12 janeiro 2011

SENHORA PRESIDENTA

Ela está preparada para um grande desempenho, a confirmar seu passado de cidadã e de figura pública. Por Mino Carta.Foto: Dida Sampaio/AE




Dilma aposta no Brasil e CartaCapital aposta em Dilma. Fomos os primeiros a enxergar nela a candidata petista à Presidência, desde quando, final do primeiro mandato de Lula, foi chamada a substituir José Dirceu na Casa Civil. Illo tempore o acima assinado mantinha um blog no qual, vezes sem conta, apontava na ministra a futura ungida de Lula. Sem falar dos editoriais. A partir do início da campanha eleitoral, CartaCapital declarou seu apoio à sua candidatura enquanto a mídia nativa alegava isenção ao apoiar desbragadamente José Serra. Só mesmo o Estadão teve a dignidade de dizer a que viera às vésperas do pleito. Parabéns.
A aposta no Brasil é óbvia porque fácil. O País hoje é emergente de extraordinárias potencialidades e no futuro próximo atuará na ribalta dos principais protagonistas. Quanto a Dilma, a mídia nativa esforçou-se para apresentá-la como criação de Lula, emanação, quem sabe títere. Trata-se da versão conveniente ao tucanato. Não é possível negar a ótima atuação dela nos ministérios que ocupou. Dilma pertence à categoria daqueles que sabem o que fazem. Será presidenta consciente dos alcances e das responsabilidades do cargo, sem exorbitâncias e com extrema competência. Ideias professadas com convicção revelam-se até na decisão, menor na aparência, de se chamar presidenta em lugar de presidente. A afirmação reivindica a condição da mulher, o detalhe está longe de ser insignificante. Nós usaremos o termo que prefere.
Que Dilma cultive ideias fortes não há dúvidas. Quatro passagens do seu discurso, no todo digno da ocasião, merecem especial destaque. Primeira: o claro empenho pelo desenvolvimento, com a certeza de consolidar o peso e a importância do País no cenário político e econômico mundial, o que passa, está claro, pela confirmação da política exterior independente inaugurada por Lula. Segunda: a opção, da mesma forma enfática, da opção pelo social, com a promessa da erradicação definitiva da miséria. Terceira: o empenho total contra a corrupção. Quarta: a referência, e não somente para bons entendedores, às prepotências e as agressões aos direitos humanos cometidas pela ditadura, da qual ela própria foi vítima. Firme na fala, composta e elegante no comportamento. Quem sabe, em vez dos marqueteiros, estejam agora ao seu lado companheiros mais chegados e menos pretensiosos.
O Brasil está pronto para receber Dilma e Dilma está preparada para guiá-lo. Sabe-se que a composição do governo sofreu, como era natural, a influência de Lula, mas nada impede que a atual formação venha a ser retocada pela mão independente de Dilma. Mesmo porque não pode ser descartado o risco de desentendimentos internos, como se deu entre a Fazenda e o Banco Central no governo anterior. E se Antonio Palocci se meter a contraponto de Guido Mantega? E se Nelson Jobim for tomado em demasia pelo espírito da farda?
Um ponto nebuloso diz respeito à extradição negada de Cesare Battisti. Entendeu-se que ao decidir à última hora, Lula quis livrar a sucessora de um problema mais ou menos cabeludo. O caso não está encerrado, contudo. O novo chanceler, Antonio Patriota, parece confiante quanto ao desfecho da questão. No entanto, como dizia Garrincha ao receber instruções a respeito da maneira de aplicar mais um dos seus dribles inebriantes: “Vocês conversaram também com o meu marcador?”
Por enquanto, a Itália – Estado, governo, partidos, Justiça – dá sinais de que pretende resistir à negativa brasileira, enquanto o presidente Giorgio Napolitano não se conforma com a decisão do “companheiro” Lula. “Pensei que ele tivesse entendido tudo quando conversamos durante o G-20 de L’Aquila”, diz Napolitano, ao se referir a um encontro de meses atrás.
A posição de Patriota e de Celso Amorim, de apoio ao “não”, causa alguma espécie: é sabido que o ex-chanceler inicialmente desaprovou a decisão a favor do asilo tomada pelo então colega da Justiça Tarso Genro. Não via razões para uma inútil e desgastante pendenga internacional. Não surpreende, porém, uma declaração otimista do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Acha que tudo vai dar certo, pois os italianos “são nossos irmãos”. A bem da verdade, não foi como irmão que o Brasil, nesta ocasião, tratou a Itália.
Cardozo, que sempre defendeu o asilo a Battisti, é o mesmo que participou de um jantar na residência do senador Heráclito Fortes juntamente com o colega de bancada Sigmaringa Seixas, promovido para que em santa paz pudessem encontrar-se o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos e Daniel Dantas, investigado pela Polícia Federal. O banqueiro orelhudo, pluricondenado no exterior e invariavelmente premiado com habeas corpus aqui na terra, acabava de fornecer à revista Veja um dossiê para provar que várias figuras do primeiro plano da República, a começar pelo presidente Lula, dispunham de contas secretas em paraísos fiscais.
O dono do Opportunity tem amplas condições de criar problemas, mesmo porque organizou um nutrido arquivo sobre as mazelas e os deslizes registrados nos bastidores do poder nos últimos 16 anos. O próprio Dantas deixou claros os seus alcances. Quando foi preso pela segunda vez em consequência da Operação Satiagraha ameaçou “contar tudo”, mas logo veio o segundo habeas corpus de Gilmar Mendes. A investigação e o destino de Dantas tornaram-se mais um caso inacabado.
Nesta grande área cabem com folga outros personagens na perspectiva da Copa de 2014. Dilma, no seu empenho anticorrupção, terá de ficar de olho nos próceres de cartola, como a raposa de Pinóquio.
No coquetel seguido de ceia que encerrou o dia da posse no Palácio do Itamaraty, a presidenta, ao receber convidados, deu a precedência, como manda a praxe, a chefes e representantes de Estado. Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, o organizador dos Jogos Panamericanos do Rio em proveito, inclusive, de seus familiares, bandalheira memorável, entrou na sala vip acompanhado por uma comitiva de apaniguados. A quem se surpreendeu, os seguranças garantiram: só entra chefe de Estado.






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