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12 outubro 2012

CRÔNICA


Como pintar um quadro de 11 mil euros



Mazé Leite, em seu Blog

François Cluzet e Omar Sy, atores do filme
Neste final de semana, às vésperas das eleições municipais, fui assistir ao filme “Intocáveis”, dos diretores franceses Eric Loredano e Olivier Nakache.

É um belo filme, do começo ao fim. A história, tocante. Conta como Driss, um senegalês morador da periferia de Paris, consegue um emprego de “tomador de conta” de um rico aristocrata, Phillipe, que ficou tetraplégico após uma queda de parapente. O filme é baseado na história real entre o milionário Phillipe Pozzo di Borgo e seu acompanhante, o argelino Abdel Sellou.

O papel desempenhado pelo ator Omar Sy, que morou na periferia de Paris assim como seu personagem Driss, traz à tona algumas reflexões. Em primeiro lugar, como se trata de uma história de amizade onde se cria uma profunda relação de confiança entre dois homens de duas classes tão distintas, o grau de humanidade implícita nessa história é muito comovente. De um lado, um negro pobre, que mora com a mãe e irmãos num pequeno cubículo de um bairro da periferia. Sua mãe é faxineira em prédios de escritórios. Seu irmão mais novo, traficante. Ele próprio, passou uma temporada no presídio por alguma infração cometida anteriormente. Do outro, um homem rico, branco, que mora num apartamento imenso e luxuosamente decorado, mas que está tetraplégico e depende, assim, completamente dos cuidados de Driss.

O filme mostra, todo o tempo, as diferenças entre o mundo de Phillipe – o dos ricos – e o mundo de Driss e sua família – os pobres.

Não indo muito longe na interpretação, me atenho ao que mais me interessa desse roteiro. Além das evidentes diferenças entre os dois mundos, o filme também mostra como existe uma lacuna muito grande dentro da cultura e da arte, que também opera uma separação de classes. Intencionalmente ou não, o filme ridiculariza a prática cultural burguesa: a arte contemporânea é um embuste, uma forma a mais de investimento financeiro; as sessões de ópera e música clássica, para platéias da elite “bem-arrumada” são, aos olhos de Driss, pura chatice; os poemas que Phillipe (François Cluzet) costuma recitar, ele também ridiculariza. A educação que o menino pobre e negro recebeu em sua escola não é a mesma educação refinada do patrão Phillipe: o acesso à literatura, a museus, a recitais de música, a assimilação dos símbolos da tradição cultural e artística ocidental passaram bem longe da cultura “aprendida” por Driss na rua, nos guetos, na luta pela sobrevivência.

Há uma cena em que Drissacompanha Phillipe a uma galeria onde está havendo uma exposição de arte contemporânea. Os dois param diante de uma tela em branco, com uma mancha vermelha de tinta jogada na tela. Phillipe diz que aquilo lhe transmite calma. Driss, gozador do modo de vida do patrão, lhe garante que poderia fazer melhor do que aquilo. Uma atendente se aproxima e anuncia o valor do quadro: mais de 40 mil euros! Driss não se conforma como alguém pode pagar tão caro por uma tela branca manchada de tinta. O mesmo que dizer que o mundo burguês de Phillipe tem também códigos culturais guiados pelo valor monetário. Nesse mundo onde as regras de etiqueta tornam tudo uma perfeita chatice, os valores subjetivos e as relações humanas estão também submetidos ao poder do dinheiro. Driss parece mostrar a Phillipe que em seu mundo falta naturalidade, espontaneidade e, num certo sentido, profundidade e sinceridade nas relações.

Mas Driss resolve pintar um daqueles quadros. Se vale tanto assim, não custa tentar. Phillipe, que já se divertia com esse ajudante que ia contra as regras de seu mundo em todos os momentos, resolve sugerir a um amigo, rico como ele, que comprasse o quadro de Driss por 11 mil euros. O amigo, um investidor, não se arrisca a perder um provável grande negócio. Enquanto isso, Driss e Phillipe se divertem. E nós, na platéia, nos divertimos com o ridículo desses signos burgueses que incluem a chamada arte contemporânea. Que não diz nada, não significa nada. Mas vale muito dinheiro!










14 setembro 2012

CRÔNICAS


Esta é uma fábula contemporânea, escrita em tempos que alguns animais aprenderam, de fato, a falar. 

Na natureza, a diferença que separa ou distingue os répteis de um ser humano, como Ernesto “Che” Guevara, por exemplo, é preenchida pela existência de vários outros seres, alguns deles até próximos a seres humanos como o “Che”, por exemplo, ou a ele comparáveis. A reflexão esdrúxula, alegórica e à primeira vista desprovida de algum sentido lógico, eu a faço por não ter conseguido entender até agora o significado da candidatura do cidadão José Serra à prefeitura da cidade de São Paulo. Continua sem sentido? Já me explico. O fato tem lá suas tintas surrealistas, o que me libera também para um comentário de igual teor.

Sei que muitos de nós, por esse ou aquele motivo, nos perguntamos o que viemos fazer nesse mundo, procuramos encontrar um sentido para as nossas vidas, de onde viemos e para onde vamos e coisas do gênero, consoante nossas crenças, nossos valores culturais, nossas reflexões mais íntimas e mesmo as nossas inseguranças. Afinal, sou um homem ou sou um rato? Alguém no passado já se questionou a respeito... Confesso que não padeço dessa angústia, não por virtude – não me entendam mal – mas pelo fato primordial de ser ateu. Não sofro diante dos mistérios insondáveis da vida, das grandes questões metafísicas.

O cidadão José Serra, contudo, formado politicamente nos quadros da Ação Popular, organização católica de esquerda bastante ativa nos anos 60, ocasião – inclusive – em que chegou à presidência da UNE, talvez tenha introjetado a noção de que tinha uma missão a cumprir enquanto vivesse. Um relevante papel político a desempenhar em nome da sua gente, quem sabe? Todos nós temos o direito aos sonhos, quaisquer que sejam eles... E aqui, rendo-me ao lugar comum já tantas vezes por mim ouvido, o de que muitos cidadãos sonham em um dia se tornarem presidentes da república em seus países. Sonho carregado de responsabilidades e que, quanto a mim, se aproxima mais de um Guevara, de um Ghandi ou de um Mandela, na minha modesta e ingênua maneira de encarar o mundo. Muito mais do que se aproximaria de um réptil, é claro. Confesso, aliás, que ainda não li nada a respeito sobre o sonho dos répteis...

E pelos vistos, o cidadão José Serra levou esse desejo ao pé da letra e, diga-se de passagem, com denodado estoicismo. Deve ter encontrado à sua volta e dentro de si motivos para isso, e com certeza nobres. Mas como há um ritual a seguir nessa difícil trajetória, pois poucos são aqueles que conseguem chegar à presidência de uma nação sem um mínimo de experiência política, o nosso cidadão percorreu aos solavancos tal ritual e, na caminhada, parece ter descoberto que, muito além das responsabilidades inerentes ao cargo almejado e antes mesmo de atingi-lo, poderia desfrutar de inúmeras benesses que a sua não tão vã filosofia havia imaginado.

Foi deputado, senador, ministro de estado, prefeito, governador e, curiosamente, não deixou nenhuma marca, nenhum registro ou realização digna de menção para a coletividade em nenhum dos cargos ocupados, por mais que ele próprio, seus apaniguados, o partido a que pertence e a imprensa que o prestigia e o sustenta politicamente façam grandes esforços para encontrar alguma coisa do gênero. Alguma idéia, algum pensamento original. E olha que não faltou oportunidade para tal. Mas a sua grande missão, o alvo final (a não ser que sua melagonomania não tenha ainda sido devidamente avaliada e/ou analisada) seria mesmo a presidência da república. Aliás, “o mais preparado” para o cargo, como gosta de dizer aos quatro ventos...

Segundo os autores das antigas tragédias gregas (Édipo Rei, de Sófocles, continua sendo uma obra prima há mais de 2500 anos), a obsessão de um personagem na perseguição de um objetivo leva-o àquilo a que se chama sua “falha trágica”, um ato que o condena a algum tipo de punição. O cidadão José Serra, embora não seja nenhum herói trágico grego (e muito menos brasileiro), na sua caminhada obsessiva rumo ao palácio do Planalto já cometeu não uma, mas várias falhas trágicas. A maior delas, além daquela – segundo o livro “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr. – de amealhar pelos mais variados “artifícios legais” milhões de dólares do patrimônio público brasileiro, a maior delas, repito, foi prometer que cumpriria o seu mandato de prefeito em São Paulo (até com um “papelzinho qualquer” assinado, segundo ele mesmo) e não cumprir com a própria palavra. Ou não chegar também ao final do mandato como governador do estado.

O cidadão José Serra foi queimando etapas e até agora colhendo derrotas no seu principal objetivo. De repente, pelos mais variados motivos e meios o Brasil, e mais particularmente o Estado de São Paulo e sua capital, começaram a ter notícias e a perceberem quem é de fato o cidadão José Serra. Um homem despreparado, obcecado e sem idéias próprias. 

Arrogante, destemperado, vingativo. Sua obsessão não deixa que ouça os que estão ao seu lado e muito menos, é lógico, os que lhe criticam sem ou mesmo com razão.Impôs-se candidato de última hora dentro do seu partido, quando as prévias já estavam marcadas e alguns pretendentes à prefeitura de São Paulo também já haviam se manifestado. Atropelou a todos em três semanas, e o partido engoliu, como tem sempre engolido, o seu jeito incivilizado de fazer política. Qual seria o segredo desse cidadão? Fragilidade ideológica de outros membros do PSDB? Chantagem? Telhados de vidro à sua volta? “Fadiga de material”, segundo as palavras do sociólogo de textos ininteligíveis? Perfil ditatorial que tanto interessa à oligarquia nacional no seu atual momento de desalento político e sustentado por interesses antinacionais de um capitalismo neoliberal esgotado, mas necessitado de porta vozes com algum potencial eleitoral, mesmo que em total declínio? Ou tudo isso junto? Por isso, a cada dia que passa, entendo menos a candidatura do cidadão José Serra à prefeitura de São Paulo.

Há já alguns anos, ainda adolescente, em Belo Horizonte, minha cidade natal, tive a oportunidade e a sorte de descobrir, com outros jovens estudantes e colegas, que o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, de passagem pela capital mineira, iriam jantar num tradicional restaurante de carnes exóticas, o Tavares, e para lá muitos de nós nos dirigimos. Era o ano de 1961. As teses existencialistas fascinavam boa parte da minha geração e repercutiam principalmente nos mais jovens. Levei comigo um livro escrito por ele, da sua trilogia ‘Os Caminhos da Liberdade’ e consegui o meu autógrafo, que durante anos pude exibir com orgulho. Os jornais, que deram grande destaque à visita, publicaram entrevistas e opiniões do casal francês mais famoso do pós-guerra.

Numa dessas entrevistas, e repetindo o que já havia dito a jornais em outras partes do mundo, Sartre afirmava depois de uma visita a Cuba, cuja revolução socialista triunfara dois anos antes, que Ernesto Guevara era, provavelmente, o homem mais íntegro e digno que conhecera até então. Para aqueles que conhecem a biografia do “Che”, eram justas e apropriadas as palavras do filósofo francês. Ou também as palavras de Nelson Mandela: “Guevara é uma inspiração para todos aqueles que amam a liberdade no mundo!” 

Penso que boa parte dessa dignidade se devia ao fato de que Guevara não tinha a obsessão pelo poder. Ao contrário, após ser ministro do governo cubano quando da vitória da revolução, o “Che” apresentou-se várias vezes para outros combates pelo mundo, dando sua vida por uma causa que considerava justa, sendo assassinado nas selvas da Bolívia. Nenhum sentido de heroísmo, é bom salientar, mas o destemor sincero em lutar pelos mais pobres e desvalidos.

Outro filósofo, esse brasileiro, e em tempos bem mais recentes, o professor Paulo Arantes, fez sobre o cidadão José Serra a seguinte pergunta: “O que será que pensa esse rapaz?”

Já decidido a encerrar o artigo por aqui, dei-me conta de que um leitor mais atento poderia indagar: mas e os répteis? De fato, eu não poderia terminar a fábula sem, pelo menos enaltecer, algumas qualidades dos répteis, como a peçonha das serpentes que serve de matéria prima para o próprio antídoto contra as suas picadas. Ou a incrível qualidade de transformação de um camaleão diante das adversidades enfrentadas na natureza, ou ainda – mesmo com toda campanha pela preservação das espécies – poder admirar as bolsas e sapatos conseguidos de crocodilos e jacarés desavisados.

Peço, então, licença ao professor Paulo Arantes e pergunto aqui sobre os répteis: o que será que eles pensam?

Escritor e dramaturgo. Autor da peça “Uma Questão de Imagem” (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro “Teatro de Arena: Uma Estética de Resistência”, Editora Boitempo.



Fonte: www.cartamaior.com.br









Emir Sader

(sobre o 11 de setembro) Em seu Blog



11 x 11

Os EUA tinham, entre suas vantagens estratégicas, a distância dos campos de enfrentamento das duas guerras mundiais e a suposta inviolabilidade do seu território. Até que os atentados de 2011 quebraram essa característica e geraram a paranoia, que os EUA exportaram para o mundo.

A partir dali, os EUA desencadearam o que chamaram de “guerra ao terror”, a exportação do terrorismo “preventivo” para todos os territórios que eles considerem de risco para sua integridade. Reivindicaram para si o direito de fazê-lo de forma preventiva, o que elimina qualquer necessidade de provas concretas, porque supõe um risco potencial.

Foram assim as invasões do Afeganistão e do Iraque, esta sem sequer aprovação do Conselho de Segurança da ONU, com acusações que os próprios países invasores – EUA e Inglaterra – confessaram posteriormente não corresponder à realidade. 

O projeto norteamericano era reeditar o que fizeram com o Japão – uma civilização tão distante da dos EUA como são as do Iraque e do Afeganistão, que se tornou o maior aliado norteamericano na região. Mas para isso tiveram que atirar duas bombas atômicas, em Hiroshima e em Nagasaki.

A invasão norteamericana era presidida pela ideia de levar a democracia liberal a um mundo considerado “bárbaro”, hostil à civilização – sem se dar conta que se trata das civilizações mais antigas da humanidade. Nada revelou, rapidamente, o caráter das invasões, quando os poços de petróleo foram protegidos no Iraque, assim que as tropas desembarcaram, mas os museus e outras relíquias foram saqueadas.

Desde então, uma década não foi suficiente para que a ordem norteamericana reinasse na região. Os atentados e as vítimas aumentam e nenhuma ilusão resta de que qualquer simulacro de democracia liberal pudesse ser imposta.

Mesmo vencedores na guerra fria, os EUA são incapazes de estabilizar a ordem mundial. Desde o fim da bipolaridade mundial, há mais guerras e menos paz no mundo. Os EUA se revelaram incapazes de participar de duas guerras simultaneamente, apesar da imensa superioridade militar.

O mundo, 11 anos depois do 11 de setembro de 2001, é um lugar menos seguro, mais instável, dominado pelas turbulências, econômicas e militares, e deve seguir assim por um bom tempo, até que novas forças possam impor um mundo multipolar, de paz e de conflitos negociados politicamente.







03 junho 2011

CRÔNICA

Sob o céu da ressonância


Quem já esteve sob aquele teto de aço, recebendo vibrações sonoras num volume quase insuportável por um quarto de hora que parece um dia inteiro, sabe o que significa um exame de ressonância magnética. Muitos brasileiros jamais tiveram acesso a esse método de diagnóstico. Não fosse a provação a que ele nos obriga, não estaríamos aqui falando mal da máquina de RM.

Se o paciente não tiver a sorte de precisar pesquisar apenas do joelho para baixo, será introduzido naquele tubo inexorável e inescrutável, e não estacionar apenas nas suas assustadoras bordas. Será obrigado a entrar, atado a uma superfície dura para garantir a imobilidade do corpo e a qualidade da imagem. Quando a cama desliza e lentamente leva a gente para dentro do rocambole é o sinal irreversível do início do turbilhão, desde que termine o pré-pesadelo do vai e volta do ajuste.

Por mais que os auxiliares prestem informações, em geral eles não falam muito, e lhe entreguem uma campainha para se comunicar com os médicos que vão bisbilhotar em tempo real os seus pecados mais intestinais, a situação não é confortável.

Outro detalhe é o glacial da sala, que deve tratar a máquina melhor do que o ser humano – a sociedade tecnológica é assim. O frio intenso leva os assistentes a cobrir o paciente com uma manta, deixando sempre o dedão de fora por mais que se esmerem. Segundos antes do início do exame e de vozes vindas de um aquário perguntarem se “está tudo bem” (como assim, “tudo bem?”), começa, no mínimo, uma coceira no nariz ou em outra parte. E é quase certo que aquela crise de pânico, há muito reclusa, vai dar as caras.

Outra quase certeza é de que, num ataque de fúria, você estragará tudo e pedirá para sair do tubo, mesmo jamais tendo almejado pertencer à elite bopiana do Capitão Nascimento. E isso acontece, dizem relatos. Fora o vexame de um pleito desses num homo sapiens do século XXI, seu médico vai lhe sugerir uma nova tentativa. Ou, azar o seu. Só resta pensar que, sim, você haverá de sair íntegro daquele refrigério.

Especialistas e pesquisadores reconhecem a claustrofobia que a RM provoca na maioria das pessoas. Não sabemos por que ainda não inventaram uma máquina menos opressora, apesar dos avanços obtidos. Já existem poucos aparelhos de diâmetros mais amplos e até modelos abertos nas laterais. Mas pela velha lei de Murphy, este, que faz você se sentir um misto- frio num grill, não deverá ser indicado para o seu caso. Em alguns laboratórios, é possível RM ao som de clássicos num headphone que reduz a angústia do momento e os decibéis em suas várias escalas. Mas o gadget só é admitido se o piloto do aparelho não precisar pedir que o paciente inspire e expire uma centena de vezes.

Depois do lapso existencial dentro do túnel, a voz do além anuncia, enfim, o fim da jornada. Parece que meia hora se passou ou foi a vida inteira? Outro herói na antessala está à espera. Você passa por ele sem coragem de trocar sequer um olhar que alimente sua reserva moral pronta a desmoronar. Naquela impalpável vida intratubo, nada e tanta coisa passaram pelas suas ideias, menos o que os doutos descobririam nos abissais de suas entranhas.

Recomposto, relógio no pulso, novamente senhor do seu tempo, você vê o médico que dirigiu a viagem passar lançando um sorriso confiante. Mas a sua experiência é tão única que de nada adiantará você convencer os amigos o quanto foi um bravo para os seus padrões. Principalmente se, antes de entrar no tubo, você precisou de uma hora e meia para sorver, com asco, oito copos de um contraste com um insuportável gosto artificial de limonada. Quando o resultado da RM chegar, você então começará, ou não, a se preocupar com outras coisas.


27 maio 2011

C R Ô N I C A

Conversa De Bêbado No Alto Escalão

Cícero Sandroni


Mesmo nos anos mais duros da guerra, quando os aviões da Luftwaffe despejavam bombas sobre Londres e outras cidades inglesas, Winston Churchill jamais dispensou uma garrafa de champanhe ao almoço e outra ao jantar; uma dose de uísque ao entardecer e duas ou três antes de deitar-se, às duas da manhã. Então metia-se na cama, dizia para si mesmo ”danem-se todos!” e dormia tranqüilamente, sem sonhar. Alcançar objetivos concretos, na paz ou na guerra, constituía para ele algo melhor do que o sonho. E se a realidade incluísse garrafas de fermentados ou destilados, melhor.
Em agosto de 1942, quando Hitler estava na ofensiva na frente russa, Churchill empreende cansativa e perigosa viagem aérea de Londres até Moscou, com escala no Cairo e em Teerã, para explicar ao seu antigo inimigo e então novo parceiro na guerra, Josef Stalin, que os aliados não abririam logo uma segunda frente na Europa, operação que desde a invasão nazista os soviéticos exigiam desesperadamente para ontem. Antes disso, tropas britânicas e americanas invadiriam a África para expulsar Rommel do Egito e controlar o Mediterrâneo. A invasão pelo norte da França só viria depois.
Na primeira reunião dos dois líderes e seus assessores (Motolov e Alexander Cadogan), enquanto eles discutiam no Kremlin, tropas nazistas estavam próximas da capital. Impaciente, Stalin exigia a abertura da segunda frente na Europa.
- O que os ingleses esperam? – indagava o marechal, com a voz alterada – Estão com medo de combater os soldados nazistas?
A argumentação de Stalin encontrou resistência por parte de Churchill, que ignorou o insulto: os aliados nada fariam além do acertado com Rooselvelt. Invadir o norte da França antes de 1943 (o desembarque na Normandia só ocorreu em julho de 1944) seria um desastre militar que permitiria a Hitler consolidar seu poder na Europa. Enfurecido, Stalin não teve outro recurso senão conformar-se. Mas arrancou a promessa de que a RAF e os americanos bombardeariam a Alemanha – o que Churchill não precisava prometer: os aviões aliados já despejavam bombas sobre Hitler.
Na véspera de sua partida, depois de dois dias de discussões, Churchill vai ao Kremlin para despedir-se. Mais conformado, Stalin adota tom cordial, em diálogo traduzido por um poliglota chamado Pavlov, que nada conhecia de reflexologia:
- Você parte ao raiar do dia. Por que não vamos à minha casa para beber um pouco? Tenho lá boa adega, você não se arrependerá.
Churchill respondeu que apoiava a política dos drinques à tarde, mesmo em uma Moscou quase nas mãos dos nazistas. Detalhes sobre o encontro estão nas suas Memórias da Segunda Guerra Mundial, em tradução de Vera Ribeiro, com selo da editora Nova Fronteira. Vale a pena ler a descrição da insólita happy hour de dois líderes que, naquele momento decisivo e dramático, parecia o encontro casual de dois amigos no melhor dos mundos; jogavam conversa fora enquanto russos e alemães lutavam encarniçadamente bem perto do Kremlin. Os dois tinham consciência do que acontecia na desesperada linha de resistência soviética, mas precisavam se conhecer melhor. E também porque, como diria o inglês, que diabo, gostavam de beber.
Stalin jogava sua última carta naquele pôquer em que as fichas eram as vidas de milhões de soldados soviéticos: esperava embebedar Churchill e assim obter dele o compromisso de invadir a Europa nazista; com o monstro voltado para quem o atacasse no canal da Mancha ele teria um alívio nos Urais. Mas, diante da implacável firmeza do seu companheiro de copo, irritou-se:
- A Marinha britânica não tem senso de glória? Vocês eram os donos dos mares e agora têm medo de atravessar o Canal da Mancha?
- Você pode crer – respondeu Churchill – o que estamos fazendo é o certo. Eu entendo um bocado sobre marinha e guerra naval.
- O que significa então que eu não entendo nada? – respondeu, abrupto, Stalin, fingindo-se envolvido.
- A Rússia é animal terrestre – retrucou Churchill – enquanto os britânicos são animais marítimos. Nós conhecemos a nossa força naval, sabemos o que podemos e o que não podemos fazer. Não despreze a força dos submarinos nazistas, que já destroçaram boa parte da nossa frota.
Stalin permaneceu instantes em silêncio, contendo a raiva que sentia daqueles ingleses resistentes à bebida e de quem precisava desesperadamente. Enfim, meio conformado, disse:
- Vamos chamar o Motolov, ele também gosta muito de beber.
Churchill concordou e por sua vez convidou o embaixador Alexander Cadogan, que segundo ele, também era bom de copo. E a conversa continuou, agora a quatro, com o professor Pavlov dividindo-se entre eles, enquanto as garrafas iam sendo esvaziadas. E assim passavam as horas, contando histórias e anedotas, levantando brindes à vitória que sabiam estar tão longe quanto perto de Moscou estavam os alemães. Nas palavras de Churchill: ”Bebemos uma multiplicidade de vinhos excelentes. Motolov assumiu seus ares mais afáveis e Stalin, para animar a situação, caçoou dele implacavelmente”.
O encontro terminou às 2h30m da manhã, com as despedidas de Stalin, que foi ler os telegramas que chegavam do front; a situação estava ruim, mesmo. Churchill voltou à Residência Estatal nº 7, ainda encontrou forças para ouvir as queixas de um impaciente general polonês que o esperava, e não teve tempo para dormir. Quando chegou ao aeroporto, às 5h, sua cabeça estalava. E lá encontrou, para as despedidas, um cambaleante Motolov.
- Você achou que eu não viria? – perguntou o russo, estremunhado.
Churchill agradeceu a gentileza do ministro do Exterior soviético e embarcou, sem fazer idéia de onde Motolov arranjaria forças para passar aquele dia. Quanto a ele, confessou: dormiu durante toda a viagem.
Mesmo na hipótese improvável de Stalin conseguir de Churchill embriagado o compromisso de invadir a França, dificilmente Roosevelt embarcaria nessa canoa. E por falar em Roosevelt: mesmo doente, o presidente americano jamais dispensou dois ou três martínis antes do jantar. Não era uma esponja do calibre de Churchill ou de Stalin, mas também entornava bem. O Times, os tablóides londrinos ou o The New York Times jamais informaram aos seus leitores londrinos que a guerra contra os nazistas era conduzida por três líderes que bebiam todas.
E que no final venceram Adolf Hitler, um ditador sanguinário e… abstêmio.



Fontes = Jornal do Brasil (Rio de Janeiro – RJ) 26/05/2004. In Academia Brasileira de Letras.

20 março 2011

C R Ô N I C A S

O medo, o carro e o isolamento social


Segunda-feira foi mais um dia terrível em São Paulo. Chuva e caos, caos e chuva. Atrasei o quanto pude a hora de deixar o trabalho e voltar pra casa (de carro). Enquanto esperava, vi na TV – pela enésima vez – a cena chocante do sujeito que atropelou ciclistas em Porto Alegre. Pela primeira vez, em vez de olhar “só” para os ciclistas barbaramente abalroados, prestei atenção também no olhar do motorista, que deu entrevista à saída da delegacia. Era o olhar do medo.
Ele alega que jogou o carro em cima dos ciclistas porque ficou “com medo”, ao ser cercado pelas bicicletas na rua. Pode ser bobagem, pode ser só uma desculpa tola do agressor. Mas, pela primeira vez,  tentei imaginar o que moveu esse homem no gesto tresloucado.
O carro dá-nos a sensação de autonomia e liberdade. O carro é uma ilha em que os mais ou menos ricos se escondem das agruras do transporte coletivo, e os muito ricos se escondem também da sensação de insegurança. Carros blindados, ilhas de segurança. Carros sem blindagem, ilhas de segurança também.
Quanto mais nos afundamos em bancos confortáveis, longe do contato (animal, quase insuportável para alguns) com outros seres nas cidades, mais medo temos de ver interrompida a doce sensação do isolamento e do conforto. É como o sujeito que reage mal-humorado quando alguém o acorda daquele soninho bom depois do almoço: como ousam tirar-me de minha zona de conforto?
Pior: como ousam andar de bicicleta, como ousam estragar minha fantasia de que só o carro nos salva e nos salvará da barbárie?
É o medo, o medo velho de guerra. O medo que se espalha feito epidemia pelas grande cidades. O motorista tresloucado em Porto Alegre foi algoz, sem dúvida. Mas ele é vítima desse medo atroz que isola a classe média em carros, condomínios, escolas particulraes e pacotes de viagem insípidos.
Penso nisso quando entro no meu próprio carro, por volta de 10 e meia da noite, e tomo o rumo da zona sul de São Paulo. Inundações, semáforos parados, trens e metrô com problemas: tudo isso faz com que o caos habitual do fim da tarde se prolongue até quase meia-noite. E lá vou eu exercitando o velho esporte paulistano: cortar caminho, buscar a rua menos entupida. Um quarteirão pra cá, outro pra lá. Avança pro Largo do Arouche, volta pra Amaral Gurgel, sobe a Consolação (porque a ligação leste-oeste está impraticável; mas que diabos!).
A subida da Consolação me coloca frente a frente com multidões nos pontos de ônibus. O ônibus não passa, e o povo fica ali. Cai uma garoa fina. Não nego que sinto um alívio besta por estar sozinho no carro (onde caberiam cinco ou seis pessoas), com ar-condicionado e câmbio automático. A doce sensação de se sentir protegido. Mais ou menos como estar em casa quando cai um temporal: ah, que bom que eu não estou lá fora!
Mas sabe-se lá porque tenho um momento de (tímida) loucura. Em vez de jogar o carro sobre os malditos pedestres amontoados na calçada (seria uma solução para o mal-estar que toma conta de mim), tenho um impulso ainda mais idiota: paro na frente de um daqueles pontos, abro o vidro e começo a balbuciar alguma coisa, como: “alguém quer carona pra zona sul”. As pessoas (quase todos jovens a sair do trabalho ou do turno da noite em faculdades particulares) me olham de um jeito estranho: “quem é o sujeito de terno e gravata que abre a janela do carro no meio do caos, e oferece carona?”.
Em São Paulo, esse meu gesto não faz o menor sentido. O medo (ou culpa?) por me sentir isolado dentro do carro fez-me oferecer carona. Se tivesse lançado o carro na calçada, ao menos poderiam me chamar de “louco”, “malfeitor”. Mas ofereci carona. Na rua da Consolação! Isso não faz o menor sentido.
Ninguém respondeu nada. Percebi, rapidamente, que provavelmente fora confundido com um daqueles tiozinhos tarados a “caçar” moças (ou moços) pela rua. Fechei  o vidro, e segui o caminho tortuoso rumo à zona sul.
Sozinho.
O medo move aqueles que se escondem atrás dos vidros dos carros. Move também os que se expõem à chuva e ao caos no meio da cidade turbulenta. O carro é símbolo do medo e do isolamento – o que aliás não é novidade nenhuma.
Medo e isolamento que podem ter feito o sujeito amalucado lançar o carro sobre os ciclistas de Porto Alegre. Medo e isolamento que fazem com que eu me sinta ridículo (e seja visto como um tiozinho ridículo) ao oferecer carona para paulistanos – ainda mais amedrontados que eu – numa avenida qualquer dessa cidade grandiosamente desumana.
Chego em casa perto de meia-noite. A família dorme em paz. Tento me convencer de que esses pensamentos todos são idiotices: melhor ter um carro, do que ficar lá à espera de um ônibus que não vem. Melhor chegar em casa meia-noite do que duas da manhã.
Hum…
Tento ler um livro de Hobsbawn. Mas meus pensamentos hoje precisam de menos Marx e de mais Freud. Durmo, exausto.

14 março 2011

C R Ô N I C A S

O sobrevivente e a fé no destino de cada um


Mais habituado a escrever sobre as pequenas tragédias e alegrias cotidianas, fico meio perdido diante de uma catástrofe com a violência e a magnitude desta que aconteceu no Japão.
Por isso, raramente trato destes assuntos das manchetes universais aqui no Balaio. Que posso escrever, além de tudo o que já foi dito, mostrado e publicado em todas as plataformas da mídia mundial?
Mudei de idéia ao encontrar nesta manhã de domingo, aqui mesmo na capa do iG, a inacreditável história do sobrevivente Hiromitsu Shinkawa, de 60 anos, encontrado em alto-mar, dois dias após o terremoto e o tsunami que varreram do mapa parte da costa nordeste do Japão.
Agarrado ao que restou do telhado da sua casa, cercado por todos os lados pelos escombros da cidade de Minamisona boiando no mar, Shinkawa suportou os rigores das águas geladas do inverno japonês e foi salvo por um destroier da Marinha. Levado a um hospital, passa bem.
O mais incrível neste resgate é que ele ouviu o alerta do tsunami, correu para um lugar seguro, mas resolveu voltar para pegar algo que deixou na casa.
Pois é, o sexagenário deu sopa ao azar, como se costuma dizer, acabou sendo levado pelas águas e, 48 horas depois, apareceu vivo em alto-mar. Como explicar o que aconteceu com ele?
No mesmo espaço de tempo em que Shinkawa estava perdido em alto-mar, os leitores do Balaio travaram um debate interminável, com quase 800 comentários, sobre meu texto anterior comentando o novo livro de Bento 61 em que o Papa nega o caráter revolucionário da obra de Jesus Cristo.
O livro foi só o pretexto para uma feroz discussão entre os católicos mais conservadores, que acreditam cegamente no Papa, os seguidores de outras religiões e aqueles sem fé nenhuma, que não crêem em absolutamente nada.
Nestas horas de mistérios que não conseguimos entender, como a terrível tragédia do Japão, costumam aparecer duas respostas.
“Foi o destino, só pode ser coisa do destino… Ainda não tinha chegado a hora dele…”, dizem os céticos, agnósticos ou ateus, os que não acreditam numa força superior a determinar o que vai acontecer com as nossas vidas.
“Foi Deus, só pode ser coisa de Deus…”, resumem de bate pronto os que têm fé, seguem uma religião e colocam seus destinos nas mãos Dele.
Que resposta nos daria Hiromitsu Shinkawa?
Como esta discussão nunca vai terminar, alguém arrisca outra alternativa?


*Matéria publicada no Balaio do Kotscho

(Transcrito do site http://www.cartacapital.com.br/)



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O Cristo que vive entre nós


Mauro Santayana


O papa Bento 16, na biografia de Cristo que acaba de publicar, decretou, de sua cátedra, que Cristo separara a religião da política. Mais do que isso, participa de um dos equívocos de São Paulo – porque até os santos se enganam – o de que, se Cristo não ressuscitou de entre os mortos, “vã é a nossa fé”.   Cristo ressuscitou dos mortos, não em sua carne perecível, mas em sua grandeza transcendental. O papa insiste – e nessas insistências a Igreja sempre se perdeu – em que o corpo de Cristo ainda existe, em toda a fragilidade da carne, em algum lugar, ao lado de Deus. Com isso, o Santo Padre separa Cristo da humanidade a que ele pertence, e o situa no espaço da mitologia dos deuses pagãos.


A afirmação mais grave do Papa, de acordo com o resumo de suas idéias, ontem divulgadas, é a de que política e religião são instituições separadas a partir de Cristo. A própria história do Vaticano o desmente. A Igreja Católica – e todas as outras confissões religiosas – sempre estiveram a serviço do poder político, e em sua expressão mais desprezível. Para não ir muito longe na História – ao tempo da associação entranhada entre os reis, os imperadores e o Vaticano, durante a Idade Média -, bastam os exemplos de nosso século. Os documentos existentes demonstram o apoio da Igreja a ditadores como Hitler, considerado, por Pio XII, como “um  bom católico”. Mais recentemente ainda, houve a “Santa Aliança”, conforme a denominou o jornalista norte-americano Bob Woodward, entre o antecessor de Ratzinger e o presidente Reagan, dos Estados Unidos, com o propósito definido de acabar com a União Soviética. Por acaso não se trata de uma escolha política do Vaticano a rápida canonização do fundador da Opus Dei, como santo da Igreja, e o esquecimento de grandes papas, como João 23, e de mártires da fé, como o bispo Dom Oscar Romero, de El Salvador?


A religião sempre esteve na origem  e na inspiração da política, e, em Cristo, essa identidade comum se torna ainda mais nítida. O campo da razão em que a fé e a política se encontram é o da ética. A ética é uma exigência da fé em Deus e do compromisso com a vida humana. A política, tal como a identificaram os grandes pensadores, é a prática da ética. A ética política significa a busca do bem de todos. Nessa extrema exegese do que seja a ética, como o fundamento da justiça, a boa política é a da esquerda, ou seja, da visão de igualdade de todos os homens.


Em Cristo, a fé é o instrumento da justiça. Quem quiser confirmar esse compromisso político de Cristo, basta ler os Atos dos Apóstolos, e verificar como viviam as primeiras comunidades cristãs, unidas pela absoluta fraternidade entre seus membros, enfim, uma sociedade política perfeita. Ao negar a essencial ligação entre a fé cristã e a ação política, o papa vai além de seu velho  anátema contra a Teologia da Libertação, surgida na América Latina, um serviço que ele e Wojtyla prestaram, com empenho, aos norte-americanos. Ele se soma aos que, hoje, ao separar a política da ética da justiça, decretam o fim da esquerda.


Esse discurso – o de que não há mais direita, nem esquerda – vem sendo repetido no Brasil. Esquerda e direita, ainda que a denominação venha da França revolucionária de 1789, sempre existiram. Na Palestina, no tempo de Jesus, a esquerda estava nos pescadores e pecadores que o seguiam, e a direita nos “fariseus hipócritas”, que, no Sinédrio, e a serviço dos romanos, o condenaram à morte.


O papa acredita que a Igreja sobreviverá à crise que está vivendo. Isso é possível se ela renunciar a toda sua história, a partir de Constantino, e retornar ao Cristo que andava no meio do povo,  perdoava a adúltera, e chicoteava os mercadores do templo. O  Cristo que ressuscitou  dos mortos está ao lado  dos que vêem a fé como a realização da justiça e da igualdade, aqui e agora.



(Transcrito do site http://www.cartacapital.com.br/)