me agora à cabeça em face dos eventos e do noticiário recorrente na mídia brasileira sobre a imigração de médicos cubanos. Não disponho de elementos para avaliar com precisão o modo como foi implantado o programa governamental “Mais Médicos” e também partilho os receios daqueles que apontam para a provável impotência da ação médica em regiões sem qualquer infraestrutura hospitalar.
A questão aqui discutida, entretanto, é a presença dos profissionais de Cuba, que gerou o vexaminoso episódio do preconceito em Fortaleza. Na contramão das informações correntes, vale registrar alguns dos dados revelados pelo jornalista Hélio Doyle, membro do núcleo de estudos cubanos da Universidade de Brasília. O que não se conta (ou se conta em letras miúdas...) é que médicos cubanos já trabalharam no Brasil a serviço de comunidades pobres e distantes nos estados de Tocantins, Roraima e Amapá, sem que tivesse havido qualquer reclamação quanto à qualidade do atendimento. Deixaram de trabalhar por pressão do corporativismo médico.
Diversidade propalada
A omissão informativa maior, entretanto, diz respeito ao fato de que “há mais de 30 mil médicos cubanos trabalhando em 69 países da América Latina, da África, da Ásia e da Oceania, lidando com pessoas que falam inglês, francês, português e dialetos locais. Só no Haiti, onde a população fala francês e o dialeto creole, há 1.200 médicos cubanos – que sustentam o sistema de saúde daquele país e, como profissionais com alto nível de educação formal, aprendem rapidamente línguas estrangeiras”. Outros dados, de outras fontes, chegam mesmo a ampliar esses números para 113 mil médicos.
É oportuno buscar diretamente fontes dessa ordem para dosar a informação corrente na mídia hegemônica. Por isso não cabe insistir na repetição dos dados trazidos à luz por Hélio Doyle. Mas uma citação da revista norte-americana New England Journal of Medicine nos parece definitiva:
“O sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.
Reitero não conhecer Cuba e, em consequência, depender por inteiro de relatos informais e da formalidade midiática para tentar uma abordagem compreensiva da realidade atual daquele país. Não há, assim, como evitar a pergunta: por que informações como essas acima trazidas não aparecem em nossa imprensa, ainda que fosse para desmenti-las? Onde comparece no jornalismo profissional a propalada “diversidade de ângulos”, que supostamente representaria a superioridade do profissionalismo corporativo sobre as formas ditas “pré-jornalísticas”, recorrentes no fluxo caótico das redes eletrônicas?
Pedido de desculpas
Na cobertura jornalística do encerramento do campeonato mundial de judô no Rio (O Globo, 1/9/2013), a notícia de que a alemã Maria Suellen, primeiro do ranking mundial, foi derrotada pela cubana Idalys Ortiz aparecia espremida no meio do texto. Coisinhas assim são recorrentes na informação pública sobre Cuba.
Os efeitos da desinformação e da manipulação de dados estão visíveis na enxurrada de preconceitos e agressões veiculados pela mídia nacional a propósito da chegada de médicos cubanos. Atitudes e comportamentos vergonhosos pontuam desde a jornalista que enxergou aparências de “empregadas domésticas” na fenotipia dos imigrantes até os médicos que, em Fortaleza, vaiaram os colegas.
Na televisão, o político Ciro Gomes pediu desculpas em nome do Ceará. Sua fala passava sinceridade. Talvez alguém precise fazer o mesmo em nome do país como um todo.
***
Muniz Sodré é jornalista e escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

PROGRAMA 'MAIS MÉDICOS'

O diagnóstico apressado da imprensa


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa


O programa Mais Médicos não sai do noticiário. Não por seus méritos ou pelo potencial de reduzir as diferenças na oferta de serviços de saúde no Brasil, mas pela exposição exagerada dos problemas na sua implantação.
Como toda ação de política pública, a iniciativa deveria ser avaliada pelo que faz e pelo que deixa de fazer. Para isso, o pressuposto da imprensa precisa ser baseado nos efeitos obtidos em prazo razoável, com os resultados contextualizados em relação às carências que o programa se propõe a atacar. No entanto, toda ênfase tem sido dada a ausências e atrasos na posse dos profissionais inscritos.
O que se vê diariamente, desde o anúncio do projeto, é um grande desequilíbrio nas escolhas dos editores, com a predominância de dados e informações negativas sobre o preenchimento das vagas abertas. Na quarta-feira (4/9), ao se deparar com o principal título da Folha de S. Paulo sobre o assunto – “Médicos questionam infraestrutura e exigências e abandonam programa” –, o leitor é levado a acreditar que ocorre uma debandada de profissionais. Mas a Folha não diz quantos médicos desistiram nos primeiros dias, qual a porcentagem deles em relação ao total de profissionais que aderiram, e outros detalhes que poderiam justificar o título.
Outra reportagem no mesmo jornal informa que os lugares para onde deverão ser enviados os médicos cubanos formam o pior cenário na geografia desigual do desenvolvimento humano no Brasil. Não seria por outra razão que o programa destinaria os profissionais cubanos para esses municípios, que, segundo aFolha, apresentam indicadores socioeconômicos inferiores aos da média nacional de treze anos atrás: ao contrário da maioria dos médicos brasileiros, os cubanos estão habituados a atuar em condições precárias, em países assolados por desastres ambientais e crises humanitárias.
Os médicos brasileiros, na maioria oriundos das camadas de renda mais alta da população, não se destacam pelo espírito de sacrifício. Na organização Médicos sem Fronteiras, por exemplo, o total de profissionais do Brasil em 2011 não passava de uma centena.
Os médicos cubanos, que são formados para a medicina preventiva e o atendimento básico, e educados para atuar em situações de extremo desconforto, formam o maior contingente do mundo de profissionais de saúde em ações humanitárias: são dezenas de milhares trabalhando nas mais severas e inseguras circunstâncias imagináveis.
Suspeita de boicote
Por essa razão, as escolhas dos editores dos principais jornais, ao destacar as ausências, desistências e reclamações dos primeiros profissionais brasileiros a ocupar os postos para os quais foram escalados, expõem de maneira escandalosa essa diferença entre eles e o perfil característico dos estrangeiros.
Veja-se, por exemplo, o caso de um cardiologista brasileiro entrevistado pelo Estado de S.Paulo: o especialista se inscreveu “sem notar” que o programa era destinado a clínicos gerais, foi destacado para a cidade de Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, e saiu no primeiro dia, alegando que “falta tudo no sistema público”.
Observe-se que o doutor tem um consultório particular em Ribeirão Preto e atende também em Salvador, Bahia, por meio de convênio. Ele considera o salário do Mais Médicos, de R$ 10 mil reais por mês, “uma miséria”.
Não foi destacado para trabalhar numa favela ou numa aldeia da Amazônia, mas em Santa Bárbara, a apenas 138 km de São Paulo, cidade que foi colonizada por imigrantes dos Estados Unidos, tem um alto Índice de Desenvolvimento Humano e taxas reduzidas de violência.
O cardiologista jura que não se inscreveu para boicotar o programa. Apenas não leu direito as instruções.
Então, tá.
Na falta de números que autorizem a afirmar que o projeto é um fracasso, os jornais capricham nos títulos de dupla interpretação. Sem dados comparativos, o Estado de S.Paulo afirma: “Desistências continuam em diversos estados”. Na ausência de informações consistentes no texto interno, predomina a intenção do título, que é a de induzir no leitor a ideia de que o programa não se consolida.
O Globo, que aprecia trocadilhos e gracejos, aplica um título de gosto duvidoso usando o nome do programa: “Mais Médicos que faltam ao trabalho”.
Na contramão do senso comum, que colocou na pauta das manifestações de junho a emergência de ações na saúde pública, a imprensa dá a entender que torce contra o sucesso do plano. Insiste que o projeto foi feito atabalhoadamente, quando registros dos próprios jornais informam sobre reuniões de planejamento ocorridas anos atrás, inclusive com a participação de entidades dos profissionais de saúde.
O resultado pode ser um tiro pela culatra, com o efeito colateral de provocar maiores danos na imagem dos médicos brasileiros, que nas redes sociais ganharam um apelido tão genérico quanto injusto: são chamados de “coxinhas”, aqueles seres mimados que não toleram uma contrariedade.