29 junho 2012

ECONOMIA E JORNALISMO







O CHABU DE EIKE BATISTA


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa





O inferno astral do empresário Eike Batista foi estampado nas primeiras páginas dos jornais brasileiros de sexta-feira (29/6). Suas empresas perderam cerca de R$ 23 bilhões em valor de mercado em um ano, e passam por uma grave crise por conta de notícias frustrantes sobre o potencial de produção do primeiro campo de petróleo da OGX, uma das estrelas de sua constelação de empreendimentos ousados.
Alguns analistas se questionam se Batista estaria sendo punido justamente por sua ousadia, mas tudo indica que ele está mesmo é sendo fustigado pela realidade. Os jornais se referem a uma “crise de confiança” que teria devastado a posição da OGX no mercado de ações, provocando uma desvalorização de mais de R$ 13 bilhões em apenas dois dias. Mas não há comentários (pelo menos até onde este observador pode verificar) sobre as expectativas que se criaram ao longo do tempo em torno de suas iniciativas de negócio.
Nos primeiros testes de produção do campo de Tubarão Azul, na Bacia de Campos, sob sua concessão, a OGX anunciou a possibilidade de vazão de 20 mil barris diários de petróleo. Naquela ocasião, cinco meses atrás, a notícia foi recebida como mais uma proeza pessoal de Eike Batista. Atrás do foguetório da imprensa, o entusiasmo dos investidores inflou o valor das ações.
Perdas bilionárias
Nesta semana, quando saíram os resultados do teste de longa duração, a direção da empresa se viu obrigada a rever essas perspectivas, frustrando o mercado. O resultado foi um movimento contrário da manada, que derrubou a confiança e levou os investidores, em massa, a tentar se livrar dos papéis.
Eike Batista demitiu imediatamente toda a direção da OGX, embora se saiba que os executivos não tinham outra alternativa a não ser divulgar os números corretos, sob pena de serem responsabilizados legalmente.
O campo de Tubarão Azul é o único entre os empreendimentos de Batista que produz petróleo – comentaristas maldosos dizem que os demais produzem notícias – e seus resultados iniciais representavam o ponto de apoio para a manutenção do bom ânimo diante das iniciativas do empresário.
Mas em vez dos 20 mil barris diários, os poços verteram apenas a média de 5 mil barris por dia. Por contaminação, o pessimismo afetou todas as demais empresas de Eike Batista, que são conhecidas por apresentar sempre a letra X em suas siglas, aumentando uma bola de neve que vinha rolando ladeira abaixo há quase um ano.
No total, segundo uma consultoria citada pela imprensa, o conjunto dos empreendimentos de Batista listados em bolsa de valores já perdeu R$ 23 bilhões em um ano. Somente em um dia, na quinta-feira (28/6), Eike Batista perdeu quase R$ 5 bilhões de seu patrimônio pessoal avaliado em R$ 44,3 bilhões, caindo do 21º lugar para o posto de número 28 na lista dos homens mais ricos do mundo, segundo a agência Bloomberg.
O “X” da questão
Não é uma questão de causar pena. Trata-se, na verdade, de um caso exemplar em que o noticiário sobre negócios contribui para produzir um cenário de fantasia em torno dos heróis do capitalismo nacional.
O Brasil sempre precisou de porta-bandeiras, como se a nacionalidade tivesse que se exibir em um desfile permanente de triunfos. Das conquistas nos esportes ao recente desempenho na economia, o orgulho brasileiro necessita de ícones, e a imprensa sempre esteve disponível para expô-los em manchetes. Seja Eike Batista ou Romarinho, o novo herói do futebol, estamos sempre em busca de um campeão.
Mas o mercado não pode viver eternamente de boas notícias, reais ou manipuladas por assessores de imprensa competentes. Em algum momento, as promessas têm que virar lucro que possa ser demonstrado nos balanços. No momento de entregar resultados concretos, a realidade cobra seu preço com os juros produzidos pela expectativa.
A demissão da diretoria da OGX, ação tomada imediatamente por Batista para tentar conter a onda de pessimismo, soa como o costume atribuído a antigos imperadores, de matar o mensageiro que porta más notícias.
Mas para o serviço ficar completo, seria preciso cortar também as cabeças de tantos colunistas e articulistas que até aqui vinham tratando Eike Batista como uma espécie de rei Midas, portador de um misterioso mapa de jazidas cuja origem ninguém tem coragem de esclarecer.













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