09 novembro 2014

OS ESTÍMULOS DA PF

Outras dívidas eleitorais


Por Janio de Freitas, na Folha
Pela quarta vez, o estímulo procedente da Polícia Federal para as tendências do eleitorado não resultou. E as investigações desses estímulos, também não.
Logo depois de definidos os disputantes do segundo turno, os três passageiros de um táxi aéreo foram presos pela PF ao descerem no aeroporto de Brasília. Revistados, dizia o primeiro noticiário que um tinha R$ 80 mil, outro levava R$ 30 mil, e R$ 6 mil o terceiro. Esse total de R$ 116 mil foi baixando nos dois ou três dias em que ainda houve noticiário a respeito. Os três voltavam de Belo Horizonte, onde haviam trabalhado na campanha de Fernando Pimentel.
Fernando Pimentel? Petista. Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, empresário gráfico que levava a maior quantia, havia produzido material impresso para a campanha petista e em 2010 fora interrogado pela PF, a pretexto de um tal dossiê que seria elaborado em Minas contra José Serra.
E o crime de agora? Nenhum. Não é ilegal transitar com dinheiro de procedência legítima, voltando os três de atividades remuneráveis. Bem, um inquérito ia verificar se, por acaso, não se tratava de lavagem de dinheiro. E, para isso, por que precisariam ir três, levando quantias tão diferentes, e pagando um táxi aéreo para levar soma que não justificaria a despesa? Sem resposta.
Mas a PF teve a gentileza de cometer uma imprudência sugestiva de armação. Com as informações da prisão no aeroporto de Brasília, alguns jornais e TVs exibiram uma foto do embarque de Benedito no avião em Belo Horizonte. Autor, aquele nomezinho quase ilegível que os jornais grudam nas fotos? Nenhum. A foto foi fornecida às redações para acompanhar a notícia de prisão dos três petistas portadores de dinheiro dado como suspeito. Não houve uma ação preventiva da PF em Brasília. Houve uma armação começada em Belo Horizonte, passada à imprensa e à TV como um fato bem sucedido da PF. E com implicações políticas e eleitorais.
Faz um mês que o assunto apareceu e desapareceu. Se a própria PF interveio na PF e esvaziou o balão, não precisa fazer cerimônia. Pode informar a população sobre o que foi aquilo e sobre o inquérito. Fará bem à sua imagem e ninguém pedirá punição de policiais. Como não foi pedida quando daquele dinheiro "achado" em São Luís. E do dinheiro "achado" no caso dos "aloprados" (este, com a colaboração dramatúrgica do Ministério Público Federal). E do "dinheiro cubano" também "achado", antes de enriquecer a campanha de Lula, em caixa de bebidas dirigida a um diplomata cubano.
Se a investigação continuou, hipótese pouco atraente, a PF deve à sociedade as informações a respeito. Afinal de contas, foi da PF que saíram as informações e a foto destinadas ao eleitorado que se voltava para sua decisão do segundo turno. Já basta a dívida imensa da PF com o seu silêncio antidemocrático sobre os epílogos daqueles três casos. A população precisa e quer ter confiança na PF.
Por esse mesmo motivo, mas também por outros, a pesarosa morte de Eduardo Campos não justifica que a Polícia Federal não esclareça as zonas escuras de onde saiu, para a campanha eleitoral, o jato da fatalidade. O começo da busca de explicação, nas primeiras semanas depois do desastre, sustou-se deixando apenas estranhezas. Está aí a direção do PSB enrolada com esse assunto, que prometeu deixar limpo em sua prestação de contas à Justiça Eleitoral, e mais complicou ao prestá-la sem dar conta do avião e seu uso. Diz que depende da Anac, mas não é de quilômetros voados que se trata. E a Polícia Federal sabe disso.
 
(Extraído do Jornal GGN)
 
 

SOZINHA NA RAIA

É a direita, estúpido


Alberto Dines, no Observatório da Imprensa



Criada em 1992 por James Carville, estrategista da campanha de Bill Clinton, a expressão “It’s the economy, stupid” servia como lema interno dos apoiadores do quase desconhecido candidato democrata que enfrentava o presidente republicano George H. W. Bush responsabilizado pela recessão daqueles tempos.
Deu certo: o apelo logo se tornou slogan da campanha que levou Clinton à Casa Branca, popularizou-se e hoje, apesar da entonação grosseira, a palavra de ordem vale para qualquer situação em que seja necessário realçar algo crucial.
Na terça-feira (4/11) o Axioma Carville travou, deixou de ser infalível. Os Estados Unidos se recuperam lenta e firmemente do estouro da bolha imobiliária que produziu em 2008 a maior crise econômica desde o fim dos anos 1920 com vastas e dramáticas implicações globais. Desemprego e déficit caíram pela metade, diminui rapidamente a intervenção federal em empresas, bancos e no próprio sistema financeiro.
A economia oferece repetidos e inequívocos sinais de recuperação, o que não impediu que o democrata Barack Obama sofresse uma surra histórica: os republicanos aumentaram o controle sobre a Câmara de Representantes e tomaram dos democratas a maioria do Senado. Sem o suporte legislativo, Obama terá que recorrer ao limitado e vulnerável arsenal de ações executivas e, principalmente, negociar com a oposição.
Sozinha na raia
Eleições intermediárias funcionam como um implacável e paradoxal referendo: por um lado, favorecem as abstenções (na terça-feira, dois terços do eleitorado não votou), enquanto o partido do ocupante da Casa Branca quase sempre sai estraçalhado. O pêndulo vingador já encostou na parede campeões de voto à esquerda e à direita: Ronald Reagan, Bill Clinton e George W. Bush. Porém, a maldição do segundo mandato foi mais arrasadora com Obama graças a um trinômio de singularidades: é negro, é progressista, é um político coerente com seus princípios.
As minorias ficaram em casa enquanto a maioria antiobamista descarregou nas urnas os seus diferentes ressentimentos contra aquele que consideram vacilante: os belicistas que exigem um enfrentamento com o ditador sírio Bashar Assad, com Vladimir Putin e um maior envolvimento no combate às milícias do califado, juntaram-se aos que não admitem qualquer reparo da Casa Branca à insana intransigência de Israel no tocante à criação de um Estado palestino.
A eles se agregam os que abominam qualquer preponderância do Estado – seja para oferecer assistência médica universal, controlar a venda de armas ou proteger o meio ambiente das crescentes agressões da indústria desregulada. Não admitem qualquer atenuação do boicote a Cuba e chegam ao absurdo de acusar Obama de ser soft on ebola(brando com os suspeitos de contaminação pela peste). Não tiveram coragem de manifestar seu arraigado racismo nas presidenciais de 2008 e 2012, mas não gostam do rigor do primeiro presidente negro diante dos excessos da repressão policial contra protestos de afro-americanos e latinos.
Os diferentes alinhamentos direitistas americanos se associaram para derrotar um presidente que procura conciliar sua atuação com suas crenças e convicções. Venceram-no e, diante da dimensão da façanha, resolveram humilhá-lo. A capa do tabloide New York Post, no dia seguinte ao pleito, teve o mérito de lembrar que o “jornalismo amarelo” (no Brasil é marrom) é made in USA.
O presidente Obama tornou-se para os americanos fanatizados pelo mercado e pelo individualismo, assim como para os assanhados direitistas do resto do mundo, a encarnação de um Estado solidário, garantidor da igualdade de direitos, de oportunidades e de bem-estar. Em outras palavras: comunista.
O pavor de ser considerado “de esquerda” é tão forte que nas recentes eleições brasileiras, o candidato Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), procurou apagar a sua imagem de socialdemocrata moderado preferindo ser tachado de neoliberal, monetarista, conservador.
Ao contrário do que acreditava Carville, o preocupante desempenho da economia não chegou a derrotar a candidata-presidente, Dilma Rousseff. Porém os temores e a insegurança de Aécio Neves deixaram sua rival como dona absoluta da praia progressista.
 
 

08 novembro 2014

AVISEM O AÉCIO QUE ELE PERDEU A ELEIÇÃO

FHC é de doer


Maurício Dias, na Revista CartaCapital




Aécio Neves voltou à cena com o espírito de quem perdeu o governo, mas ganhou a eleição. Esse é um mote que alenta o sofrimento dos derrotados. No entanto, tentou salvar as aparências ao repudiar formalmente a truculência de setores da oposição manifestada nas redes sociais e em pequenos agrupamentos de rua. “Essas manifestações têm o nosso repúdio mais radical e veemente”, afirmou.
O lema dos estandartes exibidos, “Fora o PT, “SOS Forças Armadas”, entre outros, e o tom rancoroso dos discursos oposicionistas recusando o diálogo, proposto nas palavras iniciais de Dilma Rousseff após reeleita, não brotaram do nada.
A emoção dos eleitores foi fustigada. Isso incitou o velho ódio antipetista, despertado com mais força ao longo da campanha eleitoral de 2014. Ao contrário do que apregoa Aécio Neves. Ele tentou, por exemplo, tapar o sol com a peneira. Para o candidato derrotado na disputa pela Presidência, estaria havendo apenas “apropriação indevida de um sentimento livre da sociedade”.
As manifestações, no entanto, não surgiram de combustão espontânea. O tucano pede “respeito à democracia”, mas joga com um plano B para alterar a continuidade democrática. A oposição tucana conta, mais uma vez, com o tema corrupção. O foco é na Petrobras. “Não vamos deixar esse assunto arrefecer”, promete o tucano.
Em longa apresentação no Senado, em cerimônia articulada, com uma autoridade provocativa, condiciona o diálogo à investigação. A par disso, conta com uma nova CPI para investigar os políticos citados na delação premiada. Quase todos da base do governo.
O candidato derrotado não é o único a agir assim. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem papel até mais ativo nesse processo. Com pesar, porém sem surpresa, FHC mais uma vez lançou a palavra de ordem dos tucanos para o combate ao governo Dilma Rousseff.
Escreveu FHC: “Depois de uma campanha de infâmias, fica difícil crer que o diálogo proposto não seja manipulação”. Para ele, o PT errou ao colar em Aécio Neves o rótulo de “candidato dos ricos”. E não foi? As pesquisas de opinião sustentaram isso. Falta ao ex-presidente, neste momento, serenidade e comprometimento com a democracia que tanto prega verbalmente.
Ele ultrapassa os limites antes do comportamento político democrático do que da própria razão quando pretende a vitória de Dilma amparada “em pouco acima da metade dos votos” .
Insinua que a vitória de Dilma não foi convincente, embora 3,5 milhões de votos não deixem de ser expressivos. A presidenta seria reeleita mesmo que tivesse apenas 1 voto a mais.
FHC traz à memória a artimanha da UDN ao seguir os passos de Afonso Arinos de Melo Franco, que, em 1955, contestou a vitória de Juscelino Kubitschek, com o argumento, não previsto em lei, de que o vitorioso não alcançara a maioria. Perdeu.
Em 2005, após o estouro do chamado mensalão, Fernando Henrique lançou a proposta de que Lula não deveria mais disputar a reeleição. Outras vozes seguiram esse caminho. Sem sucesso. Em 2006, Lula disputou e ganhou do tucano Geraldo Alckmin. Na eleição seguinte, em 2010, o PT elegeu Dilma.
Entre os tucanos o papel de cada um está claro. Aécio espreita o caso Petrobras. FHC tenta debilitar a vitória de Dilma. Apesar disso, a razão, agora sim, diz que não passarão.
 
 

07 novembro 2014

UMA CRISE ESTRANHA

Jornalistas e 'marronzinhos' na imprensa


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



A semana que se encerra marcou uma mudança interessante na agenda da imprensa brasileira: reduziu-se o predomínio do tema corrupção, houve uma tentativa de emplacar na temática geral uma suposta tendência do governo petista para o estilo bolivariano de fazer política e, lentamente, equilibra-se o noticiário sobre economia.
O leitor e a leitora educados na arte de interpretar o discurso jornalístico se dão conta de que a mídia tradicional parece se dividir em dois blocos. Num deles, mais ruidoso e favorecido na composição das primeiras páginas, pontificam os pitbulls, a versão contemporânea dos “marronzinhos”, marionetes manipuladas pelo núcleo de opinião dos jornais para vocalizar a mensagem do dono. Para quem não se lembra ou não sabia, Marronzinho era o codinome de um jornalista de Osasco, na região metropolitana de São Paulo, financiado por candidatos conservadores para atacar oponentes nas campanhas eleitorais nos anos 1980. Os colunistas destemperados de hoje são os herdeiros desse jornalismo panfletário.
No outro bloco aparecem jornalistas especializados, economistas e outros profissionais que se dedicam a destrinchar a realidade nacional sob o ponto de vista de suas peculiaridades. De modo geral, o que distingue os dois grupos é o fato de que os pitbullsfalam de tudo, com uma linguagem desabrida, quase sempre ofensiva e grosseira, enquanto os integrantes do grupo dos especialistas tratam exclusivamente de seu ramo profissional.
A tentativa de emplacar a tese de que o próximo mandato da presidente Dilma Rousseff teria aspectos do conflituoso estilo venezuelano de governar foi levada até a entrevista coletiva concedida por ela e publicada pelos diários de papel nas edições de sexta-feira (7/11).
Na resposta a uma pergunta provocativa sobre o mote que a imprensa tentou emplacar nos debates políticos, a presidente ridicularizou a ideia de um “bolivarianismo brasileiro” e elogiou um texto do correspondente da Folha de S.Paulo em Caracas, Samy Adghirni (ver aqui), um repórter jovem com vasta experiência em conflitos como a Primavera Árabe e crises humanitárias.
Um crise estranha
O correspondente da Folha personifica, como alguns poucos, o tipo de jornalista que ainda pode reverter o processo de deterioração da imprensa no Brasil. No lado oposto, o campo dos arruaceiros da mídia, também se encontram profissionais de todo tipo, inclusive economistas, sociólogos, supostos filósofos e até um astrólogo. Algumas demissões ocorridas na Folha de S. Paulo nesta semana parecem abater uma parte desse contingente, o que pode significar muito ou nada, se imaginarmos que o diário paulista está preocupado em melhorar sua credibilidade e não apenas cortar custos.
A leitura crítica de qualquer um dos jornais de circulação nacional, na sexta-feira (7), pode induzir o cidadão ou a cidadã a concluir que a imprensa está sob um surto de esquizofrenia: de um lado, colunistas que repetem o discurso do catastrofismo; de outro, articulistas que demonstram não haver descontrole ou uma crise grave na economia brasileira. Entre um e outro grupo, algumas reportagens ajudam a refletir sobre onde estaria a verdade objetiva.
Descartando-se a exploração de dados parciais sobre o combate à miséria, que não sobreviveu à divulgação de indicadores do IBGE, o que temos é o seguinte: o desemprego caiu de 7% para 6,8% no segundo trimestre deste ano, mesmo com o crescimento da população ocupada. Na projeção de alguns especialistas ouvidos pela imprensa, o Brasil está muito próximo do pleno emprego. Também é interessante observar que dois terços das vagas foram criadas no Nordeste, onde também cresceu muito a formalização do emprego.
O leitor vira algumas páginas e se dá conta de que uma das maiores gestoras de finanças dos Estados Unidos levantou mais de US$ 2 bilhões para investimento na América Latina. Cerca de 60% desse montante será destinado ao Brasil, para aplicação nos setores de saúde, educação, infraestrutura logística e portuária, varejo, consumo e lazer. Outros fundos gigantes estão seguindo a mesma estratégia, apostando em projetos de longo prazo no Brasil e em outros países da região – entre os quais aqueles que a mídia brasileira chama de “bolivarianos”.
É possível que os ativos brasileiros estejam depreciados, o que atrai o investidor estrangeiro, mas o dinheiro real não parece contaminado pelo pessimismo das manchetes.
O irônico da história é que os pitbulls pessimistas agem contra os interesses do capital produtivo, que gera empregos e movimenta a economia.
 
 

O BESTEIROL ANDA SOLTO

Bolivariano, eu?

O besteirol anda solto a serviço do mofado elitismo golpista e exibe o atraso cultural do País
 
 
Mino Carta, na Revista CartaCapital
 
 
 
Pergunto aos meus botões, tomado pela dúvida: “Serei eu um bolivariano?” Em silêncio, me encaram entre atônitos e perplexos. Insisto: “Seria por leviandade, inconsciência, irresponsabilidade, ou por convicta adesão ideológica?” Respondem em coro, alto e bom som: bo-li-va-ria-no. Três vezes seguidas. Ao cabo, gargalham.
De fato, a situação criada pelos derradeiros ruídos e senhas da política nativa seria simplesmente cômica se não tivesse seu lado dramático ao exibir primarismo, ignorância, grosseria, juntamente com arrogância e prepotência. Não disse trágico porque a tragédia tem outra dimensão, outra imponência em relação ao drama. Em todo caso, no palco estamos credenciados à encenação da farsa, ou da ópera-bufa.
Entre as personagens na ribalta, grandioso o desempenho de Gilmar Mendes, a prometer em memorável entrevista de página inteira na Folha de S.Paulo de segunda 3 a iminente transformação do STF em corte bolivariana. O que ele teme é a chegada ao Supremo dos novos integrantes nomeados por Dilma Rousseff, esquecido talvez que outros indicados anteriormente por Lula ou pela presidenta jamais aparentaram fé bolivariana.
O problema do STF é outro. Na cúspide da pirâmide da Justiça brasileira, representa-a à perfeição na sua mediocridade a serviço não da deusa vendada, e sim da casa-grande. É do conhecimento até do mundo mineral que no País só a choldra da senzala vai para a cadeia. O que está sempre em jogo são as consequências de três séculos e meio de escravidão, cujas raízes permanecem difíceis de extirpar. Quem defendeu a erradicação faz tempo era chamado de comunista, hoje a palavra mofada é substituída por bolivariano.

Estranho, muito estranho. Os caminhos da inclusão foram perseguidos pelo capitalismo nas mais diversas latitudes, em proveito da produção, ao sabor dos parâmetros éticos definidos por Adam Smith e cultivados por empresários, em primeiro lugar para seu benefício, do calibre de Henry Ford, o qual aumentava o salário dos seus empregados para habilitá-los a adquirir os carros fabricados por eles próprios.
Esta forma de sabedoria, ou de esperteza, não passou de mero esboço no Brasil, até o advento trágico, e aqui é tragédia mesmo, do neoliberalismo que se incumbiu de pô-la em xeque. Vale dizer que assistimos à negação do liberalismo, nascido da Revolução Industrial inglesa e da Revolução Francesa. Naquele contexto europeu, a Península Ibérica ficou isolada, de sorte a impedir que o Brasil, colônia portuguesa e refúgio de D. João VI, fosse alcançado pelo pensamento renovador. Já os países de colonização espanhola envolveram-se em regeneradoras guerras de independência, aquela que aqui não houve e nem poderia haver.
Não me desagradaria, muito pelo contrário, se um Bolívar campeasse na nossa história, em lugar, digamos, do Duque de Caxias. Nada disso, contudo, faz de mim um bolivariano, a partir da percepção de que o Brasil não precisa de um Chávez.
Em contrapartida, o Brasil não precisa de quantos entre os graúdos ainda sonham com o golpe. Não me refiro à patética passeata que recentemente percorreu ruas paulistanas, dividida na encruzilhada: derrubada manu militari ou impeachment da presidenta reeleita? Há mais senhores e senhores ainda reféns da mentalidade golpista do que imagina a nossa vã filosofia. O que não deixa de ser normal no país da casa-grande e da senzala, embora, na opinião de CartaCapital, tudo não passe de devaneio.

Grave, acabrunhador, é que não faltem entre quantos enxergam bolivarianos de tocaia atrás de cada esquina, prontos a devorar criancinhas como os comunistas de antanho, rentistas notáveis e pretensos intelectuais, de professores universitários a imortais da Academia. Uma nata da nata ou leite talhado? Servem apenas para provar o atraso cultural do País.
Arrisco-me a propor a fundação da Universidade do Humorismo Nativo, e logo me arrependo e volto atrás. Não me surpreenderia se a sugestão fosse aceita. Cuidado, recomendava Raymundo Faoro, refreie a sua ironia, eles vão entender que você fala sério.
 
 
 

04 novembro 2014

JOGO PERIGOSO

A Venezuela não é aqui


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



A mídia tradicional do Brasil está relegando a segundo plano a pauta da corrupção, que predominou durante a campanha eleitoral no rastro de reportagens, declarações, vazamentos e alguma ficção maquinada para alimentar debates e propaganda política.
A nova palavra de ordem da agenda que os jornais tentam impor ao campo político é: “bolivarianismo”. A expressão foi destacada na primeira página da edição de segunda-feira (3/11) da Folha de S.Paulo,em artigo do colunista Luiz Felipe Pondé e em entrevista do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, e ganhou as redes sociais na terça-feira (4).
No caso do articulista, pode-se arquivar o texto na “cesta seção”, onde um dia os arqueólogos do besteirol reacionário irão identificar os protagonistas que a imprensa classificava como “intelectuais” nas primeiras décadas do século 21. O problema cresce quando a imprensa se serve de um ministro da Suprema Corte para alimentar teorias conspiratórias.
O Brasil não é a Venezuela, não ocorreu no passado recente o advento de um líder caudilhesco que se possa comparar ao presidente Hugo Chávez, morto em 2013, e a política nacional inaugurada em 2003 com a ascensão da aliança liderada pelo Partido dos Trabalhadores não guarda a mais remota similaridade com o processo venezuelano.
O que há é um esforço de representantes do estrato mais conservador da sociedade para colocar o bode na sala e obrigar a presidente reeleita a negociar o bloqueio de qualquer projeto que se aproxime da regulação da mídia, nem que seja para cumprir o que determina a Constituição sobre a concentração dos meios de comunicação.
Assim age o cartel da imprensa: primeiro ameaça com uma crise por meio de boatos, especulações e meias-verdades, depois propõe a negociação. No caso que se evidencia nesta semana, trata-se de exacerbar os ânimos da massa de manobra que não aceita o resultado das urnas, com a tese de que a presidente vai transformar o Brasil numa ditadura em seu segundo mandato.
Por mais insano que possa parecer, esse é o mantra que vem sendo recitado na redação da revista Veja nos últimos dias. Os editores da revista dizem a quem quiser ouvir que estão empenhados em uma cruzada contra o fantasma de Hugo Chávez.
Jogo perigoso
A revista que já foi a joia da coroa do editor Victor Civita está preparando uma entrevista com um empresário venezuelano do setor de mídia para que ele diga como seria a imprensa num Brasil “bolivariano”. Depois das páginas amarelas de Veja, o conteúdo será reproduzido pelos jornais e provavelmente comentado pela TV Globo, no Fantásticoou noJornal Nacional.
Protagonistas ensandecidos como o colunista da Folha acreditam piamente que “está em curso um processo de destruição da liberdade de pensamento no Brasil”. Ele chama Dilma Rousseff de “presidente bolivariana reeleita”.
O leitor fiel e de boa fé da Folha de S.Paulo pode argumentar que essa é apenas uma das muitas opiniões no diversificado cardápio de leituras que o jornal oferece diariamente. Afinal, personagens assim destrambelhados podem trazer alguma graça ao cotidiano da imprensa, para temperar a sisudez de um Clovis Rossi ou um Janio de Freitas. Mas não é possível dissimular que se trata de um texto de encomenda, ou seja, que faz parte da estratégia de edição.
Senão, vejamos: o assunto foi levantado na segunda-feira (3) em entrevista do ministro Gilmar Mendes, mas qual seria a oportunidade para transformar o jurista em notícia, se nada o destaca entre seus pares neste momento? Se ele estivesse dirigindo o Tribunal Superior Eleitoral, haveria aí uma pauta natural, uma vez que o principal partido da oposição questiona oficialmente o resultado das urnas. Fora isso, entrevistar Gilmar Mendes é apenas uma manobra para colocar na boca dele o que os editores querem dizer: que em dois anos o novo governo deverá nomear novos ministros do STF, e Mendes e os jornais acham que isso irá transformar a Suprema Corte em um “tribunal bolivariano”.
Não importa o argumento segundo o qual um tribunal formado por maioria de ministros nomeados por governos petistas condenou à prisão a antiga cúpula do PT. A imprensa teme que o tribunal se torne permeável ao cumprimento da regra constitucional sobre a concentração da mídia. O objetivo da manobra é dar credibilidade ao desvario sobre intenções totalitárias da presidente da República.
Com os aloprados golpistas assanhados nas ruas, trata-se de um jogo muito perigoso.
 
 
 

INFRAÇÕES MIDIÁTICAS

'Ressaca eleitoral' e misturas pouco
recomendáveis


Alberto Dines, no Observatório da Imprensa



Sob o título “Em busca da verdade”, Veja tentou desfazer a sua mais recente imersão no jornalismo marrom às vésperas do segundo turno. Na edição seguinte (2398, com data de capa de 5/11/2014), na “Carta ao Leitor”, o semanário reviu suscintamente e tentou encerrar o episódio em que acusou a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula de saberem o que se passava na Petrobras.
A única prova apresentada para validar o libelo do doleiro-delator Alberto Youssef e justificar a publicação de um trecho está na frase “seu advogado em momento algum negou esse fato”.
Sofisma canhestro, pífio, mal-intencionado: o advogado está terminantemente proibido de negar, confirmar ou comentar o depoimento do cliente porque o caso corre protegido pelo sigilo. A pretendida busca da verdade anunciada pela direção do semanário é, portanto, enganosa, arrogante. Não resiste a uma apuração decente.
Infrações midiáticas
A publicação de um trecho da delação configura-se como difamação, tentativa espúria de influir no resultado de uma eleição. Pela sua gravidade não pode ficar à espera da conclusão das investigações sobre as malfeitorias da Petrobras porque envolve não apenas a credibilidade de Veja, mas da imprensa que acolheu um texto ainda em estado de calúnia.
A ombudsman/ouvidora da Folha de S.Paulo Vera Magalhães Martins revelou em sua última coluna (domingo, 2/11) que questionou a direção da Redação e foi informada de que a informação de Veja fora checada e confirmada por duas fontes, como se esta lacônica informação numérica fosse suficiente para validar uma acusação de tamanha gravidade (ver “Apuração por telefone sem fio”).
A Folha tem uma ouvidora e leitores aguerridos que, juntos, são capazes de manter a questão do desempenho da imprensa na pauta de discussões e angústias cívicas. Mas e O Globo, TV Globo, Globonews, Estado de S.Paulo, Zero Hora, que ainda não alcançaram esse estágio de transparência? Vão contentar-se em manter seus leitores, telespectadores e assinantes alheados de um questionamento que em sociedades desenvolvidas já estaria aceso?
E a legião de colunistas e opinionistas que emprestam seus ilustres nomes para avalizar o pseudopluralismo da chamada grande imprensa? Com a exceção de Janio de Freitas, naFolha, e alguns bravos blogueiros independentes, passados dez dias da votação a tal “ressaca eleitoral” ainda não incluiu as infrações midiáticas cometidas nesta temporada. Nem as outras que provocaram o súbito questionamento do instituto da reeleição, ao contrário do que aconteceu em 1998 e 2006.
Ressacas não tratadas podem produzir efeitos perversos.
 
 

LEILÃO E SABOTAGEM

Encontro contra


Janio de Freitas
Divisão por divisão –esqueceram aquela?– há uma que, sobre ser verdadeira, está sem o reconhecimento de sua importância e, no entanto, é decisiva para muitas das questões suscitadas com o resultado da eleição presidencial.
O PMDB tem agendadas para hoje duas reuniões contraditórias. Vice-presidente reeleito e presidente do partido, Michel Temer reúne governadores e outros eleitos, lideranças e ministros peemedebistas para considerações conjuntas sobre metas do PMDB e sobre projetos passíveis do apoio partidário, em especial a reforma política. Essa pauta da reunião é real, mas o que une todos os temas é a busca de unir também os presentes, contra a contestação a Temer, ou ao comando partidário em geral, organizada pelo deputado Eduardo Cunha, líder da bancada na Câmara.
Marcada a reunião no Palácio Jaburu por Michel Temer, Eduardo Cunha saiu com a represália: convocou os seus deputados para reunião também hoje. As aparências oferecidas por ele são de que age para defender o objetivo de eleger-se presidente da Câmara. Mas, antes mesmo de expor tal propósito, veio emitindo sinais de um plano de dissensão. Desde logo, por exemplo, com a condução da bancada em frequente oposição à linha do partido. Todos os assuntos pareceram ser-lhe úteis para ser visto como um problema em crescimento.
Eduardo Cunha entrará muito fortalecido na nova Câmara. Adotou uma igreja evangélica, que lhe assegurou votação extraordinária, obteve grande apoio financeiro para candidatos a deputado e não se limitou a ajudar correligionários diretos. É dotado de sagacidade muito aguda e de audácia que ainda não mostrou limite algum, ao impulso de ambições que se revelam sempre maiores do que o já espantoso.
A solução interna dos peemedebistas terá o mesmo significado para o PMDB e para o governo. O predomínio continuado do comando com Michel Temer e sua corrente levará à permanência do convívio peemedebista com Dilma Rousseff, com o governo e com o PT, sem maiores alterações. Incluída a composição em torno da eventual reforma política e de outras possíveis reformas. Esse peso decisivo do PMDB se refletirá, portanto, nas tendências do Congresso e, em particular, da Câmara semelhantes às atuais.
O êxito de Eduardo Cunha levará ao desalinhamento entre PMDB e governo, sem que daí se deduza o alinhamento à oposição. Ser disputado aumenta o valor. E o maior valor torna mais fácil abrir caminhos para o objetivo. É o que Eduardo Cunha tem feito, desde que surgiu, como do nada, recebendo de PC Farias já o cargo, com múltiplas utilidades, de presidente da telefônica do Rio.
A cara do Congresso que se instalará em 2015 está na dependência de como se decida a divisão do PMDB.
 
(Extraído do TIJOLAÇO)
 
 

A HORA É DE DILMA


Avançar na democracia é, primeiro,
afirmar a democracia


Fernando Brito, no TIJOLAÇO


dilmaposse
O aprofundamento da democracia política e social começa, é claro, pela defesa de sua existência contra a manipulação e o golpismo.
É claro que isso, em momento algum, se confunde com a ideia de “etapas estanques”, mas exatamente o contrário: a defesa das liberdades é a mais eficaz das formas de levá-la a avançar.
Por isso, o maior desafio do novo Governo Dilma é, num aparente pleonasmo, governar.
Afirmar o direito e o dever de implementar as ideias defendidas perante o povo brasileiro – e vitoriosas – é tarefa que deve começar já, sem prejuízo do diálogo necessário com as forças aliadas e com a oposição.
Durante uma semana os movimentos das forças políticas – deixado livre, como convém à democracia – foi marcado pelas manifestações de inconformismo e até de contestação da democracia, desde as insólitas manifestações fascistas de São Paulo ao jogo de chantagens que se desenhou no Congresso, não apenas com a busca do desacordo imediato como com as promessas de problemas futuros para a administração democrática do país.
Começa, agora, a fase dos gestos concretos do Governo que se inicia com um recado claro e indispensável à democracia: o de que a sociedade brasileira escolheu seus caminhos e estes caminhos serão trilhados.
Sem intransigências, sem exclusões, sem discriminações. Mas também sem tergiversar com a defesa de sua legitimidade e liderança no processo de condução do país.
E, além de se dirigir ao povo brasileiro com esta serena garantia, é importantíssimo que a Presidente designe os seus delegados para a interlocução com todas as forças políticas, de sua base – ou do que é, em tese, sua base – e os da oposição.
O governo novo, de idéias novas, começa pela adoção da ideia mais ausente no primeiro mandato: a da necessidade da comunicação política com a população, o de explicar-lhe claramente a necessidade de reconduzir o diálogo político aos níveis de convivência civilizada que grupos derrotados insistem em não aceitar e a adoção de algumas iniciativas objetivas para cumprir o que foi dito aos brasileiros no próprio “jingle” da campanha: O que está bom vai continuar, o que não está, a gente vai melhorar”.
Esta é uma tarefa essencialmente de Dilma, muito mais do que de Lula, do PT, e menos ainda dos aliados.
Ainda esta semana, ela deve falar ao povo brasileiro, indicando esta disposição invencível de exercer o mandato que lhe foi conferido, sempre com  a abertura ao diálogo com os partidos e com o Congresso e apontando suas primeiras medidas de correção dos problemas que o Brasil enfrenta, em meio a uma situação instável no mundo e saindo de um impiedoso ataque dos que fizeram do desaquecimento econômico, também, uma ferramenta dos seus interesses políticos.
É obvio que isso não será feito às pressas, até porque um governo eleito dita o ritmo de suas ações e não as adota no tempo e na forma em que o próprio acirramento das paixões as inviabilize e faça fracassar, por unilaterais.
Mas também não pode tardar, porque na percepção da opinião pública o segundo governo Dilma já começou, não é que vá começar no primeiro dia de janeiro, como seria com outro Presidente à frente.
Um dos acertos e causa da vitória presidencial nas eleições foi, justamente, o fato de Dilma ter rompido a posição defensiva de seu Governo e adotado como linha mestra o comunicar-se diretamente com a população.
Isso precisa seguir.
As forças de esquerda, que desejam mais avanço e aprofundamento do processo não estão criando nem vão criar qualquer problema para que Dilma assuma o comando, de fato, do processo político, sem as ilusões de que todos possam ser agradados, ainda mais num momento em que os ódios, insuflado pela mídia e por algumas lideranças tucanas, estão acirrados e, em alguns casos, tenham rompido mesmo as condições de qualquer interlocução.
Ao contrário, não apostamos nem no conflito nem no acirramento das tensões provocadas pelo gesto golpista dos que tentam invalidar a vontade popular e uivam, como lobos, por uma ditadura.
Sabemos que este tipo de autoritarismo, que quer nos dividir e nos fazer sangrar uns aos outros, transformando eleição em “guerra infinita” não tem chão para prosperar se o governo legítimo do país ocupar o terreno da política.
Mas é preciso que Dilma o assuma e certamente ela o fará no seu tempo, que não demora.
A hora, agora, é de Dilma.