04 novembro 2014

MAUS PERDEDORES EXISTEM NO GAMÃO, NO FUTEBOL. E NAS ELEIÇÕES

Gilmar Mendes, o Lobão do STF


Laura Capriglione, em seu blog


Por mais uma dessas descomposturas a que o país parece estar se acostumando, agora é o ministro Gilmar Mendes quem vem apresentar seu soco inglês no corredor polonês pós-eleitoral. Em vez da contenção e do aprumo que esperaria quem não o conhecesse, “avisou e denunciou” que o STF(Supremo Tribunal Federal) corre o risco de se tornar uma “corte bolivariana" com a possibilidade de governos do PT nomearem 10 de seus 11 membros a partir de 2016.
Trata-se de uma aleivosia. Irresponsabilidade sem fim.
Quando os 2.500 nostálgicos da Ditadura saíram em passeata por São Paulo, clamando peloimpeachment da presidente Dilma Rousseff, legitimamente eleita pela maioria dos brasileiros, de Gilmar Mendes não saiu um só arrufo em defesa da democracia. Em vez disso, ele agora surge para ajudar a agitar o espantalho de um tal “bolivarianismo”, como se o Brasil estivesse prestes a se converter em uma ditadura de esquerda.
Está em companhia de gente como Lobão e Eduardo Bolsonaro, deputado federal eleito por São Paulo (PSC), que em discurso disse que se seu pai, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), fosse candidato a presidente, ele teria “fuzilado” a presidente. Preparado para isso o filho já mostrou que está: compareceu ao ato com uma pistola enfiada no cinto, como se no faroeste vivesse.
Isso pode?
Entre outras delicadezas, a turma implorou pela “intervenção militar”, mandou “Dilma para a Cuba que a pariu”, ameaçou petistas que encontrou pelo caminho. Nem o CQC, a Rede Globo, a “Folha de S.Paulo” ou “Estadão” escaparam. E, sempre muito bem educadinha, a malta carregou faixa com os dizeres: “Pé na bunda dela. O Brasil não é a Venezuela.” Ela, no caso, é a presidente, uma senhora de 66 anos, diga-se.
Maus perdedores existem no gamão, no futebol, no bingo. E nas eleições.
Contê-los é tarefa de quem tem interesse em ver o jogo –no caso, o democrático—prosseguir.
Eis por que é simplesmente repugnante ver um ministro da mais alta corte do Brasil repetir palavras-de-ordem que são um chamamento à ruptura do Estado Democrático e de Direito.
Como o ministro Gilmar Mendes sugere que se evite “a possibilidade de governos do PT nomearem 10 dos 11 membros” do STF? Cassando o direito de a presidente fazê-lo é uma das respostas. Cassando a própria presidente é outra. Estendendo a idade-limite para a aposentadoria dos ministros, dos atuais 70 anos para 75 anos, é outra.
Em todos os casos, o que se pretende é ganhar no tapetão a eleição que se perdeu nas urnas.
O descalabro da entrevista que o ministro Gilmar Mendes deu à “Folha de S.Paulo” e publicada na segunda-feira (03/11) não fica nisso. Ofendeu os demais membros do STF ao falar sobre os riscos de a mais alta instância do Judiciário se transformar em uma “corte bolivariana”, sugerindo que todos se curvariam mansamente aos ditames do Executivo.
Convenientemente, ele esqueceu-se de que no julgamento do mensalão foi um tribunal formado em sua maioria por ministros indicados por petistas o que condenou a antiga cúpula do PT…
Não há nada, contudo, que demova o agitador. Para demonstrar sua tese, Gilmar Mendes sacou a história do ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, condenado no Brasil a 12 anos e 7 meses de prisão por corrupção, peculato e lavagem de dinheiro no processo do mensalão. Pizzolato, como se sabe, ante a condenação, simplesmente fugiu para a Itália, onde por fim foi capturado.
Segundo Gilmar Mendes, exemplificando o risco do tal “bolivarianismo”, “já tivemos situações constrangedoras. Acabamos de vivenciar esta realidade triste deste caso do Pizzolato” [refere-se ao fato de a Justiça italiana ter negado a extradição dele para cumprir pena no Brasil pela condenação no mensalão].
Em seu afã de defender o indefensável, o ministro também atacou a Justiça italiana, ao acusá-la de tomar suas decisões movida por interesses alheios ao estrito cumprimento da lei. Seria “bolivariana” também a Justiça de lá? Nem Bolsonaro ousou tanto.
Se fosse pouco, Gilmar Mendes ainda se deu ao desfrute de comentar um caso que se encontra em fase de investigação, atropelando todos os ritos processuais. “Enquanto estávamos julgando o mensalão já estava em pleno desenvolvimento algo semelhante, talvez até mais intenso e denso, isso que vocês estão chamando de Petrolão. É interessante, se de fato isso ocorreu, o tamanho da coragem, da ousadia.”
Um apresentador de programa sensacionalista não faria diferente.
Por fim, como nunca poderia se tivesse o mínimo de apreço pela liturgia do cargo que ocupa, Mendes partiu para o bate-boca mais baixo, acusando o ex-presidente Lula de não ser um abstêmio: Será que ele “passaria no teste do bafômetro?”, indagou. Lula, para quem não sabe, não concorreu a nenhum cargo eletivo, não atropelou ninguém e nem sequer dirige automóveis.
Convenhamos, o Brasil merecia bem mais do que um ministro Lobão no STF.
 
 
 

03 novembro 2014

EFEITO IMEDIATO

A manipulação sutil


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



A observação diária da imprensa impõe um desafio que costuma levar pesquisadores a um grande dilema da racionalidade: a necessidade de observar os detalhes dos elementos de informação sem abandonar a consciência do contexto em que são apresentados.
A profusão de estudos de semiótica disponíveis há quarenta anos ajuda a fazer a análise semântica do discurso jornalístico, permitindo que se avance numa conexão mais profunda da palavra e outros signos com a realidade. Ainda assim, há sutilezas difíceis de constatar.
Por exemplo, se vamos observar um jornal como a Folha de S.Paulo, que supostamente propõe uma relação mais transparente com o público, não apenas por abrigar opiniões aparentemente díspares, mas principalmente pela instituição do ombudsman, é preciso ir além dessa diversidade formal e descobrir o viés predominante por baixo da suposta liberdade de opinião. A conclusão pode surpreender o leitor que se satisfaz por encontrar, aqui e ali, um texto que parece andar na contramão da corrente predominante na imprensa nacional.
Ainda que o observador procure evitar citações ad nominem no exercício diário de analisar a imprensa, é preciso definir que, no caso da Folha, os dois nomes que cumprem esse papel são Janio de Freitas e Ricardo Melo, sendo que este protagoniza mais explicitamente o confronto com os autores do discurso conservador, que são maioria na rotina do jornal.
O que se está a propor, aqui, é que a presença desses dois articulistas não faz da Folhaum jornal mais diversificado e equilibrado do que os outros. Apenas mostra que a Folha é mais sutil, mas igualmente reacionária, e a instituição do ombudsman serve como um salvo-conduto para a manipulação.
O discurso da coluna que deveria funcionar como uma espécie de ouvidoria do leitor segue rigorosamente o mesmo padrão: começa reconhecendo um suposto erro do jornal, de preferência relacionando-o a um equívoco ou manipulação da fonte; depois, faz um pequeno histórico das dificuldades de apuração ou de certas intercorrências no trabalho jornalístico, e finaliza com a crítica propriamente dita. O final é quase sempre uma ambiguidade.
Efeito imediato
Em geral, o leitor fica com a sensação de que o jornal está praticando uma autocrítica que, no conteúdo, confirma aquilo que ele, leitor crítico, já havia constatado. O cidadão, digamos, intelectualmente mais exigente, se sente contemplado. Mas é quase sempre um exercício de autoflagelação: o cilício discursivo da Folha é apenas uma licença para voltar ao vício de sempre.
Veja-se, por exemplo, como a ombudsman aborda, na coluna de domingo (2/11), o factoide criado pela revista Veja na antevéspera da eleição presidencial e que foi reproduzido pela Folha no sábado (25/10), em manchete.
Segundo a ouvidora (ver aqui), a busca do furo e do protagonismo jornalístico fez os jornais esgarçarem seus critérios durante a campanha eleitoral, “dando enorme publicidade a acusações que só poderão ser comprovadas no futuro”. Daí vem uma série de ponderações sobre o caso da suposta denúncia do doleiro acusado no escândalo da Petrobras, e que foi usada pela imprensa para influenciar a decisão do eleitorado.
A justificativa oficial da Folha para publicar o factoide em manchete é de que “o jornal publica todas as informações que considera relevantes, independentemente do calendário eleitoral”. Mas, insiste a ombudsman, a ausência de fontes claramente identificadas facilita a manipulação da suposta declaração do denunciante.
O fato de que “as acusações só poderão ser comprovadas no futuro” tira qualquer legitimidade à manchete da Folha, pois seu efeito seria imediato e irremediável, mesmo porque, depois da eleição, veio a ser comprovado que, se o doleiro disse o que dizem que teria dito, estava apenas manifestando uma opinião, não apresentando uma acusação formal.
Os editores de Veja sabiam disso, ou melhor, produziram a declaração para usá-la como material de campanha política. O resto da imprensa aderiu porque segue o mesmo padrão do jornalismo partidário. Os editores da Folha não podem alegar inocência ou ignorância, ou não poderiam ser editores de um grande jornal.
A ombudsman cumpre seu papel. E os colunistas que, em minoria constrangedora, vociferam sua oposição ao viés predominante no jornal e na imprensa hegemônica, devem se sentir muito bem.
 
 

CINISMO OU DEMAGOGIA

Caro FHC: o senhor poderia dizer quais foram as mentiras ditas sobre Aécio?



Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo



 
FHC
FHC
Fernando Henrique Cardoso disputou com Lobão o papel de figura mais ridícula deste último final de semana.
Na minha opinião, ganhou.
Num artigo, FHC recorreu a um lugar-comum que vem sendo utilizado pela oposição, incapaz de analisar os reais motivos que a levaram a mais uma derrota nas urnas.
FHC falou nas “mentiras” da campanha petista. Na “descontrução” de Aécio.
Quais serão as mentiras?
Olhemos para trás.
O aeroporto de Cláudio, por exemplo. É mentira? É invenção?
Acabaram as eleições, mas espera-se que o caso não seja esquecido. Aécio tem que ser devidamente cobrado por ter torrado 14 milhões de reais de dinheiro público num aeroporto privado.
Que o novo governo de Minas tire do armário todos os esqueletos da era Aécio, a começar pelo aeroporto.
Era mentira que Aécio colocou dinheiro público, na forma de propaganda, em rádios suas? Aliás: essas rádios são uma mentira?
Como um político pode ter rádios – escondido dos olhares públicos, aliás – e ao mesmo tempo falar em decência e ética?
Era mentira o nepotismo desenfreado de Aécio, simbolizado em Andrea Neves?
Agora: mentira, neste capítulo, foi o uso por Aécio, num debate, do irmão de Dilma, o modesto, o discreto Igor.
Só depois das eleições, aliás, o Estadão mostrou quem é Igor. É uma espécie de Mujica, até no carrinho velho.
Era mentira que Aécio, aos 17 anos, ganhou do pai deputado um emprego que deveria levá-lo a Brasília ao mesmo tempo em que estudava no Rio?
Era mentira que aos 25 anos ele foi nomeado diretor da Caixa por um primo que era ministro? Justo Aécio, que não cansou de falar em meritocracia e aparelhamento.
Vamos ao próprio FHC.
Era mentira que houve compra de votos no Congresso para a aprovação da emenda que permitiu sua reeleição?
Mentira é mentira. Não adianta FHC tentar chamar verdades de mentiras.
Mentira mesmo é dizer, como Aécio fez, que pesquisas mostravam que ele estava dando uma surra em Dilma em Minas com base em números que ele sabia serem enganosos. O dono do instituto revelou que avisou. O estatístico também.
Mentira também foi a tentativa canhestra de usurpação de programas sociais como o Bolsa Família.
O PSDB tem um problema dramático. Não tem causa. Virou um grande conglomerado de direita.
Mesmo com o apoio de todo mundo – mídia, Marina, Eduardo Jorge etc etc – apanhou.
É um partido que tem muito mais passado que futuro.
Os tucanos teriam que se reinventar, mas quem poderia fazer isso?
Aécio? Pausa para gargalhada.
Alckmin? Pausa para mais gargalhada.
E então, na falta de ideias novas e líderes novos, aparece a desculpa da mentira.
Duvido, sinceramente duvido, que FHC, afinal um homem inteligente, acredita de fato que sejam mentiras as verdades que ele diz serem mentiras.
A isso – tratar verdades como mentiras sabendo que são verdades —  se dá o nome de cinismo. Ou, em política, demagogia.
 
 

ASSIM NÃO DÁ, DILMA!

SINAIS TROCADOS


André Singer (FSP)


Todo mundo sabe que Dilma Rousseff ganhou a eleição. Mas talvez não tenha ficado claro o suficiente qual foi a persona vencedora e o quanto pode prejudicá-la emitir sinais duvidosos a respeito do significado da vitória. A primeira semana depois do pleito foi cheia deles.
Para recordar. A propaganda da candidata realçou, desde o início, a face heroica da jovem Dilma. Engajada em opção armada, aguentou a tortura de maneira exemplar no fim dos anos 1960. Fez-se símbolo do que houve de mais corajoso na resistência de esquerda à longa noite ditatorial.
Em seguida, Dilma começou a ganhar a eleição quando escolheu combater Marina Silva pela esquerda. Diante do anúncio, feito pela então candidata do PSB em ascensão fulminante, de que daria independência ao Banco Central, o programa eleitoral da hoje ganhadora apresentou uma equação mortífera. BC independente equivaleria a entregar a instituição aos banqueiros e estes tirariam a comida do prato dos pobres.
Vale repetir. Marina caiu sob golpes de esquerda, os quais são até difíceis de apresentar e de explicar numa época de hegemonia neoliberal. Foi opção ousada; deu certo. A porta-voz da Rede Sustentabilidade ficou para trás e o coração valente prosseguiu.
A vitória final começou a ser construída quando, no segundo turno, Dilma e Lula escolheram mostrar o caráter de classe da candidatura Aécio. Não foi deslize Lula ter chamado o tucano de “filhinho de papai”. Outra vez, escolha arriscada – envolvia um tipo de radicalização ao qual o Brasil é pouco afeito. De novo funcionou: a antiga guerrilheira chegou à frente, raspando a trave.
Encerrada a contenda, no entanto, começaram a proliferar informações contraditórias a respeito das escolhas cruciais a serem feitas pela ex-jovem heroína. A primeira veio à tona menos de 24 horas após contados os votos. Dilma estaria em busca de um nome do mercado para ministro da Fazenda. Mas se era para entregar a política econômica aos banqueiros como justificar os ataques a Marina e Aécio?
No dia seguinte coube ao próprio BC protagonizar mais uma emissão atravessada de sinais. Para surpresa do próprio mercado, a diretoria decidiu aumentar os juros. Mas não era isso que se queria evitar? Dilma havia dito que o PSDB plantava “dificuldades para colher juros”. E agora?
Por fim, surge a informação de que o governo prepara um pacote com redução de gastos públicos para a semana que vem. Na campanha, Dilma disse que os tucanos só sabiam cortar, e que ela faria diferente. A presidente parece não ter percebido que os dizeres contam e que o preço de afirmar uma coisa e fazer outra é muito maior do que parece.
 
(Extraído do DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO)
 
 

02 novembro 2014

HAJA PERPLEXIDADE

'Estamos perplexos'


 
 
 
 
Os aspectos obscuros --e, enquanto o forem, também suspeitos -- em torno das alegadas acusações do doleiro Alberto Youssef a Lula e a Dilma Rousseff, publicadas por "Veja", aumentaram em número, em gravidade e no emaranhado.
 
O advogado de Youssef, Antonio Figueiredo Basto, negou a notícia de "O Globo", comentada em artigo aqui, segundo a qual as acusações foram feitas como "retificação" a depoimento anterior, respectivamente, nos dias 22 e 21 últimos. O jornal atribuíra o pedido de "retificação" a "um dos advogados" de Youssef, o que Antonio Basto também nega.
 
Ao fazer a retificação da "retificação", "O Globo" continuou sem identificar o tal advogado e sem informar a procedência da notícia contestada. O que não é incomum nem lhe acrescenta qualquer responsabilidade. Mas obscurece um pouco mais o caso. Porque na origem da informação incomprovada havia o óbvio propósito de complicar mais o episódio, dificultar sua elucidação.
 
Não foi a primeira intervenção negadora de Antonio Basto, nem a mais importante. E não muda em nada os aspectos que a Polícia Federal considera necessários investigar em inquérito. Por suspeitar de indução para que Youssef, preso e dependente de benefícios prometidos, mas ainda não formalizados, fizesse as acusações para influírem no eleitorado. Possível crime não incluído na atual delação premiada.

"O Globo" foi também o primeiro jornal a noticiar as acusações publicadas por "Veja" a 48 horas da eleição presidencial. No seu texto, dia 24, à pag. 5: "O advogado de Youssef, Antonio Figueiredo Basto (...) disse não ter conhecimento da informação citada pela revista". E dá a palavra ao advogado: "Eu nunca ouvi falar nada que confirmasse isso (que Lula e Dilma sabiam do esquema de corrupção na Petrobras). Não conheço esse depoimento, não conheço o teor dele. Estou surpreso -- afirmou Basto". Os parênteses nesse trecho são do jornal.
 
Mais: "Ele disse que Youssef prestou muitos depoimentos no mesmo dia [21] e que o doleiro estava acompanhado de advogados de sua equipe". Palavras de Antonio Basto: "Conversei com todos da minha equipe e nenhum fala isso [a acusação]. Estamos perplexos e desconhecemos o que está acontecendo. É preciso ter cuidado porque está havendo muita especulação".
 
Antonio Basto "nunca ouviu falar" nas acusações atribuídas a seu cliente. Entre "todos na sua equipe", "nenhum fala isso" (ter havido acusação). E, no entanto, como o advogado quis esclarecer ao negar a notícia posterior de "retificação" acusatória, "participam dos depoimentos a Procuradoria-Geral da República, delegados da Polícia Federal e agentes, além de um advogado de defesa".
 
O que essa explicação transmite é a confirmação da presença, sempre, do próprio Basto ou de advogado de sua equipe, portanto não se explicando que houvesse a acusação e nenhum deles soubesse dela. Tanto mais sendo acusação tão grave, em momento tão sensível. E, Basto esclarece ainda, cada advogado da sua equipe, nas audiências e depoimentos, "confere os documentos produzidos [o que implica leitura das declarações] e as assinaturas".
 
A retificação do dia 22, para incluir as acusações a Lula e a Dilma, não houve. E essas mesmas acusações no depoimento do dia 21, das quais a defesa "não ouviu nada" e "nunca ouviu falar" antes de servidas ao país pela imprensa?
 
A resposta profissional de Antonio Figueiredo Basto, como apareceu também na Folha da véspera da eleição, é que "não desmente nem confirma". Explica-se: mesmo o advogado, se disser mais do que "não ouviu falar", e fórmulas assim, estará violando o sigilo exigido para a delação premiada do cliente e anulando-a, não importa se confirma ou se nega o que quer que seja.
 
O noticiário político da Folha foi cobrado, internamente, para informar sobre a retificação do depoimento --a tal que não houve. Na verdade, procurou fazê-lo, mas, como respondido à cobrança, a retificação foi negada por dois agentes e por um dos advogados do caso. E é verdade que fui avisado disso, mas já perto das 8 da noite. Não houve como localizar em tempo o advogado, nem desejei sustar o comentário sobre a notícia de "O Globo" por entender que todo este assunto das acusações, e das circunstâncias em que apareceram, precisaria ser mexido até se conhecer o seu avesso.
 
*Janio de Freitas é jornalista e hoje colunista da Folha de S. Paulo. Trabalhou na revista Manchete, no Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Jornal dos Sports. Em 2002 recebeu a Medalha Chico Mendes de Resistência, prêmio entregue pela ONG brasileira Grupo Tortura Nunca Mais a todos aqueles que se destacam na luta pelos direitos humanos e por uma sociedade mais justa. 
 
(Extraído do Jornal GGN)
 
 

POLÍTICAS PÚBLICAS

A dura tarefa de Dilma 2 para pacificar a
área pública


, no Jornal GGN
O segundo governo Dilma Rousseff terá o desafio de não apenas unir o país, como a administração pública.
O estilo centralizador de Dilma 1 não envenenou apenas as relações com a sociedade civil, movimentos sociais e empresariais, mas também com a máquina pública. E terá que ser enfrentado por Dilma 2.
A partir de 2003 houve um intenso processo de reaparelhamento da máquina pública, com a volta dos concursos e a criação de novos quadros técnicos, à altura do desafio de gerenciar um país mais robusto e complexo.
Renovaram-se os quadros do Itamarati, criou-se a Controladoria Geral da República (CGU), melhorou a estrutura do Planejamento, do Desenvolvimento Social e dos demais Ministérios.
Simultaneamente, criaram-se diversas secretarias sociais – com status de Ministério ou abrigadas em Ministérios já existentes – que trouxeram o arejamento dos movimentos afirmativos para o centro do governo e do orçamento.
Manteve-se o pecado do enfraquecimento das agências reguladoras.
Paralelamente, houve inúmeros desafios novos, de novas políticas, novas práticas sendo ousadas, estimulando a jovem vitalidade dos novos quadros.
Esse movimento foi interrompido pela centralização excessiva do primeiro governo Dilma, em função da falta de experiência política da presidente.
Hoje em dia, o setor público é um mar de lamentações e desânimo. O Ministério da Justiça de José Eduardo Cardozo transformou a outrora orgulhosa Polícia Federal em uma organização cindida, magoada até os tampos. A belíssima estrutura da Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência) foi enfraquecida pela apatia de Cardozo.
Mas os problemas não se limitam à Justiça. Há uma revolta surda e generalizada em praticamente todas as áreas públicas, nos quadros técnicos do Tesouro e da Fazenda, na CGU, Itamarati, na área social.
Dilma 2 terá um enorme desafio de recuperar o apoio dos quadros técnicos do governo. E poderá matar dois coelhos com uma só cajadada: proponha grandes desafios e conceda autonomia para esses quadros pensarem, proporem e participarem da elaboração das políticas públicas.
 
 

O ESTADO TEM QUE PROTEGER A DEMOCRACIA

Os filhos da mídia foram protestar na Paulista

Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo


Louca cavalgada
Louca cavalgada
Os filhos da mídia foram neste sábado para as ruas protestar contra, bem, contra sei lá o quê.
Contra terem perdido nas urnas e, portanto, contra a democracia.
Disse “filhos”, mas poderia ter dito “vítimas”.
Porque em sua louca cavalgada antidemocrática eles foram intoxicados mentalmente pelo que a mídia deu nestas últimas semanas.
Eles pareciam saídos das páginas da Veja e dos comentários de gente como Jabor.
Pediam o impeachment de Dilma pelo caso Petrobras.
São os efeitos colaterais da capa criminosa que a Veja deu às vésperas das eleições.
Os manifestantes da Paulista tomaram aquilo como uma verdade indiscutível.
Isso mostra que é necessário aplicar uma punição exemplar à Veja. É uma tentativa de golpe branco fazer o que a revista fez – sem uma única prova – em cima de uma eleição tão disputada.
A Veja tem que enfrentar – rapidamente — as consequências do que fez. Ou vamos esperar que um lunático, inspirado pela revista, comece a matar petistas?
A mídia está também por trás do disparatado pedido de auditoria de votos feito pelo PSDB.
Os tucanos só fizeram isso por saberem que têm as costas quentes com a imprensa. Ou então se refreariam antes de atentar contra as instituições com um pedido tão esdrúxulo.
As dúvidas não resistem a um minuto de reflexão. Considere. O Datafolha deu, na véspera, 52% a 48% para Dilma. A diferença ficou nos decimais: 51,64% versus 48,36%.
A desconfiança nasce também, assinale-se, de trapaças do PSDB não devidamente cobradas pela mídia.
Aécio usou dados enganosos de uma pesquisa do instituto Veritás que lhe dava ampla vantagem em Minas, onde perdera no primeiro turno.
O dono do Veritás avisou que era um erro, ou crime, utilizar os números que Aécio brandiu publicamente, nos debates, contra Dilma. O estatístico também.
E mesmo assim Aécio não se deteve.
O que pensa um fanático antipetista quando vê uma coisa dessas? Num dia, numa pesquisa, seu candidato está ganhando amplamente em Minas. No dia seguinte, no mundo real, o candidato perde.
Farsa, é a conclusão.
E a frustração se converte em raiva depois que analistas afirmam que Aécio perdeu a presidência por causa dos votos que não teve em Minas.
Manifestações como a de hoje mostram como a sociedade está sendo agredida por uma mídia interessada apenas na manutenção de seus formidáveis privilégios.
Pensava-se que o ataque da mídia à democracia cessaria com as eleições.
Não cessou.
É hora de o Estado proteger a democracia, antes que seja tarde demais.
 
 

SUPERAR A AGRESSIVIDADE DA OPOSIÇÃO

O diálogo não basta


Maurício Dias, na Revista CartaCapital



Debruçado sobre o resultado das eleições para o Congresso, Senado e Câmara, o cientista político Fabiano Santos olha para os números tendo em perspectiva o segundo governo Dilma e se vê tomado de preocupação. Uma dobrada preocupação, diga-se, possivelmente refletindo no mundo acadêmico as mesmas inquietações sofridas pela presidenta, reeleita após uma disputa eleitoral duríssima.
“Dilma terá de cuidar com muito mais atenção das relações com o Parlamento. Mais especificamente com a Câmara dos Deputados”, acentua Santos, numa das salas do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde trata do tema com o pesquisador Júlio Canello.
À frente deles, na tela do computador, espalham-se números, porcentuais e votações obtidas pelos 28 partidos, incluindo os seis novos, representados na Câmara dos Deputados na legislatura de 2015. Com esse amontoado de informações Santos e Canello formaram, com a precisão possível, o cenário de governabilidade para Dilma, considerando as relações com o Congresso.
No Senado, a oposição será menor, porém, mais dura. Uma coligação de apenas 18 senadores certamente mais sintonizados.
“A vantagem numérica do governo no Senado pode ser compensada, do ponto de vista das estratégias e processo deliberativo, pelo peso político e experiência de nomes da oposição, como os do próprio Aécio Neves, de José Serra, Tasso Jereissati e Aloysio Nunes Ferreira”, lista Fabiano Santos.
Ao falar sobre a composição da Câmara, ele faz avaliação distinta. Acredita que “o menor peso relativo da coalizão de apoio a Dilma seguramente será revertido com a presença maior do que chamamos centro flexível, isto é, os partidos que não são marcadamente de direita e tendem a aderir ao governo por conta de acordos pragmáticos a um baixo custo para a operação do governo e do Estado em seu conjunto”.
A vitória parece não ter subido à cabeça dela, onde, aliás, estão registradas as crises no começo do primeiro governo. Havia então um quadro muito menos problemático do que agora. Dilma e seus “aliados”, como Renan Calheiros, senador pelo PMDB, já destoam quanto à proposta de reforma política.
Na Câmara, a coalizão do governo, a chamada base governista, cairá de 340 para 304. Ainda é grande e, pelo tamanho, igualmente fragmentada e unida apenas pelas benesses oferecidas pelo Executivo aos aliados.
Júlio Canello acredita que o adversário “seguirá enrijecido”. E explica: “A oposição poderá seguir em sua estratégia de adversário implacável. Para governar será preciso equacionar as agendas do PT e dos vários PMDBs”.
É o quadro que já se projeta nos estertores do atual Congresso.
O ex-presidente Lula foi um dos primeiros a tocar nessa “ferida”. Ele não esconde a preocupação e diz que a convivência de Dilma com o Congresso será agora “cada vez mais difícil”. Não é por outra razão que a própria presidenta pretende montar um núcleo para construir uma ponte com o Parlamento, conforme circula no mundo político. Faz sentido. Dilma, nas afirmações públicas feitas após a vitória, pontuou seguidamente a palavra “diálogo”.
Mas “diálogo” não parece ser fazer a mágica. Ou seja, superar a agressividade da oposição, capitaneada pelo PSDB.