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26 outubro 2015

PARA NUNCA MAIS ACONTECER

Um momento para não esquecer



Alberto Dines, no Observatório da Imprensa



A ditadura militar começou a desabar com um ato ecumênico, verdadeiramente espiritual, celebrado na Sé de São Paulo em memória do jornalista Vlado Herzog e em protesto contra o seu assassinato dias antes nos cárceres do DOI-CODI local.
Hoje, 25 de outubro, no mesmo templo paulistano, exatos quarenta anos depois, novo culto inter-religioso desta vez para evocar aquele momento único de congraçamento humano e resistência à brutalidade.
O tempo decorrido não nos deixa mais tranquilos: fantasmas com outras roupagens substituíram os de então, novas perversidades articulam-se ostensivamente em diferentes recantos do planeta. Desatentos, tomados por estranhas derivações estamos permitindo que o país se dissolva no ódio. As certezas então produzidas pela unidade e pela solidariedade, apenas quatro décadas depois parecem irremediavelmente desfeitas.
Nesta era das gigantescas redes e vastos compartilhamentos não estamos conseguindo aquele mínimo de convergências para distinguir as sutilezas do mal. Pior: estamos sozinhos, cada um por si. A intensidade da comunicação não forma – ao contrário deforma — comunhões e comunidades. O mundo globalizado é na realidade, um tecido de solidões.
As próprias religiões estão sendo torpemente usadas para difundir desconfianças e fragmentações. O boato espalhado pela imprensa italiana sobre o tumor no cérebro do papa Francisco é uma clara manobra para desqualificar suas arrojadas tentativas de agregar, incluir, aproximar tanto na esfera dos costumes como na política.
A gigantesca e inacreditável lorota proposta pelo premiê israelense, Bibi Netanyahu — aliás filho de um eminente historiador — sobre a suposta origem palestina do projeto nazista de extermínio dos judeus na Segunda Guerra Mundial dá uma ideia da paranoia que domina os setores xenófobos da sociedade israelense. O negacionismo do Holocausto no qual os aiatolás iranianos estão engajados, jamais fabricou tão execrável disparate, inédita dessacralização do martírio dos seis milhões de vítimas do ódio racial.
Onde poderia o bilionário norte-americano Donald Trump encontrar inspiração para formatar sua jurássica plataforma política senão entre as seitas fundamentalistas dos EUA?
Com a credibilidade reduzida a pó e um pé no primeiro degrau do patíbulo o deputado Eduardo Cunha (até o momento, presidente da Câmara Federal), tenta desesperadamente armar uma base de apoio, por isso recorre com evidente desespero aos correligionários evangélicos. O projeto de sua autoria que fez aprovar há dias na Comissão de Constituição e Justiça torna quase impossível o aborto em caso de estupro apesar de garantido pela legislação. De uma perversidade medieval, torna o poder público um algoz, cumplice da maternidade precoce, incubadora de uma geração de menores abandonados que logo irão reforçar a delinquência.
Eduardo Cunha é o clássico caçador de bruxas, modelado pelo farisaísmo, a hipocrisia, servo de duas moralidades quando se trata do erário e de bens públicos, dos quais deveria ser guardião, não tem qualquer escrúpulo em apropriar-se. Mente descaradamente sem importar-se com a sua responsabilidade de guardião da fé pública.
Eduardo Cunha saiu do armário para nos lembrar que os fundamentos ideológicos e morais da brutalidade do regime militar permanecem intactos.
 Por que Cunha só faz declarações andando e apressado?
O mais cínico e assíduo dos entrevistados da cena política neste ano, Eduardo Cunha consegue passar incólume pelos diversos encontros diários com os repórteres que cobrem a Câmara Federal graças a um estratagema e uma desfaçatez que ultrapassam de longe a “cara-de-pau” de Paulo Maluf, até há poucos anos o indiscutível campeão na modalidade.
Cunha não se nega a falar, parece disponível, mas nunca recebe os repórteres parado. Procura sempre dar a impressão de que tem pressa, assuntos urgentes e transcendentais o convocam. Responde andando, rápido, sem olhar o repórter, inferiorizando-o e abatendo qualquer tentativa de réplica ou contestação das contumazes mentiras.
O comité de imprensa da Câmara deveria protestar, isso não é maneira de oferecer explicações à sociedade. E se o esperto deputado insistir na manha existem muitos recursos para sossega-lo.
***
Alberto Dines é jornalista, escritor e fundador do Observatório da Imprensa



13 abril 2015

AMÉRICA LATINA DE LUTO

Eduardo Galeano (1940-2015)


Victor Farinelli (Extraído do sítio da Revista CartaCapital)


Galeano 3“Muita gente pequena, em pequenos lugares, fazendo coisas pequenas podem transformar o mundo.”
“Em 1492, os nativos descobriram que eram índios. Descobriram que viviam num lugar chamado América. Descobriram que estavam nus, que existia o pecado. Descobriram que deviam obediência a um rei e uma rainha de outro mundo, e a um deus de outro céu. E que esse deus havia inventado a culpa e o vestido, e que mandou queimar vivo quem adorasse o sol, a luna, a terra e a chuva que a molha.”
“Os países que dão as ordens no mundo, através dos organismos que criaram para dar as ordens no mundo, ditam as ordens ao mundo mas não as seguem. Sim, porque eles são sádicos, mas não masoquistas.”
Galeano 2
“As guerras mentem. Nenhuma tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As sempre invocam motivos nobres. Matam em nome da paz, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia, e para que não reste dúvidas, se nenhuma dessas mentiras não for suficiente, aparecem os meios de comunicação dispostos a inventar novos inimigos imaginários, para justificar a conversão do mundo em um grande manicômio, e imenso matadouro.”
“Os cientistas dizem que estamos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que estamos feitos de histórias.”
“O futebol corre o perigo de se tornar um negócio tão rentável quando o das drogas e das armas. O que vai acabar com o miserável torcedor que vive da sua paixão, que dorme na porta do clube, ou o mendigo do bom futebol, que anda de estádio em estádio, com seu chapéu nas mãos, pedindo “uma jogadinha brilhante pelo amor de Deus.”
“A liberdade do dinheiro é inimiga da liberdade das pessoas.”
Galeano 1
Reunimos acima algumas das facetas de Eduardo Galeano em sete frases suas. A do uruguaio que sonhou com a grande transformação em pequenas proporções, a do historiador da América Latina e suas veias abertas, a do questionador da ordem mundial, a do jornalista que denunciava o saqueamento e a matança dos países pobres, a do mais sensível contador de histórias, a do escritor amante do bom futebol (torcedor do Nacional, para os que tinham alguma dúvida) e a do defensor, através da poesia, da liberdade que interessa a todos, e não a alguns poucos.
Faltou a do autor que soube, como poucos, mesclar a realidade e a ficção, em suas deliciosas narrativas. Mas para isso, convidamos a que busquem o seu legado e leiam seus livros, não este mero blog.
 
 
 

15 dezembro 2014

RELATIVIZANDO A VERDADE

Reescrevendo a história



Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Os jornais de segunda-feira (15/12) tentam desqualificar o relatório da Comissão Nacional da Verdade, confundindo o quadro histórico sobre os crimes cometidos por agentes públicos com casos isolados de vítimas dos grupos armados que resistiram à ditadura. O criminalista José Paulo Cavalcanti, único integrante do comitê que não concordou com o relatório, se transforma em uma espécie de porta-voz do “outro lado”, aquele que é objeto da investigação.
O acirramento das posições políticas provocado pela disputa eleitoral e as contestações que se seguiram à divulgação do resultado das urnas criam o cenário propício à desinformação e a ambiguidades. Assim, questões que poderiam ser debatidas com transparência, permitindo à sociedade colocar uma lápide sobre as tumbas do período de exceção são reacendidas, dificultando o esclarecimento da questão central: nominar os agentes do Estado que cometeram tais crimes e, no limite de todas as possibilidades, revelar o destino dos desaparecidos, para que suas famílias possam finalmente encerrar o luto de décadas.
Esse talvez seja o divisor de valores entre aqueles que insistem em apurar os casos de prisões arbitrárias com torturas e mortes e os que, como o advogado Cavalcanti, misturam atos de indivíduos com políticas de Estado, ainda que subterrâneas.
Uns morreram porque financiavam a atividade repressiva, ou porque atuavam diretamente no conflito, e devem ser considerados protagonistas, e há as vítimas colaterais, que foram apanhadas no fogo cruzado ou eliminadas por agentes da repressão por haverem testemunhado execuções ilegais.
O debate, para ser correto, precisa considerar as circunstâncias de cada caso. Os familiares das vítimas de um lado tiveram direito aos funerais e ao luto. Os do outro lado foram impedidos de honrar seus mortos, e muitos ainda esperam pela confirmação do óbito – direito que lhes foi negado pelo Estado nacional sequestrado pelo poder militar.
Essa é a distinção que dá sentido à Comissão Nacional da Verdade e que coloca sob questionamento o efeito da anistia, imposta como condição para uma retirada honrosa das Forças Armadas do poder político.
“Operação Jacarta”
Não se deve esquecer que a anistia começou a ser negociada apenas um ano depois do assassinato do operário Manoel Fiel Filho, militante das comunidades eclesiais de base da igreja católica, ocorrido em janeiro de 1976. Resultou de uma articulação do então presidente Ernesto Geisel com parte da imprensa, empresários e políticos que haviam apoiado o golpe de 1964. A oposição organizada em torno do Movimento Democrático Brasileiro apanhou a bandeira levantada em 1975 pela ativista Terezinha Zerbini, e iniciou a negociação com o governo militar em 1977.
Três meses antes do assassinato do operário, a morte do jornalista Vladimir Herzog, torturado nas dependências do então 2º Exército, em São Paulo, havia levado o presidente Geisel a determinar que ninguém mais fosse preso por subversão sem que o gabinete da Presidência da República fosse informado. Ele queria evitar outras mortes nos porões semiclandestinos.
A medida foi comunicada pessoalmente por Geisel ao comandante da unidade, general Ednardo D’Ávila Mello, segundo depoimento do ex-governador paulista Paulo Egydio Martins ao jornalista Geneton Moraes, da GloboNews (ver aqui).
O que poucos sabem é que D’Ávila Mello era parte de uma conspiração que planejava eliminar cerca de 2 mil dissidentes, muitos dos quais militantes do Partido Comunista Brasileiro, que não havia aderido à luta armada. Seu plano foi revelado a três estudantes de jornalismo que o entrevistaram em agosto de 1975. Um relatório dessa entrevista foi encaminhado a dirigentes do PCB, mas a organização entendia, como disse um deles, que “o processo de abertura do general Geisel é lento e gradual, mas é seguro”.
A repressão massiva, comandada pelo então ministro do Exército Sylvio Frota, que conspirava para se tornar sucessor de Geisel, se chamaria “Operação Jacarta”, em referência ao episódio de 1967, quando o ditador Suharto comandou o assassinato de 500 mil dissidentes, principalmente militantes de esquerda, intelectuais, escritores, religiosos e simplesmente indivíduos que manifestavam índole pacifista, destruindo o patrimônio intelectual e a inteligência crítica da Indonésia.
A morte de Herzog interrompeu a operação insana, e o plano da anistia foi construído sobre essa base de perigosa instabilidade, com as Forças Armadas ainda divididas e parcialmente influenciadas pela “linha dura”.
O que fez a Comissão Nacional da Verdade foi desvelar parte do que ficava escondido naqueles porões. O que faz a imprensa, hoje, é tentar relativizar a verdade.
 
 

30 abril 2014

DE VOLTA AOS TEMPOS DA DITADURA

Assassinato do torturador lembra que a
repressão não acabou

Alberto Dines, no Observatório da Imprensa




A parolagem da mídia e das autoridades sobre a morte do tenente-coronel reformado Paulo Malhães nos remete diretamente aos tempos da ditadura.
E não apenas porque a vítima era um notório vilão, torturador confesso, violador assumido dos direitos humanos, figura de proa na máquina da repressão militar e importante testemunha na Comissão Nacional da Verdade.
A repentina volta ao passado dá-se em parte porque reencontramos os mesmos subterfúgios, manhas e evasivas dos tempos em que a linha-dura fazia o que bem entendia e o resto do país se contentava com as migalhas dos releases policiais.
Compreende-se o cuidado do governo, mas ninguém está clamando pela revisão ou revogação da Lei da Anistia. O que chama a atenção e assusta é a cobertura morna, burocrática, de um caso que as autoridades (inclusive federais) não poderiam tratar com tanta displicência e a mídia com tanta ligeireza.
Compreende-se que família e amigos desejassem apressar as providências funerárias. Mas o lado pessoal não pode sobrepor-se aos aspectos legais, morais e humanitários. A morte de um brutamonte não encerra os efeitos das brutalidades. Só comprova que a brutalização está viva. Ativa.
Página aberta
As dúvidas e suspeitas que envolvem o personagem e a sua eliminação não admitem tamanha desatenção e rapidez. A divulgação da guia de sepultamento atendia ao desejo da família de enterrar o corpo, mas acabou criando um clima de “caso encerrado” com a menção a um edema pulmonar, isquemia do miocárdio e miocardia-hipertrófica. Acontece que esta última era pré-existente, as duas primeiras ocorrências podem ter sido causadas por um estresse muito grande (asfixia, por exemplo).
Na segunda-feira (28/4), no quinto dia depois do assassinato, a curiosidade dos jornalões parecia plenamente satisfeita. Ninguém cobrou o laudo local e cadavérico, nem a lerdeza da Polícia Civil do Rio a quem o caso foi encaminhado.

E exceção vai por conta do valente O Dia, do Rio de Janeiro, que em reportagem de Juliana Dal Piva, publicou detalhada entrevista com a viúva Cristina Malhães (a última mulher do militar) onde revela importantes dados sobre a ação por ela testemunhada: o casal foi rendido à luz do dia por três bandidos que estavam com as armas da própria coleção de Malhães. Durante 10 horas ficou presa enquanto os criminosos faziam o serviço. Depois foi ameaçada de morte (ver “Paulo Malhães foi rendido com suas armas”). 
A hipótese inicial de latrocínio só foi descartada na tarde da segunda-feira quando se revelou que afinal a Polícia Federal entrara na investigação e examinaria os computadores do militar. Certamente porque o governo estava incomodado com a cobrança da Comissão de Direitos Humanos da ONU anunciada horas antes.

É possível que a partir de agora a mídia abandone o faz-de-conta informativo dos tempos da autocensura. E lembre-se dos laudos de legistas como o famigerado Harry Shibata que sequer examinava os cadáveres das vítimas da tortura.
A ditadura não é uma página virada, nem se encerra com as rememorações sobre os seus primeiros 50 anos.
 
 
 

04 abril 2014

TRAIÇÃO

A PALAVRA FINAL SOBRE 1964

Almino Afonso disse tudo quando definiu o golpe de 64 como traição, a ser punida pelo Código Militar com 20 anos de prisão e até pena de morte

 
Paulo Moreira Leite, em seu blogue

Foi preciso esperar meio século para que surgisse a palavra final sobre o golpe de 64.
Foi uma traição, um crime previsto no Código Penal Militar, explicou Almino Afonso em sua entrevista no programa Roda Viva.
Aqui explico em mais detalhes.
O Código Penal Militar prevê, em grau máximo, pena de morte e, em grau mínimo, 20 anos de reclusão, para crimes como “coação ao comandante”, o que inclui, no artigo 358, “entrar em conluio, usar de violência ou ameaça, provocar tumulto ou desordem com o fim de obrigar o comandante a não empreender ou cessar ação militar, a recuar ou render-se;”
Basta lembrar que o comandante-em-chefe das Forças Armadas, em 1964, era João Goulart, para entender do que Almino Afonso estava falando.
Também pode ser incluídos em penas com a mesma gravidade – morte ou 20 anos de reclusão -- aqueles que, como diz o artigo 356, abandonam “ posição" e deixam de “cumprir ordem.” Lembra da turma que debandou na Via Dutra? 
 Se você lembrar as relações dos golpistas em relação ao exército norte-americano, aceitando uma posição de subordinação assumida, a  ponto de aguardar por armas da Operação Brother Sam, pode chegar a conclusão que  houve uma “tentativa contra a soberania do Brasil.”
Pena? “Morte ou 20 anos de reclusão.”
No capítulo Da cobardia qualificada (assim mesmo, com “b”) aprende-se que:
Art. 364. Provocar o militar, por temor, em presença do inimigo, a debandada de tropa ou guarnição; impedir a reunião de uma ou outra, ou causar alarme com o fim de nelas produzir confusão, desalento ou desordem:
Pena - morte, grau máximo; reclusão, de vinte anos, grau mínimo.
 Não sou advogado, não entendo de Direito Militar mas vamos concordar: são imagens evocativas daqueles dias, concorda?
 A leitura desses artigos não é pura formalidade. É uma aula política , que contém uma lição fundamental para o Brasil de hoje. 
Ao colocar o debate no plano criminal, Almino Afonso mostrou a gravidade do que ocorreu em 1964. Do ponto de vista dos valores democráticos, das leis do país e até dos códigos militares, estamos falando de decisões inaceitáveis. 
Depois de 21 anos de ditadura, muitos comentaristas  mantém uma postura perigosamente tolerante diante de medidas  de ataque a democracia.
 Como se estivessem aplicando à vida pública os mesmos códigos de comportamento que muitos casais praticam em sua vida privada, aceitam infidelidades, relações múltiplas e outras variações, conforme as circunstâncias ou, para empregar um termo político, conforme a “conjuntura.”
 Queremos “explicar” o golpe. Saber “por que” aconteceu. Saber a “herança”.
São exercícios mentais ótimos, enriquecedores do ponto de vista do conhecimento – mas não devem servir para esconder o principal. Do ponto de vista dos valores democráticos, um golpe de Estado não tem justificativa. Não se faz e não se aceita que outros façam. Deve ser denunciado, punido.
Por isso é traição, cobardia. Por isso é tão difícil falar sobre ele -- embora se fale muito. Tem gente que diz que nenhum assunto rendeu tantos livros e tantas reportagens. Mas se diz pouco. Porque são verdades duras. Os vencedores de 64 contaram sua história e querem repetir a versão de 50 anos atrás ainda hoje. O grau de sofisticação varia, a erudição também. Mas a narrativa é a mesma.
Por que será? Não estão sequer arrependidos. Não. Eles não acham que erraram. Aqui está o problema.
Mas foi um crime e como tal deve ser visto e analisado. Não pode ser tolerado. 
Não se pode pensar nele como o filme  “Matou a família e foi ao cinema.”
É justamente pela tamanha gravidade, que, 50 anos depois, o país tem dificuldade para discutir o que houve com clareza e honestidade e tirar suas consequências.
Nossos valores fundamentais  – que começam na democracia, no respeito a soberania popular – não foram respeitados. Havia uma eleição marcada para um ano depois. Foi cancelada -- e tudo mais, num  pacote grotesco de violências, desmandos, abusos. 
Não tem nada a ver com o "contexto da Guerra Fria,"  como se quer acreditar, enobrecendo um argumento para a subordinação e a dependência. A questão é "tentativa contra a soberania do Brasil."
As falhas e erros de João Goulart, que eram reais, não explicam tudo e não justificam nada. A questão é anterior e maior. Imagine um crime cuja pena mínima é 20 anos de prisão. 
Não dá para fazer risinhos nem piadinhas. 
 Pela palavra traição, não há subterfúgio nem solução optativa. 
 
 

vão ganhar no grito?

1950-2014: o grito e a ferida da
democracia


Wanderley Guilherme dos Santos, na Agência Carta Maior
Arquivo


Uma ferida há mais de 50 anos machuca o inconsciente popular. Mais precisamente, desde julho de 1950. Naquele julho fatídico o que era uma conquista certíssima transformou-se em chaga incandescente na alma do povo: a seleção brasileira, imbatível, fora derrotada pela celeste do Uruguai, Maracanã lotado por cerca de 200 mil pessoas, placar de 2x1. A foto de um Zizinho, o mestre Ziza, cabeça baixa, no vestiário, segurando um pé de chuteira, significava ao mesmo tempo a tristeza e o pontapé humilhante no orgulho nacional. O gigantesco silêncio do estádio, depois do apito final, evocava o grito engasgado da dor reprimida. Os uruguaios venceram no grito. Grito que nunca demos.

O trauma de perder no grito persegue o povo brasileiro desde então. Já ali, em 1954, não fosse o martírio voluntário de Getulio Vargas, atirando contra o próprio peito, e a reação levaria o poder no grito, na esteira de uma ilegal e golpista República do Galeão, a inventar monumentais escândalos envolvendo o governo trabalhista. Escândalos nunca vistos no passado, como se assegurava, frutos da ação maligna de uma quadrilha apadrinhada pelo próprio presidente da República. O suicídio de Vargas abafou o grito reacionário, repôs a história em seus devidos trilhos e garantiu a continuidade democrática. 

Desprezando uma tentativa de golpe de gabinete durante o interregno Café Filho, abortada pelo Exército em novembro de 1955, outra aventura golpista ocorreria em agosto de 1961. O mercurial presidente Janio Quadros, eleito em 1960, concorrendo por uma coalizão conservadora, renunciou após sete meses de governo. Embora sob fogo cerrado de sua própria base parlamentar, irritada com algumas de suas medidas, a renúncia insinuava um possível convite a que voltasse ao poder com poderes ilimitados. Repelido o convite pelo Parlamento, outro grito ecoou na nova Capital: os ministros militares vetavam a posse do então vice- Presidente João Goulart, em viagem pelo exterior.
 
Diante da surpresa e pasmaceira nacionais, o grito golpista prevaleceria não fosse o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, se recusar a obedecê-lo. Criando a rede radiofônica da Legalidade, Leonel Brizola mobilizou a vontade popular contra a ferida paralisante do grito e em uma semana a aventura se dissipara em vergonha.

Aí chegamos a 1964. Oura quadrilha de megafones parlamentares, em criminoso conluio com os favorecidos agentes da imprensa, anunciava a iminente substituição das instituições democráticas pelo comunismo internacional. Exortações aos militares se sucediam, enquanto o deputado Bilac Pinto denunciava a existência de uma guerra subversiva em desenvolvimento. As esquerdas trouxeram sua contribuição, pressionando o presidente João Goulart a medidas tergiversando a legalidade. Ao inverso de 1961, quando os golpistas falavam em romper a Constituição e Leonel Brizola em defendê-la, em 1964 os golpistas bradavam defender a democracia e os democratas pareciam depreciá-la. O grito golpista foi ao extremo da escala com os editoriais do Correio da Manhã, Basta e Fora. O general Mourão Filho já partira de Juiz de Fora, mesmo sem ler os jornais, em direção à cidade do Rio de Janeiro, então capital do estado da Guanabara. Não obstante toda a polifonia anterior das esquerdas, o apito de Mourão Filho foi correspondido por guarnição após guarnição, simultaneamente ao silêncio e passividade de toda a Nação, suas instituições e organizações. Pela primeira vez os reacionários ganharam no grito. E continuaram com o monopólio da voz por 21 anos.

Em 2005 foram os mesmo ventríloquos da reação, no Congresso e na imprensa, que se extremaram na gritaria contra a legalidade constitucional. Ao contrário do que profetizaram os terroristas da opinião, o primeiro governo de um operário brasileiro não fazia água, afundando em seu fracasso, mas encantava o país e a cena internacional com os resultados de uma administração cuja prioridade anunciada em discurso de posse, obedecida tenazmente, seria a abolição da miséria no Brasil. Desmoralizando a clássica tese de que era impossível conciliar crescimento econômico, baixa inflação e distribuição de renda, os frutos da ação governamental apontavam justamente para a realização dos três objetivos. O grito, na verdade o berreiro reacionário, voltou a perder. O governo popular venceu as eleições em 2006 e 2010.

O tradicional berreiro retornou com pompa e circunstância, agora em 2014. Herdeiros de nomes ilustres disputam o poder. É do jogo. Bem como é conhecido o coral de denúncias vazias, marolas inconsistentes e o sussurrar das más intenções, na imprensa, no parlamento e nas redes sociais. Depende das organizações populares, todavia, como dependeu em 64, e não aos institutos de pesquisa, responder a duas perguntas fundamentais: a ferida de 1950 vai prevalecer? os adversários vão ganhar no grito?

LEMBRANDO OS TEMPOS DE CHUMBO

Lembrar para não esquecer


Venício Lima(*)






(*) Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa.
 

Aluno do terceiro ano do ensino médio, morava em “república” de estudantes em Belo Horizonte, no início de 1964. Éramos todos apoiadores das “reformas de base” e ativos na política estudantil secundarista e/ou universitária, opção rotineira naquele início conturbado dos anos 1960, marcado por intenso debate público sobre os destinos do país e da América Latina.

Numa guinada de 180 graus, havia me transferido da Escola Técnica de Mineração e Metalurgia (atual CEFET-Ouro Preto) para o curso clássico noturno do tradicional Colégio Marconi. Desde 1962, militava na JEC (Juventude Estudantil Católica) e na AP (Ação Popular) – que surgira de dentro da Ação Católica. Estava também vinculado a um grupo de jovens engenheiros oriundos da Escola de Minas de Ouro Preto [atual UFOP, Universidade Federal de Ouro Preto] que fundara o GPM, Grupo de Política Mineral, e defendia a nacionalização das riquezas do subsolo brasileiro.

Meses agitados

Os primeiros meses de 1964 foram agitados em Belo Horizonte. Um dia, em especial, merece ser lembrado: o 25 de fevereiro. Nesta data deveria ter sido realizado um ato público da Frente de Mobilização Popular em defesa das reformas de base, com a presença de Leonel Brizola.

Planejado para acontecer na antiga Secretaria de Saúde, bem ao lado do velho Mercado Municipal, o local foi ocupado antecipadamente por grupos organizados contrários ao ato, incluindo padres e senhoras empunhando e rezando o “terço” (rosário) contra o “comunismo ateu”. A pancadaria foi inevitável. Não existiam as condições mínimas de segurança para a realização do ato. Quando a cavalaria da PM entrou em ação, no início da noite, sobrou para todos que estavam por perto. Cassetetes, espadas e bombas de gás lacrimogênio.

Creio que a reação organizada a este ato serviu de exemplo e inspiração para as “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” que começaram a acontecer em diversas cidades, após o comício do presidente João Goulart na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, no dia 13 de março.

Os Diários Associados controlavam os principais meios de comunicação da cidade (jornais, emissoras de rádio e televisão) e a cobertura, após o 25 de fevereiro, era de “júbilo cívico” pelo espírito cristão da gente mineira e, sobretudo, das mulheres e mães que enfrentaram os “comunistas” em Belo Horizonte.

Nova realidade

A memória mais viva que guardo dos primeiros dias de abril é a surpresa de deparar com o aparato militar nas ruas. O governo mineiro (Magalhães Pinto) estava inteiramente envolvido com o golpe civil-militar e soldados (não sei se da PM ou do Exército) se postavam nas esquinas, nas praças e até na entrada do Edifício Pio XII, na Rua Espírito Santo, sede da Ação Católica. Amedrontado, não sabia onde ou como buscar informações sobre o que estava acontecendo.

Desinformados e inseguros, decidimos não ficar na “república”. Cada um devia “desaparecer” por alguns dias até que a situação ficasse mais definida. Meu primeiro refúgio foi a casa da família, em Sabará. Meu pai, com formação doutrinária integralista, certamente apoiava o golpe em nome “de Deus, da Pátria e da Família”, além de estar convencido de que o comunismo ateu havia se infiltrado em setores da igreja católica.

Na ingenuidade de meus 18 anos, esperei a noite para procurar contato com um velho e conhecido “comunista” da cidade, líder de um “Grupo dos Onze” vinculado a Leonel Brizola. Ainda bem que ele já havia desaparecido e que não havia vigilância ao redor de sua casa, onde ninguém respondeu à porta.

No dia seguinte, a esposa de um vizinho havia feito uma enorme fogueira com livros e revistas de seu marido – um simples advogado de esquerda – que eventualmente pudessem ser considerados subversivos pelas novas autoridades.

Mais assustado, resolvi voltar a Belo Horizonte e buscar abrigo na casa de um tio que certamente faleceu sem entender o porquê de seu sobrinho estar tão amedrontado e aparecer sem aviso prévio pedindo para ficar por alguns dias.

Aos poucos a nova realidade foi sendo absorvida, voltamos para a “república” e cada um foi fazendo suas opções e escolhendo o caminho a seguir.

Os dias seguintes

Nos meses seguintes nada me marcaria mais profundamente do que uma campanha nacional liderada pelos Diários Associados e inspirada na Revolução Constitucionalista de 1932, com o mote “Dê ouro para o bem do Brasil”.

Pessoa querida de minha própria família, católica fervorosa e convencida de que o maior perigo que a humanidade enfrentava era o “comunismo ateu”, doou sua própria aliança de casamento. Não conseguia compreender como tanta gente podia ser convencida (manipulada?) a fazer uma doação desse tipo, sem questionar qual seria o destino final que alianças, anéis, colares, brincos, broches etc. e etc. de fato teriam.

Até hoje, 50 anos depois, além do silêncio sobre a tal campanha, resta a controvérsia sobre o montante e o destino do ouro arrecadado. Registro, todavia, que na celebrada biografia de Fernando Morais, o único parágrafo das mais de 730 páginas dedicado à campanha “Dê ouro para o bem do Brasil” afirma, sem mais, que “os Associados entregaram efetivamente ao governo o equivalente a 3,8 bilhões de cruzeiros arrecadados em todo o país – aproximadamente 3 milhões de dólares de 1964 ou 12,5 milhões de dólares de 1994 (cf. Chatô – o Rei do Brasil, Companhia das Letras, 1994; p. 653).

Cinquenta anos depois

Tanto tempo depois, a memória de 1964 não pode mais ser ingênua. Aqueles dias mudaram para sempre a vida de muitos de nós e colegas e amigos queridos pagaram um preço alto demais pelo que viria a acontecer nos 21 anos seguintes (1964-1985).

Não há mais qualquer dúvida sobre o envolvimento e a participação dos principais grupos da grande mídia na articulação do golpe civil-militar de 1964 e, posteriormente, na sua legitimação. O que incomoda é a alteridade cínica desses mesmos grupos que recontam hoje a história à sua maneira, como se tivessem sido (e ainda fossem) apenas observadores imparciais, sem qualquer responsabilidade pelos longos anos de medo e escuridão.

É preciso lembrar para não esquecer.


(*) Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador de Para Garantir o Direito à Comunicação – A lei argentina, o relatório Leveson e o HGL da União Europeia, Perseu Abramo/Maurício Grabois, 2014; entre outros livros

(Extraído da Agência Carta Maior)