02 novembro 2012

ECONOMIA


Juros altos, ainda…



Delfim Netto, na Revista CartaCapital


Sozinhos no pedaço
Não existe sustentação teórica ou demonstração empírica para garantir que o Brasil não possa ter uma taxa de juros de 2%
Economistas e analistas do mercado financeiro teimam em afirmar que os juros no Brasil estão exageradamente baixos. São opiniões respeitáveis, de pessoas competentes, mas que deviam reconhecer a tentativa de apenas “chutar o balde”… Não existe nenhuma razão objetiva para dizer que, no Brasil, os juros reais estejam suficientemente baixos. É verdade, os juros se reduziram recentemente (e devem continuar baixando), mas ainda estão muito altos quando confrontados com a realidade mundial. Basta observar a grande maioria dos países.
Hoje temos uma taxa de juros real próxima de 2%, o que nos deixa relativamente longe da taxa de juros real do mercado internacional,às voltas de 2% negativos. O atual diferencial entre o juro real interno e o externo é parecido, portanto, com 4%.
O movimento de capitais continua funcionando. Em um ambiente de política cambial defensiva, aquele diferencial deixa ainda margem para a exploração (no sentido de “pesquisa”, “sondagem”, acompanhando o nosso Aurélio) de oportunidades lucrativas para o capital estrangeiro de curto prazo, principalmente nas atuais circunstâncias em que o mundo ameaça submergir na enxurrada de liquidez produzida externamente.
O Brasil sustentou durante anos (duas décadas ao menos!) a maior taxa de juros real do universo conhecido, estimulando um movimento de capitais especulativos que ajudou a supervalorizar a taxa de câmbio real e aprofundou os inconvenientes da redução global da atividade produzida pelo controle monetário. Quem pagou mais caro por isso foi o setor da manufatura nacional. O diferencial persiste bem menor, mas o controle cambial, a meu ver, retira riscos maiores de movimentos especulativos no curto prazo.
A ideia de que a economia brasileira precisa de juros acima do normal ocupou a mente de um número muito grande de economistas brasileiros, em uma boa época para se ganhar dinheiro, na qual nada do que foi produzido justifica a sua defesa. Não conheci nenhum estudo acadêmico capaz de ser digerido. Li nesse período trabalhos recheados de conteúdo fantasmagórico, verdadeiras barbaridades do ponto de vista teórico, e absurdos do ponto de vista econométrico.
Todos tentando defender a festa dos juros, quando não existe nenhuma estimativa razoável de qual seja a “taxa de juros neutra”, quer dizer a taxa de juros que, eles imaginam, não aceleraria a inflação. Era uma concepção puramente teórica: os países testam até hoje movimentos completamente diferentes, porque o mundo mudou.
A taxa de juros foi posta no nível atual por um erro de política monetária. Havendo uma dúvida sobre o financiamento da dívida pública, foram instituídos papéis com correção diá­ria (Letras do Tesouro Nacional, as LFTs), que agora o governo Dilma está reduzindo.
Não existe nenhuma sustentação teórica ou demonstração empírica para garantir que o Brasil não possa ter uma taxa de juros de 2%. Há argumentos ridículos, repetidos em estudos mais recentes, usando modelos que introduzem o custo-Brasil externo em comparação com a evolução da Libor (a antes “respeitável” London Interbank Offered Rate), que hoje se sabe produziu índices eivados de falsidades. Esperava-se um pouco mais de moderação, de humildade, menos desrespeito ao conhecimento das pessoas.
Qualquer um pode dizer: “Não gosto de juros reais de 2%, prefiro de 5%”, o que é um direito dela até certo ponto respeitável. Absurdo é afirmar peremptoriamente, como se fosse produto de conhecimento científico, que o Brasil não pode ter uma taxa de juros real abaixo de 5%. Isso não existe nem mesmo como convicção religiosa. De ­ciência não tem nada.
A política monetária avançou muito nos últimos anos, desde quando os bancos centrais eram “templos” onde se praticava uma arte esotérica ao alcance apenas de alguns iniciados e era mantida no maior segredo. A prática monetária tinha um dialeto próprio, usado mais para esconder as ideias (quando elas existiam!) do que para explicar os fundamentos das medidas.
Em nossos dias, especialmente na gestão de Alexandre Tombini, que organizou uma competente equipe, passou a prevalecer a transparência e a comunicação aberta e fácil, o apanágio da nova política monetária.

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