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19 setembro 2015

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

Lições do abismo


Alberto Dines, no Observatório da Imprensa



Cada geração tem direito a um grande erro — desde que não seja o mesmo. Tudo o que nos perturba neste momento já aconteceu antes, já foi experimentado, visto, revisto com pequenas diferenças. Nossa desgraça é a incapacidade de processar as mutações da realidade e assim reconhecer as referências com a rapidez necessária para acionar os alarmes. Por default, embarcamos num sonambulismo protetor, confortável, como se fôssemos neófitos.
Não somos: as atuais turbulências já se manifestaram com arranjos assemelhados em inúmeras ocasiões no passado recente, mas os aplicativos utilizados parecem descalibrados.
A atual conflagração é abrangente, endógena, múltipla e multipolar: temos guerras com diferentes intensidades em diferentes partes do mundo, as recessões não se limitam à América do Sul, nem apenas às economias emergentes. A visível recuperação norte-americana pode ser abalada pelas vacilações chinesas ou pelos desdobramentos da campanha eleitoral em 2016.
A catástrofe dos refugiados parece ter sido apontada intencionalmente para os pontos mais vulneráveis da União Europeia: os Bálcãs (há dois séculos convertidos em sinônimo de fragmentação e xenofobia) e os parceiros da antiga Cortina de Ferro sem grande apego à democracia, ao humanismo, por isso mais suscetíveis às tentações totalitárias.
Não esqueçamos que a Hungria, atual vilã na tragédia dos refugiados, só foi “invadida” pelos nazistas nos momentos finais da 2ª Guerra Mundial, até então parceira de suas barbaridades. A cada lance deste novo êxodo num continente que sonhava acabar com guerras e fronteiras, ficam visíveis as semelhanças com as expulsões no Leste Europeu pré-1939 e o extermínio perpetrado em seguida. Antes as vítimas foram os ciganos e os judeus, agora são os curdos, yazidis e outras minorias étnicas abominadas tanto pelos fundamentalistas islâmicos como por países com pretensões hegemônicas regionais como a Turquia.
No entrelaçamento de complexidades, por ironia, a distração maior relaciona-se com nossa irreprimível atração pelo abismo. Convivemos com ele sem saber identifica-lo. Marcados pela sucessão de golpes castrenses desde a implantação da República e, sobretudo, pelo horror à ditadura militar, imaginamos que a inexistência de fantasmas fardados retira da atual situação qualquer periculosidade.
Nunca demos a necessária atenção ao fascismo: com as bênçãos de seculares tradições esquecemos a força maléfica da Ação Integralista Brasileira, seu papel na proclamação do Estado Novo, sua tentativa de golpe no ano seguinte e, mais tarde, na sustentação da paranoia militar. Não percebemos que a maior aposta fascista reside no desgaste das instituições democráticas decorrente da intensa polarização política. Um regime atordoado, dominado pelo sectarismo e associado a um projeto de poder enferrujado é o caldo de cultura ideal para um neototalitarismo conservador com seus irresistíveis apelos à ordem e bons costumes.
A onda fascista atual, ao contrário da anterior de meados do século passado, espalha-se pelo mundo, personificada por figuras bem-sucedidas como o bilionário Donald Trump, a família francesa Le Pen, a revelação de estadista, o húngaro Victor Orban. Gente “normal”, aparentemente confiável, bem-falante, crente, sem exibir aberrações demoníacas de Adolf Hitler e Benito Mussolini.
Anestesiados pela incrível sucessão de sustos e emoções, não distinguimos a beira do abismo. Na era da informação não podemos alegar falta de conhecimento. Mas ela é uma realidade. Jornais esquálidos, telejornais alienados, percepções embotadas oferecem reprises, remakes e um indisfarçável bocejo de tédio que corre o risco de ser derradeiro.
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Alberto Dines é jornalista, escritor e fundador do Observatório da Imprensa


08 setembro 2015

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

O pequenino afogado Ayslan Kurdi nos faz chorar e pensar



Leonardo Boff, em seu Blog
06/09/2015
O pequenino sírio de 3 a 4 anos jaz afogado na praia, pálido e ainda con suas roupinhas de criança. De bruços e com o rosto voltado ao lado, como quem quisesse ainda respirar. As ondas tiveram piedade dele e o levaram à praia. Os peixes, sempre famintos, o pouparam porque também eles se compadeceram de sua inocência. Ayslan Kurdi é seu nome. Sua mãe e seu irmãozinho também morreram. O pai não pôde segurá-los e lhes escaparam das maõs, tragados pelas águas.
Querido Ayslan: você fugia dos horrores da guerra na Síria, onde tropas do presidente Assad, apoiado pelos ricos Emirados árabes, lutam contra soldados do cruel Estado Islâmico, esse que degola a quem não se converte à sua religião, tristemente apoiado pelas forças ocidentais da Europa e dos Estados Unidos. Imagino que você tremia ao som dos aviões supersônicos que lançam bombas assassinas. Não dormia de medo de que sua casa voasse pelos ares em chamas.
Quantas vezes você não deve ter escutado de seus pais e vizinhos quão temíveis são os aviões não pilotados (drones). Eles caçam as pessoas pelas colinas desérticas e as matam. Festas de casamento, celebradas com alegria, apesar de todo o horror, também são bombardeadas, pois se supõe que no meio dos convidados deverá haver algum terrorista.
Talvez você nem imagina que quem pratica essa barbaridade e está por trás disso tudo, é um soldado jovem, vivendo no Texas num quartel militar. Ele está sentado tranquilo em sua sala diante de imensa tela como de televisão. Através de um satélite mostra os campos de batalha da sua terra, a Síria, ou do Iraque. Conforme a sua suspeita, com um pequeno toque num botão dispara uma arma presa no drone. Nada sente, nada escuta, nem chega a ter pena. Lá no outro lado, a milhares de kms, são mortas subitamente 30-40 pessoas, crianças como você, pais e mães como os seus e pessoas que nada têm a ver com a guerra. São friamente assassinadas. Lá do outro lado, ele sorri por ter acertado o alvo.
Por causa do terror que vem pelo céu e pela terra, pelo pavor de serem mortos ou degolados, teus pais resolveram fugir. Levaram toda a família. Nem pensam em arranjar trabalho. Apenas não querem morrer ou serem mortos. Sonham em viver num país onde não precisam ter medo, onde possam dormir sem pesadelos.
E você, querido Ayslan, podia brincar alegremente na rua com coleguinhas cuja lingua você não entende mas nem precisa, porque vocês, crianças, têm uma linguagem que todos, os meninos e meninas, entendem.
Você não pôde chegar a um lugar de paz. Mas agora, apesar de toda a tristeza que sentimos, sabemos que você, tão inocente, chegou a um paraíso onde pode enfim brincar, pular e correr por todos os lados na companhia de um Deus que um dia foi também menino, de nome Jesus, e que, para não deixá-lo só, voltou a ser de novo menino. E vai jogar futebol com você; você vai poder pegar no colo um gatinho e correr atrás de um cachorrinho; vocês vão se entender tão bem como se fossem amigos desde de sempre; juntos vão fazer desenhos coloridos, vão rir dos bonecos que fizerem e vão contar histórias bonitas, um ao outro. E se sentirão muito felizes. E veja que surpresa: lá estará também seu irmãozinho que morreu. E sua mãe vai poder abraçá-lo e beijá-lo como fazia tantas vezes.
Você não morreu, meu querido Ayslan. Foi viver e brincar num outro lugar, muito melhor. O mundo não era digno de sua inocência.
E agora deixe que eu pense com meus botões. Que mundo é esse que assusta e mata as crianças? Por que a maioria dos países não querem receber os refugiados do terror e da guerra? Não são eles, nossos irmãos e irmãs, habitando a mesma Casa Comum, a Terra? Esses refugiados não cobram nada. Apenas querem viver. Poder ter um pouco de paz e não ver os filhos chorando de medo e saltando da cama pelos estrondos das bombas. Gente que quer ser recebida como gente, sem ameaçar ninguém. Apenas quer viver o seu jeito de venerar Deus e de se vestir como sempre se vestiu.
Não foram suficientes dois mil anos de cristianismo para fazer os europeus minimamente humanos, solidários e hospitaleiros? Ayslan, o pequeno sírio, morto na praia é uma metáfora do que é a Europa de hoje: prostrada, sem vida, incapaz de chorar e de acolher vidas ameaçadas. Não ouviram eles tantas vezes que quem acolhe o forasteiro e o perseguido está anonimamente hospedando Deus?
Querido Ayslan, que a sua imagem estirada na praia nos suscite o pouco de humanidade que sempre resta em nós, uma réstea de solidariedade, uma lágrima de compaixão que não conseguimos reter em nossos olhos cansados de ver tanto sofrimento inútil, especialmente, de crianças como você. Ajude-nos, por favor, senão a chama divina que tremula dentro de nós, pode se apagar. E se ela se apagar, então afundaremos todos, pois sem amor e compaixão nada mais terá sentido neste mundo.



De Leonardo Boff, um vovô de um país distante que já acolheu muitos de seu país, a Síria, e que se compadeceu com sua imagem na praia e lhe fizeram escapar doloridas lágrimas de compaixão.



A TRAGÉDIA DOS REFUGIADOS > PERGUNTAS QUE OS VIRAIS NÃO ESTIMULAM

Quem afogou o menino sírio? Ou curdo?



Alberto Dines, no Observatório da Imprensa



Desta vez, os porteiros das redações se questionaram e vacilaram antes de postar a arrasadora foto, a última que se fez do menino Aylan Kurdi.
Hesitação decente, conscienciosa: ao postar, publicar ou inserir fatos ou fotos o jornalista deve formular ao menos uma pergunta: estou contribuindo para melhorar a humanidade?
A resposta afirmativa, unânime, e a forte comoção que sacudiu o mundo segundos depois, interrompeu o rotineiro kit de perguntas que carregamos vida afora para satisfazer a ânsia de saber. Como ocorre com frequência, o sobrenome da criança sugeria um patronímico, mas a identidade síria do pai encerrou prematuramente uma pesquisa que revelaria tragédia infinitamente maior: nacionalidades podem ser tão funestas quanto prisões, exílios, desterros. Basta serem impostas pela força. Compulsórias.
Mapa a diáspora curda
Mapa a diáspora curda
O velho ideal da autodeterminação continua privilégio de poucas etnias e povos. Privados do direito a um pertencimento nacional, atrelados a passados, culturas, idiomas e crenças alheias, geralmente antagônicas e arbitrárias, ter uma pátria ainda é um luxo.
A Síria é uma nacionalidade num país que se extingue: os Kurdi, originários do território que no passado chamava-se Curdistão, estão sendo defendidos dos massacres promovidos pelo Estado Islâmico apenas pelos curdos iraquianos.
Somam hoje cerca de 35 milhões (a quarta maior etnia asiática) espalhados pela Turquia (a maioria), Iraque, Irã, Síria, Armênia e Geórgia. No Ocidente vivem 2 milhões de curdos, metade deles na Alemanha, o resto nos EUA, Canadá e Austrália. Na Grande Guerra de 1914-1918 os curdos lutaram bravamente contra o império otomano, em troca receberam a promessa de um estado independente nunca materializado.
Combatentes curdos na I Guerra Mundial
Combatentes curdos na I Guerra Mundial
Perseguidos implacavelmente por Saddam Hussein, em seguida à sua derrubada e com o apoio americano, os curdos iraquianos conseguiram estabelecer na fronteira com a Turquia, cercanias de Kirkurk, uma região próspera, organizada e algo autônoma – a primeira em sua atribulada história – e por isso tratada com visível hostilidade pela Turquia e nenhuma complacência da Síria e Irã, todos igualmente temerosos do mesmo fantasma: uma possível Federação Curda com algumas dezenas de milhões habitantes, mais tolerante, menos tirânica e fanática do que o universo em volta.
Junto com a etnia yazidi com a qual tem fortes vínculos culturais e religiosos, os curdos são os alvos prediletos do Estado Islâmico. Quem defendeu Kobani — a cidade onde há três anos nasceu e agora foi sepultado o menino Aylan Kurdi — das milícias do Estado Islâmico não foi a combalida e decadente Síria.
Seria trabalhoso entregar-se à curiosidade em torno do sobrenome do menino que morreu na praia. O jornalismo contemporâneo prefere enredos mais simples, sem tantas vinculações e desdobramentos, compactos, retilíneos, sobretudo assimiláveis. Contar a história e a tragédia dos Kurdi e dos curdos daria muito trabalho aos novos porteiros das redações.
“Quem afogou Aylan Kurdi, o curdo?” é uma provocação complicada, penosa. Escancara um rol de injustiças que o mundo contemporâneo — superinformado, invulnerável à dor, por isso volátil — não tem ânimo nem paciência para conhecer.
Melhor fingir que o menino curdo era sírio. Factóides são mais fáceis de publicar e entender.
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Alberto Dines é jornalista e fundador do Observatório da Imprensa.



01 maio 2015

O QUE PODE E O QUE NÃO PODE

Artes de Procusto

Walter Maierovitch, na Revista CartaCapital



Na mitologia grega, Procusto, assaltante e torturador a dar inveja àqueles do tempo dos DOI-Codi,  ofertava hospedagem aos viajantes em trânsito pela via-sacra entre Atenas e Elêusis. O leito disponibilizado por Procusto estava sempre em desacordo com o  porte físico do viandante. Se não coubesse na cama, era cortado até se encaixar. No caso de estatura menor, os membros eram esticados e deslocados para acomodação ao leito de morte. Diante dos assaltos aos cofres da Petrobras e às pedaladas fiscais, a oposição levantou a bandeira do impeachment contra a presidenta, por crimes de responsabilidade. No particular,  torturam com artes de Procusto a Constituição de 1988 e o Direito positivo.
 Os ilícitos criminais no escândalo da Petrobras consumaram-se quando Dilma não era presidenta. A Constituição estabelece com clareza solar que o “presidente da República, na vigência do seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções” (art. 86, parágrafo 4º). Quando presidia o Conselho de Administração da Petrobras, Dilma era ministra do governo Lula. Para o pranteado Paulo Brossard, autor da monumental obra intitulada O Impeachment: Aspectos da responsabilidade política do presidente da República, esse instituto agrava as crises políticas. Dá para qualquer cidadão imaginar o quanto agrava uma expectativa falsa. Quanto ao exercício das pedaladas, não se devem perder de vista as naturezas jurídicas do Tribunal de Contas da União e das suas decisões em face do sugerido impeachment. 
Como se sabe, recente decisão do TCU que concluiu pela ilegalidade das pedaladas, animou o candidato derrotado Aécio Neves a encomendar pareceres técnico-jurídicos sobre crime de responsabilidade, ensejador de impeachment.  Só que o TCU não emite decisões jurisdicionais, até por não ser órgão do Poder Judiciário. O TCU, hierarquicamente, está abaixo do Poder Legislativo, ao qual atua como órgão auxiliar. Suas decisões são técnico-legais e não políticas, ou seja, na formulação de um pedido deimpeachment contam apenas a conveniência e a oportunidade políticas e estas são da competência exclusiva do Parlamento. A decisão do TCU, órgão auxiliar ao Congresso, não se constitui em título executivo de processo de impeachment, nem com artes de Procusto. 
Mare nostrum e triton  
O Mar Mediterrâneo transformou-se em cemitério de desesperados seres humanos a fugir da fome, sede, guerras, doenças, lutas intestinas, terrorismo, perseguições religiosas e étnicas. Naturais da Ásia, em especial da Síria e do Iraque, e do centro e norte da África, esses migrantes buscam, em travessias marítimas com embarcações precárias e excesso de tripulantes, um futuro melhor nos 28 Estados membros da União Europeia. Até alcançarem os portos de embarque, são explorados e desfrutados por organizações criminosas controladoras do tráfico de pessoas.
No momento, os portos de embarque usados estão na desintegrada Líbia, na Tunísia e na Argélia.  O fenômeno de fluxo migratório não é novo na Europa e as tragédias deste mês de abril no Canal da Sicília (cerca de 800 mortos) e na costa oriental da Ilha de Rodes (perto de 127 mortes) representaram mais uma chamada de consciência ao Ocidente. Este ano, as tragédias aumentaram e a Itália, sem apoio dos Estados que integram a União Europeia, continua sendo a principal porta de ingresso, com 84% do total dos desembarques. As mortes nos naufrágios são crescentes e se aguarda neste ano um contingente de 1 milhão de novos imigrantes.
A piora da situação deveu-se, além do descaso dos europeus em auxiliar a Itália e da falta de apoio financeiro da União Europeia, à substituição, em novembro de 2014, da operação italiana Mare Nostrum pela Triton, da própria UE. A Mare Nostrum, nascida em outubro de 2013 no governo Enrico Letta, depois de naufrágio com 366 mortos, tinha por meta gerenciar o fluxo migratório, com acolhimento, cuidados sanitários, integração e Guarda Costeira treinada para salvamentos em naufrágios.  A Triton limitou-se apenas à proteção costeira.
Por incrível que possa parecer, o comando da Triton fica na Polônia, não banhada pelo Mar Mediterrâneo, mas pelo Báltico. No seu ano de existência, a Mare Nostrum salvou das águas 9 mil crianças e 100 mil adultos.
 
 
 

13 abril 2015

AO LARGO DO ILUMINISMO

Para entender os paquidermes


Alberto Dines, no Observatório da Imprensa



A retomada do debate sobre a maioridade penal expõe com clareza os tormentos do gigante brasileiro ao buscar a superação dos seus impasses. Uma sociedade aprisionada por dogmas é, por natureza, menos propensa à elasticidade e os nossos dogmas são pré-natais, impostos no momento mesmo em que a terra foi descoberta (ou achada).
Dogma (do grego = o que nos parece bom) é um instrumento de dominação; o antídoto mais frequente para eliminar controvérsias é também o mais consumido em agrupamentos que abominam diferenciações. Para arrogantes e onipotentes, o Outro – com tudo aquilo que lhe parece bom – só serve para atrapalhar e, assim, por impaciência e suposta eficácia, universaliza-se o dogmatismo e elimina-se o contraditório e a contestação.
A busca da verdade por meio do diálogo (como pretendia Sócrates) é arbitrariamente excluída. O pré+conceito é a matéria-prima essencial para a fabricação de dogmas e estes constituem a forma mais estúpida de montar maiorias paquidérmicas.
Erroneamente acreditamos que paquidermes são enormes e pesados, na realidade são bestas com pele espessa (também do grego, dermos = pele), crostas impenetráveis, pouco maleáveis. Se racionais poderiam ser classificados como dogmáticos. Incapazes de aprender e apreender.
Como dogmas não existem isolados, as limitações ao livre-pensar fabricam um sistema agregado de dogmas que se atraem e se reforçam mutuamente. Polarizações não ocorrem em esferas únicas, espalham-se pelas adjacências e assim a maioridade penal deixa a esfera jurídica e se cimenta artificialmente num contexto mais amplo – mental, moral, cultural e, sobretudo, político – onde não cabem moderações nem mediações de qualquer espécie. Ou tudo ou nada. Este atalho só pode levar a rupturas.
Ao largo
Para barrar o crescimento da violência há um razoável arsenal de alterações capazes de produzir efeitos mais imediatos e eficazes além da mudança pura e simples da idade limite para a responsabilização criminal. Não é necessário emendar a Constituição a cada momento para satisfazer premências conjunturais.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) oferece um leque de opções para tornar mais rigorosa a aplicação de sentenças contra menores infratores, sobretudo reincidentes. O Conselho Nacional de Justiça, devidamente amparado pelo STF, tem condições de influir na magistratura para coibir a sistêmica escravização de menores por organizações criminosas ou bandidos adultos.
A questão do menor infrator relaciona-se diretamente com a questão da descriminalização do aborto. São conexas, interativas. O mesmo radicalismo do “Espírito de Fla-Flu” que contamina nossa vida partidária está transbordando perigosamente para o terreno doutrinário e institucional, inviabilizando qualquer possibilidade de diálogo e interlocução. Sobretudo porque o Estado laico e secular imaginado na Carta Magna é uma abstração, fantasia rigorosamente desligada da realidade.
Nossa mídia, mais uma vez, mostra-se incapaz de mediar. Neste caso consegue tomar posições diferenciadas, mas não tem força para desfazer os dogmas, nem contornar os impasses. Ao contrário, só os agrava ao estimular as execrações.
Se pretendemos uma reforma política é preciso desfazer o nó dogmático que torna a sociedade brasileira um ser paquidérmico, duro, inerme, invulnerável às mutações, infenso ao aperfeiçoamento e à evolução. Alheio ao esclarecimento. Nessas questões fundamentais escancara-se nossa falência basilar: passamos ao largo do Iluminismo.
 
 

03 abril 2015

MAIORIDADE PENAL

Um grande passo atrás


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Os jornais destacam, nas edições de quarta-feira (1/4), a aprovação, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, da proposta de emenda constitucional que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. As reportagens registram que a iniciativa foi apoiada majoritariamente pelos principais partidos da oposição – PSDB, DEM e Solidariedade – com adesão da maior parte da bancada do PMDB, que oficialmente ainda integra a aliança governista.
A primeira página do Estado de S. Paulo reflete não apenas o perfil típico do Congresso, tomado pelo obscurantismo – com grande número de parlamentares comprometidos com agendas reacionárias –, mas revela principalmente o caráter conservador que vem dominando a própria imprensa brasileira. A escolha editorial de completar o relato factual da decisão parlamentar com dois quadrinhos de texto, um a favor da proposta e outro contrário, é indicador da pobreza de raciocínio que orienta a mídia tradicional.
Uma das características dos midiotas – aqueles cidadãos que se orgulham do pouco que sabem, e buscam consolidar sua ignorância em textos da imprensa – é acreditar em soluções mágicas para problemas complexos. A proposta de criminalizar a adolescência é parte desse rol de crenças, que, em grande medida, inclui ainda a convicção de que a pena de morte seria adequada para a redução da violência.
O problema se torna uma questão de interesse nacional quando uma parte significativa do Congresso Nacional parece atacada da mesma síndrome, e a imprensa finge que uma questão como essa tem apenas dois lados.
O fato de a proposta de redução da maioridade penal ter partido de integrantes da chamada “bancada da bala” precisa ser destacado para lembrar que esse conjunto de parlamentares representa um resquício do que houve de mais deletério no período da ditadura militar. A eles se juntam líderes de seitas religiosas conhecidos pela similaridade com os grupos de militantes que pelo mundo afora são chamados, de modo tão genérico quanto equivocado, de “fundamentalistas”. Mas indivíduos que pregam a lei de talião, ou da retaliação, não podem ser chamados, como costuma dizer a imprensa, de “cristãos fundamentalistas”.
Os “humanos direitos”
Escudados na religião, recortam seletivamente os textos que os cristãos consideram sagrados para criar uma versão comercial do Evangelho. A esses personagens horroriza tudo que se refere aos direitos humanos, ainda que eles atuem na fronteira de tolerância da democracia, ou seja, agem constantemente contra a própria democracia – e, por extensão, contra seus próprios direitos. Entre as pérolas declamadas por esses atores e seus acólitos, em discursos na tribuna ou nas redes sociais, citam uma suposta contradição entre os “direitos humanos” e os “humanos direitos”.
A imbecilidade é uma debilidade mental que se caracteriza pela dificuldade do indivíduo em definir o território em que sua singularidade se mescla ao campo social. Assim, o midiota – expressão do imbecil em sua relação com o ambiente midiático – julga-se diferenciado da humanidade por ser, segundo seu próprio arbítrio, um ser humano “direito”, portanto, superior aos demais. Faltou a ele dar o passo definidor do processo civilizatório, entre o “eu” e o “outro”.
Pois é para esse cidadão sem cidadania que legisla a Câmara, ao admitir uma mudança na Constituição para criminalizar a adolescência. No entender dos parlamentares que votaram pela proposta, uma sociedade ideal deve armar seus cidadãos e estabelecer a punição como princípio basilar na relação entre o Estado e a sociedade.
Mas esses parlamentares não ganhariam um mandato se não tivessem sua popularidade amplificada pela mídia – em alguns casos, atuando como radialistas ou participantes de programas populares de televisão, em outros pregando sua visão de mundo retrógrada sob o manto da religião, e quase sempre ganhando espaços nobres para suas patacoadas maniqueístas.
A chamada mídia tradicional, aquela que precisa manter ao menos uma imagem de compromisso com o processo civilizatório e a modernidade, trata como iguais duas visões de mundo antagônicas e inconciliáveis. Uma delas puxa a sociedade para baixo, para o conflito, a intolerância e a barbárie. A outra luta desesperadamente para preservar e fazer avançar o que foi conquistado até aqui de civilizado no período que se sucedeu às trevas da ditadura militar.
Por que a imprensa não se engaja integralmente no campo democrático e progressista?Porque é entre os midiotas reacionários que encontra as bases de sua ação política.
 
 

18 dezembro 2014

ABSURDO

Não se amplia a voz dos idiotas


Jandira Feghali(*), no JB on line




“Não se amplia a voz dos idiotas”. Mesmo tendo como referência esta citação de Millôr Fernandes, é impossível, diante da reincidência e pelo espaço que ocupa, evitar o mesmo com Bolsonaro. Suas ofensas inaceitáveis, ditas ao bel prazer para deleite de uma meia dúzia sanguinária, põem à mostra os monstros internos do parlamentar viúvo da Ditadura. O defensor de torturadores cultua o crime do estupro, ofende negros, homoafetivos e feministas a partir de uma linha de raciocínio frágil e débil, mas que levam ao delírio seus seguidores, igualmente intolerantes e saudosos do período de exceção.
Seu campo reacionário, alinhado a grupos pró-ditadura militar, fascistas e imbuídos de um sadismo doentio, resolveu romper o silêncio, apesar de minoritário. Não é à toa que se pode dizer que a Direita saiu do armário no Brasil. Forças neoliberais e conservadoras deram os braços e casaram-se num momento importante para o país.
E este enlace do atraso com o ódio tem sido abençoado pela Grande Mídia, que busca promover um sentimento anti-esquerda, contra tudo ligado às ideias progressistas. Bolsonaro se alimenta deste resultado para abocanhar eleitores. Uma relação simbiótica e oportunista, onde os ganhos que imaginam ter significam perdas para a democracia.
Ao dizer que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT/RS) por ela “não merecer”, da tribuna da Câmara dos Deputados, o parlamentar atacou todas nós. Tenta acertar a atuação da Comissão Nacional da Verdade, mas acabou por atacar as protagonistas desta luta, mulheres, mães ou filhas, avós ou netas, chefes de família, estudantes e ativistas. Agrediu todas com sua virulenta expressão machista, misógina e criminosa. Arremessou o ódio incrustado em sua mente e em seu coração na direção de todas as mulheres, se autodeclarando um possível estuprador, naturalizando um crime hediondo da tribuna parlamentar. Absurdo!
Até as Organizações das Nações Unidas (ONU) se manifestaram, repudiando as declarações do deputado. Disse o que viemos afirmando: “uma ofensa não apenas para a deputada, mas também para a dignidade das mulheres e de todas as vítimas de abusos graves como violência sexual e estupro”.
Não, Bolsonaro. Nenhuma de nós merece ser estuprada. Seu “ato falho” diante da Nação só mostra o quanto o senhor é intolerante e preconceituoso com os mais variados grupos sociais do país. É lamentável que no debate de ideias, exigido para uma atuação séria no Parlamento, vossa senhoria se perca diariamente em ofensas.
O Partido Comunista do Brasil, junto do PT, PSB e PSOL já mostrou o caminho junto ao Conselho de Ética da Câmara e à sociedade: a cassação do mandato de Bolsonaro através do Conselho de Ética e Conduta Parlamentar da Casa. O documento está em trâmite, ao mesmo tempo que uma petição pública coleta agilmente 500 mil pedidos por sua saída. Vale lembrar que não é a primeira vez que o deputado é alvo do colegiado ou de instâncias externas por conta de suas ações ou declarações.
Bolsonaro não passará. A impunidade tornaria muito difícil a convivência e credibilidade do parlamento brasileiro. Seu ódio latente, sempre justificado como “oposição ao Governo”, pode ressoar para poucos, talvez até tomar forma como voto de protesto, mas jamais terá eco em nosso país. A caricata ironia com que prega a violência sexual será derrotada pelos órgãos de justiça e da corregedoria do Parlamento. Um Bolsonaro incomoda muita gente, mas para os indivíduos e grupos que pensam como ele, a nossa democracia incomoda muito mais.
* Médica e líder da bancada do PCdoB na Câmara dos Deputados
 
 

12 dezembro 2014

ENCARANDO O PASSADO

Relatório coloca imprensa diante do espelho


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



A apresentação do relatório final da Comissão da Verdade, em solenidade oficial, marca o momento histórico em que as instituições brasileiras são colocadas diante da escolha entre consolidar a democracia ou manter ao relento os fantasmas da ditadura.O destino do documento não é tão importante quanto as responsabilidades que ele coloca diante da sociedade, num contexto em que uma parcela da população, ainda que mínima, se sente encorajada a pedir a volta do regime de exceção.
Os três jornais de circulação nacional, que conduzem a agenda pública e ancoram os principais temas que circulam nas redes de comunicação, destacam o assunto em manchete e, em graus variados de sutileza, tratam de desencorajar o passo seguinte, que seria o processo de punição dos autores dos crimes de tortura, assassinato e desaparecimento de pessoas colocadas sob sua guarda.A leitura criteriosa de cada um deles revela que tanto o Globo quanto a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo prefeririam não ter que lidar com esse legado macabro.
Mas a História, como se sabe, se desenrola em conjuntos de espirais e de cada uma delas se pode confrontar, periodicamente, tudo aquilo que não foi resolvido em seu devido tempo.Assim como a corrupção de hoje reflete a impunidade de antigas falcatruas, a vergonha que agora atinge algumas entidades do Estado, principalmente as Forças Armadas, é um reflexo da tentativa inútil de abafar sob o pó do tempo aquilo que não pode ficar oculto.
Os 377 criminosos apontados pela Comissão da Verdade representam não apenas o lado mais obscuro do regime deletério, mas também fazem lembrar aqueles que colaboraram ativamente, passivamente, ou na sombra da omissão, para que os crimes fossem cometidos com tanta naturalidade ao ponto de se transformarem em processos quase burocráticos na rotina do aparato de repressão.Ativa, passiva ou na sombra da omissão, a imprensa tem sua parcela de responsabilidade, e nas edições de quinta-feira (11/12) pode-se observar como cada uma das grandes empresas de mídia reage diante do espelho.
Encarando o passado
Dos três principais diários do País, o único que evita abordar o assunto em editorial é a Folha de S. Paulo – que preferiu citar em nota curta o trecho do documento que se refere ao apoio que parte da imprensa deu ao golpe militar em 1964.
Também há referência ao trecho em que o relatório acusa a empresa Folha da Manhã de haver financiado a Oban (Operação Bandeirantes, nome que se deu a um dos grupos do sistema repressivo) e de ter cedido veículos para suas ações.O texto reconhece que "em 1964, a Folha apoiou o golpe, como quase toda a grande imprensa", mas nega que o jornal tenha dado suporte financeiro ao sistema repressivo ou emprestado carros de sua frota para as ações ilegais.
Não era necessário haver um esquema oficial: pelo menos dois dos jornais do grupo eram dirigidos por policiais e empregavam agentes ligados ao sistema, que faziam jornada dupla, servindo ao jornalismo e ao aparato do Estado e circulavam à vontade a bordo das peruas pintadas de amarelo.
O Estado de S. Paulo e o Globo encaram em editoriais o passado que, confessadamente, prefeririam ver esquecido. O jornal paulista propõe uma forma estranha de resolver pendências históricas, ao dizer que a Lei da Anistia cobre todos os atos daqueles tempos: "Não se tratava de perdoar crimes, mas de deixá-los no passado, no âmbito da história", diz o texto.O Globo alinha as virtudes do relatório, principalmente o fato de iluminar os porões da repressão e ajudar a "manter viva a memória dos horrores da ditadura", mas também se manifesta contra o julgamento dos acusados.
De modo geral, o conjunto das reportagens e trechos do documento citado e comentado pelos três diários contribui para dar ao leitor uma ideia do que foram aqueles tempos de horror.
Destaque-se o texto em que o Globo reproduz depoimentos de vítimas que sobreviveram às sevícias, cuja leitura ajuda a entender a extensão daqueles crimes.Observe-se também que o título escolhido pela Folha para a reportagem principal distorce o sentido de justiça, propósito original da Comissão da Verdade: "Acerto de contas", diz o jornal.
A linguagem jornalística tem dessas sutilezas.
 
 

03 agosto 2014

OS EUA E SEUS CONFLITOS

Por que os EUA perdem

POR QUE OS EUA PERDEM 

O Brasil e os Estados Unidos, cada um por suas razões, acabam de retirar seu pessoal diplomático de Trípoli, na esteira da desastrada intervenção dos EUA e da OTAN na Líbia, que teve como consequência a entrega de uma das mais desenvolvidas nações do continente africano a uma matilha de quadrilhas radicais islâmicas, após a derrubada e o assassinato de Muamar Kadafi, em 2011.

Brasília está fechando sua embaixada para proteger seus funcionários. Os EUA, porque, assim como ocorreu no Iraque, foram taticamente derrotados e falharam em colocar no poder governos fantoches, apesar de terem destroçado política e socialmente esses países, deixando, como está acontecendo na Síria, como rastro de sua interferência, direta ou indireta, centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados.
Único país do mundo a possuir, sem necessidade de lastro, uma impressora de dinheiro em casa, e a contar com gigantesca máquina de inteligência, espionagem e propaganda, os EUA teriam tudo para, se quisessem, como diria o teórico da auto-ajuda Dale Carnegie, “ganhar amigos e influenciar as pessoas”, incentivando a paz e o desenvolvimento nos países mais pobres, por meio de “soft power”.

Cinco principais razões, no entanto, impedem a república norte-americana de fazer isso:

Em primeiro lugar, o grande business do medo, tocado, protegido, irrigado como frondosa e delicada árvore, todos os dias, por milhares de pseudo-intelectuais, “filósofos”, acadêmicos, “pesquisadores” e jornalistas, que vivem de provocar, induzir e realimentar as indústrias do anti-comunismo, do anti-islamismo, do “anti-chinesismo”, do anti-russismo, do anti-castrismo, do anti-bolivarianismo, etc.

Em segundo lugar, o complexo imperial da direita fundamentalista norte-americana, que acredita, piamente, ter herdado, dos pais fundadores, exclusivo e expresso mandato recebido – como as Tábuas da Lei - diretamente das mãos de Deus, para conduzir o mundo e o destino da Humanidade.

Em terceiro lugar, a política interna, na qual democratas e republicanos, e concorrentes a indicações e a candidaturas, às vezes até do mesmo partido, se acusam mutuamente de desdenhar a segurança, o que coloca a questão da defesa sempre em primeiro plano no embate político, partidário e eleitoral.

Em quarto lugar, os interesses de um imenso complexo industrial-militar que movimenta milhões de pessoas e centenas de bilhões de dólares na pesquisa, desenvolvimento e fabricação de novas armas, que precisam ter sua existência justificada e ser usadas de alguma forma.

E, finalmente, em quinto lugar, uma política externa e uma diplomacia que não conseguem sobreviver sem a desconfiança e a arrogância. Em seu trato com o resto do mundo, principalmente as nações menos favorecidas, os Estados Unidos poderiam usar a cenoura, mas preferem, como qualquer valentão de bairro, brandir o porrete, porque isso lhes dá prazer e a ilusão de força.

Com base em mentiras, como a existência de armas de destruição em massa, os EUA mataram Saddam Hussein e derrubaram Muammar Kadafi, armando um bando de psicopatas que linchou, no meio da rua, a socos e pontapés, o líder líbio, transformando seu rosto em uma espécie de hambúrguer.

Era Kadafi um tirano? Quando convinha, a Europa e os EUA não se aliaram e fizeram negócios com ele, assim como com outros ditadores que são ou foram apoiados pelo “ocidente”, em estados como a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes, ou em países como o Chile de Pinochet e a Indonésia de Suharto ?

Sob a liderança de Saddam Hussein, o Iraque chegou a ser um dos países mais prósperos do Oriente Médio, com uma infraestrutura invejável, boa parte dela construída por brasileiros nos anos 1970 e 1980; e a Líbia, sob Muamar Kadafi, tinha o maior IDH africano.

Hoje, depois de guerras fomentadas e promovidas pelo “ocidente”, os dois países estão entregues a rebeldes islâmicos radicais, perto dos quais Kadafi e Saddam Hussein pareceriam anjos. E os Estados Unidos, depois de um custo financeiro e humano incalculável, estão saindo de Trípoli e de Bagdá escorraçados, como saíram do Vietnam e da Somália.

Em “Von Kriege”, Clausewitz escreveu que “a guerra é a continuação da política por outros meios...” querendo afirmar a primazia da razão política sobre a força das armas. Para os Estados Unidos, a política é a continuação da guerra.

De uma guerra permanente que os opõe – como podemos ver pela espionagem contra seus próprios aliados, entre eles a Alemanha – ao resto do mundo.

Não por acaso, as únicas vezes em que os EUA foram efetivamente bem sucedidos, do ponto de vista bélico, foi quando lutaram claramente não em defesa de suas empresas e de sua elite, mas pela liberdade, no conflito contra a Inglaterra pela independência de seu território, e na Primeira e na Segunda guerras mundiais.

A Guerra Fria não passou de uma estratégia contínua e paranoide de isolar e enfraquecer a União Soviética, que saíra da Segunda Guerra Mundial e da Batalha de Berlim como uma nação vitoriosa, sem a qual o nazismo não teria sido derrotado.

Hoje, embora não o admita, a direita norte-americana está extremamente preocupada com o avanço do BRICS e mais especialmente da China.

Nos próximos anos, se os EUA não mudarem, esse avanço será cada vez mais eficaz e inexorável.

Não pelo fato de que Pequim esteja se armando militarmente, assim como os outros BRICS. Mas porque, na maioria dos lugares em que chegam, países como o Brasil e a China o fazem por meio de obras, comércio, investimentos, portos, estradas, pontes, ferrovias. E os Estados Unidos, a OTAN, e seus aliados, por meio de mentiras, intrigas e discórdia, bombardeios, drones e porta-aviões.




(Extraído do ESQUERDOPATA)



 


31 julho 2014

GAZA: OS TÚNEIS DA MENTIRA

Janio de Freitas 
Espaço vital e mortal

Destruir por bombardeio a única usina de energia elétrica em Gaza não é procurar e destruir túneis dos combatentes palestinos. É o modo escolhido de causar o dano mais geral à população civil e às instalações essenciais que são os hospitais e postos de socorro ao que reste de vida nas vítimas das bombas, do canhoneio naval e dos tiros de tanques. Crime de guerra, pela Convenção de Genebra, e crime contra a humanidade, pelos princípios da ONU e pelas leis internacionais.

Os túneis como motivo dos ataques são apenas uma mentira a mais. O sistema de informação e vigilância de Israel não seria enganado, enquanto o Hamas construiria rede subterrânea tão extensa e sofisticada quanto diz o governo israelense. Mentira como a velha alegação de que os hospitais, escolas, mesquitas e moradias destruídos serviam de depósitos de armas e munição do Hamas. Se fossem, o ataque a tanto material explosivo teria levado toda Gaza pelos ares há muito tempo. Em vez disso, ruínas e crateras documentadas são compatíveis com o efeito normal dos bombardeios, sem a expansão de paióis explodidos.

O objetivo não são os túneis. Nem o foram os lançadores de foguetes do Hamas, como alegado ao início do atual ataque. O objetivo que pode explicar tamanho massacre é outro. Tem nome, já foi assunto de interesse da imprensa na Europa há uns 30 anos, mas veio a ficar cercado por um silêncio raras vezes transposto. O mesmo silêncio útil, e em grande parte pelas mesmas razões, adotado no último dia 24, quinta-feira.

Uma posse presidencial não é fato que passe sem se fazer notar. Tanto mais se quem deixa o posto é o último estadista de Israel, que se despede da vida pública aos 90 anos, e Nobel da Paz há exatos 20 anos. Foi diante de poucos convidados, no entanto, que Shimon Peres entregou a Presidência a Reuven Rivlin, que fez carreira como advogado de árabes moradores no território israelense. Sem que a atividade profissional tenha qualquer significado político.

O novo presidente de Israel não é apenas de ultradireita, integrante do mesmo Likud do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Ex-oficial de informação do Exército, Reuven Rivlin defende e incentiva a multiplicação de bairros ("assentamentos") israelenses em terras da Cisjordânia. Combate a hipótese do Estado Palestino previsto no ato de criação de Israel pela ONU. Em último caso, diz, seria admissível conceder aos árabes da Cisjordânia a cidadania de israelenses.

Reuven Rivlin é entusiasta e propagador do plano Grande Israel, hoje raramente citado, ao menos de público. Projeto que se origina (ou termina) em ideia semelhante à do "espaço vital" que figurou nas causas da Segunda Guerra Mundial. Nele se vê a explicação para os continuados "assentamentos", apesar da condenação da ONU e do poder conflituoso que têm, além de serem obstáculo central nos arremedos de diálogo de paz entre Israel e Cisjordânia.

Com o cadastro de Reuven Rivlin, o realce à sua posse tenderia a agravar a imagem de Israel propagada por sua ferocidade bélica. Mas a importância da ligação ostensiva do novo presidente com o plano Grande Israel não é só um prenúncio de sua ação futura. É componente lógico de um plano de ação que está muito acima dos túneis. E é levado pelas bombas à terra necessária à grandeza sonhada.
 
 
(Extraído do ESQUERDOPATA)
 
 
 

25 julho 2014

GENOCÍDIO EM GAZA

O silêncio oportunista


Mino Carta, na Revista CartaCapital





Não pergunto aos meus botões em que mundo vivemos, temo a resposta. A crise mundial dispensa maiores apresentações. Moral e intelectual antes que econômica, embora esta confirme aquelas precedentes. Por que a humanidade rendeu-se à religião do deus mercado? Por que aceitou passivamente as leis de uma fé que aproveita a poucos e infelicita os demais?
Às vezes me colhe a sinistra sensação de que já começou uma nova, peculiar Idade Média. O mundo, seduzido pelo chamado avanço tecnológico, vítima de uma globalização dos interesses da minoria, distanciados os homens uns dos outros não somente pelo crescente desequilíbrio social, mas também pela versatilidade da mirabolante internet, não se apercebem do eclipse dos valores e dos princípios, e da ausência de poetas e pensadores.
É nesta moldura que se desenrolam os acontecimentos destes dias a agitarem a política internacional, e também se movem minhas dúvidas e perplexidades em relação aos comportamentos dos donos do poder, das chamadas opiniões públicas e dos sistemas midiáticos. No caso, a mídia nativa confirma apenas a sua insignificância, ao imitar simplesmente os exemplos chegados de fora.
Então vejamos. Por que os restos retorcidos do avião malaio derrubado no céu ucraniano ganham a primazia nas primeiras páginas e na fala sincopada dos locutores, no confronto com os mortos e a devastação na Faixa de Gaza? Não proponho um enigma. Trata-se do resultado da demonização de Putin misturada com o longo alcance do lobby judeu. De certa forma, a queda do avião veio a calhar para os senhores do mundo, sem detrimento da brutal gravidade do fato e a desolação causada pela morte de 298 semelhantes. Serviu, porém, para desviar a atenção, até onde foi possível, de algo muito mais grave para a paz global.
É no Oriente Médio que se decide o futuro do planeta, e isso é do entendimento até do mundo mineral. A questão da Ucrânia é complexa e ameaçadora, mas o império soviético, cuja presença estaria habilitada a precipitar severas complicações, ruiu há 25 anos. O Ocidente, ainda sujeito ao império norte-americano, tende a apresentar Putin como uma espécie de herdeiro tanto da URSS quanto do czar. Não é bem assim, está claro. O defeito do líder russo é sua inteligente independência, em que pesem sua prepotência e eventual ferocidade, e sem falar das preocupações geradas por seu envolvimento na criação de uma nova ordem pelos BRICS. Outra a dimensão da questão médio-oriental, para a qual reflui o efeito dos momentos mais tensos das últimas décadas.

Feridas profundas continuam a sangrar em toda a região, marcada pela progressão do fundamentalismo islâmico, por revoluções em pleno curso, pelos erros das políticas ocidentais, que aliás são seculares. E por guerras fracassadas, por revoltas malogradas, por atrocidades sem conta, por desmandos imperdoáveis. Etc. etc. No centro deste arcabouço instável, sempre à beira do desastre fatal, está Israel, Estado poderosíssimo por força própria e de quem o sustenta, a ocupar, desde o pós-Guerra, uma terra antes habitada por outro povo, conquanto também semita, há cerca de 2 mil anos.
Eu, por exemplo, não sou responsável pelo holocausto. Lamento, mesmo porque ceifou a vida de excelentes amigos dos meus pais, mas não me induz ao remorso, e tanto menos até hoje, quando a invasão da Faixa de Gaza pelas formidáveis tropas israelenses evoca a invasão do Corredor Polonês pelo exército de Hitler em 1º de setembro de 1939, estopim da Segunda Guerra Mundial. O Ocidente neoliberal diz que Tel-Aviv tem direito a se defender contra o terrorismo do Hamas. Já o Hamas sustenta estar em luta pelo resgate da terra usurpada.

Por cima das razões de cada um, a disparidade exorbitante entre as forças não pode deixar de influenciar qualquer juízo, para fortalecer a inequívoca percepção de que de um lado morrem soldados e do outro civis, e muitas crianças, em proporções absolutamente incomparáveis. Estamos diante de uma ofensa irreparável aos Direitos Humanos. Que visa Israel? Eliminar 1,8 milhão de palestinos? Dói demais, na circunstância, a falta de reação de uma porção do mundo que se pretende civilizado e democrático e, de verdade, sucumbe à soberania do dinheiro. Avulta, nesta encenação trágica, a ausência de lideranças, a falta daquele gênero de personagens que já ofereceram espaço à política e a praticaram com competência para assumir o controle da situação e ditar as regras.
Contamos com uma galeria de figuras medíocres, quando não parvas, incapazes de enfrentar a turva realidade para impor um rumo. E isso tudo nesta hora que denigre o gênero humano e denuncia a chegada da nova Idade Média. Louvo a iniciativa da chancelaria brasileira: chama às falas o embaixador israelense e de volta ao País o embaixador brasileiro em Tel-Aviv. Mas o Brasil pode e deve muito mais. Por exemplo, convocar a ONU, como sempre inerte, a condenar o massacre e mostrar às lenientes democracias ocidentais o caminho da razão.