Os assuntos postados, apesar de divididos por seções, guardam um certo encadeamento entre si,
uma relação de causa e efeito.
Com isso quero chamar a atenção para a crise que se abate,
há bastante tempo, sobre o mundo neoliberal: Europa e EUA,
principalmente.
1-
Os causadores da crise continuam livres e ainda dando recei-
tas de como enfrentá-la. É uma desfaçatez.
Aqui no Brasil, basta ler os "jornalões", as "revistonas"
semanais, a CartaCapital é exceção, ver o JN, e verá pouco
ou nenhum destaque aos protestos que ocorrem em muitos
países que estão na corda bamba. Nova York, Londres,
Madri, Atenas, são os palcos dos protestos, entre outras.
Aqui, apesar dos efeitos minimizados por decisão do presidente Lula, que não acatou oreceituário prescrito pelos "donos" do saber econômico,tem gente que ainda acredita que a salvação está no neoliberalismo.
2-
Alguns dos poucos leitores do blog já reclamaram dos artigos
aqui colocados, considerando-os longos demais. Infelizmente, nada posso fazer. Como não existe um conselho editorial, sou
o responsável pela escolha das matérias, e coloco
o que, ao meu ver, desperta interesse e é motivo
para discussão e reflexão.
Nesta edição estão os seguintes posts:
BRASIL
As duas faces de FHC, de Maurício Dias
Lula e o SUS, idem
Reforma política, a indigesta macarronada,
de Fernando Vives
Lei das algemas? Só para influentes, de
Sérgio Lírio
INTERNACIONAL
A culpa da Itália, de Mino Carta
Os estudantes vão às ruas em defesa da
educação no Reino Unido, de Cris Rodrigues
IMPRENSA
O vale-tudo na busca por audiência, de Valério
Cruz Brittos e Luciano Gallas
A PM na USP e o desfile de Victoria's Secret, de
Eduardo Socha
ECONOMIA
BC baixa juros. Mas bancos, exceto BB, não.
De Fernando Brito
O governo da intervenção financeira, de
Antonio Lassance
DEBATE ABERTO
A espetacularização da barbárie, de Izaías
Almada
Por que morreu o cinegrafista da Band? de
Gilberto Maringoni
A sociedade civil: fermento da democracia, de
Cândido Grzybowski
CRÔNICA
Murar o medo, de Mia Couto
-------------------------------------------
h u m o r H U M O R h u m o r
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12 novembro 2011
05 novembro 2011
O QUÊ HÁ PARA LER
Humor em 2045 e ressaca
Por Adão Iturrugarai
Artigos postados:
BRASIL
*Efeitos da pregação midiática - Mino Carta
*De volta ao Brasil-Colônia - Leandro Fortes
*A corrupção e a tartaruga de Alice -
Marcus Coimbra
IMPRENSA
*Sujeira não limpa sujeira - Alberto Dines
*Cobertura solidária. E cínica. -
Washington Araujo
*O lado canalha do país. - Ricardo Kotscho
ECONOMIA
*Pobreza não diminuiu só com Bolsa Família -
João Paulo Caldeira
*Os embalos da opinião econômica -
Luiz Gonzaga Belluzzo
*BC expôe apetite dos bancos - André Barrocal
AMÉRICA LATINA
*Direita disputa eleição na Guatemala -
Sítio Ópera Mundi
*Evo Morales e as contradições bolivianas -
Igor Fuser
DEBATE ABERTO
*A idade do ódio, aqui e no mundo -
Mauro Santayana
*Esporte: entre mercadoria e política pública
Paulo Kliass
INTERNACIONAL
*"Devemos pensar grande" - Susan George
*O fracasso da reunião do G20 -
Sítio Vermelho
-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-
Para reflexão, postei abaixo, o artigo de Enio
Squeff A atualidade de Fausto, sobre o recor-
rente tema de se vender a alma ao diabo. Pelo
que temos visto ultimamente, sem ser menciona-
do, o personagem Fausto pode estar, como diz o
autor do artigo, à frente ou dentro de nós.
Pelo que eu tenho visto, principalmente na
área jornalística, tem muita gente vendendo
a alma. No artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo,
Nos embalos da opinião econômica, outros
profissionais também estão negociando com
o satanás.
Boa leitura!
A atualidade de Fausto
Enio Squeff
Quase todos conhecem a história do "Fausto", de Goethe (1749-1832) ou, quem sabe, de Marlowe (1564-1593). Com as devidas variações, o enredo é o mesmo e se passa em torno de um homem sábio, que ao chegar à velhice, tenta compensar de alguma forma o tempo despendido nos livros e em pesquisas, fazendo, então, um pacto com o Demônio. Em troca da mocidade perdida, ele promete a sua colaboração com as forças do mal.
É uma espécie de fábula, com origens na Idade Média européia, mas que acentua um aspecto: Fausto não é um qualquer. Seu saber, seus títulos - tudo o leva a crer que se julga um "primus inter pares". É um homem diferenciado, digamos. Goethe, em pessoa, era esse diferenciado: nele coabitavam o naturalista - nome genérico de um cientista voltado à botânica, à mineralogia etc. - com o poeta, o artista plástico, o teórico das cores e tudo mais que se possa imaginar em relação à arte. Não parece importar, enfim, essa relação: milhares de teóricos e estudiosos altamente capacitados dedicaram-se e vão se esfalfar sobre o drama do poeta alemão - principalmente. Nada a acrescentar, portanto.
Mas Ítalo Calvino explicava a sua preferência pelos clássicos, a partir da eternidade deles. Não parece haver, de fato, como fugir da persistência do Dom Quixote em cada um do nós, por exemplo; e o personagem Fausto parece existir tanto no homem que vende a consciência - o jornalista antes de esquerda, hoje de direita (o vice-versa acontece, mas é bem mais raro; e por razões óbvias), quanto no colega que ontem se solidarizava com a categoria - mas que hoje, guindado à condição de chefia, a todo o momento confirma o adagio português: "Para conheceres o vilão, dê-lhe o bordão" . É uma história pra lá de conhecida que, no entanto, se reproduz a com a mesma insistência com que, mesmo os incréus - obrigam-se a considerar "a eternidade do demônio".
Não parece uma situação irrelevante, essa a da existência de um mal a nos acicatar. Karl Marx e Sigmund Freud são, sem duvidam, ponderáveis em suas teorias: o "inferno dos outros" se faria a partir do sistema (Marx), ou do instintos (Freud). Dizer que o diabo laicizou-se naturalmente, é uma questão dos tempos e dos costumes. Não vivemos na Idade Média. O demo não seria aquele ser encruado, com um rabo em forma de flecha na ponta, os pés de cabra e a cabeça, devidamente ornada com pelo menos dois cornos. Já, agora, diabo, sem dúvida, veste Praga; ou a culpa era de seus pais que o maltratavam?
As próprias variações em torno dos temas marxistas ou freudianos - e há uma infinidade delas, devidamente enfeixadas em livros que, se não confirmam a existência do "Coisa Ruim", reafirmam a pergunta: como explicar o cronista que sabe estar mentindo, mas que mesmo assim se assume para além do bem e do mal - tudo em troca da ilusão do dinheiro e da fama como forma de alcançar a juventude eterna, a ilusão de que, fora da notabilidade, da notoriedade - nada vale nada; ou antes, vale tudo? Vender a alma ao diabo, em suma, é um tema recorrente; e quase não mencionamos Fausto. Quem sabe, por medo de tê-lo à frente ou dentro de nós.
Talvez seja essa a questão mais pertinente. Na verdade, talvez seja a única questão: de todos os sete pecados capitais, não há um só que não convirja para a figura de Fausto. Mas o personagem tem uma característica inescapável, que é o seu saber. A grande contradição reside aí. Platão pregava a sabedoria como resposta às questões políticas. Desde que o governo fosse de sábios - e não há ninguém que reivindique a sabedoria suprema, fora da filosofia - a administração da coisa público pelos filósofos seria sempre a resposta adequada da sociedade. De fato, parece ser assim. Mas Fausto, homem sábio, não hesitou em fazer o acordo com o demônio. Seria demais concluir que o homem culto não é necessariamente o mais indicado para gerir a coisa pública?
Há dúvidas, porque se a alternativa a Fausto, é o boçal, o homem que despreza o saber, a coisa pode descambar também: Hitler tinha a certeza de que dominava tudo e se for levado em conta seu êxito inicial, até se explica a ilusão de muitos. O homem que melhor encarnou o espírito da Revolução Francesa foi Robespierre. Era culto; para alguns, de um brilhantismo invulgar. Foi durante sua governança que se instaurou o período chamado "do Terror", em que mais de trinta mil pessoas foram guilhotinadas. Augusto Pinochet foi quase inigualável em sua sanha assassina: matou - e comprovadamente - roubou o quanto pode. Era um homem que se deliciava com a ópera, a grande ópera. Devia se comover às lágrimas na cena da "Tosca", de Puccini, quando o personagem título verifica que o revolucionário a quem ela ama, foi fuzilado por suas idéias.
Stalin não lhe ficou atrás - mas havia quem dissesse que a sua estirpe era de outra linha - um grosseirão. Não é um exemplo de todo convincente; interessava-se pela arte e mandou matar muita gente por não concordar com as músicas, as poesias e os quadros que eles compunham. Já Stroessner - o ditador sanguinário do Paraguai que morreu no Brasil, muito bem obrigado, teria sido um perfeito casca-grossa - tanto, quem sabe, quanto Pol Pot, do Camboja- que não podia ouvir falar em cultura sem sacar o seu revólver.
Goethe acertou em tudo ao fazer de Fausto um homem culto, refinado de um saber superior. Ve-mo-lo a cada instante encarnado, tanto no professor que não dá notas a seu aluno por este não lhe prestar as loas que ele lhes acha devidas, quanto no executivo rico que se sente no direito de xingar ou de despedir uma pobre faxineira por ter desconfiado de que ela não lhe foi suficientemente submissa. Talvez a palavra "fáustica" não se preste à senhora rica que maltrata a empregada negra e pobre: fausto tem a ver com a ilusão do próprio, quando compactuou com o diabo. A coisa toda, em suma, teria que contar com a ilusão do poder e da riqueza. O jornalista venal, o policial corrupto, o empresário entorpecido pela riqueza, seriam todos fáusticos em suas comemorações. Balzac descreve bem uns e outros; eles se deliciam com o sucesso. Os acólitos não deixam de saudá-los na fila infinda do beija-mão.
A ironia é que Goethe em pessoa foi um gênio incensado. Era um gênio até onde a palavra alcança descrever um homem sábio, detentor de inúmeros talentos, mas, sobretudo, o literário. Como Cervantes, ele imortalizou um personagem símbolo - somos todos ainda que não publicamente, ora Fausto ora Dom Quixote. Goethe percebeu com a sua quase onisciência a importância do livro de Cervantes. Dizem que aprendeu o espanhol só para usufruí-lo em sua grandiosidade. Mas nunca desceu ao quixotismo - pelo menos não de modo a ser saudado por isso. Pelo contrário, enquanto pode, manteve a sua posição na Corte; e foi bom que o Duque de Weimar o cobrisse de honrarias e de privilégios. Goethe recompensou-o à altura.
Quando as autoridades máximas de Weimar lhe possibilitaram fazer um jardim - Goethe esmerou-se em construir uma obra-prima. Só não agradou Beethoven que foi seu contemporâneo e que, quase quixotescamente, não se deixava levar muito pela vaidade, como acontecia com Goethe. Quando pode, apontou em Goethe aquela parte de Fausto que persistia em sua personalidade: o gosto pelas "lantejoulas da corte" como disse o músico, textualmente, a respeito de seu colega poeta. Enfim, não há notícia de que o músico tivesse em alta conta o Dom Quixote - mas enquanto pode julgar -e todos podemos julgar - não deixou de imitar no quixotismo de sua surdez - o pior imaginável para um músico - a vaidade do outro. Que foi um gênio, mas que não superou a vanitas vanitatis - a vaidade das vaidades de seu personagem - um dos mais excelsos e perfeitos para a compreensão dos homens. Principalmente dos homens iludidos com o próprio saber. E o poder.
É uma espécie de fábula, com origens na Idade Média européia, mas que acentua um aspecto: Fausto não é um qualquer. Seu saber, seus títulos - tudo o leva a crer que se julga um "primus inter pares". É um homem diferenciado, digamos. Goethe, em pessoa, era esse diferenciado: nele coabitavam o naturalista - nome genérico de um cientista voltado à botânica, à mineralogia etc. - com o poeta, o artista plástico, o teórico das cores e tudo mais que se possa imaginar em relação à arte. Não parece importar, enfim, essa relação: milhares de teóricos e estudiosos altamente capacitados dedicaram-se e vão se esfalfar sobre o drama do poeta alemão - principalmente. Nada a acrescentar, portanto.
Mas Ítalo Calvino explicava a sua preferência pelos clássicos, a partir da eternidade deles. Não parece haver, de fato, como fugir da persistência do Dom Quixote em cada um do nós, por exemplo; e o personagem Fausto parece existir tanto no homem que vende a consciência - o jornalista antes de esquerda, hoje de direita (o vice-versa acontece, mas é bem mais raro; e por razões óbvias), quanto no colega que ontem se solidarizava com a categoria - mas que hoje, guindado à condição de chefia, a todo o momento confirma o adagio português: "Para conheceres o vilão, dê-lhe o bordão" . É uma história pra lá de conhecida que, no entanto, se reproduz a com a mesma insistência com que, mesmo os incréus - obrigam-se a considerar "a eternidade do demônio".
Não parece uma situação irrelevante, essa a da existência de um mal a nos acicatar. Karl Marx e Sigmund Freud são, sem duvidam, ponderáveis em suas teorias: o "inferno dos outros" se faria a partir do sistema (Marx), ou do instintos (Freud). Dizer que o diabo laicizou-se naturalmente, é uma questão dos tempos e dos costumes. Não vivemos na Idade Média. O demo não seria aquele ser encruado, com um rabo em forma de flecha na ponta, os pés de cabra e a cabeça, devidamente ornada com pelo menos dois cornos. Já, agora, diabo, sem dúvida, veste Praga; ou a culpa era de seus pais que o maltratavam?
As próprias variações em torno dos temas marxistas ou freudianos - e há uma infinidade delas, devidamente enfeixadas em livros que, se não confirmam a existência do "Coisa Ruim", reafirmam a pergunta: como explicar o cronista que sabe estar mentindo, mas que mesmo assim se assume para além do bem e do mal - tudo em troca da ilusão do dinheiro e da fama como forma de alcançar a juventude eterna, a ilusão de que, fora da notabilidade, da notoriedade - nada vale nada; ou antes, vale tudo? Vender a alma ao diabo, em suma, é um tema recorrente; e quase não mencionamos Fausto. Quem sabe, por medo de tê-lo à frente ou dentro de nós.
Talvez seja essa a questão mais pertinente. Na verdade, talvez seja a única questão: de todos os sete pecados capitais, não há um só que não convirja para a figura de Fausto. Mas o personagem tem uma característica inescapável, que é o seu saber. A grande contradição reside aí. Platão pregava a sabedoria como resposta às questões políticas. Desde que o governo fosse de sábios - e não há ninguém que reivindique a sabedoria suprema, fora da filosofia - a administração da coisa público pelos filósofos seria sempre a resposta adequada da sociedade. De fato, parece ser assim. Mas Fausto, homem sábio, não hesitou em fazer o acordo com o demônio. Seria demais concluir que o homem culto não é necessariamente o mais indicado para gerir a coisa pública?
Há dúvidas, porque se a alternativa a Fausto, é o boçal, o homem que despreza o saber, a coisa pode descambar também: Hitler tinha a certeza de que dominava tudo e se for levado em conta seu êxito inicial, até se explica a ilusão de muitos. O homem que melhor encarnou o espírito da Revolução Francesa foi Robespierre. Era culto; para alguns, de um brilhantismo invulgar. Foi durante sua governança que se instaurou o período chamado "do Terror", em que mais de trinta mil pessoas foram guilhotinadas. Augusto Pinochet foi quase inigualável em sua sanha assassina: matou - e comprovadamente - roubou o quanto pode. Era um homem que se deliciava com a ópera, a grande ópera. Devia se comover às lágrimas na cena da "Tosca", de Puccini, quando o personagem título verifica que o revolucionário a quem ela ama, foi fuzilado por suas idéias.
Stalin não lhe ficou atrás - mas havia quem dissesse que a sua estirpe era de outra linha - um grosseirão. Não é um exemplo de todo convincente; interessava-se pela arte e mandou matar muita gente por não concordar com as músicas, as poesias e os quadros que eles compunham. Já Stroessner - o ditador sanguinário do Paraguai que morreu no Brasil, muito bem obrigado, teria sido um perfeito casca-grossa - tanto, quem sabe, quanto Pol Pot, do Camboja- que não podia ouvir falar em cultura sem sacar o seu revólver.
Goethe acertou em tudo ao fazer de Fausto um homem culto, refinado de um saber superior. Ve-mo-lo a cada instante encarnado, tanto no professor que não dá notas a seu aluno por este não lhe prestar as loas que ele lhes acha devidas, quanto no executivo rico que se sente no direito de xingar ou de despedir uma pobre faxineira por ter desconfiado de que ela não lhe foi suficientemente submissa. Talvez a palavra "fáustica" não se preste à senhora rica que maltrata a empregada negra e pobre: fausto tem a ver com a ilusão do próprio, quando compactuou com o diabo. A coisa toda, em suma, teria que contar com a ilusão do poder e da riqueza. O jornalista venal, o policial corrupto, o empresário entorpecido pela riqueza, seriam todos fáusticos em suas comemorações. Balzac descreve bem uns e outros; eles se deliciam com o sucesso. Os acólitos não deixam de saudá-los na fila infinda do beija-mão.
A ironia é que Goethe em pessoa foi um gênio incensado. Era um gênio até onde a palavra alcança descrever um homem sábio, detentor de inúmeros talentos, mas, sobretudo, o literário. Como Cervantes, ele imortalizou um personagem símbolo - somos todos ainda que não publicamente, ora Fausto ora Dom Quixote. Goethe percebeu com a sua quase onisciência a importância do livro de Cervantes. Dizem que aprendeu o espanhol só para usufruí-lo em sua grandiosidade. Mas nunca desceu ao quixotismo - pelo menos não de modo a ser saudado por isso. Pelo contrário, enquanto pode, manteve a sua posição na Corte; e foi bom que o Duque de Weimar o cobrisse de honrarias e de privilégios. Goethe recompensou-o à altura.
Quando as autoridades máximas de Weimar lhe possibilitaram fazer um jardim - Goethe esmerou-se em construir uma obra-prima. Só não agradou Beethoven que foi seu contemporâneo e que, quase quixotescamente, não se deixava levar muito pela vaidade, como acontecia com Goethe. Quando pode, apontou em Goethe aquela parte de Fausto que persistia em sua personalidade: o gosto pelas "lantejoulas da corte" como disse o músico, textualmente, a respeito de seu colega poeta. Enfim, não há notícia de que o músico tivesse em alta conta o Dom Quixote - mas enquanto pode julgar -e todos podemos julgar - não deixou de imitar no quixotismo de sua surdez - o pior imaginável para um músico - a vaidade do outro. Que foi um gênio, mas que não superou a vanitas vanitatis - a vaidade das vaidades de seu personagem - um dos mais excelsos e perfeitos para a compreensão dos homens. Principalmente dos homens iludidos com o próprio saber. E o poder.
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/
18 outubro 2011
ÍNDICE
O quê há para ler
Como sugestão, destacarei alguns artigos postados hoje, 17/10,
sobre assuntos que mais receberam atenção da nossa dita
"grande" mídia. Lembrando porém, que são visões distintas,
novos ângulos e abordagens, para fazer contraponto ao
modo irresponsável de atuação da imprensa comprometida
com as elites brasileiras, o PIG no dizer de Paulo Henrique
Amorim.
Na seção IMPRENSA, temos:
- Tragédias na hora do almoço, de Laurindo Lalo Leal Filho
- A copa e a denúncia requentada, de Luís Nassif
- Orlando Silva e a mídia seletiva, de Eduardo Guimarães
- Coleguinhas, não tenham medo dos indignados, de Alberto
Dines
Na seção MEMÓRIA, os artigos são os seguintes:
- Soledad, a mulher do cabo Anselmo, de Urariano Mota
- Cabo Anselmo, a vulgarização da barbárie, de Altamiro
Borges
- A verdade: por uma comissão verdadeira, de Paulo César
Carbonari
Nota: os artigos acima têm a ver com a tramitação no Congres-
so Nacional do projeto da Comissão da Verdade, sobre o terro-
rismo de estado durante a ditadura civil/militar após o golpe de
1964, além da ressurreição do cabo Anselmo, pela direita, entre-
vistado que foi no programa Roda Viva, ontem (segunda feira).
Em POLÍTICA, temos:
- O problema da política não é simplesmente a lei, de Maria
Inês Nassif
- Uma ofensa a Itamar, de Mauro Santayana
- A corrupção e os privilégios, de Alberto Dines
Nota: No artigo de Mauro Sanatayna, ele comenta o programa
da tv, dos tucanos que, como de hábito, usurpam feitos do
governo do falecido presidente Itamar Franco, como se fossem
obra de FHC, que, aliás, está se habituando a ser pai dos filhos
de outros.
Na seção ECONOMIA, temos
- BC decide juro sob pressão e na mira da CVM, de André
Barrocal
- A farsa da Selic, de Amir Khair
Nota: A tendência continua ser de queda da taxa Selic, que
nos faz imaginar que um dia. num prazo não muito distante,
teremos uma taxa de juros civilizada.
Em DEBATE ABERTO, temos
- A globalização da revolta, de Antonio Lassance
- Financiamento público: prós e contras, de Marcos
Coimbra
Nota: Com a reforma política em andamento na Câmara
Federal, o item financimento público das campanhas é um
dos destaques, e que está recebendo ataque cerrado da
oposição, o que, pra mim, significa que deve ser implantada,
pois deve ser coisa boa.
Na seção INTERNACIONAL, temos
- É o social, estúpidos!, de Emir Sader, sobre a reeleição da
atual presidenta da Argentina, que não conta com o apoio
da nossa grande imprensa nativa. (Ha! Ha! Ha!)
- O desenvolvimento do subdesenvolvimento, de Boaventura
de Sousa Santos, sobre a situação atual de Portugal.
PS - Ao final das contas, acabei destacando todos os artigos
postados.
H U M O R
por NANI
Como sugestão, destacarei alguns artigos postados hoje, 17/10,
sobre assuntos que mais receberam atenção da nossa dita
"grande" mídia. Lembrando porém, que são visões distintas,
novos ângulos e abordagens, para fazer contraponto ao
modo irresponsável de atuação da imprensa comprometida
com as elites brasileiras, o PIG no dizer de Paulo Henrique
Amorim.
Na seção IMPRENSA, temos:
- Tragédias na hora do almoço, de Laurindo Lalo Leal Filho
- A copa e a denúncia requentada, de Luís Nassif
- Orlando Silva e a mídia seletiva, de Eduardo Guimarães
- Coleguinhas, não tenham medo dos indignados, de Alberto
Dines
Na seção MEMÓRIA, os artigos são os seguintes:
- Soledad, a mulher do cabo Anselmo, de Urariano Mota
- Cabo Anselmo, a vulgarização da barbárie, de Altamiro
Borges
- A verdade: por uma comissão verdadeira, de Paulo César
Carbonari
Nota: os artigos acima têm a ver com a tramitação no Congres-
so Nacional do projeto da Comissão da Verdade, sobre o terro-
rismo de estado durante a ditadura civil/militar após o golpe de
1964, além da ressurreição do cabo Anselmo, pela direita, entre-
vistado que foi no programa Roda Viva, ontem (segunda feira).
Em POLÍTICA, temos:
- O problema da política não é simplesmente a lei, de Maria
Inês Nassif
- Uma ofensa a Itamar, de Mauro Santayana
- A corrupção e os privilégios, de Alberto Dines
Nota: No artigo de Mauro Sanatayna, ele comenta o programa
da tv, dos tucanos que, como de hábito, usurpam feitos do
governo do falecido presidente Itamar Franco, como se fossem
obra de FHC, que, aliás, está se habituando a ser pai dos filhos
de outros.
Na seção ECONOMIA, temos
- BC decide juro sob pressão e na mira da CVM, de André
Barrocal
- A farsa da Selic, de Amir Khair
Nota: A tendência continua ser de queda da taxa Selic, que
nos faz imaginar que um dia. num prazo não muito distante,
teremos uma taxa de juros civilizada.
Em DEBATE ABERTO, temos
- A globalização da revolta, de Antonio Lassance
- Financiamento público: prós e contras, de Marcos
Coimbra
Nota: Com a reforma política em andamento na Câmara
Federal, o item financimento público das campanhas é um
dos destaques, e que está recebendo ataque cerrado da
oposição, o que, pra mim, significa que deve ser implantada,
pois deve ser coisa boa.
Na seção INTERNACIONAL, temos
- É o social, estúpidos!, de Emir Sader, sobre a reeleição da
atual presidenta da Argentina, que não conta com o apoio
da nossa grande imprensa nativa. (Ha! Ha! Ha!)
- O desenvolvimento do subdesenvolvimento, de Boaventura
de Sousa Santos, sobre a situação atual de Portugal.
PS - Ao final das contas, acabei destacando todos os artigos
postados.
H U M O R
por NANI
27 agosto 2011
O QUÊ HÁ PARA LER
ONDE VAMOS PARAR?
Militantes da 'faxina' reeditam o Cansei
- Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania)
A OPINIÃO DE MINO CARTA
A desigualdade Global
- Mino Carta (Revista CartaCapital)
BRASIL
Uma decisão do STF que trocou seis por meia dúzia
- Maria Inês Nassif (sítio Carta Maior)
Uma pedra no caminho
- Maurício Dias (Revista CartaCapital)
NOSSO MUNDO
A dúvida sobre os rebeldes líbios
- Patrick Cockburn (sítio Carta Maior)
Especulação financeira, e não problema climático, explica a fome no chifre da África
- Marcel Gomes (sítio Carta Maior)
ECONOMIA
Petrobrás afeta geopolítica, e 'doença holandesa' é risco, diz Gabrielli
- André Barrocal (sítio Carta Maior)
AMÉRICA LATINA
Chile vive maior protesto desde Pinochet
- Christian Palma (sítio Carta Maior)
***** ***** ***** ***** *****
H U M O R

Por Adão Iturrusgarai
Militantes da 'faxina' reeditam o Cansei
- Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania)
A OPINIÃO DE MINO CARTA
A desigualdade Global
- Mino Carta (Revista CartaCapital)
BRASIL
Uma decisão do STF que trocou seis por meia dúzia
- Maria Inês Nassif (sítio Carta Maior)
Uma pedra no caminho
- Maurício Dias (Revista CartaCapital)
NOSSO MUNDO
A dúvida sobre os rebeldes líbios
- Patrick Cockburn (sítio Carta Maior)
Especulação financeira, e não problema climático, explica a fome no chifre da África
- Marcel Gomes (sítio Carta Maior)
ECONOMIA
Petrobrás afeta geopolítica, e 'doença holandesa' é risco, diz Gabrielli
- André Barrocal (sítio Carta Maior)
AMÉRICA LATINA
Chile vive maior protesto desde Pinochet
- Christian Palma (sítio Carta Maior)
***** ***** ***** ***** *****
H U M O R
Me beija! Me agarra!
Por Adão Iturrusgarai
10 julho 2011
E D I Ç Ã O N. 51
PRIMEIRA PÁGINA
O quê há para ler
A opinião de Mino Carta
Brasil - Que viva Itamar - Celso Amorim
O herói, o cara e o coroa - Maurício Dias
Imprensa - Apuração, análise e reflexão em falta - Washington Araújo
As notícias do mundo - Alberto Dines
Internacional: Política e Economia - Israel: o tsunami que está chegando -
Immanuel Wallerstein
Não é só o euro, mas a democracia que está em jogo-
Amartya Sen
Nem a ortodoxia confia mais nas suas criaturas -
Saul Leblon
Economia - Comia e gasolina barateiam, e inflação é a menor em dez meses -
Redação Carta Maior
A dominância financeira - Amir Khair
Volta da CPMF é defendida em debate sobre desonera a folha salarial -
André Barrocal
História - 1932: a revanche oligárquica - Augusto Buonicore
# # # # # # # # # # #
Estamos de volta a um clima político inquieto em que a mídia nativa se alia na mira do alvo único, a evocar os tempos do ataque a Lula e seu governo para culminar com o escândalo do chamado mensalão. A situação é parecida, mas não é igual.
Em primeiro lugar, Dilma Rousseff não é o ex-operário que sentou no trono, embora tenha sido ungida por ele. E nos passos iniciais na Presidência, Dilma contou com a simpatia de boa parte da mídia, por mais medida que fosse e transparentemente voltada a afastar a criatura do criador.
Por outro lado, transparece com a necessária nitidez que tanto o Caso Palocci- quanto o do Ministério dos Transportes, recém-eclodido, não mancham a presidenta porque em ambos ela é, de certa forma, a parte ofendida. A boa-fé de Dilma é indiscutível. Resta o fato de que este governo faz água. CartaCapital vive o momento sem maiores surpresas: desde a posse não lhe reconhece a indispensável- solidez.
Antes das dúvidas suscitadas pela escalação de alguns ministros, existem problemas endêmicos, digamos assim, próprios da política verde-amarela, inerentes à questão central da governabilidade, a exigir alianças incômodas. O sacrifício obrigatório para harmonizar credos diversos sempre teve na história da República um preço muito elevado-. Agregue-se outra característica, daninha e insopitável: o partido do poder torna-se, automaticamente, tocado pela mão do destino, dono da casa-grande.
Partido do poder pelo poder, ideias e ideais, se os houve, vão para o espaço. Assim se porta hoje o PT, completamente- esquecido dos trabalhadores a bem da aplicação febril a favor dos seus próprios interesses, ou melhor, dos interesses dos graúdos do partido e dos petistas habilitados a chantagear os graúdos. Planta-se aí mais um problema para a presidenta, e nesta ótica há de ser encarado o desastrado desfecho do Caso Battisti.
Sobrevém no quadro a influência de Lula na composição do staff da campanha de Dilma e, ao cabo, do governo. Candidatos certos do ex-presidente, Antonio Palocci e Nelson Jobim. Quanto a José Eduardo Cardozo, é possível que sua indicação tenha saído do PT. Palocci, a esta altura, dispensa comentários, dele sabemos o bastante, inclusive das atitudes de primeiro-ministro assumidas na Casa Civil, com a provável responsabilidade de ter encaminhado a discutível fusão Pão de Açúcar-Carrefour.
Na Defesa, Jobim não perde a oportunidade de vestir a farda, na realidade do cotidiano e na metáfora. Parece, de fato, ser o mais denodado intérprete do eterno temor, ou da inextinguível desculpa, das eventuais reações de um exército ainda visto como de ocupação. Jobim é a versão fardada e oblíqua de Cassandra. E no outro dia vai à festa dos 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, e diz das suas saudades da Presidência do aniversariante- e da tormentosa injunção do presente, que o obriga a conviver com um bando de parvos, seus colegas de governo.
O desafio à presidenta não precisa ser sublinhado. Resta a pergunta óbvia: por que o general Jobim não se demite? Cabe outra: por que a presidenta não o demite? E se o olhar se dirige para o ministro Cardozo, partidário ardoroso da negativa à extradição de Battisti, o que desperta as dúvidas maiores de CartaCapital é sua relação com Daniel Dantas, um dos senhores credenciados a cometer estripulias impunes no País, enquanto é condenado por cortes estrangeiras. Sempre vale recordar que Cardozo, ainda deputado petista, foi promotor de um jantar do banqueiro orelhudo na casa de Heráclito Fortes destinado ao encontro entre Dantas e o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, bem como o acompanhou à Itália na tentativa, malograda, de enfrentar em campo alheio a Telecom italiana.
A saída de Palocci foi um passo importante, há outros, contudo, a serem dados, como prova a situação atual. E me ocorre de súbito a carta de Dilma a Fernando- Henrique octogenário. No meu entendimento, obra-prima de ironia, e esta não é crítica subdolosa, e sim inspirada por uma análise sem paixão. Não há naquelas linhas uma única em que Dilma acredite.
“Acadêmico inovador, político habilidoso, ministro–arquiteto de um plano duradouro de saída- da hiper-inflação, presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica.” Leio no sub-texto: o acadêmico que se exilou sem precisar, o político que toparia ser até ministro de Fernando Collor não fosse a ameaça de Mário Covas de romper com o PSDB, o usurpador do plano batizado por Itamar Franco, o presidente que quebrou o País três vezes.
O toque final, de todo modo, está na frase-chave: “O espírito do jovem que lutou pelos seus ideais, que perduram até os dias de hoje”. Não poderia haver mais ironia na definição de quem recomendou o esquecimento do seu passado para assumir o papel de líder da direita nativa. Dilma esbaldou-se, creio eu, na exploração da monumental vaidade do aniversariante, e com sutileza suficiente para que o próprio não percebesse e, certamente, muitos de sua corte. A ironia nem sempre é bem entendida nas nossas plagas. Raymundo Faoro me aconselhava: “Não exagere em ironia, pensarão que você fala sério”. Eu respondia: “É isso mesmo que busco”.
Permito-me supor que Dilma tivesse também outro objetivo ao escrever a carta, semear a confusão na área tucana e alvejar, talvez mortalmente, José Serra. CartaCapital nunca duvidou que a presidenta saiba atuar com acuidade no jogo da política, muito além das previsões e das esperanças da mídia, e com a devida firmeza no comando. São estas as razões da escolha de Carta-Capital por sua candidatura um ano atrás. É da nossa convicção de que ela saberá superar o momento tenso até inaugurar o seu governo, indiscutivelmente seu, a contar inclusive, como observa um caro amigo e excelente especialista em política, com o vento de cauda que, a despeito da crise mundial, empurra o Brasil por obra da própria natureza.
Aproveito para acentuar o quanto apreciamos o escudo feminino que a presidenta forma à sua volta. Agrada-me dizer que, neste governo, preferimos as damas aos cavalheiros.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/
O quê há para ler
A opinião de Mino Carta
Brasil - Que viva Itamar - Celso Amorim
O herói, o cara e o coroa - Maurício Dias
Imprensa - Apuração, análise e reflexão em falta - Washington Araújo
As notícias do mundo - Alberto Dines
Internacional: Política e Economia - Israel: o tsunami que está chegando -
Immanuel Wallerstein
Não é só o euro, mas a democracia que está em jogo-
Amartya Sen
Nem a ortodoxia confia mais nas suas criaturas -
Saul Leblon
Economia - Comia e gasolina barateiam, e inflação é a menor em dez meses -
Redação Carta Maior
A dominância financeira - Amir Khair
Volta da CPMF é defendida em debate sobre desonera a folha salarial -
André Barrocal
História - 1932: a revanche oligárquica - Augusto Buonicore
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A gestação do governo de Dilma
Mino Carta 8 de julho de 2011 às 10:59hA presidenta ganha a oportunidade de formar, finalmente, o seu próprio ministério. Foto: Lula Marques/Folhapress
Estamos de volta a um clima político inquieto em que a mídia nativa se alia na mira do alvo único, a evocar os tempos do ataque a Lula e seu governo para culminar com o escândalo do chamado mensalão. A situação é parecida, mas não é igual.
Em primeiro lugar, Dilma Rousseff não é o ex-operário que sentou no trono, embora tenha sido ungida por ele. E nos passos iniciais na Presidência, Dilma contou com a simpatia de boa parte da mídia, por mais medida que fosse e transparentemente voltada a afastar a criatura do criador.
Por outro lado, transparece com a necessária nitidez que tanto o Caso Palocci- quanto o do Ministério dos Transportes, recém-eclodido, não mancham a presidenta porque em ambos ela é, de certa forma, a parte ofendida. A boa-fé de Dilma é indiscutível. Resta o fato de que este governo faz água. CartaCapital vive o momento sem maiores surpresas: desde a posse não lhe reconhece a indispensável- solidez.
Antes das dúvidas suscitadas pela escalação de alguns ministros, existem problemas endêmicos, digamos assim, próprios da política verde-amarela, inerentes à questão central da governabilidade, a exigir alianças incômodas. O sacrifício obrigatório para harmonizar credos diversos sempre teve na história da República um preço muito elevado-. Agregue-se outra característica, daninha e insopitável: o partido do poder torna-se, automaticamente, tocado pela mão do destino, dono da casa-grande.
Partido do poder pelo poder, ideias e ideais, se os houve, vão para o espaço. Assim se porta hoje o PT, completamente- esquecido dos trabalhadores a bem da aplicação febril a favor dos seus próprios interesses, ou melhor, dos interesses dos graúdos do partido e dos petistas habilitados a chantagear os graúdos. Planta-se aí mais um problema para a presidenta, e nesta ótica há de ser encarado o desastrado desfecho do Caso Battisti.
Sobrevém no quadro a influência de Lula na composição do staff da campanha de Dilma e, ao cabo, do governo. Candidatos certos do ex-presidente, Antonio Palocci e Nelson Jobim. Quanto a José Eduardo Cardozo, é possível que sua indicação tenha saído do PT. Palocci, a esta altura, dispensa comentários, dele sabemos o bastante, inclusive das atitudes de primeiro-ministro assumidas na Casa Civil, com a provável responsabilidade de ter encaminhado a discutível fusão Pão de Açúcar-Carrefour.
Na Defesa, Jobim não perde a oportunidade de vestir a farda, na realidade do cotidiano e na metáfora. Parece, de fato, ser o mais denodado intérprete do eterno temor, ou da inextinguível desculpa, das eventuais reações de um exército ainda visto como de ocupação. Jobim é a versão fardada e oblíqua de Cassandra. E no outro dia vai à festa dos 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, e diz das suas saudades da Presidência do aniversariante- e da tormentosa injunção do presente, que o obriga a conviver com um bando de parvos, seus colegas de governo.
O desafio à presidenta não precisa ser sublinhado. Resta a pergunta óbvia: por que o general Jobim não se demite? Cabe outra: por que a presidenta não o demite? E se o olhar se dirige para o ministro Cardozo, partidário ardoroso da negativa à extradição de Battisti, o que desperta as dúvidas maiores de CartaCapital é sua relação com Daniel Dantas, um dos senhores credenciados a cometer estripulias impunes no País, enquanto é condenado por cortes estrangeiras. Sempre vale recordar que Cardozo, ainda deputado petista, foi promotor de um jantar do banqueiro orelhudo na casa de Heráclito Fortes destinado ao encontro entre Dantas e o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, bem como o acompanhou à Itália na tentativa, malograda, de enfrentar em campo alheio a Telecom italiana.
A saída de Palocci foi um passo importante, há outros, contudo, a serem dados, como prova a situação atual. E me ocorre de súbito a carta de Dilma a Fernando- Henrique octogenário. No meu entendimento, obra-prima de ironia, e esta não é crítica subdolosa, e sim inspirada por uma análise sem paixão. Não há naquelas linhas uma única em que Dilma acredite.
“Acadêmico inovador, político habilidoso, ministro–arquiteto de um plano duradouro de saída- da hiper-inflação, presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica.” Leio no sub-texto: o acadêmico que se exilou sem precisar, o político que toparia ser até ministro de Fernando Collor não fosse a ameaça de Mário Covas de romper com o PSDB, o usurpador do plano batizado por Itamar Franco, o presidente que quebrou o País três vezes.
O toque final, de todo modo, está na frase-chave: “O espírito do jovem que lutou pelos seus ideais, que perduram até os dias de hoje”. Não poderia haver mais ironia na definição de quem recomendou o esquecimento do seu passado para assumir o papel de líder da direita nativa. Dilma esbaldou-se, creio eu, na exploração da monumental vaidade do aniversariante, e com sutileza suficiente para que o próprio não percebesse e, certamente, muitos de sua corte. A ironia nem sempre é bem entendida nas nossas plagas. Raymundo Faoro me aconselhava: “Não exagere em ironia, pensarão que você fala sério”. Eu respondia: “É isso mesmo que busco”.
Permito-me supor que Dilma tivesse também outro objetivo ao escrever a carta, semear a confusão na área tucana e alvejar, talvez mortalmente, José Serra. CartaCapital nunca duvidou que a presidenta saiba atuar com acuidade no jogo da política, muito além das previsões e das esperanças da mídia, e com a devida firmeza no comando. São estas as razões da escolha de Carta-Capital por sua candidatura um ano atrás. É da nossa convicção de que ela saberá superar o momento tenso até inaugurar o seu governo, indiscutivelmente seu, a contar inclusive, como observa um caro amigo e excelente especialista em política, com o vento de cauda que, a despeito da crise mundial, empurra o Brasil por obra da própria natureza.
Aproveito para acentuar o quanto apreciamos o escudo feminino que a presidenta forma à sua volta. Agrada-me dizer que, neste governo, preferimos as damas aos cavalheiros.
Mino Carta
Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde. redacao@cartacapital.com.br
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/
03 julho 2011
E D I Ç Ã O N. 50
PRIMEIRA PÁGINA
O quê há para ler
BRASIL
A ditadura continua - Maurício Dias
Nelson Jobim joga seu cargo no ventilador - Leandro Fortes
NOSSO MUNDO
Indignados de todo o mundo: uni-vos - Paulo Kliass
Portugal e a luz no fim do túnel - Boaventura Sousa Santos
Cuba_Brasil, 25 anos de reatamento - Beto Almeida
IMPRENSA
América Latina: por que no Brasil é diferente? - Venício Lima
Liberdade para mentir - Izaías Almada
ECONOMIA
Folha quer "desacelerar" a economia - Altamiro Borges
Salário é "um risco muito importante" para a inflação, afirma BC - André Barrocal
DEBATE ABERTO
Grécia e Brasil: povos x dívida - Ivan Valente
A fome e a FAO não existem para o conservadorismo - Saul Leblon
A centralidade da ética - Alberto Dines
SAÚDE
Cracolândia, a hora das narcossalas - Wálter Maierovitch
Privatização e greve nos planos de saúde - Altamiro Borges
Obs. Logo abaixo, temos um artigo de Mino Carta que merece ser lido. Aliás, como
todos os seus escritos.
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A opinião de Mino Carta
Uma foto de Billy the Kid, tirada nos anos 80 do século XIX, a única existente do bandido cinematográfico, foi leiloada dias atrás nos Estados Unidos e arrematada por mais de 1 milhão de dólares. Pergunto aos meus botões quanto valeria o Partenon, ou um arquipélago do Mar Egeu. Inimaginável, respondem. Até um certo ponto, digo eu.
À deriva de uma Europa assolada pela crise econômica e financeira, à custa de um buraco negro, abismo vertiginoso de mais de 600 bilhões de euros, para cobri-lo a Grécia anuncia o propósito de pôr em leilão o seu inestimável patrimônio artístico e natural. Daí a lógica da pergunta acima. Poderia, porém, dirigir muitas outras ao Oráculo de Delfos. Que diria Homero? Ou, ao se falar no Egeu, o seu herói mais humano, o Odisseu? Ou a poetisa Safo, ou outro que versejava, Teócrito, a pressagiar Caymmi, escrevia “deixa que o mar azul quebre sobre a praia, mais doce a seu lado transcorrerei a noite”?
Penso na Itália, que, igual a outros países europeus, vive no fio da navalha. Quanto valem a catedral de Orvieto, o Vesúvio, o museu Degli Uffizi? E me vêm à memória filmes da minha mocidade, comédias à italiana, em que um Sordi ou um Totó conseguiam vender o Coliseu ao parvo turista americano de sandálias e bermudas. Digo, o precursor de um transeunte hodierno e comum da Avenida Paulista, ou da Rua Oscar Freire, a mais elegante do mundo, como todos sabem.
À espera de leilões inéditos, de certa forma aberrantes, meus severos botões se apressam a uma afirmação categórica: não é para rir, não. Assistimos a mais um quadro do segundo ato da tragédia, a da tentativa, por ora em andamento, do suicídio do globo terráqueo. O homem criou a situação terrificante, ou melhor, um grupo de homens dispostos a crer, a provar, a impingir que o ideal é produzir dinheiro, grana em atuação-solo, em lugar de bens, indispensáveis e nem tanto. Outros homens, em quantidade infinitamente maior, deixaram-se engodar. Outros ainda, muitos mais ainda, estão mergulhados no oblívio de quem nada sabe e nada percebe.
Este o enredo do primeiro ato, mas não levou ao repúdio do engano urdido por estranha competência na tessitura da desgraça, não alterou um milímetro, ou um suspiro sequer, os papéis dos protagonistas, banqueiros e especuladores financeiros. Todos a postos no alvorecer do segundo ato, a professarem o mesmo credo, nos Estados Unidos e na Europa. Alguns meses depois, volto a citar um documentário magistral, ganhador do Oscar deste ano, Inside Job. Mostrou a cara impávida de quem semeou a tempestade e impavidamente continua a alimentá-la, certo da impunidade. E a humanidade que se moa.
O segundo ato envereda pelo suicídio de um certo número de cidadãos gregos, que não acham saída para a tragédia, coletiva e também individual. O cenário, em todo caso, vai além desta específica crise, exibe sem disfarces outras faces, política, intelectual, moral. Leiam, se quiserem, em ordem inversa, moral em primeiro lugar, a abarcar em larga parte a política. Nunca a corrupção e a hipocrisia dos poderosos, a desfaçatez e a prepotência, ficaram tão impunemente expostas aos olhos do mundo, e este gênero de violência é tanto mais grave em uma quadra da história humana que se pretende de progresso nunca dantes alcançado.
Sim, assistimos a avanços científicos e tecnológicos notáveis e inegáveis, e nem por isso atravessamos de fato dias melhores. Somos, em tudo e por tudo, súditos do império do dinheiro, que alonga suas fronteiras por cima das nacionais, transcende-as como se fossem inexistentes ou inúteis. Com valia em todos os campos, na arte e no esporte, na educação e na saúde. É da percepção até do mundo mineral o quanto a humanidade, ao se multiplicar, emburrece, assim como cresce a implacável separação entre ricos e pobres.
Neste segundo ato, padecemos a globalização da ferocidade de poucos oposta à debilidade de muitos, a riqueza e o poder à miséria e à indigência, a irresponsabilidade à resignação e à apatia. Em um único ponto talvez se verifique alguma igualdade: na ignorância, doença terrível, epidêmica. A prosseguir neste rumo, o terceiro ato não promete nada de bom.
Com que roupa eu vou ao governo que você me convidou?
O quê há para ler
BRASIL
A ditadura continua - Maurício Dias
Nelson Jobim joga seu cargo no ventilador - Leandro Fortes
NOSSO MUNDO
Indignados de todo o mundo: uni-vos - Paulo Kliass
Portugal e a luz no fim do túnel - Boaventura Sousa Santos
Cuba_Brasil, 25 anos de reatamento - Beto Almeida
IMPRENSA
América Latina: por que no Brasil é diferente? - Venício Lima
Liberdade para mentir - Izaías Almada
ECONOMIA
Folha quer "desacelerar" a economia - Altamiro Borges
Salário é "um risco muito importante" para a inflação, afirma BC - André Barrocal
DEBATE ABERTO
Grécia e Brasil: povos x dívida - Ivan Valente
A fome e a FAO não existem para o conservadorismo - Saul Leblon
A centralidade da ética - Alberto Dines
SAÚDE
Cracolândia, a hora das narcossalas - Wálter Maierovitch
Privatização e greve nos planos de saúde - Altamiro Borges
Obs. Logo abaixo, temos um artigo de Mino Carta que merece ser lido. Aliás, como
todos os seus escritos.
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A opinião de Mino Carta
Vende-se o Partenon
2 de julho de 2011 às 10:39hUma foto de Billy the Kid, tirada nos anos 80 do século XIX, a única existente do bandido cinematográfico, foi leiloada dias atrás nos Estados Unidos e arrematada por mais de 1 milhão de dólares. Pergunto aos meus botões quanto valeria o Partenon, ou um arquipélago do Mar Egeu. Inimaginável, respondem. Até um certo ponto, digo eu.
À deriva de uma Europa assolada pela crise econômica e financeira, à custa de um buraco negro, abismo vertiginoso de mais de 600 bilhões de euros, para cobri-lo a Grécia anuncia o propósito de pôr em leilão o seu inestimável patrimônio artístico e natural. Daí a lógica da pergunta acima. Poderia, porém, dirigir muitas outras ao Oráculo de Delfos. Que diria Homero? Ou, ao se falar no Egeu, o seu herói mais humano, o Odisseu? Ou a poetisa Safo, ou outro que versejava, Teócrito, a pressagiar Caymmi, escrevia “deixa que o mar azul quebre sobre a praia, mais doce a seu lado transcorrerei a noite”?
Penso na Itália, que, igual a outros países europeus, vive no fio da navalha. Quanto valem a catedral de Orvieto, o Vesúvio, o museu Degli Uffizi? E me vêm à memória filmes da minha mocidade, comédias à italiana, em que um Sordi ou um Totó conseguiam vender o Coliseu ao parvo turista americano de sandálias e bermudas. Digo, o precursor de um transeunte hodierno e comum da Avenida Paulista, ou da Rua Oscar Freire, a mais elegante do mundo, como todos sabem.
À espera de leilões inéditos, de certa forma aberrantes, meus severos botões se apressam a uma afirmação categórica: não é para rir, não. Assistimos a mais um quadro do segundo ato da tragédia, a da tentativa, por ora em andamento, do suicídio do globo terráqueo. O homem criou a situação terrificante, ou melhor, um grupo de homens dispostos a crer, a provar, a impingir que o ideal é produzir dinheiro, grana em atuação-solo, em lugar de bens, indispensáveis e nem tanto. Outros homens, em quantidade infinitamente maior, deixaram-se engodar. Outros ainda, muitos mais ainda, estão mergulhados no oblívio de quem nada sabe e nada percebe.
Este o enredo do primeiro ato, mas não levou ao repúdio do engano urdido por estranha competência na tessitura da desgraça, não alterou um milímetro, ou um suspiro sequer, os papéis dos protagonistas, banqueiros e especuladores financeiros. Todos a postos no alvorecer do segundo ato, a professarem o mesmo credo, nos Estados Unidos e na Europa. Alguns meses depois, volto a citar um documentário magistral, ganhador do Oscar deste ano, Inside Job. Mostrou a cara impávida de quem semeou a tempestade e impavidamente continua a alimentá-la, certo da impunidade. E a humanidade que se moa.
O segundo ato envereda pelo suicídio de um certo número de cidadãos gregos, que não acham saída para a tragédia, coletiva e também individual. O cenário, em todo caso, vai além desta específica crise, exibe sem disfarces outras faces, política, intelectual, moral. Leiam, se quiserem, em ordem inversa, moral em primeiro lugar, a abarcar em larga parte a política. Nunca a corrupção e a hipocrisia dos poderosos, a desfaçatez e a prepotência, ficaram tão impunemente expostas aos olhos do mundo, e este gênero de violência é tanto mais grave em uma quadra da história humana que se pretende de progresso nunca dantes alcançado.
Sim, assistimos a avanços científicos e tecnológicos notáveis e inegáveis, e nem por isso atravessamos de fato dias melhores. Somos, em tudo e por tudo, súditos do império do dinheiro, que alonga suas fronteiras por cima das nacionais, transcende-as como se fossem inexistentes ou inúteis. Com valia em todos os campos, na arte e no esporte, na educação e na saúde. É da percepção até do mundo mineral o quanto a humanidade, ao se multiplicar, emburrece, assim como cresce a implacável separação entre ricos e pobres.
Neste segundo ato, padecemos a globalização da ferocidade de poucos oposta à debilidade de muitos, a riqueza e o poder à miséria e à indigência, a irresponsabilidade à resignação e à apatia. Em um único ponto talvez se verifique alguma igualdade: na ignorância, doença terrível, epidêmica. A prosseguir neste rumo, o terceiro ato não promete nada de bom.
Mino Carta
Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde. redacao@cartacapital.com.br
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H U M O R H U M O R H U M O R
por NANI
JUSTIÇA SEM EXPEDIENTE INTEGRAL
Com que roupa eu vou ao governo que você me convidou?
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