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24 outubro 2013

AS LUTAS NECESSÁRIAS

As lutas do mundo


Boaventura de Sousa Santos(*), na Agência Carta Maior



 O meu trabalho profissional leva-me a viajar por vários países. As experiências que colho, não podendo confirmar ou infirmar as hipóteses de coltrabalho que orientam o meu trabalho científico, dão-me informações preciosas sobre o pulsar do mundo, sujeito a pressões globais, mas de modo nenhum unívoco nas repostas que lhes dá. A pretensa ausência de alternativas para problemas ou conflitos concretos num dado país não passa de um argumento útil a quem está no poder e nele se quer perpetuar.
 
No passado mês de Julho, pude conviver de perto com os camponeses moçambicanos em luta contra a atividade mineira e os projetos agroindustriais que os expulsam das suas terras e os realojam em condições sub-humanas, destroem a agricultura familiar que em grande medida alimenta a população, contaminam as águas dos rios, destroem os seus cemitérios, e frequentemente os submetem a repressão policial violenta. Tudo em nome do progresso e do crescimento econômico, mas de facto apenas para permitir lucros escandalosos às empresas multinacionais envolvidas (muitas delas brasileiras) e rendas parasitas às elites político-econômicas locais.
 
Os contatos entre camponeses moçambicanos e brasileiros foram cruciais para fortalecer a sua luta através da solidariedade internacional e alimentar a esperança de que a resistência possa ter êxito.
 
Há duas semanas, no Chile, vivi momentos de emoção frente ao Palácio de La Moneda onde há quarenta anos o Presidente eleito Salvador Allende foi deposto pelo golpe de Pinochet, preparado por uma forte campanha de desestabilização orquestrada por Washington, muito semelhante à que está a ser orquestrada agora contra Venezuela, facilitada por alguns erros de um chavismo que não sabe existir sem Chávez.
 
Em vésperas de eleições, as marcas da ditadura continuam a assombrar as elites políticas e vida social dos chilenos. A privatização da educação, da saúde e da segurança social (as mesmas políticas que hoje se implantam no nosso país) tiveram consequências devastadoras para o bem-estar da grande maioria da população, e a provável vitória de Michelle Bachelet poderá representar o esforço, ainda que limitado, para reverter a situação de desproteção social que avassala o país.
 
Estará Portugal condenado a repetir a história do Chile, no nosso caso, esvaziando a democracia para depois lhe tentar devolver algum significado? Para simbolizar que as continuidades sempre convivem com rupturas, no dia anterior à minha partida, mais de 50.000 chilenos e chilenas, na maioria jovens, desfilaram numa arrojada marcha de orgulho gay, como que dizendo que, tal como os estudantes revoltados de 2012 e os povos mapuches em luta contra o saque dos seus recursos naturais, são parte de um novo Chile pós-conservador e pós-neoliberal.

Escrevo esta crônica a partir da Cidade de México. Dias antes, em Guadalajara, tive um encontro com representantes do povo Wixarika em luta contra uma empresa mineira canadense autorizada pelo governo mexicano a extrair minério a céu aberto nos seus territórios sagrados de Wiricuta, São Luís de Potosi. Basta este nome para mostrar a continuidade do saque dos recursos naturais destes povos desde o início da colonização espanhola até hoje.
 
Tal como em Moçambique, no Chile ou no Brasil, a solidariedade internacional e o envolvimento de órgãos da ONU serão importantes para fortalecer a resistência contra estes megaprojetos feitos sem consulta às populações, com as mais graves violações dos direitos humanos e do meio-ambiente. Entretanto, o governo priista propõe uma reforma educativa com um perfil semelhante à que está a ser feita em Portugal. E, tal como cá, também os sindicatos dos professores do México protestam massivamente contra as reformas. Os sindicatos mexicanos são muito fortes e, apesar de o governo os tentar enfraquecer, adotam formas de luta que incluem ocupação de edifícios públicos e praças, bloqueamento de estradas, ou anulação das portagens nas autoestradas. Estes exemplos mostram que merece a pena continuar a lutar por um mundo mais justo e ecologicamente mais equilibrado. Os que lutam podem ter a certeza de que não estão sozinhos.

(*) Cientista Político português

21 outubro 2013

VAMOS ABRIR OS OLHOS










Monetário-ecologismo: sonhática
e financista


Paulo Kliass, na Agência Carta Maior



Para um primeiro contato, a sensação causada é de um certo impressionismo. Afinal, o discurso da ex senadora, antes eleita pelo Estado do Acre, se apresenta muito bem articulado, incluindo um conjunto vasto de termos e expressões que não costumam caber nas falas rotineiras dos chamados “políticos tradicionais”. Chama mesmo a atenção, até pelo que oferece de inusitado.


Bastariam apenas as figuras de linguagem mais recentes, que já se prestam a causar um certo furor em alguns meios ou até mesmo desconforto, em outros circuitos. São coisas ditas e escritas por todos os ventos, tais como “disruptura”, “narrativa do movimento”, “projeto sonhático”, “ressignificar a experiência econômica”, “mutação de projetos identificatórios”, “alianças alicerçadas por uma ética da urgência”. E por aí vai.
 
Os mais desavisados podem até se surpreender de quão supostamente articulada se apresenta a mais importante liderança individual da Rede Sustentabilidade.
 
Sim, pois até o presente momento, esse é o nome com que se apresenta a organização partidária que não quer ser chamada pelo substantivo masculino “partido”. Mas o fato é que a própria número 1 da agremiação se viu obrigada ou constrangida a solicitar sua filiação ao PSB, no último minuto do segundo tempo - sábado dia 5 de outubro. Tudo para não perder a possibilidade jurídica de se candidatar a algum posto nas eleições do ano que vem.


A trajetória de Marina: da ecologia às finanças


Apesar de trazer em seu DNA uma origem marcada por algumas tendências autenticamente ecológicas e ambientalistas, o movimento conhecido como “marineiro” foi ampliando seu espectro político-ideológico e se converteu efetivamente em um programa de governo, tal como apresentado à sociedade brasileira nas eleições de 2010. Tendo abandonado o PT em 2009, Marina Silva concorreu à Presidência da República pelo Partido Verde e obteve quase 20 milhões de votos - o que correspondeu a mais de 19% do total. Assim, converteu-se em patrimônio eleitoral que não pode ser negligenciado por nenhuma força política no País.


No entanto, uma das marcas da ampliação do espaço político-eleitoral da candidata tem sido a convergência conservadora de seus princípios programáticos. Muito tem sido comentado a respeito dessa característica, principalmente em função de suas conhecidas raízes religiosas e uma eventual retomada de um certo fundamentalismo a nortear sua ação nos dias de hoje. No caso específico da política econômica, esse viés é mais do que evidente. A antiga militante sindicalista e das causas populares e ecológicas foi se aproximando politicamente de importantes ramos da grande burguesia e de representantes do empresariado financista. Esse fenômeno, diga-se de passagem, não é característica específica do capitalismo tupiniquim. Em vários países do mundo desenvolvido, e mesmo em sua escala globalizada, setores do capital começam a se apropriar das bandeiras da causa ambientalista. Na verdade, trata-se de uma inteligente estratégia de conversão de sua atuação para áreas estratégicas, em que sejam identificadas e mapeadas as novas oportunidades de negócios. Assim, trata-se de trabalho de pesquisa de potencial de investimentos para os novos ciclos de reprodução e acumulação do sistema. A justificação teórica mais elaborada e refinada vem na seqüência.


Esse tipo de movimento - sempre pensando no longo prazo - é que faz com que empresas, hoje vistas como inimigas do ser humano e do meio ambiente, ensaiem uma mudança de postura e de imagem. A Vale patrocina empreendimentos que se apresentam como marcados pela sustentabilidade (sic) pelo mundo afora. Aquela multinacional do refrigerante do rato morto começa a investir em áreas essenciais no futuro, como a água – um “bem” que será cada vez mais escasso no planeta. Já a mais famosa rede dos lanches rápidos, que vende hambúrgueres onde o que menos se encontra é a carne, passa a fazer um marketing de alimentação saudável e preocupação com o meio ambiente. Ironia dos novos tempos ou tragédia de desastres futuros previamente anunciados?


Propostas econômicas: conservadorismo e ortodoxia


Ora, a aproximação da Rede com esses setores do mundo das finanças não se dá sem compromissos. O movimento que gravita em torno de Marina passa a contar com economistas de peso dentre seus quadros ou então na condição de consultores especiais. São profissionais muito bem formados e competentes em suas áreas de atuação. O único detalhe é que estão todos orientados pela lógica da propriedade privada, são mercadistas em sua formulação e professam o liberalismo como paradigma basilar de suas propostas de política econômica. Simples assim: a simbiose entre ecologia e finanças.


Em 2010, a coisa já foi começando por esse caminho. Apesar de pouco debatido durante a campanha, o programa de política econômica de “Marina 43” não escondia em nada os traços dos economistas mais “prá-frentex” dentre os conservadores atuando em nossas terras. Os dois pontos centrais do item “Economia para uma sociedade sustentável” consistem nas propostas de dar continuidade ao programa de essência neoliberal, lançado pela gestão de FHC e continuado por Lula/Dilma. Em primeiro lugar, a orientação para manter a estrutura de sustentação da política macroeconômica, uma vez que as 

“metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante, administrando as políticas fiscal, monetária e cambial para garantir o equilíbrio interno e externo, são requisitos de um desenvolvimento sustentável”.(GN)


O único detalhe é que faltou explicar ao leitor de que maneira o tripé da política econômica - que apenas reduz, restringe e constrange - pode ser considerado como pré-condição para qualquer perspectiva desenvolvimentista.


Em seguida, o documento se encaminha pelas trilhas da redução dos gastos públicos, em função da dimensão do grau de endividamento público do país. Ao identificarem corretamente que há uma enorme lacuna na capacidade de investimento do Estado brasileiro, os autores sugerem que o equilíbrio seja buscado por meio da redução das despesas correntes, ou seja, em saúde, educação, previdência social, pessoal e similares. Portanto, nenhuma linha a respeito do peso das despesas com a carga financeira e com o pagamento de juros da dívida. O texto é duro na proposição: crescer os gastos a um ritmo de somente 50% do crescimento da economia. Nem Malan ou Palocci ousaram tanto assim, enquanto estiveram à frente do Ministério da Fazenda. Vejamos aqui:


“Por isso, é fundamental conter o crescimento dos gastos públicos correntes à metade do crescimento do PIB.”


Passadas as eleições, Marina rompe politicamente com o PV e vai construir sua própria via, a Rede. Sua forma de intervenção continua carregada de charme e setores do financismo começam a depositar suas fichas também nessa alternativa.
 
Nomes importantes do empresariado mantêm seu apoio, como Guilherme Leal (vice na chapa em 2010) da Natura e Roberto Klabin, do grupo da conhecida família. E a ponte com o mundo das finanças se consolida com o apoio de Maria Alice Setúbal, uma das herdeiras do Banco Itaú. A flexibilização para a “realpolitik” vai mesmo até o ponto da aceitação de doações de recursos por parte de empreiteiras.


As novas companhias: boas intenções, empresas e bancos


Com essa estrutura e a carência evidente de uma base de formulação de economia política em seus quadros, a Rede passa a reproduzir as falas e as visões dos economistas formados na ortodoxia e no monetarismo liberal. São eles que passam a dar a linha para as intervenções de Marina no debate econômico. Os antigos apoiadores do projeto tucano de poder processam uma mudança de rota em pleno vôo e se convertem ao projeto marineiro. E nesse caso, pouco importará que o programa oficial do agrupamento que busca seu registro no TSE ainda guarde algumas tinturas de um ambientalismo autêntico. Vejamos aqui o que ainda pode ser encontrado no Manifesto da Rede:


“mudanças no modelo econômico para a construção de  um projeto de desenvolvimento socialmente includente e ambientalmente sustentável”, incluindo “valorização do nosso patrimônio socioambiental, viabilizando a transição para uma economia sustentável”; “taxas de juros em patamares que induzam os investimentos produtivos nos setores vitais para o desenvolvimento sustentável do País”; “diversificação da matriz energética em busca de uma matriz limpa e segura”; “democratização do acesso à terra e uma política agropecuária que recupere a função estratégica do setor para a segurança alimentar, melhoria da qualidade de vida da população e preservação dos nossos biomas”.


Ocorre que essas belas intenções programáticas acima descritas não resistem ao menor encontro de Marina com representantes da nata do PIB e do financismo. Tanto que o discurso da candidata passa se afinar precisamente às orientações sugeridas por figuras como André Lara Resende e Armínio Fraga. São antigos integrantes do primeiro escalão do governo FHC na esfera econômica e que, atualmente, se dedicam a cuidar com muito zelo e carinho dos interesses de seus próprios bancos e do patrimônio de seus clientes.


Projeto da Rede: “ressignificado” pelo financismo?


Com isso, o sonho ambientalista se converte pouco a pouco em uma espécie de “monetário-ecologismo”, ao passo que a utopia de preservação da natureza começa a ganhar a coloração de um projeto “sonhático-financista”. Ora, é mais do que evidente a existência de profundas contradições intrínsecas entre o mundo empresarial tupiniquim e qualquer tipo de preocupação relacionada com o tema da sustentabilidade. Seja pelo enfoque ambiental, econômico ou social. Nossa tradição é ainda marcada pelo espírito herdado do neo-colonialismo: espoliação radical dos recursos e apropriação do máximo de renda/riqueza no curto prazo. Quando essa abordagem se encontra com os interesses do financismo, aí então é que ninguém segura a onda devastadora.


Esse é o contexto em que se explica a performance de Marina em reunião fechada, realizada há poucos dias com representantes do mundo dos negócios. Ela teria criticado o governo pela frouxidão na condução da economia. Assim, reforçou a necessidade de retomar a essência ortodoxa da política econômica vigente desde os tempos de FHC e que recebeu a continuidade sob Lula e Dilma. Foi explícita em clamar pela vigência inflexível do famigerado tripé da política econômica.
 
Em termos concretos, isso significa os seguintes pontos: i) maior rigor na obtenção do superávit primário, ainda que isso signifique menos recursos do orçamento para gastos  nas áreas sociais; ii) maior liberdade na política cambial, apesar de que a valorização de nossa moeda traga consiga a desindustrialização e o desemprego; iii) controle severo da meta de inflação no seu centro, não importando que isso implique uma política de juros oficiais estratosféricos.

Ao que tudo indica, Marina já fez sua opção. Entre o sonho ambientalista e o pesadelo financista, busca arriscar um equilíbrio impossível de harmonizar. As primeiras perdas virão à medida que o desenho das alianças comece a ganhar seus verdadeiros contornos. As expectativas da galera altermundista, dos ecologistas autênticos e dos marineiros de primeira hora com certeza serão profundamente desapontadas. Afinal, tudo parece indicar que a combinação inicial era de outra natureza.


(*) Doutor em economia pela Universidade de Paris 10 (Nanterre) e integrante da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal.


17 setembro 2011

ECOLOGIA

A Terra se defende: faz diminuir o crescimento

16/9/2011 10:26,  Por Leonardo Boff

Hoje é vastamente aceita e entrou já nos manuais de ecologia mais recentes (cf.R. Barbault, Ecologia Geral, Vozes 2011) a ideia de que a Terra é viva. Primeiramente, ela foi proposta pelo geoquímico russo W. Vernadsky na década de 1920 e retomada, nos anos de 1970, com mais profundidade por J. Lovelock e entre nós por J. Lutzenberger, chamando-a de Gaia. Com isso se quer significar que a Terra é um gigantesco superorganismo que se autorregula, fazendo com que todos os seres se interconectem e cooperem entre si. Nada está à parte, pois tudo é expressão da vida de Gaia, inclusive as sociedades humanas, seus projetos culturais e suas formas de produção e consumo. Ao gerar o ser humano, consciente e livre, a própria Gaia se pôs em risco. Ele é chamado a viver em harmonia com ela mas pode também o romper o laço de pertença. Ela é tolerante, mas quando a ruptura se torna danosa para o todo, ela nos dá amargas lições.

Todos estão lamentando o baixo crescimento mundial, especialmente nos países centrais. As razões aduzidas são múltiplas. Mas para uma visão da ecologia radical, não se deveria excluir a interpretação de que tal fato resulte de uma reação da própria Terra face à excessiva exploração pelo sistema produtivista e consumista que tomou conta do mundo. Ele levou tão longe a agressão ao sistema-Terra a ponto de, como afirmam alguns cientistas, inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno, o ser humano como uma força geológica destrutiva, acelerando a sexta extinção em massa que já há milênios está em curso. Gaia estaria se defendendo, debilitando as condições do arraigado mito de todas as sociedades atuais, inclusive a do Brasil: do crescimento, o maior possível, com consumo ilimitado.

Terra

Já em 1972 o Clube de Roma se dava conta dos limites do crescimento, este não sendo mais suportável pela Terra. Ela precisa de um ano e meio para repor o que extraímos dela num ano. Portanto, o crescimento é hostil à vida e fere a resiliência da Mãe Terra. Mas não sabemos nem queremos interpretar os sinais que ela nos dá. Queremos continuar a crescer mais e mais e, consequentemente, a consumir à tripa forra. O relatório “Perspectivas Econômicas Mundiais” do FMI, prevê para 2012 um crescimento mundial de 4,3%. Vale dizer, vamos tirar mais riquezas da Terra, desequilibrando-a como se mostra pelo aquecimento global.

A “Avaliação Sistêmica do Milênio” realizada entre 2001 e 2005 pela ONU, ao constatar a degradação dos principais itens que sustentam a vida advertiu: ou mudamos de rota ou pomos em risco o futuro de nossa civilização.

A crise econômico-financeira de 2008 e retornada agora em 2011 refuta o mito do crescimento. Há uma cegueira generalizada que não poupa sequer os 17 Nobeis da economia, como se viu recentemente no seu encontro no lago Lindau no sul da Alemanha. À exceção de J. Stiglitz, todos eram concordes em sustentar que o marco teórico da atual economia não teve nenhuma responsabilidade pela crise atual (Página 12, B. Aires, 28/08/2011). Por isso, ingenuamente postularam seguir a mesma rota de crescimento, com correções, sem se dar conta de que estão sendo maus conselheiros.

Mas importa reconhecer um dilema de difícil solução: há regiões do planeta que precisam crescer para atender demandas de pobres, obviamente, cuidando da natureza e evitando a incorporação da cultura do consumismo; e outras regiões já superdesenvolvidas precisam ser solidárias com as pobres, controlar seu crescimento, tomar apenas o que é natural e renovável, restaurar o que devastaram e devolver mais do que retiraram para que as futuras gerações também possam viver com dignidade, junto com a comunidade de vida.

A redução atual do crescimento representaria uma reação sábia da própria Terra que nos passa este recado: “parem com a idéia tresloucada de um crescimento ilimitado, pois ele é como um câncer que vai comendo todas as células sãs; busquem o desenvolvimento humano, dos bens intangíveis que, este sim, pode crescer sem limites como o amor, o cuidado, a solidariedade, a compaixão, a criação artística e espiritual”.

Não incorro em erro na crença de que está havendo ouvidos atentos para essa mensagem e que faremos a travessia ansiada.


Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.


Fonte: Correio do Brasil

02 maio 2011

MEIO AMBIENTE




Primeiro, as abelhas começaram a desaparecer nos Estados Unidos, depois no Canadá e, então, no Brasil. “Nós, em Santa Catarina, tivemos um problema muito sério na primavera passada. Álias, esse problema tem se agravado muito e sempre nesta mesma épóca do ano”, explica o professor Afonso Inácio Orth, um dos principais especialistas em abelhas do país e que tem acompanhado os estudos que buscam respostas para o desaparecimento dos insetos desde que este problema foi detectado.

“O primeiro grande risco é a fragilização da produção mundial de alimentos, principalmente pelo fato de nós dependermos quase que exclusivamente das abelhas. Além disso, um risco secundário, mas não menos importante, é o de afetarmos toda a ecologia local, porque essas abelhas também acabam polinizando as plantas nativas e, a partir do momento em que você elimina os polinizadores, essas plantas nativas deixarão de se reproduzir e, com isto, nós poderemos estar alterando profundamente os ecossistemas”, apontou na entrevista que concedeu à IHU On-Line por telefone.

Afonso Inácio Orth é graduado em Agronomia pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Entomologia pela Universidade Federal do Paraná e doutor em Biologia pela University of Miami (EUA). Atualmente, é professor no Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Santa Catarina.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que fatores estão causando o desaparecimento das abelhas das colmeias? Desde quando esse fenômeno está ocorrendo?

Afonso Inácio Orth – Esse fenômeno do desaparecimento das abelhas e o colapso das colmeias nos países do hemisfério Norte, Estados Unidos e Europa, começou em 2007 e várias causas foram atribuídas a ele, embora não se tenha encontrado nenhuma resposta definitiva. No Brasil houve em vários momentos diferentes supostos desaparecimentos de abelhas, mas não necessariamente na mesma dimensão verificada no hemisfério Norte. Nós, em Santa Catarina, tivemos um problema muito sério na primavera passada. Álias, esse problema tem se agravado muito e sempre nesta mesma época do ano.

IHU On-Line – O desaparecimento das abelhas já pode ser considerado um fenômeno mundial?

Afonso Inácio Orth – O Congresso Nacional dos Estados Unidos liberou verbas específicas para pesquisas sobre este tema, já que esse é um problema sério para o país. No entanto, até hoje não se chegou a nenhuma conclusão que explique esse desaparecimento. No início se achava que era algum vírus ou contaminação por agrotóxicos. Mais recentemente existiu uma suspeita muito forte em cima de algumas moléculas de agrotóxicos novos. No entanto, mesmo com todas as pesquisas, até agora não se chegou a nenhum veredicto.

Como não existe nenhuma prova definitiva do que está acontecendo, fica muito difícil você dizer que todos os problemas na apicultura foram causa única. Aqui em Santa Catarina, nós temos um cuidado muito grande em não caracterizar como o mesmo problema dos Estados Unidos, mesmo porque nós temos abelhas totalmente distintas daquelas que são criadas lá. As nossas abelhas são africanas e, na teoria, são muito mais resistentes a problemas patológicos em relação às abelhas estadunidenses. A desvantagem é que a espécie que criamos abandona mais facilmente a colmeia e produz menos mel.

IHU On-Line – Que danos o sumiço das abelhas causa à fruticultura e agricultura?

Afonso Inácio Orth – Em primeiro lugar, existe o dano direto aos apicultores e a perda da produção apícula, que é principalmente caracterizada pela produção de mel, própolis, cera e pólen. Além disso, temos uma perda bastante significativa na agricultura. Neste caso, a abelha é considerada pelo menos dez vezes superior como produtora de alimentos. Por exemplo, não se produz maçã sem a ajuda das abelhas no país. Nós da parte Sul do país temos uma vocação muito forte para a produção de frutas de clima temperado, e praticamente todas elas são altamente dependentes da polinização mediada pelas abelhas. Além disso, a polinização interfere diretamente em outras culturas, como a do girassol e a da soja.

IHU On-Line – Sem abelhas para fertilizar as plantações, a produção de alimentos pode ser alterada?

Afonso Inácio Orth – Algumas espécies de cereais são polinizadas basicamente pelo vento, tais como o milho, o trigo, o arroz. Grande parte das espécies que produzem proteínas, por exemplo, as frutas, é polinizada por abelhas. Portanto, pode-se afetar tanto a alimentação animal quanto a da própria espécie humana.

IHU On-Line – Que riscos o sumiço das abelhas pode gerar para a humanidade?

Afonso Inácio Orth – O primeiro grande risco é a fragilização da produção mundial de alimentos, principalmente pelo fato de nós dependermos quase que exclusivamente das abelhas. Além disto, um risco secundário, mas não menos importante, é de afetarmos toda a ecologia local, porque essas abelhas também acabam polinizando as plantas nativas e, a partir do momento que você elimina os polinizadores, essas plantas nativas deixarão de se reproduzir e, com isto, nós poderemos estar alterando profundamente os ecossistemas.

IHU On-Line – O ambientalista James Lovelock, em Hipótese de Gaia, diz que as abelhas podem estar pressentindo as mudanças climáticas ou um nível de poluição que os equipamentos humanos não são capazes de detectar. O sumiço desses animais pode ser um aviso de que a saúde do nosso planeta corre perigo?

Afonso Inácio Orth – Não só em relação à poluição e às mudanças climáticas os animais são mais sensíveis, mas até adventos bastante traumáticos como, por exemplo, existem estudos que associam a movimentação de insetos e abelhas e de pássaros prevendo ocorrência de abalos sísmicos na crosta terrestre. Embora tenhamos poucos estudos que possam claramente relacionar estes dois temas, acredito que a abelha é um excelente fator biológico para detectar alterações nos ecossistemas causados pela poluição do homem. E é claro que esta influência do homem pode afetar indiretamente as mudanças climáticas como, por exemplo, o aumento da temperatura. Por isso, concordo, sim, com as colocações de Lovelock.

IHU On-Line – Que função as abelhas desempenham na cadeia produtiva e a responsabilidade delas no meio ambiente? Nesse sentido, qual a importância de preservá-las?

Afonso Inácio Orth – Uma das fases cruciais na existência de uma planta é o seu estágio reprodutivo, e hoje sabemos que 90% das plantas dependem da polinização realizada por animais, como abelhas e outros insetos. Se não tivermos esses animais, nós romperemos o ciclo de reprodução continuada das plantas. Isso poderá afetar profundamente a sobrevida destas espécies no mundo todo, no ecossistema.

Hoje boa parte do produto que exploramos depende das abelhas para produzir adequadamente. Por isso, precisamos preservar o equilíbrio ambiental. Sem as abelhas nós não conseguiremos preservar as espécies de vegetais e animais que vivem nos diferentes ecossistemas.

IHU On-Line – A exemplo do Canadá, Estados Unidos e Europa, os apicultores do estado de Santa Catarina apontam para o sumiço de abelhas. Já se sabe quais são as causas?

Afonso Inácio Orth – A Federação das Associações de Agricultores e Apicultores de Santa Catarina começou a receber muitas reclamações de sumiços de abelhas na primavera do ano passado. Depois de ocorrido o fato nós começamos a pensar um pouco sobre a dimensão deste problema. A primeira ação desta federação foi criar uma comissão técnico-científica da qual eu faço parte. Primeiramente, fizemos um levantamento da realidade desta mortandade e chegamos a dados bastante preocupantes. Tivemos agricultores que relataram perda de 80% de sua produção; outros que não relataram quase nenhuma perda. E essa perda estava presente em pequenos, médios e grandes agricultores e apicultores que praticavam a cultura orgânica. Então, não houve apenas problemas na apicultura tradicional.

Em relação ao motivo dessas perdas nós não temos ainda dados concretos para discutirmos isso, até porque começamos este levantamento após o fato ter ocorrido, sendo relatado, somente então, para a federação. Houve alguns casos em que foram feitos estudos que revelaram intoxicação por agrotóxicos. É possível que as alterações climáticas tenham relação com o desaparecimento. Tivemos, na primavera do ano passado, problemas de temperatura e precipitação, o que pode ter afetado a alimentação das abelhas. Mas isso é uma hipótese, não podemos afirmar categoricamente. Nos formulários que os apicultores nos enviaram, eles sugeriram problemas de doenças ou parasitas, principalmente ácaros.Não podemos, todavia, tomar nenhuma posição sem dados concretos sobre o fato.

Na verdade, de uma forma concreta, sabemos que o problema ocorreu, que foi bastante sério. Inclusive, nós tememos que faltem colmeias para a próxima polinização. Mas ainda não conseguimos detectar claramente o que está acontecendo. Só nesta semana recebemos algumas chamadas: uma do oeste, outra da região serrana e uma terceira chamada do sul do Estado. Aparentemente, o problema – a perda das colmeias – continua este ano, nos deixando preocupado. Mas nós não temos um diagnóstico do que ocorreu ano passado e o que está acontecendo agora.

IHU On-Line – A abelha convive num sistema de extraordinária organização. Pode nos explicar como se dá essa organização e hierarquia nas colmeias?

Afonso Inácio Orth – Uma colmeia de abelhas é constituída basicamente por uma fêmea reprodutiva, a rainha, machos reprodutivos, que são os zangões, e a mesma quantidade de fêmeas não reprodutivas que são as operárias. Na verdade, as operárias executam diferentes tarefas no decorrer da vida adulta delas, iniciam trabalhando mais dentro de casa. Como as próprias crianças nos lares dos seres humanos, as abelhas trabalham com a limpeza, a nutrição das larvas, com a colmeia, depois trabalham na defesa da colmeia e a última atividade que elas executam é a atividade forageira, quando elas voam para os campos a fim de coletar/conduzir pólen, néctar e água.

Existe uma cadência lógica bastante grande no exercício das atividades. Por outro lado, caso não tivermos um mínimo de abelhas novas para alimentar as larvas, nós não temos como perpetuar a colmeia por meio de produção de novas abelhas, porque vai faltar alguém que alimente essas larvas. Na verdade, existe todo um sistema complexo, embora a colmeia possa sempre se adaptar. Porém, se não têm abelhas campeiras, normalmente elas começam a se deslocar para o campo mais precocemente. A mesma coisa pode acontecer permanecendo mais tempo dentro do ninho. São situações extremamente anormais.

IHU On-Line – Poucas são as pessoas que pesquisam sobre este assunto no Brasil. Por que isso acontece?

Afonso Inácio Orth – Talvez a biologia organismal ou a própria ecologia do organismo tem recebido pouca atenção não só no caso específico das abelhas, mas de animais e plantas de uma maneira geral. Essa é uma realidade no Brasil e no mundo afora. Hoje se investe muito recurso em cima de sofisticados estudos tecnológicos, mas algumas questões simples nós deixamos de fazer, e isso acaba não gerando informações importantes das quais precisamos para preservação do meio ambiente e para a produção agrícola.

Felizmente, em países onde o problema se agravou rapidamente, que é o caso dos Estados Unidos, começaram a ser liberados recursos para a realização de pesquisas em larga escala, justamente para tentar fazer frente ao problema da falta de abelhas. No último ano, por exemplo, eles importaram mais de um milhão de colmeias de outros países, principalmente da América Latina e da Nova Zelândia, para suprir a deficiente das colmeias. Espero que aqui no Brasil tenhamos a liberação de dinheiro para projetos desta envergadura e estudos de espécies.

IHU On-Line – O Brasil tem algum plano de proteção a esses animais?

Afonso Inácio Orth – Acredito que é preciso analisar a ampla acessibilidade que nós temos para a utilização de agrotóxicos. Hoje, nós somos um dos maiores consumidores de agrotóxico. A utilização excessiva de agrotóxicos não é compatível com um programa de proteção de abelhas. Atualmente, apesar de não sermos a maior economia mundial, nem o maior produtor agrícola, nós somos o maior consumidor de agrotóxicos. Há algo de muito errado nisso.



(Transcrito do site http://www.cartamaior.com.br/)