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12 setembro 2011

CRÔNICA

Seu Pendrive tem Blutufe?
Estorinha bem bolada, mostrando a rapidez da modernidade, difícil, quase impossível, para os madurinhas e madurinhos acompanharem! Não deixem de ler!

Oswaldo tirou o papel do bolso, conferiu a anotação e perguntou à balconista:
­
Moça, vocês têm pendrive?
Temos, sim.
­
O que é pendrive? Pode me esclarecer? Meu filho me pediu para comprar um.
Bom, pendrive é um aparelho em que o senhor salva tudo o que tem no computador.
­
Ah, É como um disquete...
Não. No pendrive o senhor pode salvar textos, imagens e filmes. O disquete, que nem existe mais, só salva texto.
­ Ah, tá bom. Vou querer.
Quantos gigas?
­ Hein?
De quantos gigas o senhor quer o seu pendrive?
­ O que é giga?
É o tamanho do pen.
­ Ah, tá. Eu queria um pequeno, que dê para levar no bolso sem fazer muito volume.
Todos são pequenos, senhor. O tamanho, aí, é a quantidade de coisas que ele pode arquivar.
­
Ah, tá. E quantos tamanhos têm?
Dois, quatro, oito, dezesseis gigas...
­ Hmmmm, meu filho não falou quantos gigas queria.
Neste caso, o melhor é levar o maior.
­ Sim, eu acho que sim. Quanto custa?
Bem, o preço varia conforme o tamanho. A sua entrada é USB?
­ Como?
É que para acoplar o pen no computador, tem que ter uma entrada compatível.
­ USB não é a potência do ar condicionado?
Não, aquilo é BTU.
­
Ah! É isso mesmo. Confundi as iniciais. Bom, sei lá se a minha entrada é USB.
USB é assim ó: com dentinhos que se encaixam nos buraquinhos do computador. O outro tipo é este, o P2, mais tradicional, o senhor só tem que enfiar o pino no buraco redondo. O seu computador é novo ou velho? Se for novo é USB, se for velho é P2.
­ Acho que o meu tem uns dois anos. O anterior ainda era com disquete. Lembra do disquete? Quadradinho, preto, fácil de carregar, quase não tinha peso. O meu primeiro computador funcionava com aqueles disquetes do tipo bolacha, grandões e quadrados. Era bem mais simples, não acha? Os de hoje nem têm mais entrada para disquete. Ou é CD ou pendrive.
­ Que coisa! Bem, não sei o que fazer. Acho melhor perguntar ao meu filho.
Quem sabe o senhor liga pra ele?
­ Bem que eu gostaria, mas meu celular é novo, tem tanta coisa nele que ainda nem aprendi a discar.
Deixa eu ver. Poxa, um Smarthphone! Este é bom mesmo! Tem Bluetooth, woofle, brufle, trifle, banda larga, teclado touchpad, câmera fotográfica, flash, filmadora, radio AM/FM, TV digital, dá pra mandar e receber e-mail, torpedo direcional, micro-ondas e conexão wireless....
­ Blu... Blu... Blutufe? E micro-ondas? Dá prá cozinhar com ele?

Não senhor. Assim o senhor me faz rir. É que ele funciona no sub-padrão, por isso é muito mais rápido.
­
Pra que serve esse tal de blutufe?
É para um celular comunicar com outro, sem fio.
­ Que maravilha! Essa é uma grande novidade! Mas os celulares já não se comunicam com os outros sem usar fio? Nunca precisei fio para ligar para outro celular. Fio em celular, que eu saiba, é apenas para carregar a bateria...

Não, já vi que o senhor não entende nada, mesmo. Com o Bluetooth o senhor passa os dados do seu celular para outro, sem usar fio. Lista de telefones, por exemplo.
­ Ah, e antes precisava fio?
Não, tinha que trocar o chip.
­ Hein? Ah, sim, o chip. E hoje não precisa mais chip...
Precisa, sim, mas o Bluetooth é bem melhor.
­ Legal esse negócio do chip. O meu celular tem chip?
Momentinho... Deixa eu ver... Sim, tem chip.
­ E faço o quê, com o chip?
Se o senhor quiser trocar de operadora, portabilidade, o senhor sabe.
­ Sei, sim, portabilidade, não é? Claro que sei. Não ia saber uma coisa dessas, tão simples?
Imagino, então que para ligar tudo isso, no meu celular, depois de fazer um curso de dois meses, eu só preciso clicar nuns duzentos botões...
Nããão! É tudo muito simples, o senhor logo apreende. Quer ligar para o seu filho? Anote aqui o número dele. Isso. Agora é só teclar, um momentinho, e apertar no botão verde... pronto, está chamando.


Oswaldo segura o celular com a ponta dos dedos, temendo ser levado pelos ares, para um outro planeta: Oi filhão, é o papai. Sim. Me diz, filho, o seu pen drive é de quantos... Como é mesmo o nome? Ah, obrigado, quantos gigas? Quatro gigas está bom? Ótimo. E tem outra coisa, o que era mesmo? Nossa conexão é USB? É? Que loucura.

­ Então tá, filho, papai está comprando o teu pen drive. De noite eu levo para casa.

Que idade tem seu filho?
­ Vai fazer dez em março.
Que gracinha...
­ É isso moça, vou levar um de quatro gigas, com conexão USB.
Certo, senhor. Quer para presente?
Mais tarde, no escritório, examinou o pendrive, um minúsculo objeto, menor do que um isqueiro, capaz de gravar filmes! Onde iremos parar? Olha, com receio, para o celular sobre a mesa. "Máquina infernal", pensa. Tudo o que ele quer é um telefone, para discar e receber chamadas. E tem, nas mãos, um equipamento sofisticado, tão complexo que ninguém que não seja especialista ou tenha a infelicidade de ter mais de quarenta, saberá compreender.



Em casa, ele entrega o pen drive ao filho e pede para ver como funciona. O garoto insere o aparelho e na tela abre-se uma janela. Em seguida, com o mouse, abre uma página da internet, em inglês. Seleciona umas palavras e um 'havy metal' infernal invade o quarto e os ouvidos de Oswaldo. Um outro clique e, quando a música termina, o garoto diz:
-Pronto, pai, baixei a música. Agora eu levo o pendrive para qualquer lugar e onde tiver uma entrada USB eu posso ouvir a música. No meu celular, por exemplo.

­ Teu celular tem entrada USB?
É lógico. O teu também tem.
­ É? Quer dizer que eu posso gravar músicas num pen drive e ouvir pelo celular?
Se o senhor não quiser baixar direto da internet...

Naquela noite, antes de dormir, deu um beijo na mulher e disse:
­

Sabe que eu tenho Blutufe?
Como é que é?
­ Bluetufe. Não vai me dizer que não sabe o que é?
Não enche, Oswaldo, deixa eu dormir.
­ Meu bem, lembra como era boa a vida, quando telefone era telefone, gravador era gravador, toca-discos tocava discos e a gente só tinha que apertar um botão, para as coisas funcionarem?
Claro que lembro, Oswaldo. Hoje é bem melhor, né?
Várias coisas numa só, até Bluetufe você tem. E conexão USB também.
Que ótimo, Oswaldo, meus parabéns.

­ Clarinha, com tanta tecnologia a gente envelhece cada vez mais rápido. Fico doente de pensar em quanta coisa existe, por aí, que nunca vou usar.
Ué? Por quê?
­ Porque eu recém tinha aprendido a usar computador e celular e tudo o que sei já está superado.
Por falar nisso temos que trocar nossa televisão.
­ Ué? A nossa estragou?
Não. Mas a nossa não tem HD, tecla SAP, slowmotion e reset.
­ Tudo isso?
Tudo.
­ A nova vai ter blutufe?
Boa noite, Oswaldo, vai dormir que eu não agüento mais...
(o autor é desconhecido, mas pode ser algum de nós, ou alguém, que nasceu nos anos 40, 50, 60,70, 80, até nos 90)

05 fevereiro 2011

Carro: extensão das pernas ou do ego?

As cidades brasileiras, em sua maioria, cresceram em um processo de adaptação aos automóveis, com exceção de Brasília, que já foi construída inteirinha para servir os carros. Lá a situação ganha contornos de tragicomédia, porque além de Brasília não ter sido planejada para o transporte público, o tombamento da cidade impede as adaptações necessárias para a implantação de corredores de ônibus, ciclovias e outras formas de transporte que não sejam os carros. Enquanto isso, a cidade,ou melhor, os cidadãos padecem. Os que têm carro por conta dos congestionamentos. Os que não têm, por conta das condições precárias de transporte coletivo.

São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Manaus e várias outras cidades que se desenvolveram durante o século XX foram sendo adaptadas ao uso dos carros. Mesmo com alguns políticos fazendo o discurso do transporte coletivo, os investimentos prioritários foram destinados à construção de avenidas, viadutos e estradas. O motivo da esquizofrenia, onde os políticos falam em transporte público e investem em infra-estrutura para automóveis, pessoas pregam a necessidade de redução do uso dos carros, mas não vão sem ele nem à esquina, é o fato de que o automóvel, ao contrário do que deveria ser, não é uma máquina de mobilidade, uma extensão das pernas, mas sim uma extensão do ego das pessoas.

Um automóvel deveria ser uma extensão das pernas, uma maneira de ir e vir de forma rápida, eficiente, econômica e com qualidade. No entanto, esta não é a realidade do mercado. Ter um carro significa mostrar poder, capacidade de consumo e coisas que nada tem a ver com ir e vir. Uma vez, em uma conversa com a psicóloga Ana Verônica Mautner, ela se saiu com essa: “Tem homem que precisa de um motor para carregar seu próprio pinto. A potência é da máquina, e não dele”. Do lado feminino já se criou, inclusive, a pouco honrada denominação de “Maria Gasolina”, que define as mulheres que colocam as qualidades do carro acima das qualidades do motorista.

Recentemente a revista Exame deu uma capa com o título “Em busca do carro verde”. Dentro estavam as experiências de se suprir as demandas do ego com veículos que consomem combustíveis alternativos. Há, inclusive, um Hummer, aquele enorme jipe militar que é o sonho de consumo de muita gente, movido a biocombustível. Outros eram esportivos e carros de luxo com motores elétricos ou a célula combustível. Grandes e pesados carrões que precisam de “muita potência” para carregar o próprio peso e o ego de seus proprietários. Pouco se pensa em redução de peso e eficiência energética.

O carro do futuro poderá ser, inclusive, um carro movido a gasolina. A diferença é que, ao invés de fazer 10 quilômetros com a energia armazenada em um litro de combustível, poderá fazer 50 ou mais quilômetros com ela. Mais até do que faz uma motocicleta de baixa cilindrada hoje. Quando o ex-presidente Itamar Franco lançou o desafio do carro popular, a Volkswagen tentou ridicularizar a ideia, com o relançamento de um projeto dos anos 30, o Fusca. A Fiat deu um passo adiante e lançou um novo conceito de veículo, o Uno Mille. Hoje praticamente todas as montadoras têm carros de mil cilindradas. Veículos que caminham para a concepção de um modelo de transporte individual menos impactante tanto sob o ponto de vista do consumo de combustível, como do uso do espaço urbano.

Mas só ter carros mil resolve? Claro que não. As montadoras precisam continuar investindo em soluções de eficiência energética. A criação do sistema flex, que permite a queima de álcool e gasolina foi um passo adiante, mas ainda há muito o que se fazer em termos de redução de peso dos veículos, aumento de autonomia por litros de combustível, segurança ativa e passiva etc.

Porém sem uma mudança drástica na forma de uso e na visão do que é um automóvel, muito pouco vai mudar. Um carro deve ser visto como uma extensão das pernas, como mais um modo de transporte à disposição das pessoas, e não como o único. Uma pessoa ou uma família pode ter um carro, mas usá-lo de forma integrada com o transporte público, com a bicicleta e com trajetos a pé. Um carro deve ser visto como um instrumento de conforto que pode nos levar a locais isolados, onde o transporte público não chega, em horários onde a cidade está com menos movimento e coisas assim.

No entanto, enquanto o carro for extensão do ego, e não das pernas, não haverá alternativas, porque políticos continuarão fazendo a demagogia do discurso pelo público e o investimento pelo individual, e as pessoas vão continuar a usar desculpas para não utilizar o transporte público.
As cidades brasileiras precisam mudar, e rápido, para oferecer conforto a quem usa transporte coletivo. É preciso ter circulares nos bairros, interligando estações de trens e metrôs com sua própria vizinhança e não apenas com linhas de longa distância.

O carro do futuro não terá, necessariamente, de ser movido a eletricidade ou a biocombustíveis. Mas deverá ser um veículo de transporte com alta eficiência energética, segurança ativa e passiva, além de trabalhado no conceito de ser uma extensão das pernas. As montadoras precisam direcionar parte de seus esforços para a concepção de veículos que sejam apenas um meio de transporte eficiente.
Não adianta apenas falar na necessidade de mais e melhor transporte coletivo. É preciso também construir automóveis mais modernos e eficientes, menos pesados e ostensivos, menores e mais seguros. O ego, este deve encontrar outras maneiras de se manifestar. (Envolverde)


Dal Marcondes



Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde, passou por diversas redações da grande mídia paulista, como Agência Estado, Gazeta Mercantil, Revistas Isto É e Exame. Desde 1998 dedica-se a cobertura de temas relacionados ao meio ambiente, educação, desenvolvimento sustentável e responsabilidade socioambiental empresarial. Recebeu por duas vezes o Prêmio Ethos de Jornalismo e é reconhecido como um "Jornalista Amigo da Infância" pela agência ANDI.

(Transcrito do site www.cartacapital.com.br )