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19 agosto 2015

A RAIZ DOS PROBLEMAS

Apagões, viroses e outros diagnósticos




Laurindo Lalo Leal Filho, na Agência Carta Maior


A entrega da seleção brasileira e dos campeonatos nacionais ao controle da Rede Globo está na raiz dos problemas. O futebol foi reduzido a um programa de TV.



Artigo publicado na Revista do Brasil, edição de agosto/15 
 
Copa do Mundo: Alemanha 7 x Brasil 1. Diagnóstico do Scolari: “apagão”. 
 
Copa América: Brasil desclassificado pelo Paraguai. Diagnóstico do Dunga: “virose”. 
 
Em outras profissões diagnósticos desse tipo poderiam ser submetidos a conselhos de ética e seus autores sujeitos a punições. 
 
Diagnósticos sérios, se fossem feitos, iriam buscar as razões dessas derrotas em problemas bem mais profundos. Práticas capazes de transformar, em duas ou três décadas, o “melhor futebol do mundo” num coadjuvante menor das grandes disputas internacionais. 
 
A entrega da seleção brasileira e dos campeonatos nacionais ao controle da Rede Globo de Televisão está na raiz desses problemas. 
 
O esporte mais popular do país foi reduzido a um simples programa de TV, obrigado a se ajeitar na grade de programação da emissora, segundo suas conveniências comerciais.
 
As consequências foram danosas para clubes, seleções e torcedores, os mais prejudicados. 
 
Nos jogos noturnos obrigados a sair do estádio quase à meia-noite porque as partidas devem começar às dez, depois da novela. 
 
E ao se postarem diante da TV, são vítimas do monopólio já que a emissora seleciona um jogo para transmitir e quase sempre impede as demais de oferecer alternativas.
 
Essa lógica fez inúmeros clubes desaparecerem da televisão e com isso se inviabilizarem comercialmente. 
 
Os direitos de transmissão são negociados clube a clube, recebendo mais dinheiro aqueles que, em tese, podem dar mais audiência. 
 
É a contribuição da TV para o desequilíbrio financeiro entre eles, com os mais fortes se tornando cada vez mais fortes, às custas dos demais.
 
Dos 20 clubes que disputam o campeonato nacional deste ano há apenas um do Nordeste, um do Centro-Oeste e nenhum do Norte. 
 
Salvador, Fortaleza e Brasília somam mais de nove milhões de habitantes mas não têm nenhum clube na série A do Brasileiro. 
 
Na Inglaterra, que tem um dos campeonatos mais equilibrados do mundo, 50 por cento dos direitos de transmissão são distribuídos igualitariamente e a outra metade leva em conta os tamanhos das torcidas e o desempenho técnico nas disputas anteriores. 
 
Na Alemanha o sistema é mais radical: o total das quotas de televisão é distribuído igualmente entre todos os clubes.
 
Caminhamos rumo ao modelo espanhol onde apenas duas equipes disputam para valer o campeonato nacional, com uma terceira na sombra como está bem demonstrado no livro “Cotas de Televisão do Campeonato Brasileiro”, do jornalista Emanuel Leite Junior, lançado no final de julho em Recife. 
 
A única tentativa de tornar mais equilibrada a distribuição dos direitos de transmissão no Brasil, ainda que restrita a poucos clubes, ocorreu com a criação do Clube dos 13, organização que negociava com a TV em nome das principais agremiações brasileiras. 
 
Diante de sua força, a Globo conseguiu debilitá-lo realizando negociações isoladas com os clubes, pondo fim à sua existência. 
 
Quanto à seleção não é por acaso que o principal delator dos escândalos internacionais seja José Hawilla,  responsável pela intermediação na venda dos direitos de transmissão das partidas. 
 
A existência do intermediário, nesse tipo de transação, tem como objetivo apenas possibilitar a distribuição de propinas para dirigentes de federações e confederações, como salienta o jornalista Luiz Carlos Azenha, um dos autores do livro “O lado sujo do futebol”. 
 
As “tenebrosas transações” do futebol brasileiro,  ganharam espaço e se perpetuaram deixando para segundo plano questões como a formação dos atletas e a qualidade dos espetáculos. 
 
Sem ver na TV os times de sua cidade ou de seu Estado, meninos e meninas passaram a torcer por clubes do eixo Rio-São Paulo e, mais recentemente, para os integrantes da Liga dos Campeões da Europa.
 
E quando veem a seleção no gramado têm dificuldade de reconhecer a maioria dos jogadores, muitos deles com carreira iniciada na pré-adolescência fora do Brasil. 
 
As mudanças legais aprovadas no início de julho pelo Congresso Nacional, sob forte pressão contrária da bancada dos cartolas, ainda são muito tímidas. 
 
Seguimos longe dos melhores modelos europeus e mais distantes ainda da Argentina que devolveu ao público o direito de ver pela televisão, sem custos, o futebol do seu país.



18 julho 2014

REFLEXÕES




Quem tem medo da CBF?

 
Mino Carta, na Revista CartaCapital




Pergunto aos meus botões qual haveria de ser a tarefa do ministro do Esporte. Uso o condicional porque estou a apurar a forte impressão de que o ministro Aldo Rebelo não tem serventia alguma. Mas posso estar enganado por não perceber um sutil desempenho executado na ponta dos pés, quase à sorrelfa, precioso contudo.
Os botões permanecem no patamar do condicional e respondem que caberia ao ministro a incumbência de executar a política do governo em relação ao esporte nas suas mais diversas modalidades. “Tanto mais do futebol – observo –, esporte mais decisivo na vida dos brasileiros, o ludopédio inventado na loira Albion, mas aprimorado aqui na nossa terra, de sorte a torná-la um infindável gramado.” Os botões anuem gravemente.
Insisto: que dizer de Aldo Rebelo? Executa a política do governo, respondem os meus interlocutores secretos. Mas há uma política? Os botões silenciam, acometidos, creio eu, por uma crise de melancolia. Abandonado à meditação solitária, sem esperança de resposta, passo a formular umas tantas perguntas na direção do infinito a respeito da atuação do governo em relação ao presente e futuro do futebol brasileiro.
Premissa: a Copa foi um sucesso em termos de organização e exposição do País aos olhos do mundo. Sobra o pesar pela decadência do ludopédio nativo. Seguem-se perguntas óbvias ditadas por coração e mente. É possível que o governo e seu ministro não saibam da verdadeira natureza da CBF, entregue a uma quadrilha? E não é do conhecimento até do mundo mineral que o senhor José Maria Marin é laranja de Ricardo Teixeira, foragido ao exterior para evitar a cadeia? Confirmar apoio à gangue de cartola não equivale a promover novos desastres?
Retorno a uma indagação tormentosa: por que erguer 12 estádios para hospedar uma Copa que não precisa de tantos? Será que a Fifa exigiu monumentais praças esportivas em Manaus, Cuiabá, Natal, Brasília? Não evito uma risada entre o escárnio e o desespero ao pensar que em Manaus, dotada de um time que milita na Quarta Divisão e que, quando muito, reúne mil assistentes para jogos de futebol, um grupo de desembargadores amazonenses propõe o uso do estádio como local de triagem de presos. Há também quem cogite de um sambódromo. Ou de quermesses indígenas?

Por acaso o governo de um país onde os serviços do Estado são da pior qualidade e cerca de 40% do território não é alcançado pelo saneamento básico, aventou alguma objeção à construção de 12 estádios? O ministro Rebelo porventura manifestou um resquício de perplexidade diante de uma operação que desperta justificadas suspeitas? Ouço ao longe um murmúrio, são os botões de volta à fala: “Quem sabe o ministro Rebelo cumprisse uma ordem: na CBF ninguém toca, e ai de quem tocar”. Admitamos a possibilidade, por mais surpreendente.
Sinto em citar um exemplo italiano, sei que, por isso, corro riscos. Ocorre-me, porém, o exemplo da Azzurra, assaltada por um juiz mexicano, um certo Rodríguez Moreno, no jogo contra o Uruguai, e então eliminada. O treinador Prandelli e o presidente da confederação peninsular, Giancarlo Abete, demitiram-se imediatamente. Não houve ali quem alegasse o roubo. O argumento do técnico foi outro, e corretíssimo: a Azzurra não jogou pior que o Uruguai, mas atuou muito mal, como se dera no embate anterior, contra a Costa Rica. Em dois encontros, não conseguiu assinalar um único gol. Tanto eu, alegou Prandelli, quanto o presidente, nos sentimos responsáveis, ele por ter confiado em mim. Trata-se de um exemplo louvável, irrepetível abaixo do Equador. E me perdoem por ter citado figuras do país em que nasci.
De todo modo, Scolari e sua equipe técnica garantem ter trabalhado da melhor maneira, Marin o exonera e, receio, prepara-se a substituí-lo por outro igual. Não é de se excluir que o ministro Rebelo tenha a certeza do dever cumprido. Encaro o porvir com um misto de temor e desalento. Vêm aí as Olimpíadas cariocas e só os fados gregos imaginam o que vão custar. Além disso, Marco Polo (homenagem ao andarilho veneziano, autor de O Milhão?) Del Nero assume no ano próximo o posto de Marin, na qualidade de enésimo cartola da vetusta e resistente estampa.
1º PS: As vaias vips à presidenta Dilma na entrega da Copa denigrem o Brasil em lugar de exaltá-lo.
2º PS: O candidato Eduardo Campos apressa-se a evocar escândalos tucanos e petistas. Esqueceu o “mensalão” do PSDB e a maior maracutaia da história do Brasil, a privatização das comunicações, praticada com olímpica desfaçatez à vista da Nação.
 
 
 

10 julho 2014

MÍDIA PRECISA TANTO DE MUDANÇA QUANTO O FUTEBOL

Palavras de mudança

O jornalismo brasileiro está precisando de uma reviravolta mais ou menos como a pedida para o futebol 

A variedade dos adjetivos foi pequena. Não por escassez vocabular de quem os emitiu nos jornais e nas emissoras, mas porque o acontecimento não suscitava mais do que palavras com força dramática. E todas serviram para conduzir à mesma ideia, também expressa com pequena variedade: é preciso mudar tudo no futebol brasileiro, que seja o fim de uma era, é o momento de iniciar uma ressurreição. A ideia é o que importa, e é boa. Para torná-la real, nada seria mais eficiente do que começar pelos que a propõem.

A imprensa e os jornalistas são muito democráticos: têm a convicção de que tudo e todos são sujeitos à crítica. Desde que não sejam a imprensa e os jornalistas. Apesar disso, é preciso dizer que os mal denominados meios de comunicação têm uma parcela --de difícil mensuração, mas não pequena-- nas causas do que está chamado de "humilhação, catástrofe e vergonha". E parcela maior no choque emotivo das pessoas em geral, reação que corresponde à expectativa esperançosa de que estiveram imbuídas.

Jogadores justificam ou não as expectativas boas ou ruins. Não pregam, porém, ânimos ou desânimos coletivos, sejam ou não fundados. Quem pode fazê-lo são outros. E são muitos os que fazem e por diferentes maneiras.

Não cabe dizer que os torcedores são dependentes das induções, porque nos esportes têm a possibilidade do testemunho que lhes falta na política. Mas a verdade é que são cabeças e almas muito sugestionáveis, muito sensíveis ao estímulo a paixões. (Dizem que é uma característica dos povos latinos, mas basta uma olhada na tendência dos americanos para os fanatismos, patrioteiros e outros, e constatar que não temos exclusividade na matéria). E foi isso o que se viu, com origens também perceptíveis.

Antes e depois de iniciada a Copa, o nível médio da franqueza foi muito baixo nos comentários sobre a seleção, em contraste com a crítica, em âmbito privado, de muitos dos mesmos autores profissionais. Ou pelo que transparecia nas entrevistas de seu trabalho público. Os amistosos com timecos, inclusive já às vésperas da Copa, com Sérvia e Panamá, prenunciaram o que viria depois. A contenção das análises naquele antes também se mostrou no depois. Já a escolha de Felipão contrariara a amplíssima preferência por outro treinador, talvez Tite, sem que isso se mostrasse com firmeza na imprensa esportiva. Os fatos mostraram que a preferência era justificada, e fez falta.

Se o tempo de vida em contato com a imprensa e com a opinião pública vale alguma coisa, é a partir dele que concluo pela contribuição da baixa média de franqueza crítica para a ocorrência do desacerto, continuado e progressivo, que levou à "vergonha". E do mesmo modo se faz a minha convicção de que o ambiente ficou livre para que a falta de observações firmes, a tendência nacional ao oba-oba e os interesses comerciais se juntassem na criação do otimismo mentiroso. Logo, também na decepção doída como um luto.

O jornalismo brasileiro está precisando de uma reviravolta mais ou menos como a pedida para o futebol. A na área dos esportes, que poderia ser iniciada com menos obstáculos. Até porque a Olimpíada vem aí.

Ainda sobre a adjetivação da goleada engolida, sua destinação pareceu transbordar do alvo justo --a comissão técnica e os jogadores. Nada de "vergonha" ou "humilhação" nacional. Para os brasileiros, a derrota foi não mais do que estonteante. E não para todos. No curto tempo entre o fim do jogo e a edição dos jornais, segundo certo noticiário, o governo foi capaz até de projetar uma nova "estratégia", que "agora é colar sua imagem apenas à organização". Isso é que é governo veloz, segundo o emitido "sinal de alerta" (na expressão idêntica da Folha e do "Globo") decorrente do "temor" e do "mau humor" que a derrota instalou no Planalto.

10 junho 2014

PURO PRECONCEITO

UMA COPA COM SARTRE

Críticas à Seleção mostra preconceito diante do prestígio de brasileiros pobres, em especial negros, com futebol

Paulo Moreira Leite, em seu blogue
 
Pensei que poderíamos esperar um pouco – quem sabe um jogo mais difícil, ou mesmo uma eventual derrota da Seleção numa partida – para assistir às conhecidas manifestações de preconceito contra nossos jogadores de futebol. Você sabe.
Se os títulos mundiais ajudam a criar uma celebração nacional que permite perdoar temporariamente as diferenças gritantes entre os brasileiros e mascarar o nosso racismo, as derrotas costumam abrir a lata de lixo dos piores instintos.
Costumam ser acompanhadas do vocabulário e expressões que, com clareza mais ou menor, remetem a herança cultural de uma sociedade com passado escravocrata.
Se os títulos mundiais criam heróis, as derrotas criaram “covardes” e “vendidos.” Na melhor das hipóteses, “mercenários”. (Como se pode confiar em quem “cobra” para defender a pátria?!)
 Nós temos  na verdade uma relação  ambígua com o futebol. Nas vitórias, adoramos o prestígio que cinco títulos mundiais proporcionam.
 Em caso de derrota, o futebol permite a desforra de quem se sente incomodado com a influência e o prestígio que uma Copa do Mundo permite aos brasileiros pobres, especialmente negros, que conseguiram destacar-se num esporte que hoje mobiliza bilhões de dólares no mundo inteiro,  abre as portas mais exclusivas e  seduz belíssimas mulheres. Imagine a inveja. A raiva.
 

Antes mesmo da Copa começar, acabo de saber que tem gente reclamando que nossos craques não costumam ler Jean Paul Sartre. É isso. Além de jogar futebol, tentar ganhar a Copa em meio a tanta pressão e hostilidade, eles deveriam ler Sartre. 
Você sabe a origem da história.
Ribery, o grande craque da França, citou o título – veja bem, o título – de um romance de Jean Paul Sartre, “Com a morte na alma”, terceiro volume de uma trilogia de ficção situada na Segunda Guerra, para definir seus sentimentos no momento em que recebeu a notícia de que estava fora da Copa. Normal.
Sartre é um monumento nacional da cultura francesa e leitura escolar obrigatória. “Com a morte na alma” retrata a  França ocupada, fala dos campos de concentração. Li a trilogia na juventude e gostei muito.
Mas é  bom lembrar que pelo menos neste aspecto nossos craques de futebol são iguais a maioria de nossos estudantes, médicos, advogados, publicitários, jornalistas. Eles  também não leram Sartre. Ande pelos café de Higienópolis e pergunte: você leu Sarte? Sabe o titulo de uma obra?
Esqueça Sartre e procure por grandes autores nacionais no Largo São Francisco, na Paulista. Joaquim Nabuco? Guimarães Rosa? Machado de Assis? Difícil.  
É muito provável que você ouça menções a Paulo Coelho. Foi ele  que chamou Ronaldo, o Fenômeno, de imbecil, porque não disse o que  achava que  deveria ser dito sobre a Copa. (O próprio Fenômeno, numa virada fenomenal, disse 48 horas depois que sentia vergonha da Copa, da qual foi um dos organizadores durante três anos)
Depois do Sartre de Ribery, teve gente que ficou passando mal só de pensar no autor que um jogador brasileiro iria citar, se ficasse na mesma situação. Em tom de ironia, apresentou-se uma lista de sambistas e pagodeiros que poderiam ser mencionados. Nós sabemos qual é a origem do samba, do pagode. E sabemos aonde essa comparação quer levar, o que ela sugere.
Vamos combinar: embora tenha produzido um pensamento indomável,  Sartre foi incorporado de forma desinfetada à cultura de muitos intelectuais brasileiros, tornando-se sinônimo de  complexos profundos. Mais do que uma visão cultural, foi transformado numa espécie de grife.
Visto de forma superficial, ele tem um “não sei quê” capaz de provocar dores e tristezas especiais. Talvez porque seja “francês” e no passado muita gente  que não tinha se rendido as delícias de Nova York-Washington achava que isso era melhor do que “norte-americano.”
Ou porque era vivo e radical quando alguns de seus admiradores nostálgicos de hoje se imaginavam muito mais vivos e mais radicais do que se tornaram. 
Seja como for, numa campanha presidencial, quando Fernando Henrique e Lula se enfrentavam, houve quem dissesse que o país iria escolher entre um Sartre e um encanador.
Na verdade, Sarte é um autor pouco lido até por muitos cidadãos que deveriam ter a obrigação profissional de estudar sua obra, como professores e intelectuais. O que é uma pena.
Estudioso da vida em países colonizados, capaz de associar o racismo e a tortura ao domínio colonial europeu sobre a África, Sartre deixou ensinamentos úteis para o entendimento da vida brasileira.
Vamos estar preparados, portanto. Qualquer derrota nos gramados irá permitir o “mórbido deleite,” como dizia Gilberto Freyre, em Casa Grande & Senzala, página 370:
“Não há brasileiro de classe mais elevada, mesmo nascido e criado depois de oficialmente abolida a escravidão, que não se sinta aparentado do menino Brás Cubas na malvadeza e no gosto de judiar (sic) com o negro. Aquele mórbido deleite  em ser mau com os inferiores e com o animais é bem nosso: é de todo menino brasileiro atingido pela influência do sistema escravocrata.”    
 


 


ESQUECENDO OS GRANDES PROBLEMAS DO PAÍS

Torcer para o Brasil também é um
direito


Antônio Lassance, na Agência Carta Maior



Embora o futebol seja, de longe, o esporte preferido dos brasileiros, um novo esporte ganhou muitos adeptos desde o ano passado.

É o esporte de falar mal da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, de torcer para que a competição seja um fiasco e para que a imagem do País seja a pior possível, aqui dentro e lá fora.

O campeonato nacional de esculhambação da Copa e do Brasil é um esporte diário que envolve pessoas que se dividem em pelo menos dois grupos.

Um é o pessoal totalmente anticopa, que empunha a bandeira do #NãoVaiTerCopa e quer sabotar o evento custe o que custar.

Outro é a turma dos Empata-Copa, que é cheia de dedos, de "veja bem" e "não é bem assim". Eles até acham que vai ter Copa porque a Copa "já foi" - o dinheiro já foi gasto.

Ambos compartilham o mesmo objetivo: fazer que essa Copa seja inesquecível - no pior sentido, claro.

Os Anticopa são o pessoal do ataque. Os Empata-Copa são os da retranca.

A turma do #NaoVaiTerCopa é o pessoal da ação direta. Os Empata-Copa não querem inviabilizar o evento, mas torcem por um empate. Para esses retranqueiros, o empate já seria uma grande vitória. O importante é todo mundo sair de cabeça baixa.

Essa turma tem um olho só - é aquele que só vê malefícios. Em terra de cego, quem tem um olho é contra a Copa. Assim tratam os que defendem o evento: como cegos e idiotas.

Os Empata-Copa e os Anticopa acham que defender o Brasil é patriotada do tipo "ame-o ou deixe-o". A velha ditadura de 1964 a eles agradece por ser condecorada como "patriótica" -  que bela homenagem de uma gente insuspeita!

O regime que cunhou a doutrina de que “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” agradece a força do pessoal que tem esse espírito crítico tão aguçado.

O “patriotismo” do "ame-o ou deixe-o", para quem já se esqueceu ou para quem nasceu ontem, é mera tradução do slogan usado pelo ex-presidente Richard Nixon: "USA: love it ou leave it". Patriótico pra caramba, né?

Engraçado que o antiamericanismo de alguns que vão às ruas não os impede de empunhar cartazes em Inglês. Seria injusto dizer que essa turma não torce por nada. Eles torcem para serem filmados pela CNN ou fotografados pela Reuters.

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor, mesmo que oculta por uma fantasia de Batman ou pela máscara pálida de Guy Fawkes, imortalizado pela produção hollywoodiana “V de Vingança” - à venda nas melhores lojas.

Uma coisa é certa - a Copa trouxe o malefício de fazer com que algumas pessoas se esqueçam dos grandes problemas do País.

Por exemplo, os que reclamam dos R$ 8 bilhões gastos em estádios, crime número 1 desta Copa. Os R$ 8 bi são empréstimos. Retornarão aos cofres públicos do BNDES e da Caixa Econômica Federal.

Os Empata-Copa e os Anticopa, porém, não se mostram nada incomodados com o fato de que se paga um Maracanã a cada dois dias em juros da dívida pública. Só em 2013, se pagou R$ 248 bilhões em juros. Será que nosso real problema são R$8 bi de empréstimos?

Por ano, serão pagos R$ 20 bilhões a mais para o mercado financeiro a cada vez que o Copom do Banco Central vier a elevar a taxa de juros em 1 ponto percentual. Detalhe: esse dinheiro não retorna para os cofres do BNDES ou da Caixa.

A Copa é o alvo errado. É um palpite infeliz de quem malha o Judas fingindo estar enfrentando o Império Romano.

Virou um misto de performance teatral e de indignação mal informada que mais parece pura babaquice - é o termo técnico mais preciso.

Os brasileiros têm direito à saúde, à educação, ao transporte para levá-los ao trabalho, à escola, ao domingo no parque.

Pois torcer pelo Brasil também é um direito. As pessoas que quiserem podem e devem exercê-lo em paz, sem sofrer constrangimento de qualquer espécie. Os que quiserem sentir vergonha também podem ficar à vontade.

Vai ter Copa e milhões de brasileiros vão exercer o seu direito a essa alegria fugaz que só dura 30 dias. Dias inesquecíveis. Cada qual tem o direito de escolher a maneira que achar melhor para se lembrar desse momento.


(*) Antonio Lassance é cientista político.

25 maio 2014

FALTA DE RESPEITO

A brincadeira da mídia com a opinião pública


, no Jornal GGN
É inacreditável o nível de autossuficiência atingido pelos grupos de mídia, na fase mais crítica da sua história.
 
Meses e meses batendo nos gastos da Copa, ajudando a criar essa barafunda informacional, de misturar investimentos em estádios com gastos orçamentários, criticando os "elefantes brancos", anotando cada detalhe incompleto de obras que ainda não estavam prontas, ignorando o enorme investimento na imagem do país.
 
De repente, como num passe de mágica, fazem uma pausa e, em conjunto, passam a enxergar as virtudes da Copa - maior evento publicitário do ano para eles.
 
O Estadão solta enorme matéria sobre "a Copa das Copas", lembra o óbvio - vai ser o evento de maior visibilidade para o Brasil, em sua história. 14 mil jornalistas levando a imagem do país para todos os cantos, o maior público de televisão para um evento.
 
A Folha dá o óbvio incompleto: a informação de que os gastos com a Copa representam um naco dos gastos com educação. Não ousou explicar que são recursos dierentes, que financiamentos não podem ser confundidos com gastos orçamentários, que gastos com obras são permanentes. Mas vá lá!
 
O que é impressionante é supor que se pode brincar dessa maneira com a opinião de seus leitores, levá-las para onde quiser, ao sabor da manchete do momento, da estratégia de ocasião. Será que não há uma cabeça estratégica para explicar que essa desconsideração para com o leitor é veneno na veia da credibilidade?
 
Dia desses o Ministro Aldo Rabello ao que parece assimilou as críticas contra sua ausência dos debates da Copa e deu uma boa entrevista a TV Brasil, com números e argumentos sólidos.
 
A explicação para a anomia do governo com o tema foi chocante. O marqueteiro do Palácio desaconselhou qualquer campanha de esclarecimento porque, segundo ele, as pessoas não estavam associando Copa com governo e a campanha poderia estabelecer essa associação.