09 abril 2011

NOSSO MUNDO

Aqueles que conheceram Juliano Mer-Khamis, o ator e diretor nascido em Nazaré que foi baleado e morto em Jenin, na segunda-feira, serão os que escreverão a respeito dele. Tudo o que nós outros podemos fazer é escrever a respeito das marcas de sua vida.

Juliano teve sorte. Nasceu numa família palestina e judia, judia e palestina. Este homem irado foi cercado por identidades conflitantes e complementares. Ele foi a sombra estendida de uma comunidade binacional imaginada nos idos dos anos 50. Como um Peter Pan que se recusava a crescer, Juliano encarnou o potencial de uma vida compartilhada (ta’ayush, em árabe) enquanto lutava por igualdade. Filho de uma mãe judia e um pai palestino, nasceu em duas culturas, e escolheu viver nas duas. Ele não via necessidade de explicar isso.

Eu acho que Juliano não alimentava ilusões; levando golpes de todos os lados, o potencial de uma ta’ayush diminuía. Ta’ayush é uma visão sadia das coisas, mas a sua chance de realização é cada vez mais ínfima. Há aqueles que fantasiam com os dias do Messias para se evadirem de pensar nos dias que antecedem ao próximo desastre. Juliano era um filho da fantasia da ta’ayaush. Seu nascimento foi a realização da fantasia da ta’ayush e sua morte é um desastre.

Juliano tinha raiva. Sua raiva era do tipo que só um judeu como ele, nascido na esquerda e militante pela igualdade até o fim, pode se permitir expressar como um modo de vida. Os palestinos devem conquistar sua raiva, amadurecê-la; devem domesticá-la, reprimi-la, sublimá-la. Essa é a única maneira de permanecer vivo e são (sem ser preso, ferido ou morto) sob as condições de violência física e não física ditadas por Israel.

É isto: violência áspera, que fede a racionalismo e a supremacia e se pretende esclarecida. É o que se encontra diariamente, a cada momento, do nascimento à morte. A violência encontrada da expropriação comandada e acompanhada por um mapa ao disparo num alvo a partir de uma torre de observação; do Ministro do Interior expulsando palestinos de Jerusalém, sua cidade de origem, ao bloqueio do retorno à vila de Bir’im, na Galiléia; das respostas racistas da juventude judia nas pesquisas de opinião ao barulho dos disparos sobre os telhados onde crianças brincam em Gaza. A violência está sempre lá, das taxas municipais de Jerusalém sobre ruas arruinadas e lixo sem coleta às câmeras de segurança na vizinhança do bairro/cruzado shtetl judaico em Silwan; de um assentamento esverdeado luxuoso às cisternas palestinas destruídas por um tanque israelense; das concessões para o estabelecimento de fazendas no Negev à incriminação dos beduínos como fossem “infiltrados”. Numa palavra, do judaico ao democrático.

Essa violência tem tantos ângulos diversos que pode levar à loucura. Juliano teve a sorte de ser um artista, e a loucura era um de seus pincéis. Através do teatro que ele fundou em Jenin, Juliano se permitiu a crítica a aspectos repressivos da sociedade palestina. Poderia se pensar que ele fez isso enquanto militante de esquerda, como um ator compromissado com o dever artístico de ser honesto, e como um palestino. Torçamos para que seu assassino seja encontrado, e então saberemos se um artista palestino foi morto por causa de sua coragem de viver de uma maneira que rompe com a ordem, ou se um artista judeu foi morto porque se permitiu a criticar abertamente uma sociedade que não é a sua, de acordo com alguns, ou se um homem de esquerda foi morto porque rompeu com a ordem. Ou talvez as três coisas juntas. Mesmo que tenha sido morto por qualquer outra razão, Juliano era ainda um artista e um palestino, um militante de esquerda e um judeu.

Agora que a possibilidade de uma visão sadia de uma ta’ayush é pequena, o que resta? O caminho. Esta é a opção de um movimento binacional de resistência, que quer derrubar coisas como Kadafi, Mubarak, Assad, que oprimem um povo sobre o outro.

Há quem insista na fantasia de que um movimento binacional é uma necessidade histórica, como uma antítese lógica à ideologia da separação demográfica que se tornou a bíblia do processo de Oslo. A verdade deve ser dita: ao longo do tempo a maioria dos que lutaram por essa fantasia são judeus. Então, abrandamos a contradição entre o amor pelo povo e pelo lugar, por um lado, e o ódio da violência esclarecida, por outro?

Com sua vida e com seu corpo, Juliano Mer-Khamis encarnou a possibilidade de um movimento binacional de resistência. O assassino, qualquer que tenha sido seu motivo, queria o seu corpo. Na sua morte, Juliano nos deixou o possível.

Tradução: Katarina Peixoto


(Transcrito do site www.cartamaior.com.br)


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       INCONFORMISMO E CRIATIVIDADE
 

É hoje consensual que o capitalismo necessita de adversários
credíveis que atuem como corretivos da sua tendência para a
irracionalidade e para a auto-destruição, a qual lhe advém da pulsão para
funcionalizar ou destruir tudo o que pode interpor-se no seu inexorável
caminho para a acumulação infinita de riqueza, por mais anti-sociais e
injustas que sejam as consequências. Durante o século XX esse corretivo
foi a ameaça do comunismo e foi a partir dela que, na Europa, se construiu
a social-democracia (o modelo social europeu e o direito laboral). Extinta
essa ameaça, não foi até hoje possível construir outro adversário credível a
nível global.

Nos últimos trinta anos, o FMI, o Banco Mundial, as agências
de rating e a desregulação dos mercados financeiros têm sido as
manifestações mais agressivas da pulsão irracional do capitalismo. Têm
surgido adversários credíveis a nível nacional (muitos países da América
Latina) e, sempre que isso ocorre, o capitalismo recua, retoma alguma
racionalidade e reorienta a sua pulsão irracional para outros espaços. Na
Europa, a social-democracia começou a ruir no dia em que caiu o Muro de
Berlim. Como não foi até agora possível reinventá-la, o FMI intervém hoje
na Europa como em casa própria.

Poderá surgir em Portugal algum adversário credível capaz de
impedir que o país seja levado à bancarrota pela irracionalidade das
agências de rating apostadas em produzir a realidade que serve os
interesses dos especuladores financeiros que as controlam com o objetivo
de pilhar a nossa riqueza e devastar as bases da coesão social? É possível
imaginar duas vias por onde pode surgir um tal adversário. A primeira é a
via institucional: líderes democraticamente eleitos reúnem o consenso das
classes populares (contra os media conservadores e os economistas
encartados) para praticar um ato de desobediência civil contra os credores
e o FMI, aguentam a turbulência criada e relançam a economia do país com
maior inclusão social. Foi isto que fez Nestor Kirchner, Presidente da
Argentina, em 2003. Recusou-se a aceitar as condições de austeridade
impostas pelo FMI, dispôs-se a pagar aos credores apenas um terço da
dívida nominal, obteve um financiamento de três bilhões de dólares da
Venezuela e lançou o país num processo de crescimento anual de 8% até
2008. Foi considerado um pária pelo FMI e seus agentes. Quando morreu,
em 2010, o mesmo FMI, com inaudita hipocrisia, elogiou-o pela coragem
com que assumira os interesses do país e relançara a economia.

Em Portugal, um país integrado na UE e com líderes treinados na ortodoxia
neoliberal, não é crível que o adversário credível possa surgir por via
institucional. O corretivo terá de ser europeu e Portugal perdeu a
esperança de esperar por ele no momento em que o PSD, de maneira
irresponsável, pôs os interesses partidários acima dos interesses do país.

A segunda via é extra-institucional e consiste na rebelião dos
cidadãos inconformados com o sequestro da democracia por parte dos
mercados financeiros e com a queda na miséria de quem já é pobre e na
pobreza de quem era remediado. A rebelião ocorre na rua mas visa
pressionar as instituições a devolver a democracia aos cidadãos. É isto que
está ocorrendo na Islândia. Inconformados com a transformação da dívida de bancos privados em dívida soberana (o que aconteceu entre nós com o
escandaloso resgate do BPN), os islandeses mobilizaram-se nas ruas,
exigiram uma nova Constituição para defender o país contra aventureiros
financeiros e convocaram um referendo em que 93% se manifestaram
contra o pagamento da dívida. O parlamento procurou retomar a iniciativa
política, adoçando as condições de pagamento mas os cidadãos resolveram
voltar a organizar novo referendo, o qual terá lugar a 9 de Abril. Para forçar
os islandeses a pagar o que não devem as agências de rating estão a usar
contra eles as mesmas técnicas de terror que usam contra os portugueses.
No nosso caso é um terror preventivo dado que os portugueses ainda não se revoltaram. Alguma vez o farão?

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).


(Transcrito do site www.cartamaior.com.br) 




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Jogando com o planeta

Especialistas nas indústrias nuclear e financeira nos garantiam que as novas tecnologias praticamente eliminaram os riscos de catástrofes. Eventos mostraram que isso não era verdade: não apenas os riscos existiam como suas consequências eram tão grandes que elas facilmente superaram os supostos benefícios dos sistemas que os líderes dessas indústrias promoviam. Para o planeta há mais um risco, que como os outros dois, é quase uma certeza: aquecimento global. Se houvessem outros planetas para os quais pudéssemos nos mudar, alguém poderia dizer que o risco vale a pena. Mas eles não existem. O artigo é de Joseph Stiglitz. 

 

 

As consequências do terremoto japonês – especialmente a crise em andamento na usina nuclear de Fukushima – soam assustadoras para os observadores da crise financeira dos EUA que gerou a Grande Recessão. Ambos os eventos fornecem inescapáveis lições sobre riscos e sobre quão mal mercados e sociedade podem gerenciá-los.

Claro, por um lado, não há comparação entre a tragédia do terremoto – que deixou mais de 25 mil mortos ou desaparecidos – e a crise financeira, à qual não há como atribuir tal sofrimento físico agudo. Mas quando se trata do derretimento em Fukushima, há um tema em comum nos dois eventos.

Especialistas nas indústrias nuclear e financeira nos garantiam que as novas tecnologias praticamente eliminaram os riscos de catástrofes. Eventos mostraram que isso não era verdade: não apenas os riscos existiam como suas consequências eram tão grandes que elas facilmente superaram os supostos benefícios dos sistemas que os líderes dessas indústrias promoviam.

Antes da Grande Recessão, os gurus da economia dos EUA – do chefe do Federal Reserve aos titãs do setor financeiro – alardeavam que havíamos aprendido a dominar os riscos. Instrumentos financeiros “inovadores” como derivativos e credit default swaps permitiam a distribuição dos riscos através da economia. Sabemos agora que eles não apenas enganaram a sociedade, mas até a eles mesmos.

Acabou que esses magos das finanças não entendiam de riscos intrínsecos, o que dizer então dos perigos de distribuição de probabilidades de fat-tail – um termo estatístico para eventos raros com consequências enormes, que por vezes são chamados de “cisnes negros”. Eventos que se espera que aconteçam uma vez a cada século – ou uma vez durante toda a existência do universo – parecem acontecer a cada 10 anos. Pior, não apenas a frequência desses eventos foi amplamente subestimada, também o foram os estragos astronômicos que poderiam causar – algo como os derretimentos que seguem causando problemas à indústria nuclear.

Pesquisas em economia e psicologia nos ajudam a compreender por que da nossa incompetência em gerenciar esses riscos. Temos uma pequena base empírica para julgar eventos raros, portanto é difícil de se fazer boas estimativas. Sob tais circunstâncias, mais que apenas desejo pode entrar na equação: há poucos incentivos para pensar. Pelo contrário, quando os outros arcam com os custos dos erros, os incentivos favorecem a auto-ilusão. Um sistema que socializa as perdas e privatiza os ganhos está condenado a gerenciar mal os riscos.

Todo o setor financeiro estava tomado de problemas externos. Agências de classificação de risco tinham incentivos para fazer boas avaliações a títulos de alto risco produzidos pelos bancos de investimentos que as estavam pagando. Os criadores das hipotecas não sofreram as consequências de suas irresponsabilidades, e mesmo os que se envolveram em empréstimos predatórios ou criaram e venderam títulos fadados a perder o fizeram de maneira a protegê-los de responsabilidades civis e criminais.

Isso nos leva à próxima questão: existem outros “cisnes negros” esperando para acontecer? Infelizmente, é bem possível que alguns dos grandes riscos que enfrentamos hoje não sejam nem mesmo raros eventos. A boa notícia é que tais riscos podem ser controlados com baixo ou mesmo sem custo algum. A má notícia é que ações nesse sentido enfrentam uma forte oposição política – há pessoas que lucram com o estado das coisas.

Nós vimos dois grandes riscos nos anos recentes, mas pouco foi feito para controlá-los. Segundo algumas versões, a forma como a crise foi gerenciada pode ter aumentado o risco de um futuro desastre financeiro.

Bancos grandes-demais-para-falir, e os mercados dos quais eles participam, agora podem supor que serão resgatados caso estejam com problemas.

Como resultado dessa falência moral, esses bancos puderam negociar empréstimos em termos favoráveis, dando a eles uma vantagem competitiva baseada não no desempenho superior, mas na força política. Enquanto um pouco dos riscos excessivos diminuíram, o empréstimo predatório e as negociações obscuras e desregulamentadas e os derivativos negociados “por baixo do balcão” continuam. O incentivo às estruturas que encorajam a tomada de riscos continua sem mudanças.

Do mesmo modo, enquanto a Alemanha fechava seus reatores nucleares mais velhos, nos EUA e em outros lugares, mesmo as usinas com o desenho idêntico das de Fukushima continuam a operar. A existência da indústria nuclear depende de subsídios públicos escondidos – custos carregados pela sociedade no caso de um desastre nuclear, assim como os custos do ainda não resolvido lixo nuclear. Tanto para o capitalismo sem restrições!

Para o planeta há mais um risco, que como os outros dois, é quase uma certeza: aquecimento global e mudança climática. Se houvessem outros planetas para os quais pudéssemos nos mudar a um custo baixo no evento previso por cientistas com quase certeza, alguém poderia dizer que é um risco que vale a pena. Mas eles não existem, portanto não vale a pena.

Os custos de reduzir as emissões são pálidos em comparação aos possíveis riscos que o mundo enfrenta. E isso é verdade mesmo se desconsideramos a opção nuclear (cujos custos sempre foram subestimados). Para ter certeza, empresas de petróleo e carvão iriam sofrer, e países poluentes – como os EUA – iriam obviamente pagar um preço maior do que aqueles com um estilo de vida menos extravagante.

No fim das contas, aqueles que apostam nos cassinos de Las Vegas perdem mais do que ganham. Como sociedade, estamos jogando – com os grandes bancos, com as grandes usinas nucleares, com o planeta. Como em Las Vegas, uns poucos sortudos – os banqueiros que colocaram nossa economia em risco e os donos das empresas de energia que colocam o nosso planeta em risco – podem se dar bem. Mas em média e quase com toda certeza, nós, como sociedade, assim como todos os apostadores, iremos perder.

Essa, infelizmente, é a lição do desastre do Japão que iremos continuar a ignorar.

(*) Economista, professor da Universidade de Columbia e prêmio Nobel de economia de 2001.

Tradução Wilson Sobrinho


(Transcrito do site www.cartamaior.com.br) 








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