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19 agosto 2015

A RAIZ DOS PROBLEMAS

Apagões, viroses e outros diagnósticos




Laurindo Lalo Leal Filho, na Agência Carta Maior


A entrega da seleção brasileira e dos campeonatos nacionais ao controle da Rede Globo está na raiz dos problemas. O futebol foi reduzido a um programa de TV.



Artigo publicado na Revista do Brasil, edição de agosto/15 
 
Copa do Mundo: Alemanha 7 x Brasil 1. Diagnóstico do Scolari: “apagão”. 
 
Copa América: Brasil desclassificado pelo Paraguai. Diagnóstico do Dunga: “virose”. 
 
Em outras profissões diagnósticos desse tipo poderiam ser submetidos a conselhos de ética e seus autores sujeitos a punições. 
 
Diagnósticos sérios, se fossem feitos, iriam buscar as razões dessas derrotas em problemas bem mais profundos. Práticas capazes de transformar, em duas ou três décadas, o “melhor futebol do mundo” num coadjuvante menor das grandes disputas internacionais. 
 
A entrega da seleção brasileira e dos campeonatos nacionais ao controle da Rede Globo de Televisão está na raiz desses problemas. 
 
O esporte mais popular do país foi reduzido a um simples programa de TV, obrigado a se ajeitar na grade de programação da emissora, segundo suas conveniências comerciais.
 
As consequências foram danosas para clubes, seleções e torcedores, os mais prejudicados. 
 
Nos jogos noturnos obrigados a sair do estádio quase à meia-noite porque as partidas devem começar às dez, depois da novela. 
 
E ao se postarem diante da TV, são vítimas do monopólio já que a emissora seleciona um jogo para transmitir e quase sempre impede as demais de oferecer alternativas.
 
Essa lógica fez inúmeros clubes desaparecerem da televisão e com isso se inviabilizarem comercialmente. 
 
Os direitos de transmissão são negociados clube a clube, recebendo mais dinheiro aqueles que, em tese, podem dar mais audiência. 
 
É a contribuição da TV para o desequilíbrio financeiro entre eles, com os mais fortes se tornando cada vez mais fortes, às custas dos demais.
 
Dos 20 clubes que disputam o campeonato nacional deste ano há apenas um do Nordeste, um do Centro-Oeste e nenhum do Norte. 
 
Salvador, Fortaleza e Brasília somam mais de nove milhões de habitantes mas não têm nenhum clube na série A do Brasileiro. 
 
Na Inglaterra, que tem um dos campeonatos mais equilibrados do mundo, 50 por cento dos direitos de transmissão são distribuídos igualitariamente e a outra metade leva em conta os tamanhos das torcidas e o desempenho técnico nas disputas anteriores. 
 
Na Alemanha o sistema é mais radical: o total das quotas de televisão é distribuído igualmente entre todos os clubes.
 
Caminhamos rumo ao modelo espanhol onde apenas duas equipes disputam para valer o campeonato nacional, com uma terceira na sombra como está bem demonstrado no livro “Cotas de Televisão do Campeonato Brasileiro”, do jornalista Emanuel Leite Junior, lançado no final de julho em Recife. 
 
A única tentativa de tornar mais equilibrada a distribuição dos direitos de transmissão no Brasil, ainda que restrita a poucos clubes, ocorreu com a criação do Clube dos 13, organização que negociava com a TV em nome das principais agremiações brasileiras. 
 
Diante de sua força, a Globo conseguiu debilitá-lo realizando negociações isoladas com os clubes, pondo fim à sua existência. 
 
Quanto à seleção não é por acaso que o principal delator dos escândalos internacionais seja José Hawilla,  responsável pela intermediação na venda dos direitos de transmissão das partidas. 
 
A existência do intermediário, nesse tipo de transação, tem como objetivo apenas possibilitar a distribuição de propinas para dirigentes de federações e confederações, como salienta o jornalista Luiz Carlos Azenha, um dos autores do livro “O lado sujo do futebol”. 
 
As “tenebrosas transações” do futebol brasileiro,  ganharam espaço e se perpetuaram deixando para segundo plano questões como a formação dos atletas e a qualidade dos espetáculos. 
 
Sem ver na TV os times de sua cidade ou de seu Estado, meninos e meninas passaram a torcer por clubes do eixo Rio-São Paulo e, mais recentemente, para os integrantes da Liga dos Campeões da Europa.
 
E quando veem a seleção no gramado têm dificuldade de reconhecer a maioria dos jogadores, muitos deles com carreira iniciada na pré-adolescência fora do Brasil. 
 
As mudanças legais aprovadas no início de julho pelo Congresso Nacional, sob forte pressão contrária da bancada dos cartolas, ainda são muito tímidas. 
 
Seguimos longe dos melhores modelos europeus e mais distantes ainda da Argentina que devolveu ao público o direito de ver pela televisão, sem custos, o futebol do seu país.



02 junho 2015

MAIS UM TÍTULO PARA O BRASIL

Os caras de pau-brasil



Mino Carta, na Revista CartaCapital




O mundo se curva, o Brasil docet, diriam os antigos romanos. Ensina, leciona de cátedra. Não somos por acaso o país do futebol, a pátria de chuteiras. Em matéria, há tempo deixamos de ser os reis da bola, somos, porém, imbatíveis no gramado da corrupção.
Tudo escancarado há mais de 40 anos, sem ser denunciado e punido. A imponente mazela perpetrada em todos os campos do futebol nativo, a falcatrua constante, o engodo feroz, são vergonhosamente ignorados até pela mídia, esportiva ou não, com raríssimas e digníssimas exceções. Quando não são secundados, ou mesmo incentivados.
Tudo começa, no plano internacional, com João Havelange, dono da Fifa desde 1974, e chega agora a José Maria Marin. Na origem e no desenvolvimento os protagonistas nativos campeiam, graças à inestimável contribuição, com efeitos determinantes no cenário nacional por uma época farta, de Ricardo Teixeira, antecessor de Marin, autoexilado, para salvar a pele, em Boca Raton, paradeiro de nome bastante persuasivo. Nem por isso, seguro, a esta altura do campeonato.
Criatura de Havelange, de quem já foi genro, Teixeira corre riscos até ontem inesperados: entrou no enredo o FBI, aquele que a gente se acostumou a ver triunfar na televisão, e Marin, finalmente alcançado na Suíça, uma vez deportado para os Estados Unidos, lá será julgado e condenado com o rigor de quem leva as coisas a sério. Parece que Teixeira caiu na brasa.
Não haverá um Gilmar Mendes ianque para tirar da enrascada os envolvidos na grande tramoia. Como se deu, só para citar um exemplo, com o banqueiro Daniel Dantas, alcançado pela Operação Satiagraha, preso duas vezes e duas vezes libertado pela intervenção de Mendes, capaz, aliás, de emperrar o funcionamento da Suprema Corte brasileira em proveito dos seus próprios objetivos públicos.
Há certo parentesco entre os casos, a se considerar que Dantas já foi condenado fora do País, em Nova York, em Cayman e em Londres, enquanto aqui na terrinha pode-se permitir viver à larga em perfeito sossego. Desde a clamorosa roubalheira-bandalheira da privatização das comunicações, o maior escândalo da história pátria, até o enterro da Satiagraha e o desterro do delegado Paulo Lacerda para Portugal.
Não recordo que por ocasião destes dois momentos da trajetória de Dantas a mídia nativa tenha entrado em ação para martelar diuturnamente em denúncias e acusações como se dá hoje em relação ao “petrolão”. Do período que vai da Operação Chacal à Satiagraha sobrou a constrangedora impressão de que o banqueiro do Opportunity vive em paz por ter todo mundo no bolso.
A diferença entre Marin, e quantos mais vierem atrás dele, e Dantas, é representada, em primeiro lugar, pela presença do FBI, sem contar que logo após virá a Justiça americana, e os EUA são muito severos em relação à lavagem de dinheiro dentro de suas fronteiras. Por ora, 
Joseph Blatter, o presidente da Fifa, e outros, estrangeiros e nacionais, todos herdeiros diretos ou indiretos de Havelange, escapam aparentemente à investigação do Federal Bureau. Não se excluam surpresas, contudo.
Faz duas semanas, CartaCapital dedicou uma capa à CBF de Marco Polo Del Nero. A Confederação queixou-se, alegou não ter sido procurada para dirimir nossas dúvidas, como se não estivéssemos largamente habilitados a imaginar quanto tería-
mos de ouvir. Retrucamos, de todo modo, que muito nos agradaria entrevistar o próprio presidente da entidade, com total liberdade para formular perguntas. Não houve resposta.
Sabemos que na terra brasilis, os donos de poder, em qualquer instância, são intérpretes insuperáveis de uma secular tradição de desfaçatez, prepotência e hipocrisia na certeza da impunidade por direito divino. São os caras de pau-brasil. O futebol, está claro, entre nós não é assunto de somenos, e algo intrigante é a razão por que, sempre a ficar em meros exemplos, as partidas noturnas tenham necessariamente de acontecer depois da novela da Globo. Ah, sim, a Globo... Quanto valerão tantas benesses que lhe foram concedidas?
E é possível que o governo federal, hoje representado por um ministro do Esporte inepto, não intervenha nos gramados da política do futebol, entregue a uma máfia de cartola? Permito-me lembrar que a seleção canarinho adentra aos gramados do mundo ao som do Hino Nacional. 

18 maio 2015

SEM ESPORTIVIDADE

Golpe baixo



Alberto Dines, no Observatório da Imprensa




O valente jornalista Juca Kfouri, que desde a sexta-feira (15/5) está internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, recuperando-se de complicações decorrentes de uma cirurgia, sofreu no domingo (17) um covarde ataque do médico & cartola Walter Feldman, atual secretário-geral da CBF, nobre e honestíssima entidade esportiva que tantas alegrias tem proporcionado ao cidadão brasileiro.
Na nobilíssima página 3 da Folha de S.Paulo – ultimamente engajada em promover disputas e fazer barulho a qualquer preço – o celebrado colunista foi atacado pelo esculápio com a clara cumplicidade do jornal, ciente de que o seu colaborador encontrava-se hospitalizado.
O texto “Paixão e rancor” é medíocre, maroto, apequenado, rasteiro, desprovido de qualquer atributo intelectual que justifique a privilegiada exposição. Juca Kfouri é um gigante do jornalismo brasileiro e não apenas do jornalismo esportivo. Nunca fugiu ao debate, enfrenta com reconhecida galhardia – e sempre com muita graça – todos os tipos de desafetos. Mas não se pode esperar que ainda na UTI tenha condições de tourear este bode enfezado.
A “nova” CBF tão ardentemente defendida pelo ex-deputado federal e servidor de tantos patrões é idêntica à velha CBF. Isto está claro. A reportagem de capa da presente edição de CartaCapital(nº 850, de 20/5), “CBF: barco furado”, denuncia exatamente este continuísmo.
A Fifa também sendo questionada, seus dirigentes deveriam estar no xilindró, mas comporta-se com um mínimo de decência. Não é este o paradigma adotado pela nova leva de cartolas nativos. O espírito mafioso persiste, intacto.
Este observador já serviu de testemunha de defesa de Juca Kfouri em vários processos e ficará honrado se convidado para novas missões. Mas não se sente habilitado a falar em nome de umexpert do porte de Juca.
Desprovido de qualquer fair-play e esportividade, Walter Feldman não perde por esperar.
 
 

18 fevereiro 2015

AS SÍNTESES DO BRASIL

Detalhes tão pequenos


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Há quem diga que o carnaval e o futebol fazem a melhor síntese do Brasil. Pode-se acrescentar, com os mesmos argumentos, que o quadro fica mais completo e equilibrado se incluirmos nessa moldura a religião. Porém, sempre é bom lembrar que não estamos observando diretamente a sociedade brasileira, mas sua expressão na mídia, o que se torna essencial porque, como sabemos, todo o conteúdo do ambiente comunicacional está se transformando progressivamente num simulacro da realidade.
Há, portanto, um carnaval real, que se passa na interação entre o estado de espírito que vai da alegria exagerada, pura sensação, a suas expressões corporais através da dança, dos saltos, dos rodopios, da disposição para o prazer. Há também o futebol real, que acontece na expectativa de cada partida, na tensão das jogadas extremas, na explosão do gol – evento feliz para uns, tristeza para outros. Da mesma forma, a religião possui uma realidade, que se resume na busca íntima de uma relação privilegiada com a divindade e se realiza socialmente nas comunidades de crentes.
Mas aqui falamos dessas realidades quando passam pelo filtro da mídia, pois é nesse processo que se constrói o simulacro de sociedade através do qual tentamos entender a sociedade em si. Nesse ambiente específico, que funciona como uma outra dimensão da vida, carnaval, futebol e religião sintetizam o gosto brasileiro pelas sensações extremadas, mas são meras alegorias do carnaval, do futebol e da religião reais.
A questão é: quando a mídia interpreta essas alegorias, devolve uma versão distorcida ao campo da realidade, num processo contínuo que, em algum momento, vai provocar rupturas. Na vida real, não no simulacro.
Há muitos exemplos na rotina da imprensa. Na quarta-feira (18/2), podemos apanhar uma reportagem de página inteira publicada pela Folha de S. Paulo para ilustrar esse fenômeno. O assunto é a manchete do jornal, que diz o seguinte: “Impunidade é regra em brigas de torcidas em SP”. O pano de fundo é a partida entre Sport Club Corinthians Paulista e São Paulo Futebol Clube, em torno da qual se discute a conveniência de promover jogos com uma só torcida no estádio.
Estimulando os valentões
O texto faz um apanhado das mortes produzidas em confrontos de torcidas organizadas, no território paulista, para demonstrar que a Justiça não alcança os brigões nem mesmo quando eles produzem vítimas fatais: apenas três torcedores, dos milhares que se envolveram em centenas de casos nos últimos dez anos, estão na cadeia. Todos os três são corintianos, acusados de participar do assassinato de um torcedor do Palmeiras, ocorrido em agosto do ano passado, e estão em prisão preventiva aguardando julgamento.
O último caso grave que resultou em condenação ocorreu em 1995, e colocou um palmeirense na cadeia, em 1998, pela morte de um torcedor do São Paulo. Ele cumpriu pouco mais da metade de uma sentença de doze anos de prisão e foi colocado em liberdade.
A reportagem parece movida pela ótima intenção de alertar as autoridades e dirigentes esportivos para o risco da partida marcada para a noite de quarta-feira, quando Corinthians e São Paulo se defrontam pela primeira vez em um jogo da Copa Libertadores da América. O jogo abre a fase de grupos, e apenas um dos dois times prosseguirá na competição.(*)
Estão dados, portanto, os requisitos para uma disputa acirrada dentro de campo, mas é fora dele que se desenrola o outro enredo, do qual trata o jornal paulista.
O ponto central da reportagem questiona: os organizadores deveriam permitir apenas torcedores do Corinthians, mandante da partida, no estádio? Como a imprensa considera que todo assunto tem apenas dois lados, há um artigo a favor, outro artigo contra a proposta.
Mas a realidade tem outros elementos. A começar da verdadeira dimensão da violência entre torcedores: em dez anos, brigas envolvendo torcidas organizadas no estado de São Paulo provocaram “ao menos onze mortes”, diz o jornal. Ou seja, a letalidade desses conflitos é relativa, comparada a outras causas. Por exemplo, morrem mais pessoas em quatro dias de carnaval do que em um ano com duas partidas de futebol por semana. No entanto, o assunto ganha muita repercussão na mídia e tem valido proveitosas carreiras políticas a autoridades que defendem medidas restritivas à liberdade de expressão e associação.
Há recursos tecnológicos e legais para identificar e controlar os indivíduos propensos à violência, sem estragar o espetáculo do futebol. Outra questão subjacente nasce da própria manchete: ao anunciar que ninguém é punido por causa de brigas entre torcedores, a Folha não estaria estimulando os valentões?
Como se vê, detalhes tão pequenos mostram que a imprensa já não dá conta de retratar a sociedade.
 
 


(*) Nota do Blog: Há, aí, equívoco do colunista. As equipes disputarão outros jogos com vistas
a uma possível classificação, podendo ambas a conquistarem.

 

18 julho 2014

REFLEXÕES




Quem tem medo da CBF?

 
Mino Carta, na Revista CartaCapital




Pergunto aos meus botões qual haveria de ser a tarefa do ministro do Esporte. Uso o condicional porque estou a apurar a forte impressão de que o ministro Aldo Rebelo não tem serventia alguma. Mas posso estar enganado por não perceber um sutil desempenho executado na ponta dos pés, quase à sorrelfa, precioso contudo.
Os botões permanecem no patamar do condicional e respondem que caberia ao ministro a incumbência de executar a política do governo em relação ao esporte nas suas mais diversas modalidades. “Tanto mais do futebol – observo –, esporte mais decisivo na vida dos brasileiros, o ludopédio inventado na loira Albion, mas aprimorado aqui na nossa terra, de sorte a torná-la um infindável gramado.” Os botões anuem gravemente.
Insisto: que dizer de Aldo Rebelo? Executa a política do governo, respondem os meus interlocutores secretos. Mas há uma política? Os botões silenciam, acometidos, creio eu, por uma crise de melancolia. Abandonado à meditação solitária, sem esperança de resposta, passo a formular umas tantas perguntas na direção do infinito a respeito da atuação do governo em relação ao presente e futuro do futebol brasileiro.
Premissa: a Copa foi um sucesso em termos de organização e exposição do País aos olhos do mundo. Sobra o pesar pela decadência do ludopédio nativo. Seguem-se perguntas óbvias ditadas por coração e mente. É possível que o governo e seu ministro não saibam da verdadeira natureza da CBF, entregue a uma quadrilha? E não é do conhecimento até do mundo mineral que o senhor José Maria Marin é laranja de Ricardo Teixeira, foragido ao exterior para evitar a cadeia? Confirmar apoio à gangue de cartola não equivale a promover novos desastres?
Retorno a uma indagação tormentosa: por que erguer 12 estádios para hospedar uma Copa que não precisa de tantos? Será que a Fifa exigiu monumentais praças esportivas em Manaus, Cuiabá, Natal, Brasília? Não evito uma risada entre o escárnio e o desespero ao pensar que em Manaus, dotada de um time que milita na Quarta Divisão e que, quando muito, reúne mil assistentes para jogos de futebol, um grupo de desembargadores amazonenses propõe o uso do estádio como local de triagem de presos. Há também quem cogite de um sambódromo. Ou de quermesses indígenas?

Por acaso o governo de um país onde os serviços do Estado são da pior qualidade e cerca de 40% do território não é alcançado pelo saneamento básico, aventou alguma objeção à construção de 12 estádios? O ministro Rebelo porventura manifestou um resquício de perplexidade diante de uma operação que desperta justificadas suspeitas? Ouço ao longe um murmúrio, são os botões de volta à fala: “Quem sabe o ministro Rebelo cumprisse uma ordem: na CBF ninguém toca, e ai de quem tocar”. Admitamos a possibilidade, por mais surpreendente.
Sinto em citar um exemplo italiano, sei que, por isso, corro riscos. Ocorre-me, porém, o exemplo da Azzurra, assaltada por um juiz mexicano, um certo Rodríguez Moreno, no jogo contra o Uruguai, e então eliminada. O treinador Prandelli e o presidente da confederação peninsular, Giancarlo Abete, demitiram-se imediatamente. Não houve ali quem alegasse o roubo. O argumento do técnico foi outro, e corretíssimo: a Azzurra não jogou pior que o Uruguai, mas atuou muito mal, como se dera no embate anterior, contra a Costa Rica. Em dois encontros, não conseguiu assinalar um único gol. Tanto eu, alegou Prandelli, quanto o presidente, nos sentimos responsáveis, ele por ter confiado em mim. Trata-se de um exemplo louvável, irrepetível abaixo do Equador. E me perdoem por ter citado figuras do país em que nasci.
De todo modo, Scolari e sua equipe técnica garantem ter trabalhado da melhor maneira, Marin o exonera e, receio, prepara-se a substituí-lo por outro igual. Não é de se excluir que o ministro Rebelo tenha a certeza do dever cumprido. Encaro o porvir com um misto de temor e desalento. Vêm aí as Olimpíadas cariocas e só os fados gregos imaginam o que vão custar. Além disso, Marco Polo (homenagem ao andarilho veneziano, autor de O Milhão?) Del Nero assume no ano próximo o posto de Marin, na qualidade de enésimo cartola da vetusta e resistente estampa.
1º PS: As vaias vips à presidenta Dilma na entrega da Copa denigrem o Brasil em lugar de exaltá-lo.
2º PS: O candidato Eduardo Campos apressa-se a evocar escândalos tucanos e petistas. Esqueceu o “mensalão” do PSDB e a maior maracutaia da história do Brasil, a privatização das comunicações, praticada com olímpica desfaçatez à vista da Nação.
 
 
 

MÁQUINA DE FAZER DINHEIRO

Futebol de celebridades custa muito
dinheiro


Wanderley Guilherme dos Santos, na Agência Carta Maior



 Os analistas parecem não se dar conta de que jogadores e clubes perderam autonomia ao serem capturados pela máquina de fazer dinheiro que são as marcas.

Ser adepto do capitalismo, mas contra o lucro revela uma das muitas esquizofrenias ideológicas do liberalismo simplório. O esquerdaloidismo também tem das suas como ao reivindicar total liberdade de manifestações e acusar de fascistas todos que discordam de suas opiniões. Resulta daí a dificuldade de distinguir entre os reclamos que geram progresso das bandeiras que propõem a sopa dos gatos pardos. Ou, pior, que nem se dão conta de que, no fundo, a sopa de gatos pardos é um tóxico capitalista.

Depois da derrota no futebol apareceu diagnóstico quase unânime de que os clubes são os maiores responsáveis pela evasão dos valores ao não atenderem corretamente às chamadas formações de base. Ora, os analistas parecem não se dar conta de que jogadores e clubes perderam autonomia ao serem capturados pela fabulosa máquina de fazer dinheiro que são as marcas desportivas e seus derivados. Os fantásticos salários pagos aos atletas e técnicos não são garantidos obviamente pela receita dos jogos, mas pela penca de anúncios que carregam na camisa, calções, meias e chuteiras (agora também cuecas entremostradas entre um tempo de jogo e outro estão sendo promovidas a original espécie de outass, se me permitem o manco neologismo em inglês). Tais figuras viraram celebridades, por via da propaganda ou não, e, como tais, tornam-se escassas. Por isso, caras. 

A criação de mitos faz parte do circuito de produção capitalista do terciário, setor de serviços. Depois de criada, Marilyn Monroe tornou-se única, assim como Lionel Messi, independente dos talentos reais que possuam no circuito a que pertencem. Tanto no caso do futebol quanto no da representação artística o feliz acaso consiste em que os veículos da propaganda são apaixonados pelo que fazem.

Jogadores, especialmente os verdadeiros craques, são sedentos pela prática do esporte e se entregam, como eles próprios dizem, de corpo e alma em cada partida. Por isso a idéia de se vender ao adversário é profundamente ofensiva aos atletas e são, com efeito, raríssimos os casos em que tal perversidade ocorre.

Típico negócio em que o investidor, a indústria esportiva e as anexas, podem contar com a absoluta cooperação e honestidade dos agentes produtivos.

Não é por falta de atenção dos clubes, mas de dinheiro, que as seleções de 50, 62 e 70, campeãs, foram constituídas por jogadores em ação nos clubes brasileiros e na de 2014 só um atleta do time supostamente efetivo joga no Brasil. Em 40 anos montou-se uma rede produtiva globalizada que atinge todas as seleções. Em poucas, atualmente, os principais jogadores atuam em times de seus países de origem. E depois dos conclaves internacionais lá se vão os craques revelados nas disputas. Da surpreendente seleção de Costa Rica diz-se que nenhum de seus jogadores atua no país, e já estão sendo negociados os bons jogadores da Colômbia, do Chile e até da Argélia. As somas envolvidas em tais contratos são incrivelmente elevadas e só se tornam inteligíveis quando se sabe que os times não estão alugando, digamos assim, esses talentos, mas investindo, como repassadores, os recursos de indústrias internacionais. O futebol se tornou um negócio de primeira grandeza, tal como o talento de seus garotos propaganda.

Os atletas, é claro, não são os responsáveis pela marcha do capitalismo nem, a rigor, ninguém. O capital prosseguirá segundo suas regularidades enquanto der e já não temos profecias críveis sobre como será o futuro próximo. Nem se sustenta a ingenuidade de supor que se trata de um problema de governo ou de suas relações financeiras com os clubes. Vários deles já são sustentados por conglomerados de empresas que investem o que lhes parece ter retorno aceitável.

Não é um problema simplório como imaginam liberalóides e esquerdóides. Nessa competição mercadológica que se desenrola através dos talentos de rapazes célebres, assim como em outras competições, o tal mercado propriamente dito é, como em outros, condicionado por grandes interesses econômicos. Embora cada um continue a torcer por seu time de preferência, lucros garantidos. É a parte cruel do mundo do dinheiro envolvida nos prazeres que financia. 




16 julho 2014

FUTEBOL E POLÍTICA

A imprensa veste a carapuça


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



A imprensa brasileira, representada pelos veículos mais influentes, ou seja, os jornais e revistas de circulação nacional e maior tiragem e os programas noticiosos de maior audiência na televisão e no rádio, completa o balanço da Copa do Mundo, encerrada no último domingo (13/7).
Como não podia deixar de ser, um dos eixos que marcam as análises é a inevitável comparação entre o sucesso do evento e o clima de pessimismo que a própria imprensa havia criado antes de seu início.
Alguns dos comentários publicados nesta terça-feira (15/7) têm como referência o balanço público do torneio feito pela presidente Dilma Rousseff com parte do ministério. Foi, claramente, um lance de oportunismo político, como quase toda iniciativa de candidatos em período eleitoral. A diferença entre essa aparição da presidente, ao lado de seus ministros, e manifestações anteriores da chefe do governo, é que ela se dá em clima festivo.
Os jornais tratam com abordagens distintas a exibição tática da candidata à reeleição, que foi vaiada e ofendida por parte dos torcedores presentes à arena do Corinthians na abertura da Copa e por um pequeno grupo após a final, no Maracanã, quando entregou a taça aos vencedores.
Cada um à sua maneira, os principais diários do País agasalham a observação, reiterada pela presidente e alguns de seus ministros, de que a imprensa hegemônica insuflou na sociedade um intenso pessimismo quanto à capacidade do Brasil de organizar um acontecimento desse porte.
O Estado de S. Paulo coloca na reportagem sobre o balanço da Copa o selo “Eleições 2014”, numa tentativa de limitar as declarações ao contexto da campanha presidencial.
A Folha de S. Paulo faz um registro burocrático da manifestação do governo, no caderno especial sobre a Copa, contrapondo às declarações oficiais uma avaliação de obras de infraestrutura inacabadas, algumas das quais haviam sido prometidas como parte do projeto do Mundial.
O Globo assume a carapuça e traz na primeira página uma foto da risonha presidente, ao lado de dois ministros, com o título: “De que se riem?”
Focinheira para vira-latas
É bem possível que os editores do Globo saibam que a pergunta, associada à imagem de governantes risonhos, tem como referência um poema do uruguaio Mario Benedetti, que falava de ministros da ditadura militar naquele país.
No caso, os representantes do governo riem do Globo e de outros veículos de comunicação, que lhes deram a oportunidade de tripudiar publicamente sobre a onda de pessimismo que acabou desmoralizada pelo sucesso da Copa do Mundo.
Uma pesquisa apressada feita pelo Instituto Datafolha indica que 83% dos estrangeiros que estiveram no Brasil entre os dias 12 de junho e 13 de julho afirmaram que a organização da Copa foi ótima ou boa; 92% elogiaram o conforto dos estádios e 82% declararam terem se sentido seguros andando pelas ruas das cidades brasileiras.
Os visitantes consultados representam 60 países, e a maioria deles tinha uma expectativa desfavorável ao desembarcar por aqui, porque as notícias reproduzidas pela imprensa internacional eram majoritariamente negativas.
Na consulta, recebem notas positivas alguns dos quesitos mais criticados pela mídia nos meses anteriores ao evento, como a estrutura oferecida aos visitantes, o transporte, a segurança pessoal e até a qualidade do meio ambiente nas cidades visitadas.
Interessante também observar que as maiores notas foram dadas ao modo como os brasileiros receberam os turistas: quase todos declararam que os anfitriões foram simpáticos (98%) e receptivos (95%) e 84% consideraram os brasileiros honestos. As piores notas foram para os preços de hospedagem, alimentação e transporte aéreo.
Embora apanhe um universo reduzido do total de visitantes, pois o Brasil recebeu mais de um milhão de turistas de 202 países durante a Copa, a pesquisa contraria os brasileiros que adoram detestar tudo que é nacional e idealizam tudo que é estrangeiro: nada menos do que 69% dos visitantes disseram que morariam no Brasil.
Dois registros curtos: o filho do atacante Klose ficou com a bola que um torcedor entregou para ser autografada e dois torcedores alemães foram presos quando embarcavam de volta ao seu país, por terem furtado uma pequena estátua que estava exposta no aeroporto de São Paulo, em Cumbica.
Espera-se que os fatos sirvam de focinheira para os vira-latas.
 
 
 

14 julho 2014

Pode-se levar a sério uma imprensa assim?

Uma imprensa pequena para uma
grande Copa


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



A imprensa brasileira reconhece, nesta segunda-feira (14/7), que o torneio encerrado no domingo com o triunfo da Alemanha sobre a Argentina foi a maior e melhor de todas as Copas do Mundo já realizadas. Os jornais fazem balanços e antecipam números que estarão no relatório do Grupo de Estudos Técnicos da Fifa. Segundo o Estado de S. Paulo, o chefe da comissão já adiantou que esta foi a melhor versão do torneio em todos os tempos, em termos de qualidade e entretenimento.
Não apenas pelos dados, apresentados em páginas duplas e infográficos pelos diários do Brasil e de outros países, mas também por critérios como inovação técnica, táticas dinâmicas e fatos surpreendentes, a qualidade do evento é destacada nas reportagens.
Até mesmo a vexaminosa participação da equipe brasileira nas semifinais é citada como parte do conjunto de fatos que encantam os observadores: a torcida absorveu imediatamente a derrota humilhante para os alemães no dia 8, terça-feira passada, 27º dia da Copa, e os alemães foram aplaudidos por brasileiros ao final do jogo e no trajeto do ônibus que os retirou do estádio em Belo Horizonte.
O outro grande vexame foi protagonizado pela própria Fifa, com a evidência de que alguns de seus dirigentes e colaboradores podem estar envolvidos com a quadrilha de cambistas desbaratada pela polícia do Rio. O grupo vinha atuando desde, pelo menos, 2002, quando foi detectada a venda irregular de ingressos no Japão e na Coréia, e passou incólume pelas autoridades nas copas da Alemanha, em 2006, e da África do Sul, em 2010. A investigação da polícia brasileira oferece aos dirigentes das federações nacionais um argumento de peso para pressionar a Fifa a combater a corrupção interna.
Quanto à seleção brasileira, humilhada diante da Alemanha com a goleada de 7 a 1 e reduzida à sua real dimensão pela derrota seguinte, contra a Holanda, por 3 a 0, resta uma chance de mostrar alguma dignidade: que os jogadores e a comissão técnica abram mão dos R$ 11 milhões que irão receber como prêmio pelo quarto lugar, e façam uma doação a entidades de ação social.
No banheiro do cachorro
O que dizer sobre a imprensa nacional?
Quem tem em casa um animal de estimação pode fazer uma pesquisa de campo nos jornais que recolhem os dejetos e reviver o trajeto dos principais veículos de informação do País: da mais impiedosa descrença sobre as chances de o Brasil apresentar ao mundo um mínimo de eficiência e organização na Copa, os textos saltaram para o triunfalismo basbaque diante dos primeiros resultados da seleção na fase classificatória, até a decepção com a derrota acachapante diante da Alemanha.
Nesta segunda-feira, de volta à realidade, os comentaristas que ontem faziam o coro da louvação ao técnico Luiz Felipe Scolari agora o crucificam.
Na leitura cotidiana, nem sempre é possível perceber as mudanças de opinião e de tom que atravessam as análises dos diários. Mas para se observar como a imprensa brasileira, de modo geral, parece uma nau sem rumo, basta pegar duas edições seguidas de uma revista semanal de informação.
Esse é o formato mais ingrato da imprensa de papel, porque não tem a mesma possibilidade dos jornais de desdizer no dia seguinte o que afirmou hoje, e suas edições costumam permanecer ao alcance da vista durante muito tempo, envelhecendo nas salas de espera de consultórios e salões de cabeleireiro.
Veja-se, por exemplo, a revista Época: na edição da semana passada, com data do dia 7/7, os editores haviam superado, finalmente, o mau humor com que haviam previsto uma Copa do caos e, contaminados pelo ufanismo dos jornais e das emissoras de televisão, cravaram na capa: “Eu acredito”.
Na reportagem principal, o leitor é apresentado a um cenário de campeões, depois da vitória sobre a Colômbia, quando o atacante Neymar sofreu uma contusão grave na coluna. Num perfil de quatro páginas, Scolari é tratado como um líder nato: “Felipão é, acima de tudo, um motivador. Sua especialidade é lidar com a emoção dos jogadores. Num momento de crise, ele demonstrou ter nervos de aço”, dizia o texto.
Agora, observe-se a edição seguinte, que está nas bancas. Na capa, a foto de uma torcedora brasileira, em lágrimas, e o registro da  derrota para a Alemanha: “Belo Horizonte, 8 de julho de 2014”. O texto principal tem um título que descreve outro Felipão: “Um técnico obsoleto e teimoso”.
Pode-se levar a sério uma imprensa assim?
 
 
 
 

UM BRASIL MELHOR DO QUE SUA SELEÇÃO - II

Balanço


Antônio Prata



Tem muita gente afirmando que o fiasco de 2014 foi pior do que o de 1950. Futebolisticamente, não dá pra negar: em 50, ficamos em segundo, por um único gol. Aqui, acabamos em quarto, tomando sete dos alemães, na semi, mais três dos holandeses, na disputa pelo terceiro lugar. A reação do país lá e cá, contudo, sugere que a derrota de 2014 não deixará, fora dos gramados, nem sombra da cicatriz uruguaia.

Diz a lenda que em 50, depois do jogo, havia banquetes abandonados pelas ruas, sendo devorados por pombas e vira-latas. O povo chorava em casa, como se o gol de Ghiggia selasse não apenas o campeonato mas nosso destino de fracassados, fadados ao eterno subdesenvolvimento.

Bem diferente do cenário que encontrei na Savassi, bairro boêmio de BH, voltando do Mineirão, na terça. Mesmo depois da derrota, as ruas continuavam cheias. Ambulantes seguiam vendendo cerveja. Embaixo de uma marquise, um casal se beijava sôfrega e desajeitadamente, como costumam se beijar os casais, na primeira vez. Apesar da tristeza e da perplexidade, a vida seguia seu rumo.

Por muito tempo, fomos um arremedo de país com uma seleção deslumbrante. Eu não cairia no exagero de dizer que a equação se inverteu: estamos longe de ser um país deslumbrante –socialmente, economicamente, eticamente–, mas o que percebi em meio à muvuca e me salvou da depressão foi que, hoje, o Brasil é melhor do que a sua seleção.

Dado o peso que o futebol tem entre nós, tendemos a supervalorizar a sua interpretação. Se a seleção ganha, é o brasileiro mostrando ao mundo o quão incrível ele é. Se a seleção tem um desempenho pífio, é essa porcaria do brasileiro que não consegue mesmo fazer nada que preste.

O fracasso do time serve para escancarar o atraso, a incompetência, a ganância, a burrice e a má-fé que administram o nosso futebol, mas não deve ser estendido ao país como um todo. Claro que os defeitos da cartolagem brotam de certas vicissitudes nacionais, mas a gente não se resume a elas. Temos inúmeros exemplos de brasileiros que se unem com um objetivo e chegam, com trabalho e competência, a resultados extraordinários.

Das meninas do vôlei ao Impa, Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, no Rio de Janeiro. Do Grupo Corpo ao Instituto Butantan. Da Osesp à Pastoral da Criança. De Inhotim ao programa gratuito de tratamento da Aids. Da cozinha do Alex Atala aos programas sociais que tiraram 50 milhões de pessoas da miséria. Sem falar na Copa, que, apesar da seleção, deu certo.

O jogo ainda não está ganho. Longe disso. É preciso mexer bastante no meio de campo, mas não somos uns fracassados, fadados ao eterno subdesenvolvimento. Não sei quanto a você, amigo, mas esse futebol não me representa.
 
 
(Extraído do ESQUERDOPATA)