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10 agosto 2015

NINGUÉM SABE, NINGUÉM VIU

Mas Cristina Kirchner não havia morrido? Como é que venceu as eleições com Scioli?



10 de agosto de 2015 | 08:47 Autor: Fernando Brito, no TIJOLAÇO

scioli
Quase nada saiu na imprensa brasileira sobre as eleições presidenciais argentinas.
A impressão do leitor médio dos nossos jornais era a de que Cristina Kirchner, além dos problemas de saúde, teria problemas econômicos e políticos tão grandes que mal seria, a esta altura, um molambo eleitoral.
As pesquisas chegaram a dar-lhe, nos primeiros meses do ano, mais de 65% de reprovação.
E não é que o peronismo de Kirchner ganhou as eleições primárias na Argentina?
O candidato Daniel Scioli vai fechando as apurações (no momento em que escrevo, 85% dos votos apurados), com 7% dos votos de vantagem (37,78%) sobre o candidato da direita, Maurício Macri, (30,69%) e uma vantagem de 10% deste para o terceiro colocado, o dissidente peronista e líder de uma confusa frente com democratas cristãos, Sergio Massa, que ficou com surpreendentes 20,53%.
Os números finais devem ficar praticamente nisso, talvez com uma pequena elevação da diferença favorável a Scioli, por a apuração estar mais atrasada nas seções da província de Buenos Aires onde, ao contrário do que ocorre na capital propriamente dita, o peronismo é muito forte.
São eleições primárias, onde se definem as chapas – ou fórmulas, como chamam nossos irmãos portenhos – que disputarão as eleições propriamente ditas, onde  vence aquele que alcançar 45% dos votos ou mais de 40%, se abrir ao menos 10% de frente sobre o segundo colocado.
Não resolvida a disputa, segundo turno, como aqui.
O resultado foi claramente decepcionante para Macri, que o pressentiu e começou a falar em “fraude” ainda durante a votação e, logo depois, em “voto útil”.
O quadro, hoje, é de uma disputa final entre Scioli e Macri, mas os 20% alcançados por Massa superaram o que lhe previam as pesquisas e o transformam numa força real nas eleições.
A eleição argentina caminha para ter um final apertado, como a brasileira, ano passado.
E ninguém se assuste que a imprensa argentina, tão cheia de ódio aos Kirchner quanto a nossa ao PT (embora lá, com razões para tê-lo), vá desfechar campanhas de denúncias nos últimos meses, como já fez no caso do promotor encontrado morto e de um suposto envolvimento em tráfico de funcionários da Casa Rosada.
No es lo mismo, pero es igual.



13 abril 2015

AMÉRICA LATINA DE LUTO

Eduardo Galeano (1940-2015)


Victor Farinelli (Extraído do sítio da Revista CartaCapital)


Galeano 3“Muita gente pequena, em pequenos lugares, fazendo coisas pequenas podem transformar o mundo.”
“Em 1492, os nativos descobriram que eram índios. Descobriram que viviam num lugar chamado América. Descobriram que estavam nus, que existia o pecado. Descobriram que deviam obediência a um rei e uma rainha de outro mundo, e a um deus de outro céu. E que esse deus havia inventado a culpa e o vestido, e que mandou queimar vivo quem adorasse o sol, a luna, a terra e a chuva que a molha.”
“Os países que dão as ordens no mundo, através dos organismos que criaram para dar as ordens no mundo, ditam as ordens ao mundo mas não as seguem. Sim, porque eles são sádicos, mas não masoquistas.”
Galeano 2
“As guerras mentem. Nenhuma tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As sempre invocam motivos nobres. Matam em nome da paz, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia, e para que não reste dúvidas, se nenhuma dessas mentiras não for suficiente, aparecem os meios de comunicação dispostos a inventar novos inimigos imaginários, para justificar a conversão do mundo em um grande manicômio, e imenso matadouro.”
“Os cientistas dizem que estamos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que estamos feitos de histórias.”
“O futebol corre o perigo de se tornar um negócio tão rentável quando o das drogas e das armas. O que vai acabar com o miserável torcedor que vive da sua paixão, que dorme na porta do clube, ou o mendigo do bom futebol, que anda de estádio em estádio, com seu chapéu nas mãos, pedindo “uma jogadinha brilhante pelo amor de Deus.”
“A liberdade do dinheiro é inimiga da liberdade das pessoas.”
Galeano 1
Reunimos acima algumas das facetas de Eduardo Galeano em sete frases suas. A do uruguaio que sonhou com a grande transformação em pequenas proporções, a do historiador da América Latina e suas veias abertas, a do questionador da ordem mundial, a do jornalista que denunciava o saqueamento e a matança dos países pobres, a do mais sensível contador de histórias, a do escritor amante do bom futebol (torcedor do Nacional, para os que tinham alguma dúvida) e a do defensor, através da poesia, da liberdade que interessa a todos, e não a alguns poucos.
Faltou a do autor que soube, como poucos, mesclar a realidade e a ficção, em suas deliciosas narrativas. Mas para isso, convidamos a que busquem o seu legado e leiam seus livros, não este mero blog.
 
 
 

04 maio 2014

E AINDA TEM QUEM DEFENDA O NEOLIBERALISMO

Boi, porco e frango sobem 25% em um ano e o
consumo cai 20%. E não é na Venezuela


Mauro Santayana, na Agência Carta Maior



Para alimentar sua população, e afastar o risco de uma crise de abastecimento, governo mexicano pede que Brasil e Argentina forneçam, em caráter de emergência, 300.000 toneladas de frango.

É de dar pena. Mas, para infelicidade de seu próprio povo, o modelo neoliberal mexicano  continua fazendo água por todos os lados.

Empresa menos rentável da América Latina no ano passado, segundo o site especializado Latinvex, a PEMEX teve, em 2013, o maior prejuízo de sua história, da ordem de mais de 12 bilhões de dólares – e ele já passa de U$ 2.5 bilhões no primeiro trimestre deste ano. Enquanto isso, com todos os seus problemas, a Petrobrás - eleita no mesmo ranking a empresa mais rentável do continente latino-americano em 2013- lucrou, no mesmo período, mais de U$ 10 bilhões.

O conteúdo local dos produtos mandados para o exterior, pelos cinco principais setores exportadores mexicanos, segundo a revista local Paradigma, não chega a 60%, contra 90% no Brasil e na China.

Segundo a OCDE, quatro em cada 10 mexicanos não recebem um salário que dê para comprar uma cesta básica.

No país mais desigual das Américas, junto com o Chile, não existe seguro desemprego, e 60% da população ativa está na informalidade.  

Agora, para ilustrar melhor o que verdadeiramente está ocorrendo por lá, o site especializado em proteína animal www.eurocarne.com, citando a associação de importadores de carnes do México, acaba de divulgar que houve um aumento de 25% no preço da carne de frango, boi e porco – o suíno, por exemplo, passou de 30 para 48 pesos o quilo - no mercado mexicano, nos últimos meses, devido ao crescimento dos custos de produção nos EUA, seu principal fornecedor de alimentos.

Com isso, o consumo de proteínas no país de Zapata, com mais de 50% da população em situação de pobreza, caiu, também, no mesmo período, extraordinários 20%.

Para evitar o aumento da inflação e uma grave crise de abastecimento, o governo Peña Nieto está ultimando a importação, da Argentina e do Brasil, em caráter de emergência, de 300.000 toneladas de frango.

E ainda tem mexicano - que com certeza não precisa comer empanada na hora do almoço – que fica falando mal da Venezuela nos sites e redes sociais.

É isso aí.

Trata-se do incompetente e decadente Mercosul, dando de comer ao povo da nau capitânia da “próspera” – o México cresceu a metade do Brasil no ano passado – e “bem sucedida” – na opinião de The Economist e do Financial Times - Aliança do Pacífico.


15 abril 2014

CENÁRIO COMPLICADO


Argentina: greve geral e otras cositas






Eric Nepomuceno, na Agência Carta Maior
Arquivo


Quem estava na Argentina na quinta-feira dia 10 de abril, e muito especialmente em Buenos Aires, haverá de ter concluído: a greve geral convocada pelos dirigentes sindicais Hugo Moyano, de uma das CGTs (Central Geral dos Trabalhadores), seu parceiro Luis Barrionuevo, e também Pablo Micheli, da CTA (Central Argentina dos Trabalhadores), apoiados por um punhado de grupos e partidos de extrema-esquerda, foi um êxito absoluto. E essa conclusão tem lá suas razões: a capital parou. Boa parte da Argentina também.

A tempo: a Argentina é, depois de Cuba, o segundo país mais sindicalizado da América Latina. Os sindicatos são poderosíssimos, movem montanhas de dinheiro, e muitas vezes funcionam como verdadeiras máfias. Tamanha é a força do sindicalismo, que existem duas (às vezes, três) Centrais Gerais dos Trabalhadores.
 
Seu apoio aos governos oscila conforme os ventos e as marés de interesses mais – ou menos – atendidos. Hugo Moyano era, até três anos, aliado incondicional do kirchnerismo. Luis Barrionuevo, ao menos nesse aspecto, é mais coerente: sempre chantageou tudo que é governo, desde que chegou ao poder. É o líder absoluto dos sindicatos que reúnem hotéis, bares e restaurantes. Moyano tem mais poder: controla tudo que é transporte. Terrestre, aéreo, o que for.

Segundo Moyano, que no final da tarde da quinta deu entrevistas coletivas com ares de vitorioso num golpe de Estado, a adesão total foi de 98% dos trabalhadores. Não havia ônibus, metrô, pouquíssimos táxis rodavam pelas ruas (não havia nenhum posto de gasolina aberto). Não havia caminhão para coletar lixo, nem para transportar combustível. Nem para abastecer os caixas eletrônicos. Ou os super-mercados. Comercio, escolas, escritórios – tudo parado. Tudo, ou quase tudo, vazio.

Parou o porto, parou o aeroporto metropolitano, e no aeroporto internacional, Ezeiza, pouquíssimos vôos vindos do exterior pousaram na pista. Quem conseguiu desembarcar foi-se embora de vãos abanando: não havia que retirasse as bagagens dos aviões. Poucos restaurantes, bares e cafés, nesta cidade de restaurantes e cafés, abriram.

Visto assim do alto, o cenário parece não deixar dúvidas: a enorme, imensa maioria da população está irremediavelmente contra Cristina Fernández de Kirchner. Faltando ano e meio para o fim de seu segundo mandato, impedida, constitucionalmente, de disputar um terceiro, ela se transformou numa sombra do passado, rejeitada pelos argentinos. A oposição já ganhou. A disputa se restringirá aos candidatos deles.

E aí está: visto assim do alto, o cenário é esse. Visto assim de dentro, é outro, e bem outro.

Para começo de conversa, Moyano e Barrionuevo são velhos conhecidos dos argentinos. Todos sabem de seu poder de chantagem, e por mais que se esteja contra o governo, se saberá sempre com que tipo de mafioso se está lidando.

Além disso, sem ter como sair de casa, sem se locomover, como ir trabalhar? Aliás, como se não bastasse a suspensão total e absoluta de transporte público, Buenos Aires foi cercada por piquetes que cortaram quase todas as vias de ligação entre interior, subúrbio, periferia e zona urbana. Mesmo quem quis ir trabalhar de carro não conseguiu.

Uma pesquisa realizada no dia seguinte mostra que a verdadeira adesão à greve da dupla Moyano-Barrionuevo mostra que, dos entrevistados, 20% não foram trabalhar por medo de incidentes e choques com os grevistas; 51%, por não terem como chegar ao trabalho. Somente 25% dos entrevistados disseram ter apoiado totalmente a greve.

Os grandes meios de comunicação, dentro e fora da Argentina, ressaltaram a versão dos dirigentes do movimento. Ou seja: para eles, ao protestar contra a inflação, a perda de poder aquisitivo dos salários, a falta de segurança e um sem-fim de razões, os argentinos fizeram uma das maiores greves em décadas da história do país. Assim, pode-se concluir que o governo de Cristina Kirchner está absolutamente desacreditado, e vive um ocaso melancólico.

Se as coisas fossem simples do jeito que a televisão e os dois grandes jornais do país, o La Nación e muito especialmente o Clarín contam, e que a imprensa brasileira repete alegremente, tudo seria fácil de entender.

Acontece que o cenário argentino é bem mais amplo e complexo. De concreto, a indiscutível paralisação deixou Moyano e Barrionuevo numa posição complicada: já que não havia nenhuma plataforma palpável de reivindicações, o que eles queriam? E mais: o que farão agora? 

A reação inicial do governo foi tão clara como desconcertante: não negou a dimensão da paralisação, mas insistiu em ressaltar que tudo se deveu à falta de transporte. Um locaute ajudado por piquetes que isolaram Buenos Aires: assim o governo viu a greve. E só.

Num balanço sensato, o resultado é o seguinte: Hugo Moyano e Luis Barrionuevo (convém anotar esses nomes) sabem que já não existe a mais mínima possibilidade de diálogo com o governo e com os kirchneristas. Sabem também que não havia nada a reivindicar. Sabem, como todo mundo, que há, sim, mal-estar e tensão em Buenos Aires e, embora em menor medida, no interior do país.

Misturar alhos e bugalhos enquanto paralisavam a capital foi a moldura perfeita para abrigar suas verdadeiras intenções. 

Seu recado foi dado, mas não a Cristina e ao governo: ao futuro presidente, seja ele (ou ela) quem for.

Com a dupla, não se brinca. Ou suas demandas são aceitas, ou quem ocupar a Casa Rosada terá dor de cabeça.

Há quem chame isso de chantagem e jogo sujo. Os dois chamam de justas reivindicações. O pior é que há quem, nos meios de comunicação, acredite nessa dupla bizarra – e poderosa.

A Argentina, definitivamente, vive um cenário bem mais complexo. E que merece atenção. 


Créditos da foto: Arquivo

16 março 2014

A FORÇA DO DESTINO


Chile, as três filhas e seus três pais







Eric Nepomuceno, na Agência Carta Maior
Arquivo


Na política, como na vida, muitas vezes as coincidências e os simbolismos ajudam a restabelecer a verdade, a resgatar o passado, a reivindicar a memória. Fazem justiça e mostram que os que acreditam que a realidade é muito mais rica, diversificada e surpreendente que a mais delirante das imaginações têm razão. É o que acaba de acontecer no Chile.

Primeiro, a filha de um militar – um brigadeiro – torturado e morto se reelege presidente. Sua frustrada adversária é filha de outro militar – outro brigadeiro – que comandava a unidade onde seu colega de armas e amigo da vida inteira foi assassinado.
    
Segundo: terminada a votação democrática, onde a nova mandatária teve 62% dos votos, chega a hora de receber a faixa presidencial em cerimônia solene. E a vencedora a recebe das mãos de outra mulher, a presidente do Senado, filha, por sua vez, do homem que sonhou com chegar ao socialismo pela via democrática e pacifica e preferiu se imolar antes de entregar o poder aos abjetos e indignos golpistas.

As três são filhas, as três têm pais, e têm nome e sobrenome: Michelle e Alberto Bachelet, Evelyn e Fernando Matthei, Isabel e Salvador Allende.

A primeira vai presidir o Chile pelos próximos quatro anos. A terceira presidirá o Senado. Aliás, e a propósito, Isabel Allende (favor não confundir com a escritora) é a primeira mulher a presidir o Senado chileno em seus pouco mais de dois séculos de existência.  E seu primeiro ato oficial foi justamente dar investidura presidencial a Michelle, filha de Alberto Bachelet, militar legalista, fiel a Salvador Allende – e que por isso foi preso, torturado e assim morreu.

Resta à terceira mulher dessa história, a terceira filha, tentar não naufragar, com seu ressentimento à tiracolo, nas águas plácidas onde jazem os esquecidos, os desimportantes.
    
No auge da cerimônia da posse presidencial, Isabel Allende perguntou a Michelle Bachelet: “Senhora presidenta eleita, jura desempenhar fielmente o cargo de presidente da República?”.  A resposta veio num jato: “Prometo”. Não deixa de ser significativo, num país tão católico, prometer em vez de jurar. Não deixa de ser significativo, em qualquer país do mundo, deixar claro que prometer – empenhar a palavra – é mais do que jurar.

A segunda presidência de Michelle, a filha de Alberto Bachelet, começa com uma ampla lista de problemas e desafios. Para começar, o Chile é um país com crescimento robusto (a média dos quatro anos do direitista Sebastián Piñera foi de 5,5% anuais), mas também é uma das nações de maior desigualdade social num continente especialmente desigual. Há que ver até que punto Michelle conseguirá corrigir distorções como esta.

Além disso, o panorama econômico insinua tempos turbulentos: Piñera deixa como legado poucos recursos em caixa, uma moeda desvalorizada, uma inflação cujo nível de pressão ainda é tolerável mas que poderá entrar em espiral se o preço do cobre nos mercados internacionais continuar baixando. Ao mesmo tempo, deixa um país onde são necessários urgentes investimentos públicos em vários segmentos, a começar pela educação e em energia (o Chile, embora tenha abundantes recursos hídricos, tem sua geração de energia baseada essencialmente em carvão e petróleo).

Michelle Bachelet encontra várias reformas à espera de atenção emergencial – a reforma educacional, a tributária, e muito especialmente a reforma constitucional.

A atual Constituição chilena é de 1980. Foi herdada de Pinochet. E como se esse estigma fosse pouco, ou talvez justamente por isso, contém lacunas profundas e aberrações absurdas. As titubeantes tentativas de Piñera para impor tênues reformas tropeçaram no veto dos mais radicais de seu próprio espectro político e ideológico.

Todos os desafios conhecidos e anunciados, e todos os que irão aparecendo em cascata, terão como ponto de partida o trabalho dessas duas filhas, Michelle e Isabel, de seus dois pais, Alberto e Salvador. Pela primeira vez na história chilena as presidências da Nação e do Senado são ocupadas por duas mulheres – socialistas as duas, com um passado trágico as duas, vítimas, as duas, da mais cruel e perversa ditadura que assolou o Chile.

E mais: de uma ditadura da qual sobrevivem pesados resquícios, tanto na política quanto na sociedade. Porque o pinochetismo sobrevive ao seu abjeto criador, e está espalhado por aí. Também esse é um dos desafios que Michelle Bachelet irá enfrentar.

País que cultiva com rigor os rituais mais solenes, o Chile impõe um protocolo severo às cerimônias. No caso da posse de um presidente, então, mais e mais. A não ser pelo juramento do novo mandatário, tomado pelo presidente do Senado, não há discursos, não se diz nada mais que as rígidas palavras previstas pelo cerimonial.

Agora, não foi necessário dizer nada. O sorriso luminoso de Isabel, filha de seu pai, Salvador Allende, e de Michelle, filha de seu pai, Alberto Bachelet, alumbrou tudo. O silêncio de Evelyn, filha de seu pai, Fernando Matthei, foi de uma eloqüência magistral e esclarecedora.

Foi como uma espécie de resgate, uma correção da história para voltar ao seu leito, como uma suave, doce vingança da democracia. E assim estiveram presentes, nesse ato singular, Salvador e Alberto, ao lado de suas filhas Isabel e Michelle. E, com eles, todos os mortos e desaparecidos e todas as vítimas da longa, horrenda noite que se abateu sobre o Chile, e que de alguns anos para cá vem, pouco a pouco, se desfazendo no amanhecer, nas manhãs renovadas.

Falta muito, com certeza. É preciso debater questões que vão do aborto ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, há que se discutir a política externa e o lugar em que o país se situará no mapa geopolítico do continente, é preciso ver como fazer com que a educação pública que soube ser exemplo para os vizinhos recupere seu nível de qualidade, é preciso repensar a previdência social sucateada, a saúde pública abandonada.

Falta muito, mas os dias são feitos de amanheceres. Que a história continue a se escrever a si mesma, de coincidência em coincidência, de simbolismo em simbolismo. Para honrar a memória dos dois pais dessas duas filhas. Do terceiro pai, o da terceira filha, o lodo do justo esquecimento se encarregará.


Créditos da foto: Arquivo
 

10 março 2014

AUTONOMIA DIPLOMÁTICA

Brasil afasta fantasma da submissão
na OEA


 Breno Altman (*), na Agência Carta Maior 
Arquivo


A saraivada de artigos e editoriais contra Marco Aurélio Garcia, assessor internacional da Presidência da República, tem sua razão de ser. Não foi pouca a pressão, sobre o governo brasileiro, para que capitulasse diante de uma linha intervencionista e crítica ao governo constitucional de Nicolás Maduro, na Venezuela. Mas o Palácio do Planalto manteve-se firme e o Brasil deu seu voto, na OEA (Organização dos Estados Americanos), junto com outras 28 nações, para derrotar a moção sustentada apenas por Estados Unidos, Canadá e Panamá.

Muito dessa postura se deve a Marco Aurélio Garcia. Correntes conservadoras, incluindo aquelas que ainda dão as cartas em algumas salas do Itamaraty, gostariam de ver a presidente romper com a política internacional inaugurada por Lula e retornar à diplomacia dependente, que girava na órbita da Casa Branca. A voz mais íntegra, preparada e sólida contra essa alternativa sempre foi a do professor, como lhe chamam amigos e até alguns desafetos.

Não é surpresa para ninguém, portanto, que sobre seu lombo venha o chicote da velha mídia, comprometida visceralmente com a derrubada do governo Maduro. Marco Aurélio Garcia, além do mais, criticou abertamente a campanha de desinformação e manipulação levada a cabo por veículos tradicionais das grandes famílias burguesas do continente, envolvidos até o talo na guerra psicológica para desestabilizar, nacional e internacionalmente, o processo bolivariano.

Talvez a mensagem brasileira fosse ainda mais competente e altiva se a chancelaria estivesse sob o comando do histórico quadro petista. Mesmo sem ocupar o posto, a verdade é que Marco Aurélio funciona como lugar-tenente da presidente Dilma, na defesa dos interesses brasileiros e progressistas,  quando potências ocidentais, particularmente os Estados Unidos, tentam reduzir o país a um apêndice de sua diplomacia. A imprensa dos monopólios, ao contrário, opera como quartel-general da estratégia de subalternidade.

 A política internacional do país, ainda que marcada por contradições e freios, mudou a inserção do Brasil no mundo. Não apenas porque passou a ter papel relevante na luta para esvaziar a hegemonia norte-americana, imperialista e antidemocrática por natureza, mas também pela razão de ter criado novos espaços para o desenvolvimento econômico, através de múltiplos mecanismos que já não são lastrados pelo aval de Washington.

A trajetória é muito positiva. Primeiro, o projeto da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) foi soterrado, afastando ameaças maiores, de inspiração neocolonial, cujo objetivo era a integração subordinada da economia brasileira e das demais nações da região à batuta norte-americana. Depois, seguiu-se o relançamento do Mercosul, a criação da Unasul e da Celac, o desenvolvimento das relações sul-sul, o aprofundamento da interlocução com a África, a parceria entre os BRICs.

Fortaleceram-se novos blocos políticos e econômicos, particularmente na América do Sul. O subcontinente, apesar das dificuldades, vai desbravando caminho autônomo, que progressivamente lhe permite atuar nas grandes disputas geopolíticas e comerciais, e fora do esquadro que o designava como quintal da Casa Branca.

Nesta perspectiva, o ataque ao governo Maduro, no qual forças oposicionistas locais se combinam com o apoio estrangeiro, repetindo a lógica golpista de 2002, não diz respeito apenas aos venezuelanos. A interrupção da revolução bolivariana seria capítulo decisivo na narrativa de restauração da ordem continental anterior.

Este era o tema que estava em disputa na última reunião da OEA. Os Estados Unidos tentaram aprovar resolução que lhes permitisse, sob o manto de uma comissão de investigação, interferir oficialmente na situação venezuelana. A proposta foi rechaçada por esmagadora maioria, remetendo o assunto para arbítrio exclusivo da Unasul, na qual os norte-americanos não têm assento. Foi um momento histórico, que provocou a fúria conservadora.

Caso o Brasil tivesse se portado de maneira distinta, outro poderia ser o resultado. Esse era o desejo de círculos direitistas, que agora reverberam sua frustração através da crítica insolente a Marco Aurélio Garcia.

Não estava em jogo, afinal, a democracia venezuelana, muito bem defendida por suas próprias instituições. Os fatos falam por si. Qual outro país do planeta teve 19 contendas eleitorais em 15 anos, nas quais a esquerda sagrou-se vitoriosa em 18? Qual outra nação convive com uma imprensa privada que apoia abertamente levantes anticonstitucionais? Qual outro Estado assegura liberdade partidária tão plena que inclui agremiações dispostas a convocar ações violentas contra um governo legítimo? Basta imaginar qual seria o comportamento da Casa Branca se tais práticas ocorressem em seu território.

A votação da OEA decidiu, portanto, se a América Latina se dobraria novamente ou não ao Ministério de Colônias do governo norte-americano, como já se referiu Fidel Castro acerca da entidade agonizante. A resposta foi uma rotunda negativa, à qual se somaram até mesmo governos conservadores como os da Colômbia e  Chile. O Brasil, na ocasião, fez o que lhe cabia, ajudando a defenestrar o fantasma da submissão.


(*) Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi e da Revista Samuel

Artigo publicado originalmente no Opera Mundi.
Créditos da foto: Arquivo

22 fevereiro 2014

A OPOSIÇÃO NÃO TEM VOTOS

CUBA, VENEZUELA E BRASIL

Quem quer agitar um velho espantalho da Guerra Fria

Paulo Moreira Leite, em seu blogue
 
Num   momento em que o publicitário aposentado Enio Mainardi pede “contrarrevolução já” e apela para golpe militar para impedir que uma aliança formada pelo presidente venezuelano Nicolas Maduro, Lula, Dilma e Fidel Castro transforme nosso Continente numa “ex-Democracia, comandada por líderes comunistas”, convém definir o que pode haver de realidade além do folclore anacrônico e ridículo. 
Em 25 minutos imperdíveis, o jornalista Igor Fuser foi a GloboNews para dar uma aula impecável sobre a realidade venezuelana desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, uma década e meia atrás. Quem não assistiu não pode perder a oportunidade.
Há mais de uma década que a oposição brasileira procura  semelhanças entre o governo Lula-Dilma e Hugo Chávez. Esses paralelos fazem parte daquelas fantasias comuns no período da Guerra Fria que continuam  reproduzidas pela turma que não aproveitou a globalização para ler jornais melhores. 
Chávez chegou ao poder como um político de formação revolucionária, com um compromisso favorável a mudanças radicais que nunca fizeram parte do horizonte de Lula. 
A partir de uma perspectiva diferente, Chávez também teve uma atuação diferente, de quem fazia apostas na mobilização popular para enfrentar e derrotar a elite de seu país – em vez de procurar o consenso e a negociação, que sempre foram instrumentos prediletos de Lula. No plano internacional, opresidente brasileiro teve uma convivência com o presidente George W Bush que seria considerada inaceitável por Chávez.
 O que há de mais parecido nos dois países não são os governos, mas a postura de suas oposições diante do processo de mudança social em curso na Venezuela e no Brasil. 
 Derrotada nas urnas há 15 anos, sem intervalos, a oposição venezuelana fez diversas tentativas de impedir a consolidação de Hugo Chávez no poder. Deu um golpe de Estado de 72 horas, no início de 2002. Apesar do apoio incondicional da Embaixada americana, que usou sua influencia para pedir o reconhecimento imediato do novo governo, o repúdio internacional – inclusive do governo Fernando Henrique Cardoso – levou à restauração democrática e permitiu o retorno de Chávez ao poder.
 No final daquele mesmo ano, a oposição ensaiou um segundo golpe. Paralisou as refinarias de petróleo  – responsáveis por 90% das divisas necessárias a compra de bens de primeira necessidade, inclusive alimentos e roupas – numa tentativa de sufocar a economia e forçar a queda do governo. Já eleito novo presidente, Lula teve um papel essencial no desarme da crise. Anunciou que no primeiro dia da posse a Petrobrás iria enviar um navio de petróleo em direção a Caracas. Lula também articulou, com presidentes de países vizinhos, o apoio a convocação de um referendo revocatório, pelo qual Chávez consultaria a população sobre sua permanência na presidência. Inicialmente desconfiado, Chávez acabou concordando com a iniciativa. Venceu o referendo sem dificuldade, ampliando sua base política de apoio.
 No episódio seguinte, a oposição apostou na criação de uma nova crise a partir de uma decisão suicida. Convencidos de que não teriam chances de obter uma parcela importante das cadeiras na Assembleia Nacional, seus lideres boicotaram as eleições parlamentares. A ideia era  retirar a legitimidade de toda decisão que saísse do Legislativo para forçar uma nova paralisia do governo e facilitar novas iniciativas de isolamento internacional. Mais uma vez, deu errado. Mesmo sem oposição parlamentar, o governo Chávez foi capaz de agir dentro de um quadro coerente com a relação de forças do país. Manteve a iniciativa política,   aprovou medidas de acordo com seu programa mas dificilmente será acusado – a sério – de aproveitar-se da retirada de seus adversários para cometer aventuras políticas. Na prática, era acusado de monopolizar o poder por uma oposição que fora reduzida, por decisão de sua única responsabilidade, a  um papel de comentar os atos do governo.
O que se vê, na atitude da oposição venezuelana é uma visão clara e radical da situação política. Não é capaz de aceitar, democraticamente, um prolongado quadro institucional desfavorável, marcado por sucessivas derrotas eleitorais que, de uma forma ou de outra, têm resultado em medidas que a maioria da população aprova. Seu horizonte é o da ruptura e do golpe de Estado, convencida de que, se fizer sua parte, isto é, demonstrar competência para produzir a queda de Nicolas Maduro, não lhe faltará o necessário apoio dos Estados Unidos para consolidar a nova ordem.
 Em 2002, com George W Bush na Casa Branca, a política de combate ao chamado “Eixo do Mal” assegurou um papel ativo de emissários norte-americanos a  Caracas, a tal ponto que muitas posições na embaixada americana passaram ao controle de veteranos de operações anti-comunistas na América Central, os contras que atuaram na Nicarágua e El Salvador. Com Barack Obama, a Casa Branca manteve-se numa posição menos ativa, ainda que, nos últimos dias, com a evolução da crise em Caracas, tenha feito exigências fora do tom diplomático aceitável. A presença de aliados de Maduro nos principais países vizinhos, a começar pelo governo brasileiro, de longe o Estado mais influente da região, é um elemento poderoso de dissuasão contra um envolvimento maior dos EUA. A reação firme contra o golpe que derrubou o presidente Lugo, no Paraguay, tem algo a ver com isso.
 Os médicos cubanos se tornaram uma obsessão da oposição brasileira depois de terem ocupado o mesmo lugar na estratégia da oposicáo venezuelana.  Cheguei a visitar centros de saúde da periferia de Caracas e também entrevistei o responsável pela Organização Pan Americana de Saúde, que possui estatísticas capazes de mostrar o progresso ocorrido nas regiões mais pobres do país.
Embora a oposição faça questão de desqualificar médicos cubanos, é difícil negar oferecem aos venezuelanos um cuidado e um tratamento a que eles jamais tiveram acesso. Ganham muito menos do que os rendimentos auferidos pelos médicos do país. Mas é justamente por isso que são capazes de prestar serviços que jamais puderam ser oferecidos aos venezuelanos pobres. Alguma semelhança com o Mais Médicos? 
Com uma dependência histórica das exportações de petróleo, um mercado interno relativamente pequeno, a Venezuela pagou um preço mais alto do que o Brasil pela crise internacional iniciada em 2008. O crescimento econômico caiu, a inflação subiu, o desemprego aumentou. Mas mesmo assim, Chávez conseguiu se eleger – já doente terminal – e seu sucessor nomeado, Nicolas Maduro, foi escolhido como novo presidente, numa prova de que a população resiste na defesa de suas conquistas.
No Brasil, que vive uma situação objetiva mais confortável, a oposição precisa do pessimismo psicológico como uma política permanente. Compreende-se. Com índices excelentes de emprego e de contínua distribuição de renda, é complicado travar uma discussão eleitoral aberta, a partir de argumentos racionais e propostas objetivas. É necessário alimentar o tumulto, criar a desesperança, forjar o medo.
 Publicitários sabem fazer isso.
 Em 1962, Juarez Bahia perdeu o emprego de redator chefe do Correio da Manhã, então o mais influente jornal brasileiro, quando se recusou a engajar a publicação numa campanha para obrigar o governo João Goulart a (advinhou!) romper relações com Cuba.
As  mais aplicadas partidários da ruptura, nos meios de comunicação, eram as filiais das grandes agencias de publicidade norte-americanas.
Dois anos depois da saída de Juarez Bahia, o Correio fez o editorial “Basta!”, quando deixou o campo da democracia, onde havia firmado uma invejável tradição, para apoiar o golpe militar que derrubou Goulart.