16 dezembro 2013

JORNALISMO IMPRESSIONISTA

A tela vista de perto



Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa






A revista Época tem se caracterizado por um estilo que, há vinte anos, era chamado na Folha de S. Paulo de “jornalismo impressionista”. Trata-se do uso indiscriminado de adjetivos, metáforas e “bordões” para dar mais impacto a narrativas corriqueiras, prática que consagrou sua grande concorrente, aquela da Editora Abril.
Por exemplo, na edição desta semana (nº 812), a capa de Época diz o seguinte: “O país dos alvarás e da propina: a burocracia infernal que emperra o Brasil, estimula a corrupção – e não evita incêndios, desabamentos, enchentes e milhares de mortes”.
A expressão criada na Folha para valorizar o jornalismo das estatísticas e dos infográficos era uma referência às obras dos pintores impressionistas, que só fazem sentido se observadas a certa distância, porque, de muito perto, o que se vê são apenas pontos coloridos. Assim, o “jornalismo impressionista” é para ser visto de longe, com o jornal ou revista pendurado na banca: as manchetes ruidosas muitas vezes prometem um conteúdo que, visto de perto, não oferece a satisfação anunciada.
No caso da revista semanal da Editora Globo, a capa desta semana promete desvendar um país onde todos os grandes problemas, da corrupção à baixa qualidade da educação, das enchentes de verão aos desabamentos e incêndios, têm origem na burocracia, que “emperra o Brasil” e cria o mundo de oportunidades para empreendedores privados com dinheiro público.
As duas reportagens que ancoram a edição tratam justamente do baixo nível da educação nas escolas brasileiras e da investigação sobre formação de cartel e fraude em licitações do sistema de transporte sobre trilhos na capital paulista.
O material sobre educação é baseado numa análise de dados do Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira –, a Prova Brasil, com foco em leitura e resolução de problemas matemáticos. O conteúdo sobre corrupção tenta contextualizar as informações sobre o caso que acaba de ser remetido pelas autoridades policiais ao Supremo Tribunal Federal.
Embora não traga informações reveladoras, esse material oferece muito mais do que pintas coloridas numa tela, simplesmente por contextualizar os fatos conhecidos.
De olhos bem fechados
No estudo sobre educação, basta o leitor se munir de tempo e paciência para ficar sabendo, por exemplo, que as piores escolas estão concentradas nas regiões mais pobres. Também fica informado que as principais deficiências do ensino, nas escolas que se destacam pela qualidade, são superadas por ações diretas sobre os problemas diagnosticados, como criação de grupos de leitura e aulas de reforço.
O problema é que metade do material é composta por um infográfico de duas páginas e o texto que se segue também prioriza o diagnóstico.
Na reportagem sobre o caso que os jornais tratam genericamente como o “cartel da Siemens”, o mérito deÉpoca é justamente o de juntar os pontos, permitindo que o leitor, com pouco esforço, entenda o contexto. Primeiro, o material esclarece que a investigação começou em 2001, no Departamento de Justiça dos Estados Unidos, onde se constatou que a multinacional alemã tinha como política oficial destinar uma verba para pagamento de propinas a representantes de governos com os quais negociava. Argentina, Bangladesh, China, Iraque, Israel, México, Nigéria, Rússia e Venezuela aparecem na lista.
Outra investigação, que tinha como objeto a multinacional francesa Alstom, mostrou um esquema semelhante. Como as duas empresas costumam fazer operações conjuntas em muitos países, descobriu-se que formavam cartéis, à base de propinas, para obter contratos públicos e dividir os lucros. Aos poucos, foram se consolidando os sinais de que o esquema funcionava também no Brasil, onde as duas empresas fizeram um acordo para fraudar licitações de trens e metrôs.
A reportagem cita os governos do PSDB em São Paulo, nas gestões Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, e em Brasília, nas gestões de Joaquim Roriz, então no PMDB, e José Roberto Arruda, que na ocasião era filiado ao Partido Democratas. A revista Época observa que os indícios de envolvimento direto de políticos no escândalo são “fracos” – o que abre espaço para outra perspectiva: a de que eles ficaram de olhos fechados, à espera de apoio em campanhas eleitorais.
Os governantes citados foram no mínimo negligentes, ao permitir que um esquema tão grosseiro e danoso aos cofres públicos permanecesse ativo por mais de uma década.
A partir desta segunda-feira (16/12), os jornais estão proibidos de continuar chamando esse caso de “cartel da Siemens”. Segundo Época, o esquema tem nome próprio, sigla partidária e endereço conhecido.
 
 
 

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