23 março 2015

SITUAÇÕES DIFERENTES

O fantasma da UDN



Maurício Dias, na Revista CartaCapital






A reação conservadora e golpista mostrou a cara nas manifestações de rua no domingo 15 de março. Os números foram inflacionados, como, por exemplo, em São Paulo. De qualquer forma, o contingente de pessoas foi grande e espalhou-se por diversas capitais do País e algumas poucas cidades do interior.
Nessas marchas os participantes, com trajes verde-amarelos, tinham focos difusos expressados em cartazes e faixas de variados tamanhos e agressividade: o impeachment da presidenta Dilma, corrupção, apelo à intervenção militar imediata, agressão verbal ao PT e aos petistas, entre outras. Algumas senhoras sessentonas reviveram o movimento dos caras-pintadas formado pela juventude dos anos 90 do século passado. Lutavam, no ocaso da ditadura, por eleições “Diretas Já”. Hoje, o conjunto da obra, como constatam as palavras de ordem, convergia para um só objetivo, possível de ser traduzido pelo lema “Direita Já!”
Uma parte da imprensa debitou as manifestações na conta de um suposto esforço em “defesa da democracia”. Essa expressão, uma ofensa à história, estava nas páginas do jornalO Globo do dia seguinte, sustentada por uma manchete com números falsos, “Dois milhões nas ruas”, desmentidos por pesquisa do insuspeito Datafolha. O jornal carioca, valendo-se do “olhômetro” da Polícia Militar, afirmava que pela Avenida Paulista desfilaram 1 milhão de pessoas. A pesquisa reduziu tudo a 210 mil, número elevado, mas não gigantesco. Muito inferior, por exemplo, à histórica “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”.
Naquela ocasião, a população de São Paulo era menor e a aglomeração, que antecipou o golpe militar, foi calculada em 500 mil pessoas. Em 1964, O Globo estava também na vanguarda do reacionarismo. Apoiando, é claro.
Embora as situações sejam diferentes, é necessário manter acesa a luz amarela. Herdeiros da concepção udenista repetem hoje os antecessores de ontem. Em 1964, com apoio da esquerda doidivanas, tiraram a bandeira da democracia das mãos de um governo que tinha alta aprovação. Não adiantou. A sociedade os seguiu. Jango foi derrubado.

A oposição não tem proposta de um programa político-econômico alternativo ao dos governos petistas. Sem alternativa tornou a corrupção o centro dos problemas brasileiros. Alimenta-se de episódios como o chamado “mensalão”, uma tradução oportunista do que de fato ocorreu, a reprovável formação de caixa 2 comum a todos os partidos, e agora da corrupção de empreiteiros e alguns poucos funcionários da Petrobras.
Como se fossem “os puros”, pregam a ética cavalgando na promessa de acabar com a corrupção. Aspas retiradas do livro A Lei e a Ordem, de Ralf Dahrendorf, um sociólogo alemão de cepa liberal, inspirado nas reflexões “de magnífica ironia” da lavra de Heinrich Popitz: “Uma sociedade que revelasse todos os casos de desvio arruinaria a validade de suas normas (...) As normas não suportam a luz forte de um holofote, elas precisam de uma certa obscuridade”.
Em desespero por estarem fora do poder há 12 anos, e vai a 16, inconformados os opositores perderam o freio. Se a afirmação de Popitz for verdadeira, eles algum dia, mantidos na oposição, talvez proponham acabar com o Brasil ou entregá-lo ao Tio Sam.
 
 
 

VOLTANDO NO TEMPO

28 anos

Luis Fernando Veríssimo




Lembrando aquele tempo, o que me parece mais incrível é que eu tinha 28 anos. Como foi que eu passei pelos meus 28 anos sem me dar conta, todos os dias, do privilégio? A gente deveria poder voltar ao passado só para nos encontrarmos mais moços, nos darmos uma boa sacudida e gritarmos "Cara, isto nunca mais vai te acontecer! Você nunca mais terá 28 anos!". Descontado o susto que levaríamos ao ser atacados aos gritos por um velho desconhecido, o encontro nos alertaria para o valor daquela raridade - estar vivo e ter 28 anos!

É verdade que eu não tinha muitas razões para festejar a idade. Tinha uma razão para estar eufórico - minha mulher e eu ficamos noivos no dia em que assassinaram o Kennedy, e a caminho da loja para comprar as alianças éramos as únicas pessoas alegres na rua - mas, sem dinheiro e sem perspectiva de ganhá-lo, muitos motivos para estar preocupado com o futuro. E o País naquela agitação. O governo do Jango Goulart atacado por todos os lados, tentando sobreviver, e a oposição, a imprensa, radicais de direita e de esquerda competindo para encurtar sua sobrevida.

Casamos no dia 8 de março de 1964. Poucos dias depois houve a primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Milhares de pessoas foram às ruas protestar contra o governo, cujas "reformas de base" eram chamadas de comunizantes e uma ameaça à liberdade no Brasil. Alugamos um quarto e sala perto do Túnel Velho, em Copacabana. A janela do quarto dava para a rua Siqueira Campos, por onde ainda passavam bondes. Mas quem liga para o barulho de bondes (e para a agitação política) no começo de um casamento? E ainda por cima com 28 anos?

As marchas da família com Deus eram impressionantes. Você tinha a ideia de que o País inteiro se sublevava, com velas acesas contra o bolchevismo. E no dia 31 de março, os tanques puseram-se em marcha. Um hipotético esquema militar do Jango para resistir ao golpe provou ser mais hipotético do que se pensava. Jango foi deposto. E mesmo na chamada fase branda da ditadura que se instalava, sob o comando do marechal Castelo Branco, começaram as perseguições e as cassações. Minha tia Lucinda trabalhava no governo do Rio. Não tinha nenhuma atividade política, mas suas opiniões eram de esquerda, em contraste com o pensamento da maioria das suas colegas de repartição. Montamos um esquema, que esperávamos fosse mais confiável do que o do Jango, para ajudá-la a fugir, caso a coisa apertasse. Não foi preciso acionar o esquema - que foi minha única participação na resistência ao regime ditatorial, fora o ritual de ler as crônicas do Cony no Correio da Manhã todas as semanas.

Vivemos dois anos no apartamento sacudido pelos bondes da Siqueira Campos. Nossa primeira filha, a Fernanda, nasceu lá. Acostumada com o ruído dos bondes, é, até hoje, dos nossos filhos, o que tem o sono mais tranquilo. Minha condição econômica continuava a mesma: pouco dinheiro, menos perspectivas. O resultado foi que desistimos do Rio e fomos morar na casa do pai, em Porto Alegre. Prometi à minha mulher, carioca, que seria por pouco tempo, mas estamos em Porto Alegre há quase 50 anos. Estávamos lá quando veio o Ato Institucional n.º 5 e começou o período mais criminoso do regime militar.

Às vezes, penso naquela fase de nossas vidas, e da vida do País, quando morávamos no Rio. Me pergunto se aquelas pessoas que marcharam com Deus, e recolheram ouro, do qual nunca mais se ouviu falar, para ajudar o País, imaginavam que suas marchas cristãs e bem-intencionadas dariam no que deu. Li que nas recentes manifestações contra o governo Dilma surgiram faixas pedindo "intervenção militar já". E me senti, de novo, com 28 anos.




(Extraído do Blog do Miro (www.altamiroborges.blogspot.com.br)


21 março 2015

NOTÍCIAS IRRESPONSÁVEIS

A notícia tratada como se fosse um
quilo de batatas


Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa



A comparação parece despropositada, mas é justamente o que acontece com 99% das notícias publicadas na nossa imprensa. A gente só se dá conta desta relação absurda quando lê, ouve ou vê algo que nos toca diretamente, e sobre o qual conhecemos minimamente suas causas, consequências, prejudicados e beneficiados.
Isto aconteceu há dias com o fundador do Observatório da Imprensa, Alberto Dines, ao ser envolvido no escândalo HSBC por uma notícia tratada como se fosse um quilo de batatas. O texto publicado desprezou elementos básicos na avaliação de uma notícia – como a verificação de sua exatidão, situá-la no contexto humano, social, político e econômico, sem falar na obrigatoriedade de consulta aos envolvidos. O pior é que deslizes como este acontecem diariamente e a gente só se dá conta dos efeitos quando conhece os protagonistas ou as situações focadas na notícia.
A imprensa é um negócio e como tal gera um produto para ser comercializado. Nisso ela se aproxima do negócio de um produtor de batatas. Mas há uma diferença fundamental. Para vender batatas, o comerciante se preocupa prioritariamente com a aparência saudável do produto. Mas quem “vende” uma notícia ao publicá-la junto com anúncios não pode priorizar apenas o que é visível, e há uma razão central para isso.
Na maioria dos casos, uma notícia envolve pessoas que têm história, têm parentes, amigos e conhecidos, que ocupam ocupa uma posição social, têm uma reputação construída ao longo da vida e têm um futuro pela frente. Quando a notícia é tratada como um produto para venda, o repórter ou editor se preocupa basicamente com a sua aparência, ou seja, a capacidade de atrair a atenção do público e com isso levá-lo a ver também os anúncios pagos que sustentam o veículo jornalístico.
Não é fácil produzir uma notícia levando em conta todos estes fatores. Um jornal, revista, telejornal, página noticiosa na Web ou noticiário radiofônico são produzidos numa linha de montagem. Há prazos determinados, formatos obrigatórios, políticas editoriais a serem seguidas e prioridades operacionais a serem respeitadas. Tudo isso interfere na atividade de um repórter ou editor, que muitas vezes precisa dar mais atenção a esses fatores do que ao conteúdo da notícia.
Mas o jornalista tem uma responsabilidade inalienável que é a de saber que está tratando com pessoas, e não com batatas. Quando o profissional abre mão dessa diferença ele está renegando a sua própria profissão. As pessoas não compram jornal, revistas ou assistem a telejornais para comprar tubérculos, mas sim para saber o que pode afetar suas vidas, de forma positiva ou negativa. Comer batatas preenche uma necessidade fisiológica. Receber notícias atende a uma exigência do convívio social.
Uma notícia descontextualizada ou inverídica – noutras palavras, irresponsável – pode acabar em perda de vidas humanas, algo irreversível, ao contrário de uma intoxicação causada por um alimento estragado. Há centenas de tragédias humanas provocadas por notícias irresponsáveis, e sua consequência mais grave é que, quando isso acontece, os jornalistas raramente tomam conhecimento dos desdobramentos de sua falta de cuidado na apuração, redação e publicação.
Quando algum caso ganha notoriedade por conta das suas consequências, a culpa geralmente é atribuída ao profissional e ninguém se preocupa com o sistema que gerou a publicação irresponsável. O modo industrial de “fabricar” uma noticia e a preocupação com os seus resultados financeiros ou políticos estão na origem da maioria dos desvios éticos e sociais na prática do jornalismo diário.
A preocupação com o tratamento adequado de notícias se tornará ainda maior na medida que as redes sociais ocuparem espaços mais amplos como fonte de informação das pessoas. A reprodução viral de dados falsos, rumores alarmistas e boatos difamatórios tende a crescer, fora do controle da imprensa, num processo irreversível e que vai exigir muito mais do que novas leis e códigos. Todos nós teremos que ser protagonistas ativos na filtragem e contextualização de dados, fatos, eventos e notícias.
Aos leitores: O primeiro e o último parágrafos foram alterados para corrigir problemas na transcrição do texto original para a página do Código Aberto. Pedimos desculpas aos leitores.
 
 
 

O DISCURSO EM CIMA DO MURO

O mito das redações independentes



Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa




Uma das características mais representativas da imprensa brasileira na última década tem sido a homogeneidade dos pontos de vista que expõe claramente em seu conteúdo ou deixa implícitos na hierarquia de suas escolhas editoriais. A rigor, não há concorrência entre os grandes jornais de circulação nacional – e a liderança do Grupo Globo sobre as outras redes de televisão é aceita passivamente pelo setor, desde que sobrem fatias consistentes do bolo publicitário para todas elas.
Esse é um retrato básico do sistema da mídia, que serve para ilustrar como certas edições parecem ter sido planejadas numa única redação – e como expressões e mantras utilizados para defender determinados pontos de vista, criados por um colunista de um jornal, são imediatamente adotados por articulistas de outro jornal.
A homogeneidade do discurso, exercitada ao longo dos anos, faz com que as narrativas se tornem muito assemelhadas, e é isso que faz da imprensa brasileira uma força política considerável. Esse sistema precisa encontrar repercussão nas instituições e na sociedade – condição indispensável para manter seu valor percebido –, mas também necessita ser alimentado por verbas publicitárias para custear seu funcionamento.
A influência da mídia tradicional nas instituições vem sendo demonstrada há muito tempo e se reflete na manutenção de um estado permanente de crise no campo da política e de um viés sempre pessimista quanto à situação econômica do país. Sua influência direta sobre a sociedade, porém, foi colocada em dúvida no final do ano passado, quando a imprensa perdeu a eleição presidencial.
Por isso, as manifestações do domingo (15/3) precisam ser capitalizadas ao extremo pelos editores: elas consolidam o apoio de grande parcela das classes médias urbanas ao projeto de poder que move a imprensa.
O noticiário intenso sobre supostas consequências dos protestos, como uma improvável reforma ministerial, torna mais denso o protagonismo daqueles que foram às ruas tentar inverter o resultado da eleição de 2014. A pesquisa oportunista do Datafolha sobre a queda na aprovação da presidente da República (ver aqui), apresentada sem referência ao contexto que definiu as opiniões, tem esse propósito.
O discurso em cima do muro
Essa oportunidade de consolidar sua influência sobre parte da sociedade explica o grande interesse da mídia em fazer barulho em torno de um relatório não oficial sobre a política de comunicação do governo federal e, de certa forma, ajuda a entender o estremecimento causado pela demissão do executivo que durante doze anos comandou a área de comunicação da Petrobras.
As grandes empresas de mídia temem que a demissão do gerente da estatal, Wilson Santarosa, e uma possível substituição do chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Thomas Traumann, venham a produzir uma redução nos gastos com publicidade do Executivo e da Petrobras. Então, temos o cenário estranho no qual a imprensa agride continuamente o governo enquanto os responsáveis pela comunicação oficial, tanto no Planalto quanto na Petrobras, despejam rios de dinheiro em anúncios de duvidosa eficiência na mídia tradicional e patrocinam comédias de alto custo e baixa qualidade no principal grupo de comunicação do país.
Enquanto isso, o interessante projeto dos coletivos de cultura e a proposta de fortalecer as iniciativas de mídia regional e comunitária ficam às moscas.
Na sexta-feira (20/3), curiosamente, há uma ruptura na homogeneidade das escolhas editoriais dos principais diários. O Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo noticiam que a presidente Dilma Rousseff não vai fazer uma reforma ministerial, enquanto o Globo aposta na manchete: “Pressionada, Dilma fará mudanças no Ministério”. Essa suposta divergência, porém, não esconde o propósito das duas abordagens diferentes, que é provocar uma mudança na composição e na orientação do governo.
O projeto de poder apoiado pela mídia tradicional foi derrotado nas urnas, mas seus operadores não consideram que a eleição acabou. A imprensa brasileira não é uma instituição democrática e tampouco atua como um contrapoder dedicado a questionar o Estado, como defendem alguns. O sistema da mídia poderia ser esse contrapoder democrático, mas se comporta como uma instância na disputa direta do poder, que utiliza o jornalismo como instrumento de pressão.
O mito das “redações independentes” é apenas uma justificativa moral para discursos proferidos de cima do muro.
 
 
 

20 março 2015

É DE DAR DÓ

Confundir para convencer


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



As edições dos jornais de quinta-feira (19/3) tiram do anonimato o relatório que critica a política de comunicação do governo federal. Segundo a imprensa, o autor do documento seria o próprio ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Thomas Traumann. Ou seja, na versão que se discute publicamente, o ministro teria feito uma autocrítica devastadora e em seguida se ausentou do país, para atender a uma irmã que se encontra em tratamento médico nos Estados Unidos.
Esse roteiro se desenrola paralelamente à saída do ministro da Educação, Cid Gomes, que se demitiu após um bate-boca com parlamentares, durante discurso na tribuna da Câmara dos Deputados, e de novas revelações sobre as contas secretas na sucursal suíça do banco britânico HSBC (ver aqui).
No mesmo dia, a Folha de S. Paulo abre uma página inteira para o dono da empreiteira Engevix, envolvida no escândalo da Petrobras – trabalho caprichoso da assessoria de imprensa Andreoli MSL, que conseguiu plantar no jornal o discurso do empresário, segundo o qual os corruptores são apenas vítimas no esquema da corrupção.
Então, temos o seguinte quadro: o ministro destemperado, que havia feito comentários desairosos sobre o Parlamento, dizendo, em conversa informal com estudantes, que a Câmara abriga 300 ou 400 deputados achacadores, cria as condições para uma troca de cadeiras no governo.
O ministro da Secretaria de Comunicação é acusado de não saber se comunicar e a Folha, cujo diretor-presidente é suspeito de ser beneficiário de conta secreta no HSBC da Suíça, acaba contribuindo para a defesa do governo, do Partido dos Trabalhadores e do ex-ministro José Dirceu contra as acusações veiculadas nos últimos dias pela imprensa.
O leitor apressado, que busca o noticiário apenas para confirmar suas opiniões, vai se concentrar na manchete, no alto da primeira página: “Paguei propina de R$ 10 milhões na Petrobras, afirma empreiteiro”. Se tiver mais curiosidade, chega à página A-10, onde, sob o selo “Petrolão”, vai se deparar com o título da reportagem: “Aparelharam a Petrobras para achacar empreiteiras”.
O midiota típico vai se satisfazer com esses enunciados, e corre para os comentários no Facebook, a repetir o que acha que sabe.
É de morrer de dó
Mérito da assessoria de imprensa do empresário, que o preparou bem nas sessões de “Qs&As”, ou seja, treinamentos de entrevista, no jargão anglófilo da comunicação corporativa. Mas o leitor crítico, aquele que desconfia das manchetes, vai mais fundo e coleta nas declarações alguns pontos interessantes.
Um deles: “Nunca pagamos doação de campanha para ganhar contratos ou fazer obras”. Outra afirmação: “Nunca foi propina [o contrato com o ex-ministro José Dirceu]. Dirceu foi contratado pelo relacionamento que tinha no Peru, em Cuba e na África”. Uma terceira: “Era uma relação de lobby, nunca para pagamento de propina” [a contratação do lobista Milton Pascowitch, ligado ao PT].
 Resumindo a ópera: o empresário afirma que as empreiteiras não fazem cartel, apenas evitam competir com as empresas que já estão tocando obras em determinado setor, o que resulta numa espécie de mapeamento de territórios; não há superfaturamento, mas erros técnicos do Tribunal de Contas da União, que equipara operações diferentes, como asfaltar uma estrada e fazer uma pista de aeroporto; as diferenças de preço ocorrem por causa de projetos mal feitos, que são aprimorados no decorrer da obra. Por fim, segundo ele, as doações de campanha não têm relação com pagamentos extras por contratos da Petrobras.
O empreiteiro se coloca como vítima de um esquema de propina quase ingênuo: os contratos são ganhos por licitação, mas para receber em dia e ter aprovadas as medições que comprovam a realização do serviço, precisam pagar “taxa de facilitação”.
A entrevista pode ser comprada pelo valor da manchete – segundo o dono da Engevix, “os políticos aparelharam a Petrobras para arrancar dinheiro das empreiteiras”. Mas os aspectos mais interessantes estão nos detalhes.
Quem não se afogar em lágrimas de dó há de se perguntar: o que isso tem a ver com o relatório atribuído ao ministro-chefe da Secom e com a ruidosa demissão do ministro da Educação?
Nada.
Apenas parte da confusão que a imprensa costuma fazer para reforçar a tese de que o Brasil está mergulhado no caos político, num mar de lama e numa grave crise econômica. Trata-se de confundir para convencer.
 
 

19 março 2015

COMUNICAÇÃO ERRÁTICA

Uma pesquisa oportunista



Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa




Os principais diários de circulação nacional trazem na quarta-feira (18/3) duas reportagens valiosas para a análise da crise política. Numa delas, a Folha de S. Pauloapresenta um levantamento da popularidade da presidente da República, onde ela, evidentemente, aparece com alta taxa de reprovação. No outro assunto, tanto a Folhacomo o Estado de S. Paulo e o Globo citam um documento supostamente reservado, com uma análise extremamente negativa sobre a política de comunicação do governo federal.
A pesquisa Datafolha não pode ser considerada apenas em seus aspectos estatísticos. Aliás, embora o jornal dê toda ênfase aos números – que apontam o mais baixo índice de aprovação de um governante desde o fim do mandato de Fernando Collor de Mello –, o que importa aqui é a circunstância em que foram colhidas as opiniões. Os pesquisadores do instituto saíram às ruas precisamente nos dias 16 e 17, logo após as manifestações de protesto contra o governo – estimuladas pela imprensa –, o que, com certeza, condiciona um grande número de respostas.

Interessante observar também que o levantamento inclui perguntas sobre a situação econômica, que revelam igualmente um aumento do pessimismo, curiosamente numa circunstância em que o noticiário aponta perspectivas mais otimistas sobre a economia (ver aqui, aqui e aqui).
Evidentemente, as respostas sobre a avaliação da presidente sofrem forte influência das manifestações e da cobertura intensamente negativa feita pela imprensa no período. Da mesma forma, é ocioso afirmar que, no clima conflagrado, a perspectiva dos consultados sobre a situação econômica tenderia a ser a pior possível.
Para os observadores da imprensa, a quarta-feira produz um exemplo de como funciona o círculo de convencimento da mídia tradicional. Como se sabe, a Folha de S. Pauloestimulou a participação dos leitores nas manifestações do domingo, dia 15, oferecendo espaço em seu portal, o UOL, para fotos e vídeos dos protestos. A iniciativa foi copiada por outros jornais e portais da internet. Em seguida, o Datafolha sai a campo para referendar, com uma pesquisa oportunista, o que seria o ânimo da população com relação ao governo e à economia do país.

A comunicação errática
O outro assunto destacado pelos jornais – um estudo interno do Planalto sobre a crise política – é o reverso do quadro. Esse quadro mostra, de um lado, uma imprensa partidarizada agindo de maneira extremamente eficiente no processo de demonizar o grupo político que ocupa o Planalto e, do outro, um governo incapaz de produzir uma estratégia de comunicação minimamente funcional.
O próprio vazamento do estudo, apontado como um “informe interno”, revela a incapacidade do Executivo de sequer manter em território restrito documentos de seu interesse. Trata-se de um relatório não assinado (ver aqui), portanto anônimo e, por isso, possivelmente apócrifo.
O que fez com que os três principais diários de circulação nacional o aceitassem como um documento oficial? Evidentemente, o que dá credibilidade ao texto é sua fonte, ou seja, quem vazou o documento é reconhecido como alguém ligado ao governo.
A situação lembra um episódio ocorrido durante o governo do ex-presidente Lula da Silva, quando a Folha de S. Paulo publicou uma nota dizendo que havia um “espião” no Planalto vazando informações para a imprensa. Ora, conforme se revelou posteriormente, o “espião” era um funcionário de confiança da Secretaria de Comunicação, que havia feito carreira na própria Folha, e que se dedicava, em suas relações sociais, a contar anedotas sobre reuniões ministeriais e sobre o próprio presidente Lula.

Não é de hoje, portanto, que os governos do Partido dos Trabalhadores se veem em situação desconfortável diante da chamada opinião pública, por conta de uma comunicação amadorística, sem rumo e, quase sempre, vulnerável às manipulações da mídia tradicional. Nos três mandatos sucessivos da aliança que governa o país desde 2003, são raros os momentos em que a Secom deu demonstrações de ter uma estratégia coerente com o que se espera de um governo com o perfil petista.

O relatório que a imprensa reproduz diz que o Brasil vive “caos político”, conforme destaca o Estado de S. Paulo em manchete, e afirma que o governo produz uma comunicação “errática”.
Não se pode afirmar que se trata de um documento válido, ou se é parte de conspirações internas entre assessores da presidente. Mas a surra que o Planalto está sofrendo na disputa pelo apoio da população mostra que o autor do texto sabe do que está falando.
 
 
 

17 março 2015

ARROGÂNCIA, INSOLÊNCIA, PRETENSÃO, DESFAÇATEZ...

JORNALISMO TENDENCIOSO AMEAÇA SOBREVIVÊNCIA DO SISTEMA GLOBO



J. Carlos de Assis*

A Globo caminha para a quebra. Se isso acontecer será culpa quase exclusiva de seu Departamento de Jornalismo. É que se alguém quiser se aproveitar da situação para comprar a Globo encontrará a seu favor o mais arrogante, mais pretensioso, mais insolente grupo de “formadores de opinião” como nunca se viu antes na história deste país, e com poderes ilimitados. Isso porque os donos são ausentes ou incompetentes, e nada trava a libertinagem televisiva e jornalística que se enfia goela baixo do cidadão daqui e do exterior, todos os dias, num exercício jamais observado de manipulação política pela via da emoção.

Há dois patamares no caminho da Globo para o fracasso. O primeiro é o Jornal Nacional, ligeiramente mais discreto na sua cruzada diária pela desinformação. Conduzido por William Bonner, que lembra um propagandista de sabonete, traz sempre uma mistura bem preparada de fatos e emoção direcionada para a busca de telespectadores a qualquer custo, mesmo quando esse custo significa subverter a verdade. A distorção a favor dos ricos é limitada apenas pelo medo de perder audiência no horário nobre, na medida em que grande parte dela é de famílias pobres beneficiárias dos programas sociais do PT.

É no Jornal da Globo, contudo, que os noticiaristas e comentaristas da Globo saem do armário. Aí a manipulação da opinião pública passa a ser um jogo aberto. Começa com a figura burlesca de William Wack anunciando todas as pragas do Egito sobre o Brasil. Ele tem, como o JN, prazer em noticiar tragédias, coisas que comovem. Mas, com muitos graus de emoção sobre o Jornal Nacional, despeja na audiência, formada sobretudo por gente de classe média que não tem compromisso com horário no dia seguinte, o que essa audiência enviesada quer ouvir na sua sanha lacerdista de apelos hipócritas contra a corrupção.

Mas William Wack é um casca grossa: manipula o noticiário de acordo com suas preferências pessoais, acrescentando ao sabor da notícia deformada esgares de palhaço de circo. Cabe a Sardenberg um papel aparentemente mais sutil, como me observou Jânio de Freitas, o maior jornalista político do Brasil em atividade, já que ele é mais venenoso por divulgar os conceitos da economia política favoráveis aos ricos dentro de uma carcaça insidiosa de neutralidade técnica, como todo bom charlatão. Ele agrada aos poderosos e ao mesmo tempo engana os pouco pobres que resistem a assistir a tevê até de madrugada.

O Jornal da Globo tem, portanto, uma interação intelectual e moral afetiva com ricos e poderosos. Sua eficácia, conforme Marx, está no fato de que a ideologia da sociedade é a ideologia da classe dominante. Quando a classe dominante dispõe inteiramente da mídia, sem concorrência – porque, no campo da ideologia, a quase totalidade dos maiores jornais, revistas e tevês está do lado e de mãos dada com uma direita sórdida e indiferente aos destinos da sociedade -, o campo político fica inteiramente aberto, inclusive para golpes brancos.

Poderia continuar enchendo laudas e laudas de adjetivos contra a dupla do Jornal da Globo e contra outra dupla igualmente perniciosa para a democracia, os comentaristas do jornal Globo Míriam Leitão e Merval Pereira. Este não merece muita tinta, porque é apenas ignorante – na acepção semântica da palavra. Míriam, porém, como Sardenberg, é astuta. Passa a ideia de que sabe economia, quando o que realmente sabe é identificar economistas de direita, como ela, e dar-lhes espaço franco em sua coluna diária e … na Globo News.

O noticiário econômico brasileiro, de jornal e de tevê, está dominado por entrevistas e artigos de economistas de banco. Galbraith, com sua fina ironia, dizia que não se sentia à vontade para acreditar em opiniões econômicas de quem tem interesse próprio em jogo. A rede Globo e os jornalões, assim como as revistas semanais (exceto Carta Capital), apoia seu noticiário econômico em economistas de banco com o maior descaramento. Assim, são os economistas de banco que estão fazendo a cabeça de milhões de brasileiros sobre economia. Não admira que todos aplaudem entusiasticamente cada alta de juros.

Trabalhei anos na editoria econômica do Jornal do Brasil, de que fui subeditor, e jamais entrevistei um economista de banco. Trabalhei anos como repórter econômico da Folha de S. Paulo e jamais entrevistei, para publicação, um único economista de banco. Agora são esses economistas que dominam o noticiário econômico com seus próprios interesses. Acaso é esse tipo de liberdade de expressão e de opinião publicada que interessa ao Brasil? Ou é o momento em que se deve pensar em dividir o monopólio do Globo e fomentar um novo jornal no Rio para o Brasil?

P.S. Não é do meu estilo fazer ataques pessoais. Entretanto, o Sistema Globo foi dividido em três capitanias, uma para cada herdeiro, e as capitanias em sesmarias, cada uma sob o comando de um jornalista, no caso do Departamento de Jornalismo. Assim, não adianta falar, quando se trata de formação de ideologia, de um sistema global. É preciso identificar pessoalmente os donos das sesmarias jornalísticas, como procurei fazer. Não fosse tão grande o Sistema Globo, amainaria minhas críticas. Como é grande demais, e eu muito pequeno, ele pode perfeitamente suportar o choque! A propósito: por que raios as moças do tempo quase nunca dizem se as chuvas vão cair nos lugares certos para o abastecimento da população e das represas de hidrelétricas?



*Jornalista e economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre a Economia Política brasileira, dos quais o último é “A Razão de Deus”. 
 
(Extraído do CONVERSA AFIADA, de Paulo Henrique Amorim)
 
 

O que não está nos jornais?

A classe média vai ao paraíso



Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



 
Os jornais fazem nas edições de segunda-feira (16/3) o balanço das manifestações realizadas no domingo em todos os estados. A data coincide com os trinta anos da posse do primeiro presidente civil após a ditadura, e a imprensa usa esse fato para comparar os eventos de 2015 com os de 1985.
Jornalistas gostam de datas redondas. Não há qualquer relação possível entre o período da redemocratização após os anos da ditadura militar e o protesto contra um governo eleito democraticamente, mas a comparação serve para legitimar a adesão à campanha produzida pela mídia.
As divergências quanto ao número de participantes superam a casa das centenas de milhares: o Globo e o Estado de S.Paulo aceitam a avaliação da Polícia Militar, que viu 1 milhão de pessoas na região da Avenida Paulista, enquanto o Datafolha calculou a multidão em 210 mil. A curiosa dança dos números já havia acontecido na sexta-feira (13), quando centrais sindicais levaram à mesma avenida 40 mil pessoas, segundo o Datafolha, e apenas 10 mil, segundo a Polícia Militar.
No balanço sobre a cobertura da imprensa internacional, o Estado de S.Paulo observa que o jornal britânico The Guardian (ver aqui o texto original em inglês) destacou o fato de as manifestações serem compostas predominantemente por “pessoas brancas, de classe média”. Isso era o que mostravam as imagens transmitidas ao longo do dia pelas emissoras de televisão, principalmente Record, Band e RedeTV.
A Rede Globo manteve sua programação normal dos domingos, com transmissões mais concentradas no início da tarde, e deixou a cobertura mais intensa para sua emissora de notícias via cabo, a GloboNews.
Folha de S.Paulo, onde se anota que trata-se de “movimento de centro-direita”, encontrou dois negros – uma maratonista e um aposentado – em meio aos rostos brancos. Louve-se o grande esforço de reportagem.
Mas a personagem mais curiosa citada pelo jornal paulista foi Maria Isabel Fleury, de 83 anos, que pedia a volta do regime de exceção. Ela é viúva do delegado Sérgio Paranhos Fleury, “que ganhou fama como torturador na ditadura”, registrou a Folha.
Esse mosaico de personagens não resume a ópera, mas é um bom ponto de partida para entender o processo.
O que não está nos jornais?
Justamente o ponto central do acontecimento: a culminância do processo de convencimento das classes médias urbanas após anos de campanha cotidiana da mídia hegemônica. As entrevistas de manifestantes durante o ato e registradas pelos jornais na segunda-feira repetem refrões martelados pela imprensa ao longo dos últimos anos e intensificados após a vitória de Dilma Rousseff na eleição do ano passado.
Desde o advento da internet, a mídia tradicional vem se caracterizando pela concentração de suas atenções no cotidiano, abandonando gradualmente a contextualização histórica dos acontecimentos. No Brasil, esse processo coincide com o engajamento dos veículos ligados às empresas hegemônicas num discurso partidário cujo objeto é claramente demonizar as políticas públicas adotadas com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder central. Não é por acaso que a maioria dos entrevistados durante a manifestação, bem como as palavras de ordem dos incentivadores a bordo dos carros de som, expressavam a percepção da realidade insuflada pela imprensa.
A massa dos protestos estava dividida sobre os objetivos de sua presença nas ruas: segundo os relatos da mídia, havia até mesmo petistas infelizes com a condução do atual governo, misturados aos aloprados que defendem a volta da ditadura, mas a maioria parecia convencida de que o Brasil oscila à beira do abismo, de que a corrupção foi inventada há dez anos e de que todos os políticos são corruptos.
Registre-se que alguns oportunistas, como os deputados Paulo Pereira da Silva, do Solidariedade, e Jair Bolsonaro, do Partido Progressista, foram impedidos de usar os microfones. Silva luta contra uma condenação por improbidade administrativa à frente da central Força Sindical e Bolsonaro, conhecido representante do que há de mais reacionário no Congresso Nacional, integra o partido mais entalado no escândalo da Petrobras.
No final, prevaleceu o direito de divergir pacificamente, ainda que se possa demonstrar que a opinião da massa foi condicionada pela militância da imprensa. A classe média, readmitida no jogo da política, está em seu paraíso.
O que virá em seguida vai depender em grande parte da capacidade do governo de mobilizar seus apoiadores e de superar os impasses com o Congresso Nacional.
 
 

15 março 2015

SEM A FORÇA DOS SONHOS

A Nova República acabou


Vladimir Safatle, na Revista CartaCapital



Sim, nenhuma reflexão política sobre a situação brasileira atual pode dar conta da realidade se não partir de uma constatação clara a respeito do fim da Nova República. De fato, não é apenas o ciclo de desenvolvimento do lulismo que acabou. O modelo de governabilidade sintetizado no fim da ditadura militar, com sua dinâmica de conflitos, suas polaridades e projetos, não faz mais sentido algum. Nesse sentido, de nada adianta alimentar a ilusão de que o Brasil anda lentamente em direção ao “aperfeiçoamento democrático” e à “consolidação de suas instituições”. Difícil falar em aperfeiçoamento quando se percebe a impossibilidade da estrutura institucional brasileira em aumentar a densidade da participação popular nos processos decisórios do Estado, a permeabilidade da partidocracia brasileira a interesses econômicos, sua corruptibilidade como condição geral de funcionamento e sua representação imune a qualquer crítica às distorções.
Quando junho de 2013 explodiu, esperava-se que, ao menos, entrássemos em um processo de debate sobre a reinvenção da estrutura política brasileira, criticada nas ruas por seu autismo e seu cheiro de negociata. Estamos em 2015 e a única “reforma política” no horizonte consegue piorar ainda mais o que já era bastante ruim, ainda mais ao ser capitaneada por pessoas do quilate dos “indiciados lutando para sobreviver através de toda forma de chantagem”, Eduardo Cunha e Renan Calheiros.

Sim, meus amigos, tudo isso apenas demonstra como a Nova República acabou. Sua governabilidade foi fundada em dois pilares: a cooptação constante de trânsfugas da ditadura (Sarney, ACM, Jorge Bornhausen etc.) e a gestão da massa fisiológica alimentada pelos cálculos oligárquicos locais. Essa era a forma de “evitar conflitos”, criando uma aparência de estabilidade paga com inércia, violência policial e espasmos de crescimento com alta concentração.
Dois atores apareceram como gestores desse modelo de governabilidade. Primeiro, o setor do PMDB com mais capacidade de formulação, a saber, aquele que resultou no PSDB. Segundo, a união entre sindicalistas, intelectuais e setores progressistas da Igreja Católica que levou à fundação do PT. Os dois terminaram de forma muito parecida: reféns de políticas que prometeram combater, professando uma racionalidade econômica no limite do indistinguível, lutando para sobreviver ao final diante de profundo desencanto social expressado em depressão econômica, política, intelectual e cultural. Nos dois casos, a população brasileira viu o espetáculo deprimente de atores que paulatinamente foram mudando de rosto até chegarem ao irreconhecível. Isso ocorreu porque a essência da Nova República foi a reversão do potencial de transformação em conservação.
Agora, a política brasileira volta às ruas. Infelizmente, pelas mãos de uma direita descomplexada, com sua indignação farsesca, seu moralismo a servir apenas como arma contra os inimigos porque se cala diante dos amigos, suas propostas medievais de produzir uma sociedade na qual políticas de solidariedade social e de combate à desigualdade se resolvem ao deixar a elite rentista vampirizando, de maneira intocada, a economia brasileira. Mas esse é o resultado de termos uma esquerda acuada à procura de salvar um governo que já naufragou e não pode ser salvo. Esse governo cometeu dois erros imperdoáveis: desmobilizou seu próprio campo ao escolher o lado das políticas a serem aplicadas e deixou o medo se transformar no afeto político central. A questão para a esquerda é se quer naufragar com ele ou não.
À esquerda, cabe agora dizer com todas as letras que se trata de abandonar de vez esse modelo de governabilidade com seus acordos paralisantes, esses atores políticos e suas leituras de ideias. Em uma situação na qual, desde de 2013, a sociedade brasileira luta desesperadamente por se reinventar, abrindo espaço para o seu melhor, mas também para o seu pior, não é possível fazer da esquerda o defensor do partido da ordem. Esse sempre foi um país que nunca deixou de sonhar e produzir modificações brutais nesses últimos anos, um país que mesmo na época da ditadura conseguia lutar sonhando. Nada pior do que não contar agora com a força dos sonhos.
 
 

OS PIORES OPORTUNISTAS ESTÃO A POSTOS

O país insensato


Mino Carta, na Revista CartaCapital



A noite do dia 8 de março, domingo, ofereceu um impecável retrato do Brasil. A presidenta vai dirigir-se à nação estacionada diante do vídeo, a Globo nos proporciona a bem de um gordo ibope o Domingão do Faustão, festival de inomináveis bobagens e vulgaridade irrefreável. Irritados com a interrupção do programa, os telespectadores, sobretudo aqueles dos bairros que se declaram nobres, erguem-se do sofá da sala e, de panela em punho, vão à janela, debruçam-se a meio busto e batem no instrumento improvisado com talheres adequados à tarefa e com o vigor dos tocadores de tambor de gasolina na Martinica. Acompanha o batuque clangoroso o coro “Fora Dilma”, com o contorno dos melhores exemplos do primitivo turpilóquio nacional.

Indiscutível prova dos alcances da imaginação nativa. A mídia exulta. A nobreza dos bairros eleitos a cenário do espetáculo, e de seus moradores, inúmeros apinhados nos terraços gourmet, não passa de demonstração de provincianismo tropical. A mídia prazerosamente embrenha-se neste cipoal de parvoíce e grosseria, é partícipe ativa e empenhada, donde incapaz de perceber o que, de fato, acontece e acontecerá.
Nem por isso, vozes das redações apressam-se a esclarecer que não é só de ricos que se nutre o panelaço. Não foram somente estes os cidadãos que votaram contra Dilma, está claro, não fosse assim Aécio não conseguiria 48% dos sufrágios. Resta ver por que pobre grita “Fora Dilma”, rico a gente já sabe. Muitos aderem por imitação, por modismo, por servilismo. Por espírito festeiro, por parte de quem não se dá conta do possível desfecho disso tudo.
Observem nas fotos publicadas pelos jornalões na quarta 11 quantos riam entre os visitantes do 2º Salão da Construção de São Paulo ao vaiarem a presidenta recém-chegada para a inauguração. E quantos, em geral, em todas as praças, acreditam efetivamente que Dilma, Lula e o PT são os únicos responsáveis pela crise? E quantos enxergam no impeachment a solução que a situação recomenda?
Os meus botões puxam-me pelo paletó. Vem cá, e então qual seria a culpa da presidenta, ou ela simplesmente não tem culpa alguma? Confabulamos, na zona miasmática situada entre o fígado e a alma. Conclusão acordada: faltou a ela talento político para o diálogo com o Congresso e com o empresariado, aquele gênero de conversa que faz de Lula um mestre na matéria. Faltou avaliação atenta e precisa na escolha dos principais colaboradores.
Mas há quem ela ouça? Os botões insistem, pergunta irrespondível por falta de informação. Na segunda 9, após o panelaço, Dilma quis revidar ao dizer que nada previsto na Constituição justificaria o impeachment. Talvez lhe faltasse ânimo para ser mais clara e falar em golpe. E não seria então da mais relevante conveniência que a presidenta evitasse pronunciar a palavra impedimento? Teria ela consultado previamente os conselheiros mais próximos, ou um apenas, antes de falar? Ou teria agido por conta própria? Em um caso, ou noutro, precipitou-se, por decisão-solo, ou compartilhada.
A propósito, e esse tal de Joaquim Levy? E lá vou eu: talhado para fazer o exato contrário daquilo que seria preciso para tirar o Brasil do atoleiro. Nem deve saber de Keynes, comentam os botões. Conseguem ser bastante azedos. Este é um ponto crucial: Dilma não haveria de esquecer que a vitória eleitoral se deveu ao voto dos prejudicados, ou melhor, dos humilhados e ofendidos, por qualquer programa de austeridade, o nosso já em marcha.

Há um complicador, é óbvio. A Operação Lava Jato, além do mais declamada pela mídia como se a corrupção fosse obra exclusiva do PT, de Dilma, de Lula. Ora, ora, Lava Jato, mensalões, compra de votos no Congresso, privatizações para enriquecer apaniguados, inside information etc. etc. Trambiques, falcatruas, o patrimonialismo inesgotável no País que às vezes se arvorou a ser do futuro, terra de 500 anos de predação e onde a escravidão, oficialmente encerrada depois de três séculos e meio, ainda não terminou na prática do cotidiano.
Na semana passada, ao dar razão a Lula quando afirma que a Operação Mãos Limpas na Itália resultou em Berlusconi, observei que na terra arrasada costumam triunfar os piores oportunistas. Esqueci de registrar que no Brasil os piores oportunistas estão a postos desde sempre.