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02 junho 2015

REPÓRTERES "OBEDIENTES"

Quando o repórter mostra que o rei está nu


Sylvia Debossan Moretzsohn, no Observatório da Imprensa



A versão oficial sobre o atentado no Riocentro, em 1981, foi desmascarada imediatamente por um esforço de reportagem. A equipe do Jornal do Brasil que cobria o caso reconstituiu a cena e demonstrou que não havia a menor possibilidade de existir uma bomba na parte interna da porta do Puma em que estavam o sargento e o capitão atingidos pela explosão: naquele tipo de carro não havia espaço entre a porta e o banco, onde, de fato, o sargento armava uma bomba, que acidentalmente explodiu no seu colo. Ele morreu, o capitão ficou gravemente ferido mas sobreviveu, teve as promoções de praxe e está vivo até hoje.
Estávamos ainda sob ditadura, sofrendo as ações de grupos que o general Ernesto Geisel classificou como “bolsões sinceros, mas radicais”, os militares da linha dura que confrontavam a política da abertura “lenta, gradual e segura” e que continuaram a atuar durante o governo João Figueiredo. A investida no Riocentro, no show do 1º de Maio, seria a mais ousada até então e, se bem sucedida, teria provocado uma tragédia.
A versão oficial perdurou durante muito tempo, mas jamais convenceu ninguém, e o JB, que pela reportagem ganhou o Prêmio Esso principal daquele ano, contribuiu decisivamente para mostrar que o rei estava nu.
Esforços de reportagem assim são cada vez mais raros nesses tempos em que o jornalismo se submete a uma rotina que se rende aos releases das assessorias de imprensa e à palavra das autoridades. Mas existem, e o exemplo mais recente foi dado por Aydano André Motta, na coluna “Panorama Carioca”, do Globo de sábado (30/5, ver aqui). Duvidando da versão oficial sobre o assassinato do médico Jaime Gold – morto a facadas em 20/5, quando pedalava, no início da noite, pela Lagoa Rodrigo de Freitas –, em que o delegado responsável dava o caso como encerrado e citava o depoimento de uma testemunha que teria reconhecido o autor do crime, o jornalista tomou uma providência elementar: mais ou menos no mesmo horário, foi até o local em que a testemunha trabalha – um posto de gasolina, que, como ressaltou, “não fica em frente ao local exato do crime, mas numa diagonal” – e de lá, com seu celular, fotografou a partir do ângulo de visão do frentista.
 
Foto: Aydano André Motta
Foto: Aydano André Motta
A distância de quatro pistas de trânsito, mais o canteiro central, e a precária iluminação demonstram a absoluta impossibilidade de alguém reconhecer quem quer que seja naquela situação. Mais ainda se o médico estivesse pedalando na direção do Túnel Rebouças, como é o mais provável: nesse caso, quem o atacou estaria de costas para a testemunha que o teria identificado.
Repórteres “obedientes”
Reportagens são feitas de dúvidas que geram perguntas, frequentemente incômodas: além de esclarecer o trajeto que o médico fazia, seria preciso indagar – como faz Aydano em se Impu artigo – como é possível que o suposto assassino tenha pedalado da Lagoa até a favela do Jacarezinho, na Zona Norte, passando por bairros da Zona Sul como Humaitá, Botafogo, Flamengo e pelo Centro: como é possível que não tenham identificado até agora qualquer imagem “de um jovem numa bicicleta caríssima, nas centenas de câmeras em operação pelo longo caminho”.
O artigo põe a dúvida que deveria ter orientado o trabalho de reportagem desde o início. Por que não foi assim? Em parte, certamente, pela orientação editorial do jornal, que destacou a morte do médico no alto da primeira página e lhe dedicou nada menos do que cinco páginas internas, além de aproveitar para reiterar, em editorial, a defesa da redução da maioridade penal. Se houvesse interesse em investigar, provavelmente uma das primeiras providências teria sido esta que o colunista tomou.
Mas a esse motivo ideológico se associa outro, que diz respeito às rotinas profissionais adotadas nas empresas jornalísticas de modo geral. Como tantos jornalistas experientes, Aydano diz que os repórteres, em todas elas, vêm se tornando “obedientes”: não ousam mais, contestam pouco. “Lembro que o [José Mariano] Beltrame [secretário de Segurança] não divulgou o nome do soldado que matou aquele garoto no Alemão [o menino Eduardo de Jesus Ferreira, em abril deste ano]. E até hoje ninguém sabe o nome dele”, afirma. Mas reconhece que isso ocorre também por causa das condições de trabalho no jornalismo atual: se um repórter tem três, quatro pautas para cumprir por dia, é muito difícil fugir a essa regra.
Por ter trabalhado na reportagem de cidade durante praticamente toda a carreira, Aydano também cobriu alguns casos de polícia e diz que uma frase do ex-delegado Hélio Luz, chefe da Polícia Civil entre 1995 e 1997, o assombra até hoje: “Foi quando ele me disse que a gente tem a polícia que quer ter”. Por isso é tão fácil pegar o primeiro jovem negro para culpá-lo do crime, ainda mais se esse jovem tem tantas passagens pelo “sistema”.
Sobre a situação específica da Lagoa, diz que o local, embora turístico, tem segurança precária por causa de sua configuração específica: “É uma região que passa por três batalhões [da Polícia Militar] diferentes, então não é de batalhão nenhum: um empurra para o outro a responsabilidade”. Diante de um crime de grande repercussão como este, reforça-se o policiamento, que tende a afrouxar conforme o tempo passa, até que outra tragédia aconteça.
O sistema que sustentamos
O artigo circulou amplamente pela internet e recebeu muitos comentários elogiosos, que também criticavam a precipitação da polícia. Um deles condenava a pressa “da polícia e de parte considerável e marrom da imprensa, que por sua vez alimenta uma pressa de suposta origem na sociedade”, pela qual “ficamos sem justiça”, pois “um assassino pode continuar solto, desde que achemos que está preso; um inocente (em relação ao crime específico pelo qual é condenado) pode ser e continuar preso, desde que ‘se pareça com um bandido’. É esse o sistema que queremos? Se não for, por que o sustentamos?”.
Entre profissionais do direito, houve quem apontasse na declaração do secretário Beltrame, logo após a notícia do assassinato – “É inadmissível um crime como esse na Lagoa” – a origem da urgência na tentativa de dar o caso como encerrado, pegando o primeiro suspeito verossímil. Outra crítica é ao reconhecimento através de fotografia. “Existem regras para o reconhecimento pessoal no Código de Processo Penal”, comentou a desembargadora Simone Schreiber. “O sistema é aquele que vemos em filmes americanos: enfileirar pessoas com o mesmo biótipo atrás de um vidro espelhado. Antes a vítima ou testemunha tem que descrever o suspeito. Mas como as polícias não investem em salas de reconhecimento, simplesmente se flexibiliza a lei.”
O coelho e a tartaruga
No texto em que demonstra a nudez do rei, Aydano diz que a investigação sobre o assassinato do médico “patina numa sucessão inacreditável de trapalhadas, que conjuga imperícia, açodamento e vaidade”. Uma das contradições é que a testemunha teria dito que um dos assaltantes era branco, enquanto os dois suspeitos presos são negros. Outra se revela nos comentários, depois apagados, que a delegada da 14ª DP, responsável pela região onde ocorreu o crime, fez numa rede social, questionando a condução das investigações:
“‘(A testemunha) disse que não tinha condições de reconhecer (os responsáveis). No dia seguinte, já em outra DP [a Delegacia de Homicídios] (…) reconheceu (um dos jovens) em fotos. Pois é, ele (adolescente reconhecido pela testemunha) não foi pego na noite (do crime). A tal testemunha foi ouvida (por policiais da 14ª DP na noite do assassinato) e não tinha condições de reconhecer ninguém. Enfim… Segue o baile…’”.
Na abertura do artigo, o jornalista lembra de uma famosa piada sobre a eficiência dos investigadores do FBI e da Scotland Yard em comparação aos métodos dos policiais brasileiros. Trata-se de uma disputa sobre quem encontraria mais rápido um coelho num bosque. O policial brasileiro consegue a façanha, mas apresenta uma tartaruga, cheia de escoriações, que não pára de berrar: “Eu sou um coelho! Eu sou um coelho!”.
Aydano retoma a imagem da piada na conclusão:
“Pelo bem do Rio de Janeiro, crimes famosos e anônimos, contra ricos, pobres e remediados precisam ser esclarecidos, para que a Justiça possa prevalecer. O que jamais acontece com tartarugas no lugar de coelhos”.
Acrescentaria depois: pelo bem do jornalismo, inclusive.
Ironicamente, a coluna que desmonta a versão oficial sobre o crime foi editada ao lado de um enorme release da Prefeitura disfarçado de reportagem, com o selo “Rio 2016”, sobre as providências do programa “asfalto olímpico”, de recuperação das esburacadas ruas da cidade.
Coisas do Globo.
Leia também
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Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)
 
 
 

18 fevereiro 2015

AS SÍNTESES DO BRASIL

Detalhes tão pequenos


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Há quem diga que o carnaval e o futebol fazem a melhor síntese do Brasil. Pode-se acrescentar, com os mesmos argumentos, que o quadro fica mais completo e equilibrado se incluirmos nessa moldura a religião. Porém, sempre é bom lembrar que não estamos observando diretamente a sociedade brasileira, mas sua expressão na mídia, o que se torna essencial porque, como sabemos, todo o conteúdo do ambiente comunicacional está se transformando progressivamente num simulacro da realidade.
Há, portanto, um carnaval real, que se passa na interação entre o estado de espírito que vai da alegria exagerada, pura sensação, a suas expressões corporais através da dança, dos saltos, dos rodopios, da disposição para o prazer. Há também o futebol real, que acontece na expectativa de cada partida, na tensão das jogadas extremas, na explosão do gol – evento feliz para uns, tristeza para outros. Da mesma forma, a religião possui uma realidade, que se resume na busca íntima de uma relação privilegiada com a divindade e se realiza socialmente nas comunidades de crentes.
Mas aqui falamos dessas realidades quando passam pelo filtro da mídia, pois é nesse processo que se constrói o simulacro de sociedade através do qual tentamos entender a sociedade em si. Nesse ambiente específico, que funciona como uma outra dimensão da vida, carnaval, futebol e religião sintetizam o gosto brasileiro pelas sensações extremadas, mas são meras alegorias do carnaval, do futebol e da religião reais.
A questão é: quando a mídia interpreta essas alegorias, devolve uma versão distorcida ao campo da realidade, num processo contínuo que, em algum momento, vai provocar rupturas. Na vida real, não no simulacro.
Há muitos exemplos na rotina da imprensa. Na quarta-feira (18/2), podemos apanhar uma reportagem de página inteira publicada pela Folha de S. Paulo para ilustrar esse fenômeno. O assunto é a manchete do jornal, que diz o seguinte: “Impunidade é regra em brigas de torcidas em SP”. O pano de fundo é a partida entre Sport Club Corinthians Paulista e São Paulo Futebol Clube, em torno da qual se discute a conveniência de promover jogos com uma só torcida no estádio.
Estimulando os valentões
O texto faz um apanhado das mortes produzidas em confrontos de torcidas organizadas, no território paulista, para demonstrar que a Justiça não alcança os brigões nem mesmo quando eles produzem vítimas fatais: apenas três torcedores, dos milhares que se envolveram em centenas de casos nos últimos dez anos, estão na cadeia. Todos os três são corintianos, acusados de participar do assassinato de um torcedor do Palmeiras, ocorrido em agosto do ano passado, e estão em prisão preventiva aguardando julgamento.
O último caso grave que resultou em condenação ocorreu em 1995, e colocou um palmeirense na cadeia, em 1998, pela morte de um torcedor do São Paulo. Ele cumpriu pouco mais da metade de uma sentença de doze anos de prisão e foi colocado em liberdade.
A reportagem parece movida pela ótima intenção de alertar as autoridades e dirigentes esportivos para o risco da partida marcada para a noite de quarta-feira, quando Corinthians e São Paulo se defrontam pela primeira vez em um jogo da Copa Libertadores da América. O jogo abre a fase de grupos, e apenas um dos dois times prosseguirá na competição.(*)
Estão dados, portanto, os requisitos para uma disputa acirrada dentro de campo, mas é fora dele que se desenrola o outro enredo, do qual trata o jornal paulista.
O ponto central da reportagem questiona: os organizadores deveriam permitir apenas torcedores do Corinthians, mandante da partida, no estádio? Como a imprensa considera que todo assunto tem apenas dois lados, há um artigo a favor, outro artigo contra a proposta.
Mas a realidade tem outros elementos. A começar da verdadeira dimensão da violência entre torcedores: em dez anos, brigas envolvendo torcidas organizadas no estado de São Paulo provocaram “ao menos onze mortes”, diz o jornal. Ou seja, a letalidade desses conflitos é relativa, comparada a outras causas. Por exemplo, morrem mais pessoas em quatro dias de carnaval do que em um ano com duas partidas de futebol por semana. No entanto, o assunto ganha muita repercussão na mídia e tem valido proveitosas carreiras políticas a autoridades que defendem medidas restritivas à liberdade de expressão e associação.
Há recursos tecnológicos e legais para identificar e controlar os indivíduos propensos à violência, sem estragar o espetáculo do futebol. Outra questão subjacente nasce da própria manchete: ao anunciar que ninguém é punido por causa de brigas entre torcedores, a Folha não estaria estimulando os valentões?
Como se vê, detalhes tão pequenos mostram que a imprensa já não dá conta de retratar a sociedade.
 
 


(*) Nota do Blog: Há, aí, equívoco do colunista. As equipes disputarão outros jogos com vistas
a uma possível classificação, podendo ambas a conquistarem.

 

29 janeiro 2015

A IMPRENSA COMO AGENTE DA DESESTABILIZAÇÃO POLÍTICA

Os leitores não são idiotas



Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa



Vocês já notaram que quando alguém é atingido por uma bala perdida, a polícia invariavelmente atribui o fato a um tiroteio entre facções rivais do narcotráfico? A explicação até pode ser verdadeira em casos pontuais, mas a frequência com que é usada gera algumas suspeitas de que passou a ser um clichê para explicar o que dá trabalho justificar, ou esconder a participação de PMs no incidente.
O exemplo é apenas um dos que aparecem com regularidade suspeita nos nossos noticiários envolvendo episódios de violência urbana, que hoje são a base dos telejornais e páginas web de empresas jornalísticas. O crime só não bate o escândalo da Operação Lava Jato, o pessimismo econômico e as fofocas anti-Dilma no noticiário dos jornais impressos, que se especializaram no jogo do poder deixando para as televisões o filão do sensacionalismo.
O recurso regular a explicações batidas e quase automatizadas põe em evidência o fato de que a questão central não é buscar uma solução para o problema, mas simplesmente dar uma satisfação ao leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. O público passou a ser um conjunto de idiotas a serem anestesiados por explicações triviais, para não dizer simplesmente enganosas.
Explicar uma bala perdida na cabeça de um menino de dez anos dá trabalho para a polícia porque vai exigir investigar um entre 13 casos do mesmo tipo registrados em menos de quatro dias no Rio de Janeiro, por exemplo. É claro que a polícia não tem condições de checar os detalhes de cada um desses episódios, mas recorrer a uma explicação simplista reproduzida incondicionalmente pela imprensa é sacramentar um procedimento burocrático que não mexe uma vírgula no problema da insegurança urbana.
A imprensa também não tem condições de resolver o problema, mas sua função seria investigar os casos mais representativos e tirar deles as lições sobre como preveni-los. Um caso bem investigado pode fornecer dezenas de lições para a polícia e para os nossos gestores municipais, hoje mais preocupados em arrecadar votos do que em resolver o drama de quem foi alvo de uma bala perdida ao sair de uma pizzaria, por exemplo.
A contabilidade macabra da imprensa sobre as vítimas de balas perdidas em cidades como Rio e São Paulo não acrescenta nada ao dia a dia dos sobreviventes, salvo a sensação de que em algum momento a paciência vai acabar. Se e quando isto acontecer, a imprensa vai reproduzir declarações de governantes, políticos e policiais culpando os vândalos de sempre, os radicais do PT ou, com alguma imaginação, até eventuais seguidores do Estado Islâmico ou da Al Qaeda.
O que se nota é que a reserva de tolerância está acabando, mas ninguém nos círculos tomadores de decisões parece que estar levando a sério os sinais de irritação do público, especialmente nas grandes metrópoles como Rio, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife.
A imprensa deveria funcionar como alarma avançado da exaustão social, mas prefere ficar apostando neste ou naquele protagonista do jogo do poder. Nossos editores, salvo raras exceções, preferem não olhar para o que rola na periferia e tratam a maior parcela do público leitor, ouvinte, telespectador ou navegador virtual como pessoas desprovidas de capacidade crítica. Eu não sei até que ponto eles estão enganados, mas tudo indica que o que chamamos de audiência finge que concorda, mas no fundo tem seus próprios pontos de vista – que só se manifestam de forma emocional e pouco estruturada nas chamadas explosões populares. Quando o circo pega fogo e o vale-tudo substitui a razão.
Um público como o carioca e o paulista, cujo contato com a violência urbana deixou de ser esporádico para ser institucional, pode ser tratado como idiota durante algum tempo, mas não o tempo todo. Quando a paciência acaba, aí já é tarde demais e a espiral suicida da violência gerando violência passa a vigorar irremediavelmente.
A rotinização da violência pela imprensa tem um limite psicológico determinado para capacidade de tolerar o insuportável. Quando este limite á alcançado, quem primeiro recorrer ao autoritarismo assume o poder, porque oferece à sociedade a ordem e a paz que ela procura, não importa se ela for inspirada pela direita ou pela esquerda. A história está cheia desses exemplos e não é preciso ser nenhum teórico para saber disso.
O papel da imprensa numa conjuntura difícil como a que estamos vivendo é não tratar as pessoas como idiotas incapazes de pensar, mas oferecer a elas os elementos para que possam tomar decisões. Mas se a preocupação com a sobrevivência financeira determina as alianças políticas e as estratégias editoriais, a imprensa perdeu seu papel como fator de equilíbrio social e passa a ser um agente da desestabilização política. 
 
 

27 setembro 2014

OS ARAUTOS DA VIOLÊNCIA

Mídia ninja e a imprensa factual


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa




Pesquisadores acadêmicos já se debruçaram sobre a questão da credibilidade da imprensa com mais interesse até vinte anos atrás, mas o tema perdeu espaço para outros assuntos, como a expansão das mídias sociais digitais.
A onda de protestos que varreu as grandes cidades brasileiras a partir de junho do ano passado atraiu atenção para o advento da chamada “mídia ninja”, caracterizada pela cobertura de eventos massivos com o uso de aparelhos de comunicação móvel e divulgados por meio de estruturas abertas e orgânicas sem vínculo com empresas de comunicação.
Um dos trabalhos mais consistentes sobre esse fenômeno acaba de ser publicado pela jornalista e escritora Elizabeth Lorenzotti: Jornalismo Século XXI - O Modelo Mídia Ninja. A frase que motivou a pesquisadora a estudar o surgimento dessa nova prática no campo do jornalismo foi colhida no Twitter. Dizia o seguinte: “Não precisamos de mídia partidarista; temos celulares”. A declaração se inseria na percepção geral de que a mídia tradicional fazia uma cobertura tendenciosa dos protestos, criminalizando os manifestantes.
Embora os “ninjas” tenham se tornado mais conhecidos com as passeatas, relata a autora, seus participantes já atuavam em eventos que eram desprezados pela mídia tradicional, como a investigação da morte de líderes rurais no Pará. A intensidade da cobertura desses grupos orgânicos nas manifestações, com grande repercussão nas mídias sociais, levou a imprensa dominante a também infiltrar repórteres munidos de telefones celulares nos movimentos de rua, conforme relata Lorenzotti. No fim do processo, ganhou o jornalismo, com as principais emissoras de televisão e os grandes jornais sendo obrigados a olhar mais de perto as causas do descontentamento manifestado nas ruas.
O fenômeno “ninja” refluiu com o esvaziamento das passeatas, tomadas pelo protagonismo violento dos “black bloc”, e ficou uma percepção geral de que essa nova prática jornalística se limitava a uma cobertura factual de eventos impactantes. O livro de Elizabeth Lorenzotti mostra que o fenômeno se relaciona com mudanças mais profundas na sociedade contemporânea, e que o fato de não ouvirmos falar deles não quer dizer que os “ninjas” estejam inativos.
Notícias sem contexto
O protagonismo dos “ninjas” evidenciou que a mídia tradicional vem passando por um processo de encolhimento não apenas quanto às suas audiências, mas principalmente no que se refere à abrangência de suas coberturas. Mesmo dispondo de tecnologias que permitem detectar os acontecimentos e recriar em torno deles as correlações que facilitariam sua compreensão, a leitura dos jornais e o acompanhamento dos noticiários da televisão e do rádio nos mostram que a imprensa compõe uma realidade fragmentada e submetida a uma opinião centralizada sobre tudo.
Vejamos, por exemplo, dois fatos recentes: a morte de um estudante na Universidade de São Paulo e o assassinato de um vendedor ambulante, cometido por um policial militar.
As notícias e suas repercussões são publicadas isoladamente, sem um contexto que as relacione. Paralelamente, somos informados de que o índice de homicídios e roubos seguidos de morte voltou a crescer pelo segundo mês consecutivo, enquanto as estatísticas registram o aumento da letalidade das ações policiais em todo o território paulista. Ao mesmo tempo, pode-se observar que cresce o número de candidaturas à Câmara dos Deputados e às Assembleias Legislativas de ex-policiais cujas campanhas se caracterizam pela apologia da violência. A chamada “bancada da bala” pode crescer em todos os Estados e no Congresso Nacional, como resultado da sensação de insegurança gerada por crimes de grande repercussão e pela grande repercussão dada aos fatos criminosos.
Há uma interessante correlação entre a morte do estudante, em que as principais suspeitas caem sobre agentes privados de segurança, o aumento dos crimes letais, a epidemia crescente de violência policial e o número de votos destinados a oportunistas que buscam a carreira política com o discurso irresponsável da lei do cão.
A cobertura da mídia tradicional sobre esses acontecimentos é meramente factual. A omissão da imprensa em questionar a responsabilidade dos governantes diante da arbitrariedade policial e a truculência de agentes privados de segurança deixa à vontade os arautos da violência.
 
 
 

12 maio 2014

VIOLÊNCIA: O PAPEL DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

O país dos linchadores


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa




A imprensa parece ter encerrado no domingo (11/5) seu interesse no caso do linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, ocorrido no dia 3, no bairro de Morrinhos, em Guarujá, litoral paulista. Seguindo a tendência da última década, as edições domingueiras de jornais, com menos capilaridade para ampliar a cobertura dos fatos, concorrem diretamente com as revistas, investindo em textos analíticos dos assuntos que dominaram a semana.
A violência, representada pelo crime cometido por moradores de Morrinhos, é tratada pelos diários em aspectos mais amplos do que são capazes de fazer as próprias revistas semanais de informação, embora o leitor ainda esteja longe de ver o tema abordado sob o olhar da complexidade.
A linguagem linear do jornalismo tradicional e o modo como a imprensa se apropriou das tecnologias digitais de edição e publicação limitam o potencial de contar a história, mesmo com a disponibilidade de sistemas de publicação multiplataformas. Por outro lado, temos que conviver com o crescimento avassalador do protagonismo nas redes digitais, com indivíduos sem qualificação específica fazendo o papel do jornalista, o que pode resultar num quadro desastroso.
O Globo reproduz, na edição de domingo, um estudo da ONG Safernet (ver site aqui) mostrando como aumentou o total de denúncias de incitações ao crime através do Facebook, a rede social mais utilizada. Nos últimos três anos, a partir de 2011, houve uma multiplicação de 265% nos casos denunciados de páginas com conteúdo violento, representado por manifestações de intolerância racial, religiosa, xenofobia e homofobia, de pregação nazista e incitação ao crime contra a vida.
Embora não esteja descrito na reportagem, o observador constata, em meio à maioria de anônimos, manifestações de protagonistas mais recorrentes, que acabam formando grupos de admiradores, e até mesmo personalidades conhecidas da vida social e da mídia, como um famoso publicitário que de vez em quando defende o assassinato de autoridades federais.
A responsabilidade da mídia
Os diários paulistas de circulação nacional foram ao local do linchamento fazer um retrato da comunidade onde foi cometido o ato de barbárie.
A Folha de S. Paulo achou interessante registrar que a família da vítima também temia o mito da bruxa que estaria raptando crianças para usar em rituais de magia negra e conta que Fabiane Maria de Jesus não acreditava na história que acabaria provocando sua morte. A Folha também rastreia as páginas dedicadas a pregar a violência, chamando seus autores de “Datenas do Facebook” – referência ao jornalista José Luís Datena, apresentador da Rede Bandeirantes de Televisão.
No Estado de S. Paulo há uma reportagem sobre o clima de arrependimento e culpa que domina a comunidade de Morrinhos, após a revelação de que a mulher linchada era apenas uma dona de casa com problemas de depressão que havia deixado de tomar seus medicamentos. Mas o jornal não fica apenas na cobertura factual, no caderno “Metrópole”. O caderno de cultura “Aliás” apresenta na capa reflexões do sociólogo brasileiro José de Souza Martins e do filósofo esloveno Slavoj Žižek, autor de um livro intituladoViolência. O sociólogo revela que, nos últimos 60 anos, cerca de 1 milhão de brasileiros participaram de linchamentos e tentativas coletivas de execução de suspeitos, que tiveram como vítimas um grande número de inocentes como Fabiane Maria de Jesus.
O que mais impressiona, além da banalidade do ato criminoso, é a revelação de que essa prática saltou de quatro ocorrências por semana para uma por dia, depois das manifestações de junho de 2013, segundo José de Souza Martins. Essa é uma questão central, que merece ser mantida sob o foco da imprensa, dada a possibilidade de um recrudescimento das manifestações durante a Copa do Mundo.
Temos, então, no conjunto de leituras do fim de semana, o detalhamento do crime e dos sentimentos que provoca quando a horda volta à sua rotina de massa humana, a persistência da estigmatização do outro, do diferente, como uma cicatriz de obscurantismo em meio à modernidade, e o ponto em torno do qual a imprensa segue gaguejando: a responsabilidade dos meios de comunicação.
Por mais que se dê voltas ao assunto, convém discutir, algum dia, o papel da televisão e do rádio – e agora, também da internet – no estímulo à violência.
 
 
 

09 maio 2014

A BADALAÇÃO DA VIOLÊNCIA

As muitas causas da violência


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



A violência, em suas formas variadas, segue ocupando amplos espaços no noticiário de sexta-feira (9/5). O leitor de jornais pode achar que o Brasil mergulhou numa espécie de guerra civil, na qual todos os conflitos passam a ser resolvidos a pauladas.
O Globo ouve dois sociólogos, que repetem o conhecido mantra da omissão do Estado e a tese da falência das instituições republicanas. Interessante observar que cada uma das análises abrigadas pela imprensa traz um pouco da verdade sobre as múltiplas causas que levam à busca da solução de conflitos por meio da violência. Mas o conjunto dos textos não chega perto da complexidade da questão, a começar pela simples constatação de que as estatísticas não mostram um aumento dos casos. O que tem havido é mais notícias sobre violência.
No caso recente de maior repercussão, o linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, ocorrido na cidade de Guarujá, no litoral paulista, trata-se de mais um em dois milhares de ocorrências do mesmo tipo registradas nos últimos trinta anos. Portanto, não se pode afirmar que há uma conexão direta entre o suposto descrédito das instituições e a ação das hordas que se pretendem autoras de “justiçamentos”.
Os cidadãos brasileiros foram excluídos do poder durante todo o período do regime militar, experimentaram um choque de protagonismo logo após a primeira eleição direta para presidente da República e depois foram envolvidos no banho-maria das políticas de alianças, que sequestraram o poder público em favor de interesses partidários.
O texto do Globo cita uma pesquisa que é realizada desde 1989, ano da eleição de Fernando Collor, na qual se verifica a perda de confiança nas instituições. No entanto, não se pode associar automaticamente esse fenômeno aos atos delinquenciais coletivos que a imprensa registra. Mais lógico seria considerar que, vendo-se desamparado pelo Estado, o cidadão procure cuidar de sua vida da melhor maneira possível, alienando-se do jogo de poder e até mesmo abstendo-se de votar. Observa-se, porém, que há grande participação nas eleições em todos esses anos.
Contradições da sociedade
O linchamento de Fabiane Maria de Jesus no Guarujá, ou o assassinado de uma menina de 13 anos em Foz do Iguaçu, morta a pedradas por duas amigas, não têm necessariamente uma relação com a baixa expectativa de parte da população quanto aos poderes republicanos. O caso do Guarujá, movido por uma história de terror que contaminou a comunidade, e o crime de Foz do Iguaçu, motivado por ciúmes entre adolescentes, não remetem a esse tipo de correlação.
A violência é um traço marcante da vida brasileira que, contraditoriamente, acompanha outra característica exatamente oposta da nossa população, a da confraternização. Ela está presente na forma como produtores rurais assassinam fiscais do Ministério do Trabalho que investigavam o trabalho escravo, no caso do empresário que manda matar um aproveitador que namora sua ex-mulher, nos assassinatos de crianças que de vez em quando chegam ao noticiário, e nos confrontos entre delinquentes fantasiados de torcida de futebol.
Trata-se de um fenômeno complexo como a própria vida. A imprensa não dá conta de abarcar todos os seus aspectos, e, como o jornal tem que circular, procura-se a simplificação referendada por títulos acadêmicos. No entanto, é preciso acrescentar a tudo o que se disse o novo contexto criado pelas tecnologias de comunicação e informação, no qual um meme, ou seja, um elemento cultural isolado, pode rapidamente se espalhar para lugares distantes, influenciando comportamentos.
Há aspectos da violência que nunca são abordados pela mídia, e que no entanto poderiam ajudar a compreender as ocorrências de maior impacto. Por exemplo, um surto de desenvolvimento em determinada região pode provocar o deslocamento de famílias da zona rural para a periferia das cidades, onde o agricultor tradicional tem dificuldade para encontrar trabalho. Eventualmente, a mulher consegue se adaptar melhor e passa a prover a renda, o que provoca um choque nas relações familiares. Essa foi, por exemplo, uma causa observada no aumento da violência doméstica em cidades da Amazônia na década passada.
Em 2007, o Conselho Nacional de Secretarias Estaduais de Saúde produziu um estudo justificando a inclusão do tema violência como um problema de saúde pública. Nesse documento (ver aqui) estão identificadas as várias formas com que a questão se manifesta na sociedade contemporânea.
Acontece que esse tipo de reflexão não vende jornal.
 
 

07 maio 2014

JOGANDO NO COLO ALHEIO

O linchamento do jornalismo


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



O enterro da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, linchada no sábado (3/5) num bairro de Guarujá, litoral paulista, mantém no noticiário o festival de horrores composto pelo crime bárbaro em si e por interpretações apressadas e tendenciosas dos jornais.
Compreende-se o espanto produzido neste lado da sociedade, que se acredita detentor de razão e sensibilidade, pelo conhecimento dos detalhes que seguem as narrativas sobre o crime. Mas é preciso registrar que a imprensa passa ao largo de questões centrais na análise do acontecimento, e não resiste à tentação de politizar a tragédia. O papel e a tela aceitam quase tudo, então, dá-se um jeitinho de incluir o embate eleitoral nas entrelinhas do material jornalístico sobre o crime hediondo.
Na Folha de S.Paulo, o editorial de quarta-feira (7/5) afirma que “não se trata apenas de obscurantismo atávico, já em si lamentável, mas de sintoma do imenso atraso que caracteriza o Estado brasileiro”. NoGlobo, a arenga sobre uma suposta “percepção popular” da falência de instituições dá um jeito de vincular o linchamento ao “péssimo exemplo dado por partidos políticos, do PT ao PSDB, pelo envolvimento de correligionários em casos de corrupção”. Ora, diria o comediante, só o PT e o PSDB? Cadê os outros?
Trata-se, na verdade, de um preâmbulo para o discurso que tem marcado a imprensa brasileira na última década: “O mau exemplo do PT chega a ser mais daninho, por ter conquistado o poder com a aura de extrema seriedade e honestidade. Ao trair as promessas de defesa intransigente da ética, dá grande contribuição, infelizmente, ao descrédito da população diante dos poderes constituídos”, conclui o editorial.
Pronto: dá-se um jeito de jogar no colo do Partido dos Trabalhadores – e, por lógica extensão, da presidente da República que vai tentar a reeleição –, a culpa pelo linchamento de dona Fabiane Maria de Jesus.
Seria o caso de se perguntar ao editorialista da Folha qual seria a relação entre o crime do Guarujá e o suposto “atraso” do Estado brasileiro, mas não convém analisar o texto do Globo, porque já não se trata de jornalismo, mas de panfletagem pura e simples.
Mergulho no obscurantismo
Seria desrespeitoso considerar que os profissionais responsáveis pelos textos citados padecem de ignorância sobre fenômenos como o do linchamento. A mesma imprensa que comete essa atrocidade contra a razão, ao inserir suas preferências políticas no cenário da barbárie, cita pesquisadores que relatam a banalidade de fatos como esse no Brasil moderno: em entrevista ao Estado de S.Paulo, o sociólogo José de Souza Martins diz ter catalogado 2 mil casos de linchamento nos últimos 30 anos.
Os jornais não encontraram nenhuma condenação da Justiça para os acusados desses crimes, porque ele não é tipificado no Código Penal e, no meio do distúrbio, torna-se impossível definir quem deu a paulada ou quem atirou a pedra que causou a morte da vítima.
Mais plausível é observar como a imprensa atua contra o sistema democrático ao conectar qualquer evento negativo, seja o linchamento, seja o torcedor morto por um criminoso que atirou um vaso sanitário do alto do estádio, a uma suposta “falência do Estado” – e, imediatamente, apontando para o partido que ocupa o governo federal.
Ao repetir o bordão segundo o qual vivemos em regime de anarquia, afirmando que há uma “percepção popular da falência de instituições”, os jornais estão estimulando o vandalismo e as soluções fora da lei, justificando as mentes insanas que se julgam no direito de impor à sociedade o fruto de seus delírios de “justiçamento”.
Recentemente, um assassino entrevistado num desses programas policiais da televisão, disse que havia atirado no desafeto porque ele era “folgado”. Ora, isso nada tem a ver com o Estado de hoje, mas com o Estado histórico. Tem a ver com a permanência de bolsões de miséria, onde o lumpesinato vive sua rotina desumana. Se houve alguma mudança nesse cenário nas últimas décadas, ela se deve justamente às políticas sociais que vêm reduzindo a miséria.
Não se salta da aldeia medieval para a aldeia global por decreto, mas é fácil entender que, numa sociedade em transição, a modernidade tem que conviver com a barbárie.
Ao se desviar dessas questões e politizar o que é marginal à política, a imprensa mergulha no obscurantismo e promove o linchamento do jornalismo.
 
 
 

13 março 2014

CRIME ORGANIZADO

É preciso seguir o caminho do
dinheiro


Walter Maierovitch, na Revista CartaCapital





O magistrado Giovanni Falcone, dinamitado pela Cosa Nostra siciliana por ter desvendado esta secular organização criminosa, condenado e prendido os seus grandes chefões, deixou como legado duas regras fundamentais, reconhecidas e recomendadas em várias convenções das Nações Unidas.
Ao afirmar a existência de organizações delinquenciais transnacionais, Falcone apontava para a necessidade da cooperação internacional. Sem ela, seria impossível reprimir um fenômeno sem fronteiras. A segunda e imprescindível regra consiste em atacar a economia movimentada pelo crime organizado, pois, sem capital, não há crescimento nem força corruptora.
Um recente exemplo ajuda a entender a importância do desfalque patrimonial: o megaempresário Vito Niscatri, apelidado na Europa de “Rei das Eólicas”, aplicava em energia limpa o capital sujo do clã mafioso de Matteo Messina Denaro. O desfalque patrimonial foi de 1,3 bilhão de euros.
Por quais bancos, “laranjas”, testas de ferro, familiares de membros da organização e empresta-nome passa o capital sujo do PCC? Esse levantamento ainda não foi realizado consoante confessou a CartaCapital um abnegado membro do Ministério Público Paulista.
Desde os romanos fala-se que pecunia olet (o dinheiro tem cheiro) e, assim, pode ser perseguido e apreendido. Os norte-americanos recomendam follow the money (siga o dinheiro). O diletante governador Geraldo Alckmin, pelo que se percebe, aplica a tática do “enxugar gelo”. Sua polícia civil já chegou a sustentar o fim do PCC e um incompetente ex-secretário de Segurança, sem corar, declarou, em entrevista, estar o PCC muito enfraquecido.

Frise-se, o PCC, organização constituída em 1993 em presídio dado como de segurança máxima, ainda não sofreu um desfalque patrimonial capaz de abalar a sua economia. Assim, e desde que colocou, em 2006, o governo do estado de joelhos, a ponto de as autoridades estaduais terem celebrado um acordo com o chefão do PCC no interior do presídio, essa organização ganhou musculatura, dominou as cadeias e mantém, na periferia, os controles territorial e social. A propósito, um padre de periferia alertou o cardeal arcebispo metropolitano, em carta, que incautos clérigos recebem ajuda do PCC nas festas e obras sociais da paróquia.
Com o dinheiro arrecadado especialmente com o tráfico de drogas proibidas, tornou-se o PCC uma organização transfronteiriça, ou seja, mantém bases no Paraguai e na Bolívia. Por evidente, o PCC, com controle social em territórios dominados, vai, mais uma vez, interferir nas próximas eleições estaduais.
Na Itália, um rumoroso processo, onde até o presidente da República restou arrolado como testemunha, apura uma tratativa da Cosa Nostra com o Estado italiano e que teve por meta colocar fim a uma guerra declarada pelo capo máfia Totò Riina, com bombas a explodir em Roma, Milão e Florença e assassinatos de juízes, promotores e policiais. A tratativa é vista como algo de extrema gravidade, ou melhor, o Estado que faz acordo torna-se refém da organização criminosa. Em São Paulo, a tratativa de 2006 rendeu ao PCC, dentre outras vantagens, um “Bill de Indenidade”.

As políticas preventivas e repressivas do governo Alckmin para contrastar o PCC são inadequadas e basta, numa avaliação, verificar o crescimento da organização. A população paulista tem um governador desastrado nessa questão, a ponto de permitir o ingresso de celulares nos presídios. Isso para a polícia coletar dados e sem afetar a estrutura da organização delinquencial.
No fim do ano passado, em palestra às cúpulas das polícias, a professora Alessandra Dino, uma das maiores especialistas no tema crime organizado, com livros premiados e atuação marcante como professora de sociologia jurídica da Universidade de São Paulo, respondeu da seguinte forma a uma pergunta feita por um oficial militar de alta patente: trata-se de uma stupidaggine, bobagem, deixar ingressar celulares nos presídios e não cuidar da instalação de bloqueadores. Um dos sucessos no combate às máfias italianas, alertou a professora Dino, consistiu em isolar os chefões e líderes. Em São Paulo, nem videoconferência funciona.
Pano rápido. Um levantamento entre os membros do PCC apontaria preferência esmagadora pela reeleição de Alckmin. E ele ainda se acha “jurado de morte” pela facção.