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28 março 2016

SÃO OS MESMOS

A reinvenção do golpe


Mino Carta, na Revista CartaCapital





Nicole Presotto
Protesto-a-favor-de-Lula-e-Dilma
A moçada que desfilou em São Paulo na sexta-feira 18 foi com as ideias claras

Ensaia-se um novo, inédito modelo de golpe de Estado e os impávidos inovadores mostram a cara. De Sergio Moro e Gilmar Mendes aJosé Serra e Fernando Henrique Cardoso. Da Globo, jornalões e revistões a Eduardo Cunha. Da facção peemedebista em busca da rasteira mais eficaz nos aliados a risco ao vice-presidente Michel Temer, que já conta as favas e monta o futuro governo.
O golpe de Estado não é incomum na história brasileira. De um golpe nasceu a República. Uns não passaram do ensaio, outros deram certo. Depois do suicídio de Getúlio Vargas, houve duas tentativas fracassadas antes de 1964, e por este pagamos até hoje. A rigor, houve golpe inclusive na posse de José Sarney, o vice que foi para o trono antes que o falecido titular o ocupasse. No caso, pode-se falar em usurpação.
A origem é sempre a mesma, a casa-grande ainda de pé, o nosso establishment medieval, exemplar único no mundo contemporâneo que se apresenta como civilizado e democrático. Não cabe rotular os mandantes à luz das ideologias tradicionais, dizê-los de direita, conservadores, reacionários não exprime sua autêntica natureza. Agem como se fossem investidos pelo direito divino, embora se dignem a formular elevadas motivações para justificar sua prepotência, até anteontem amparada na convocação dos militares para executar o serviço sujo. Outrora chamavam os jagunços. O tanque, contudo, é mais moderno e impõe maior respeito.
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O Brasil não o elegeu, foi ele, escravo da sua obsessão, quem elegeu o Brasil (Foto: Jefferson Bernardes/AFP)
O golpe de 64 foi desfechado para salvar a democracia e resolver a crise econômica. Agora um golpe judicial-policial-midiático sem tanques na rua arvora-se a salvar o País da praga petista e, como então, resolver a crise econômica. Trata-se de eliminar o estorvo eleitoral para atender à pesquisa de opinião que aponta o desfavor popular em relação ao governo, e talvez fosse do interesse do mundo curvar-se diante de mais uma fórmula criada pela genialidade brasileira. Com isso, igual a 64, vai a pique é a democracia. Nas barbas da lei, derruba-se Dilma, prende-se Lula e o PT soçobra natural e automaticamente.
Em lugar dos soldados, entram em cena agentes da polícia. Uma Justiça politizada e um Legislativo guiado na sagrada missão do impeachment por um notório corrupto acuam o Executivo ao sabor de uma enxurrada de acusações a serem provadas, veiculadas com o estardalhaço de declarações de guerra pela mídia do pensamento único. Em benefício da trama, de Curitiba um juiz de primeira instância cuida de ameaçar de prisão o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao alegar razões absolutamente inconsistentes.
Neste caldo de cultura move-se a urdidura golpista, amparada em pesquisas destinadas a demonstrar a imaturidade de uma classe média (média até hoje não entendo por quê) ignorante, vulgar e arrogante, e de quantos, sonhadores de ascensão social, acreditam em uma encenação midiática nutrida de invencionices e mentiras, empenhada em transformar suposições em verdade factual. Como sempre, a casa-grande aposta na resignação da senzala.
As manifestações da sexta 18 a favor do governo e de Lula dizem, porém, da presença de um contingente conspícuo de cidadãos de olhos abertos e fé intacta. O ex-presidente, que compareceu à passeata paulistana, teve bons motivos para se comover “com o carinho do povo”, como ele próprio diz ao acentuar a presença preponderante dos jovens que nele enxergam o líder.
Diante da inoperância das instituições e da ausência de Estado de Direito, é especialmente difícil hierarquizar os atentados cometidos impunemente contra a razão e contra a lei. A lista é infinda. Afundo destemidamente a ponta dos dedos neste autêntico mar de lama, a expressão me agrada ao ser empregada ao contrário do que costuma se dar. Pinço com o devido cuidado o ministro Gilmar Mendes, com quem José Serra se reúne na sincera busca de afinidades, permito-me imaginar. É do conhecimento de quem respeita a lei, e até do mundo mineral, que Mendes teria de se declarar impedido para julgar o pedido de habeas corpus de seu grande desafeto Luiz Inácio Lula da Silva (leiam mais adiante a coluna de Wálter Fanganiello Maierovitch).
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A súbita presença de Fraga traz à memória a maior bandalheira, a privatização das comunicações no tempo de FHC (Foto: William Volcov/Brazil Photo Press/AFP)
Assim fez o ministro Luiz Edson Fachin, de bom relacionamento com o ex-presidente, ciente do seu papel de magistrado. Sobrou o julgamento para a ministra Rosa Weber, a qual, poderia ter-se declarado impedida por já ter trabalhado com Sergio Moro. Graças a outro ministro a agir corretamente, Teori Zavascki, Moro não está habilitado a realizar seu velho sonho de prender Lula antes da decisão final do colegiado do STF.
Do juiz curitibano tudo é possível esperar, e já fez largamente das suas. Não é acaso que Sergio Moro e os promotores Carlos Fernando dos Santos Lima e Deltan Dallagnol, aquele que prega do púlpito da igreja para convocar à luta os paroquianos, ostentem ter-se formado nos Estados Unidos, onde se especializaram em lavagem de dinheiro à sombra do Departamento de Estado, com a possível contribuição da CIA. De raspão: aos EUA, tão presentes por trás do golpe de 64, não deve interessar um governo disposto a fortalecer o grupo dos BRICS. O juiz Moro se diz apolítico, nem por isso deixa de discursar em tertúlias organizadas por João Doria, candidato de Geraldo Alckmin à Prefeitura de São Paulo, e na Fiesp, envolvida declaradamente na operação golpista sob a liderança de Paulo Skaf.
Causa espanto, muito mais que surpresa, a esmerada sintonia dos lances da manobra. A afinação impecável ao longo da fase do pré-golpe exigiu algo mais que o automatismo dos sentimentos e dos propósitos comuns, de força inegável, mas insuficiente. Os ensaístas do golpe agora conspiram às claras, ninguém se engane, entretanto, há tempo agem na calada da noite e nas pregas obscuras do dia.
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Melhor tarde do que nunca (Foto: Lula Marques/Agência PT)
Somente agora o ex-ministro da Justiça e atual advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, cai na real para perceber o alcance do complô desencadeado pela Lava Jato, a partir de um escândalo verdadeiro, do qual o envolvimento petista representa apenas o derradeiro capítulo. A corrupção na estatal começa com o presidente nomeado pelo ditador Ernesto Geisel, um certo Shigeaki Ueki, disposto a cobrar pedágio sobre cada barril importado ou produzido, e prossegue implacavelmente desde então. De todo modo, na qualidade de maior bandalheira da história do Brasil, nada supera a privatização das Comunicações, que aliás funcionam mal, como tantas coisas mais nas nossas tristes latitudes.
Nesta moldura, figuras como José Serra e Fernando Henrique Cardoso são típicas de uma categoria movida pela ambição desmedida, a justificar desfaçatez e oportunismo. Disseram-se, em algum dia remoto, de esquerda, de fato não acreditam em coisa alguma, a não ser sua vontade de poder. No caso de Serra, o Brasil não o elegeu, foi ele quem elegeu o Brasil, e desta vez vislumbra a si mesmo chamado pelo destino a seguir pelo mesmo caminho percorrido por Fernando Henrique após a queda de Collor.
É tradição tucana bandear-se sempre. Não fosse Mário Covas, FHC aceitaria ser chanceler de Collor. Deteve-o o então futuro governador de São Paulo a partir de 1995, ao se declarar pronto a abandonar o PSDB, partido de fancaria desde quando chegou ao poder.
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Arminio Fraga, com sua expressão de inquisidor espanhol (Foto: Saulo Cruz/Exemplus/COB)
Nas campanhas contra o PT, em 2002, 2006, 2010, 2014, o PSDB assumiu em definitivo o papel de partido da direita, e a mais reacionária possível. Gilmar Mendes, com sua imponente presença, vem do tempo tucano, e não me consta que então tivesse a intenção, por mais vaga, de combater a corrupção, tampouco depois, em época petista, a de desenterrar o passado. Nesta ribalta, Serra disputa o ponto melhor iluminado, e tudo fará para alcançá-lo, escravo da sua obsessão.
E eis quem aparece de repente ao lado do senador? Arminio Fraga, com sua expressão de inquisidor espanhol. Ele me lembra Luiz Carlos Mendonça de Barros, hoje riquíssimo senhor de exposição opaca, ou André Lara Resende, que leva de avião cavalos de montaria para a sua quinta em Portugal, ou para Londres, onde se recomenda cavalgar no Hyde Park. Cavalheiros deste porte e suas façanhas pregressas porventura incomodam o ministro Gilmar Mendes e o juiz Sergio Moro?
Magistrados, policiais, políticos, portam-se como se o novo modelo de golpe estivesse na iminência de atingir o alvo. Quem supõe que seja este o antídoto da crise, engana-se tristemente. Se inédito seria o golpe, inédito seria o dia seguinte. De confusão, de balbúrdia, de caos, com duração por tempo indeterminado. Desejáveis para o cidadão consciente a frustração dos golpistas e o respeito da lei. 



26 outubro 2015

PARA NUNCA MAIS ACONTECER

Um momento para não esquecer



Alberto Dines, no Observatório da Imprensa



A ditadura militar começou a desabar com um ato ecumênico, verdadeiramente espiritual, celebrado na Sé de São Paulo em memória do jornalista Vlado Herzog e em protesto contra o seu assassinato dias antes nos cárceres do DOI-CODI local.
Hoje, 25 de outubro, no mesmo templo paulistano, exatos quarenta anos depois, novo culto inter-religioso desta vez para evocar aquele momento único de congraçamento humano e resistência à brutalidade.
O tempo decorrido não nos deixa mais tranquilos: fantasmas com outras roupagens substituíram os de então, novas perversidades articulam-se ostensivamente em diferentes recantos do planeta. Desatentos, tomados por estranhas derivações estamos permitindo que o país se dissolva no ódio. As certezas então produzidas pela unidade e pela solidariedade, apenas quatro décadas depois parecem irremediavelmente desfeitas.
Nesta era das gigantescas redes e vastos compartilhamentos não estamos conseguindo aquele mínimo de convergências para distinguir as sutilezas do mal. Pior: estamos sozinhos, cada um por si. A intensidade da comunicação não forma – ao contrário deforma — comunhões e comunidades. O mundo globalizado é na realidade, um tecido de solidões.
As próprias religiões estão sendo torpemente usadas para difundir desconfianças e fragmentações. O boato espalhado pela imprensa italiana sobre o tumor no cérebro do papa Francisco é uma clara manobra para desqualificar suas arrojadas tentativas de agregar, incluir, aproximar tanto na esfera dos costumes como na política.
A gigantesca e inacreditável lorota proposta pelo premiê israelense, Bibi Netanyahu — aliás filho de um eminente historiador — sobre a suposta origem palestina do projeto nazista de extermínio dos judeus na Segunda Guerra Mundial dá uma ideia da paranoia que domina os setores xenófobos da sociedade israelense. O negacionismo do Holocausto no qual os aiatolás iranianos estão engajados, jamais fabricou tão execrável disparate, inédita dessacralização do martírio dos seis milhões de vítimas do ódio racial.
Onde poderia o bilionário norte-americano Donald Trump encontrar inspiração para formatar sua jurássica plataforma política senão entre as seitas fundamentalistas dos EUA?
Com a credibilidade reduzida a pó e um pé no primeiro degrau do patíbulo o deputado Eduardo Cunha (até o momento, presidente da Câmara Federal), tenta desesperadamente armar uma base de apoio, por isso recorre com evidente desespero aos correligionários evangélicos. O projeto de sua autoria que fez aprovar há dias na Comissão de Constituição e Justiça torna quase impossível o aborto em caso de estupro apesar de garantido pela legislação. De uma perversidade medieval, torna o poder público um algoz, cumplice da maternidade precoce, incubadora de uma geração de menores abandonados que logo irão reforçar a delinquência.
Eduardo Cunha é o clássico caçador de bruxas, modelado pelo farisaísmo, a hipocrisia, servo de duas moralidades quando se trata do erário e de bens públicos, dos quais deveria ser guardião, não tem qualquer escrúpulo em apropriar-se. Mente descaradamente sem importar-se com a sua responsabilidade de guardião da fé pública.
Eduardo Cunha saiu do armário para nos lembrar que os fundamentos ideológicos e morais da brutalidade do regime militar permanecem intactos.
 Por que Cunha só faz declarações andando e apressado?
O mais cínico e assíduo dos entrevistados da cena política neste ano, Eduardo Cunha consegue passar incólume pelos diversos encontros diários com os repórteres que cobrem a Câmara Federal graças a um estratagema e uma desfaçatez que ultrapassam de longe a “cara-de-pau” de Paulo Maluf, até há poucos anos o indiscutível campeão na modalidade.
Cunha não se nega a falar, parece disponível, mas nunca recebe os repórteres parado. Procura sempre dar a impressão de que tem pressa, assuntos urgentes e transcendentais o convocam. Responde andando, rápido, sem olhar o repórter, inferiorizando-o e abatendo qualquer tentativa de réplica ou contestação das contumazes mentiras.
O comité de imprensa da Câmara deveria protestar, isso não é maneira de oferecer explicações à sociedade. E se o esperto deputado insistir na manha existem muitos recursos para sossega-lo.
***
Alberto Dines é jornalista, escritor e fundador do Observatório da Imprensa



13 abril 2015

AMÉRICA LATINA DE LUTO

Eduardo Galeano (1940-2015)


Victor Farinelli (Extraído do sítio da Revista CartaCapital)


Galeano 3“Muita gente pequena, em pequenos lugares, fazendo coisas pequenas podem transformar o mundo.”
“Em 1492, os nativos descobriram que eram índios. Descobriram que viviam num lugar chamado América. Descobriram que estavam nus, que existia o pecado. Descobriram que deviam obediência a um rei e uma rainha de outro mundo, e a um deus de outro céu. E que esse deus havia inventado a culpa e o vestido, e que mandou queimar vivo quem adorasse o sol, a luna, a terra e a chuva que a molha.”
“Os países que dão as ordens no mundo, através dos organismos que criaram para dar as ordens no mundo, ditam as ordens ao mundo mas não as seguem. Sim, porque eles são sádicos, mas não masoquistas.”
Galeano 2
“As guerras mentem. Nenhuma tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As sempre invocam motivos nobres. Matam em nome da paz, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia, e para que não reste dúvidas, se nenhuma dessas mentiras não for suficiente, aparecem os meios de comunicação dispostos a inventar novos inimigos imaginários, para justificar a conversão do mundo em um grande manicômio, e imenso matadouro.”
“Os cientistas dizem que estamos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que estamos feitos de histórias.”
“O futebol corre o perigo de se tornar um negócio tão rentável quando o das drogas e das armas. O que vai acabar com o miserável torcedor que vive da sua paixão, que dorme na porta do clube, ou o mendigo do bom futebol, que anda de estádio em estádio, com seu chapéu nas mãos, pedindo “uma jogadinha brilhante pelo amor de Deus.”
“A liberdade do dinheiro é inimiga da liberdade das pessoas.”
Galeano 1
Reunimos acima algumas das facetas de Eduardo Galeano em sete frases suas. A do uruguaio que sonhou com a grande transformação em pequenas proporções, a do historiador da América Latina e suas veias abertas, a do questionador da ordem mundial, a do jornalista que denunciava o saqueamento e a matança dos países pobres, a do mais sensível contador de histórias, a do escritor amante do bom futebol (torcedor do Nacional, para os que tinham alguma dúvida) e a do defensor, através da poesia, da liberdade que interessa a todos, e não a alguns poucos.
Faltou a do autor que soube, como poucos, mesclar a realidade e a ficção, em suas deliciosas narrativas. Mas para isso, convidamos a que busquem o seu legado e leiam seus livros, não este mero blog.
 
 
 

03 março 2015

RIO 450 ANOS

Onde nossa imprensa nasceu, cresceu e
morre

Alberto Dines, no Observatório da Imprensa


Irreverente, alegre, generosa, agradável, criativa, solidária, refinada e o escambau: da noite para o dia, a cidade do Rio virou a queridinha do Brasil, metrópole ideal, utopia materializada, perfeita transposição do século 16 ao 21que com alguns poucos bilhões de reais facilmente será esticada até o século 22.
Ninguém lembrou dos elefantes brancos – a Cidade das Artes na Barra da Tijuca, por exemplo – e os monumentos históricos – o Palácio Monroe, sede do Senado Federal – que os grandes jornais locais permitiram converter-se em pó em troca de favores do governo do antigo estado da Guanabara.
A cidade como coisa viva foi menos celebrada do que os Jogos Olímpicos de 2016, que durarão apenas 40 dias. O Engenhão, construído a toque de caixa para abrigar os Jogos Panamericanos de 2007, ficou mais tempo fechado do que em funcionamento. Culpa das empreiteiras.
A charmosa Lapa carioca sobreviveu e hoje floresce porque os tubarões imobiliários locais estavam falidos, sem recursos para arrasá-la e transformar os românticos sobrados em espigões comerciais. A escassez, em certas circunstâncias, pode ser socialmente mais útil do que a fartura. São Paulo é o exemplo oposto.
Anos depois
Não basta ser bonita, uma cidade precisa ser amada, se possível venerada. Lisboa tem desde sempre os olissiponenses (da Olisipo romana), devotados amantes de sua história, guardiões de sua alma, passado, figuras e logradouros. Portugueses são colecionadores natos – o país é minúsculo, precisa ser preservado. Nós brasileiros, ao contrário, somos dissipadores, temos tudo em demasia Ou tínhamos – basta lembrar o que aconteceu com a água.
Delegar apenas aos arquitetos, urbanistas e historiadores a maravilhosa missão de amar o recanto natal é uma forma enganosa de perenizar uma cidade. Nada contra esses profissionais, mas eles são profissionais; precisamos de diletantes, amadores e amantes vestindo a camisa da cariocofilia – cervejeiros, advogados, farmacêuticos, filólogos, filatelistas, padeiros e quitandeiros, manicuras, futebolistas, músicos, médicos, fotógrafos, funcionários públicos, taxistas, desenhistas, tipógrafos e, principalmente, sobretudo, mormente jornalistas.
Na temporada pré-450 apareceram alguns jornalistas cariocofílicos ou cariocômanos, louvados sejam para todo e sempre. Precisamos de um contingente dez vezes maior. Jornalismo é uma forma de registrar o passado em movimento, ou de fazer história sobre pressão – como dizia o inesquecível Alceu Amoroso Lima.
Prova da desgraçada carência: não apareceu uma só reportagem para lembrar que a primeira tipografia autorizada a funcionar na colônia foi aquela que veio de Londres via Lisboa encaixotada no porão da nau Medusa logo depois da chegada da família real em 1808 e que custou cem libras esterlinas.
Ninguém teve a audácia para lembrar que o país passou os primeiros 308 anos de sua história ignorando os poderes daquela prensa que não diferia muito da outra, a que esmagava azeitonas para fazer azeite e aperfeiçoada pelo fundidor alemão Johannes Gutenberg. Mais da metade de nossa existência legal (515 anos) foi passada em condições semelhantes às da Idade Média.
O período de trevas poderia ter sido encurtado em 61 anos se uma tipografia trazida de Lisboa em 1747 não tivesse sido impiedosamente desmantelada obedecendo às ordens (evidentemente manuscritas) vindas da Inquisição de Lisboa.
Com a tipografia instalada no Rio (provavelmente nas cercanias do atual Passeio Público) foi possível imprimir, em 10 de setembro de 1808, o primeiro periódico na América portuguesa, a Gazeta do Rio de Janeiro, precursora dos diários oficiais. Mesmo assim, acredita-se que não conseguiu ser o primeiro veículo jornalístico a circular na cidade-aniversariante: é bem possível que o Correio Braziliense, ou Armazém Literário, mensário impresso em Londres, em 1 de junho, tenha chegado antes ao Rio. De qualquer forma, tinha a vantagem de não ser censurado e jamais o foi nos 14 anos seguintes.
O texto introdutório de Hipólito da Costa (seu fundador e único redator) é considerado o marco fundador da imprensa livre no Brasil. Da primeira às 61 linhas seguintes, um compromisso do jornalista com o bem-estar da sociedade e seu desenvolvimento cultural.
Quando D. Pedro I foi proclamado imperador (12 de outubro de 1822, fato que marcou efetivamente nossa emancipação), já estavam sendo impressos no Rio quatro periódicos livres de censura (além do londrino Correio e do baiano Idade d’Ouro do Brasil, fundado em 1811): o Revérbero Constitucional Fluminense (de 1821), O Patriota (de 1813), o Correio do Rio de Janeiro, de 1821 e A Malagueta (também de 1821).
São Paulo só conheceu uma imprensa local 19 anos depois (em 1827); o Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal ainda em circulação da América Latina, é anterior (1825). No entanto São Paulo é a dona da mídia brasileira
Cidade midiática
Na festa dos 450 anos do Rio não apareceu uma alma generosa para lembrar as glórias passadas, a primazia e o protagonismo da imprensa carioca ou fluminense. Em 2008, por ocasião das festas para lembrar os 200 anos da chegada da corte ao Brasil, a lembrança dos 200 anos da fundação da nossa imprensa foi rigorosamente escamoteada. Não convinha, era melancólico demais.
Aquela imprensa exuberante, diversificada e excitada que conseguiu chegar ao quarto centenário do Rio, em 1965, está hoje reduzida a dois jornais: o ônibus chamado Globo & o irmão caçula Extra, e o valente O Dia.
Naquele ano surgia a TV Globo. Valeu a troca? Cartas para a redação.
Desapareceram, foram para o espaço – ou para as nuvens – as aguerridas e adversárias Última Hora e Tribuna da Imprensa, o onipotente Correio da Manhã, o engravatado Diário de Notícias, o charmoso Diário Carioca e o jornal-símbolo, jornal-escola, jornal-saudade, jornal-país, dito “do Brasil”.
A cidade midiática, emissora, tambor ouvido do Oiapoque ao Chuí, hoje se contenta em imaginar-se sedutora. Disfarça, olha para o lado, finge que não vê os escombros do Leviatã desnorteado que soçobrou na praia.
 
 

15 dezembro 2014

RELATIVIZANDO A VERDADE

Reescrevendo a história



Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Os jornais de segunda-feira (15/12) tentam desqualificar o relatório da Comissão Nacional da Verdade, confundindo o quadro histórico sobre os crimes cometidos por agentes públicos com casos isolados de vítimas dos grupos armados que resistiram à ditadura. O criminalista José Paulo Cavalcanti, único integrante do comitê que não concordou com o relatório, se transforma em uma espécie de porta-voz do “outro lado”, aquele que é objeto da investigação.
O acirramento das posições políticas provocado pela disputa eleitoral e as contestações que se seguiram à divulgação do resultado das urnas criam o cenário propício à desinformação e a ambiguidades. Assim, questões que poderiam ser debatidas com transparência, permitindo à sociedade colocar uma lápide sobre as tumbas do período de exceção são reacendidas, dificultando o esclarecimento da questão central: nominar os agentes do Estado que cometeram tais crimes e, no limite de todas as possibilidades, revelar o destino dos desaparecidos, para que suas famílias possam finalmente encerrar o luto de décadas.
Esse talvez seja o divisor de valores entre aqueles que insistem em apurar os casos de prisões arbitrárias com torturas e mortes e os que, como o advogado Cavalcanti, misturam atos de indivíduos com políticas de Estado, ainda que subterrâneas.
Uns morreram porque financiavam a atividade repressiva, ou porque atuavam diretamente no conflito, e devem ser considerados protagonistas, e há as vítimas colaterais, que foram apanhadas no fogo cruzado ou eliminadas por agentes da repressão por haverem testemunhado execuções ilegais.
O debate, para ser correto, precisa considerar as circunstâncias de cada caso. Os familiares das vítimas de um lado tiveram direito aos funerais e ao luto. Os do outro lado foram impedidos de honrar seus mortos, e muitos ainda esperam pela confirmação do óbito – direito que lhes foi negado pelo Estado nacional sequestrado pelo poder militar.
Essa é a distinção que dá sentido à Comissão Nacional da Verdade e que coloca sob questionamento o efeito da anistia, imposta como condição para uma retirada honrosa das Forças Armadas do poder político.
“Operação Jacarta”
Não se deve esquecer que a anistia começou a ser negociada apenas um ano depois do assassinato do operário Manoel Fiel Filho, militante das comunidades eclesiais de base da igreja católica, ocorrido em janeiro de 1976. Resultou de uma articulação do então presidente Ernesto Geisel com parte da imprensa, empresários e políticos que haviam apoiado o golpe de 1964. A oposição organizada em torno do Movimento Democrático Brasileiro apanhou a bandeira levantada em 1975 pela ativista Terezinha Zerbini, e iniciou a negociação com o governo militar em 1977.
Três meses antes do assassinato do operário, a morte do jornalista Vladimir Herzog, torturado nas dependências do então 2º Exército, em São Paulo, havia levado o presidente Geisel a determinar que ninguém mais fosse preso por subversão sem que o gabinete da Presidência da República fosse informado. Ele queria evitar outras mortes nos porões semiclandestinos.
A medida foi comunicada pessoalmente por Geisel ao comandante da unidade, general Ednardo D’Ávila Mello, segundo depoimento do ex-governador paulista Paulo Egydio Martins ao jornalista Geneton Moraes, da GloboNews (ver aqui).
O que poucos sabem é que D’Ávila Mello era parte de uma conspiração que planejava eliminar cerca de 2 mil dissidentes, muitos dos quais militantes do Partido Comunista Brasileiro, que não havia aderido à luta armada. Seu plano foi revelado a três estudantes de jornalismo que o entrevistaram em agosto de 1975. Um relatório dessa entrevista foi encaminhado a dirigentes do PCB, mas a organização entendia, como disse um deles, que “o processo de abertura do general Geisel é lento e gradual, mas é seguro”.
A repressão massiva, comandada pelo então ministro do Exército Sylvio Frota, que conspirava para se tornar sucessor de Geisel, se chamaria “Operação Jacarta”, em referência ao episódio de 1967, quando o ditador Suharto comandou o assassinato de 500 mil dissidentes, principalmente militantes de esquerda, intelectuais, escritores, religiosos e simplesmente indivíduos que manifestavam índole pacifista, destruindo o patrimônio intelectual e a inteligência crítica da Indonésia.
A morte de Herzog interrompeu a operação insana, e o plano da anistia foi construído sobre essa base de perigosa instabilidade, com as Forças Armadas ainda divididas e parcialmente influenciadas pela “linha dura”.
O que fez a Comissão Nacional da Verdade foi desvelar parte do que ficava escondido naqueles porões. O que faz a imprensa, hoje, é tentar relativizar a verdade.
 
 

16 outubro 2014

RECORRENDO AO "MAR DE LAMA"




Aécio cita mar de lama, mote golpista de
54 e 64; Tancredo treme no túmulo






Mário Magalhães


Se o vencedor de um debate televisivo é quem vende melhor seu peixe, seja pescado fresco ou com odores suspeitos, Aécio Neves (PSDB) levou o da Band, encerrado na madrugada de hoje.


Em matéria de conteúdo, Aécio também se destacou, contra sua oponente Dilma Rousseff (PT). A questão é qual conteúdo.


A certa altura do entrevero, digo, debate, discorrendo sobre a roubalheira na Petrobras, o tucano empregou a expressão “mar de lama”.


Além de imprópria, a começar pelo fato de que nem mesmo o senador insinua que a presidente da República seja mão-leve, a fórmula “mar de lama” foi o mote de uma das mais sinistras conspirações golpistas da história republicana do Brasil: a que levou ao suicídio do presidente constitucional Getulio Vargas na manhã de 24 de agosto de 1954, horas depois de ser virtualmente deposto.


E olha que sessenta anos atrás Getulio era acusado de ter ordenado o atentado que resultou em ferimento a bala do jornalista de oposição Carlos Lacerda e na morte do major-aviador Rubens Vaz. Jamais surgiram indícios dignos de confiança sobre a participação de Vargas no plano contra o “Corvo”, como os partidários do gaúcho desqualificavam Lacerda.


Em suma, “mar de lama” evoca leviandade, mentira, desprezo pela legalidade e aversão à democracia.


Apelar a tal expediente é mais grave no caso de Aécio, que não é um mentecapto: o ministro da Justiça de Getulio Vargas, na quadra sombria de 1954, era Tancredo Neves.


Ao contrário de muitos traíras, Tancredo batalhou até o fim contra a turma que alardeava haver um “mar de lama” de responsabilidade do governo.


Em 1964, os golpistas que haviam recuado depois da morte de Getulio voltaram à carga e derrubaram o presidente João Goulart num golpe de Estado contra o Brasil. Qual era o mantra dos opositores de Jango? “Mar de lama”, “mar de lama”, “mar de lama”…


Primeiro-ministro no arremedo de parlamentarismo improvisado em 1961, com Goulart na Presidência, Tancredo Neves deixaria a função, mas permaneceria político influente. Na virada de março para abril de 1964, ele novamente desfraldou a bandeira da legalidade, contra o golpe. E contra a pregação sobre o dito “mar de lama”, cujo porta-voz mais ruidoso era, adivinha, Carlos Lacerda.


O constrangimento para Aécio não é a árvore genealógica. Ninguém é obrigado a sair aos seus.


Mas o tucano não se cansa de mostrar na TV a convivência e a parceria com o avô Tancredo.


Pelo visto, aprendeu pouco.


Hoje, o simpático mineiro que só subiu morto a rampa do Planalto deve estar esperneando no túmulo, ao ver o neto, como um simulacro de Lacerda, recorrer ao “mar de lama” para ganhar a eleição.


(Extraído do CONVERSA AFIADA, de Paulo Henrique Amorim)

 

23 setembro 2014

NÃO SE GOVERNA INOCENTEMENTE

Reinar ou morrer


, no Jornal GGN
Após a humilhação da noite de Varennes, o rei Louis 16 seria submetido ao ruidoso processo que decidiria que seu pescoço não deveria mais sustentar sua cabeça no seu corpo. O veredicto dessa decisão foi apresentado à Convenção por meados de dezembro de 1792. O jovem Saint-Just, amigo de Robespierre e fiador do novo regime dos cidadãos, teve papel de importância nessa decisão. Em seu famoso discurso de 13 de novembro de 1792 lembrara aos seus contemporâneos que não se reina ou governa inocentemente.
Reiterando toda tradição política disponível, fazia perceber que reinar e governar sempre envolve imenso mistério. O mistério do poder selado na solidão da decisão. Para o contexto da revolução, seu argumento fora preciso. Um rei deve reinar ou morrer.
Mas sua fórmula não se esgotou na revolução. Em regimes democráticos, antigos e modernos, o impasse – governar ou morrer – jamais deixou de existir.
O governante, em cargo eletivo alto ou baixo, destoante do decoro da função político-pública tende a ser assassinado politicamente. Seja por seus eleitores ou pares.
O rei francês deveria morrer – e morreu – por não ter mais lugar na sociedade que a revolução construiu. O significado de sua realeza vinha se esmaecendo desde tempos remotos. Mas com a tomada da Bastilha, a legitimidade de sua função foi às rápidas desaparecer.
Como no antigo regime inexistia distinção entre o homem e o rei – mesmo que ele, o rei, tivesse dois corpos –, seu destino físico, pessoal e individual e real, não poderia ser outro que também desaparecer. Um rei, dizia Saint-Just, não é alguém normal, ordinário ou banal. Se não reina, não vive.
Um político de hoje, sujeito ao sufrágio universal não celestial, tem semelhanças com o rei. Ou bem encarna a democracia ou deve ser eliminado por ela. Sendo assim, um político, tal qual um rei, no exercício de sua função, deixa ou deveria deixar de ser uma pessoa normal.
No limite da avaliação, o eleitor, em geral, tende a não eleger – e em elegendo, tende a não respeitar – um político sem virtudes. Um político que se queira normal. O eleitor, consciente ou intuitivamente, quase nunca elege políticos que se revelem pessoas, no geral e na essência, menos virtuosos que ele próprio eleitor.
Em se tratando do cargo máximo de qualquer nação, esse axioma vira absoluto. Segue eterno candidato o presidenciável que se apresenta como uma pessoa normal, ordinária, banal.
O presidente François Hollande tentou subverter a regra. Lançou-se candidato a presidência da França advogando ser normal e propondo, em eleito, ser um presidente normal. Foi eleito. Menos por sua capacidade de convencimento que pelas intransponíveis contingências, tem no topo a brutalidade da crise financeira de 2008, imposta ao presidente Nicolas Sarkozy. Resultado: a presidência do homem normal, após dois anos e meio de “presidência normal”, vem sendo a mais impopular e instável desde que o general De Gaulle fundou a mais recente república.
Os lances obscenos do livro obsceno da ex-mulher do presidente Hollande, traída, ressentida e humilhada como primeira-dama da França, apenas demonstram os percalços dos homens normais. Merci pour ce moment de Valerie Trierweiler serve não simplesmente ao voyeurismo e ao onanismo publicitários sensacionalistas. Malgrado suas difusas intenções, ajuda a demonstrar as incongruências de uma pretensa “presidência normal”, feita por homens normais, banais e ordinários.
Na conferência de imprensa da última quinta-feira, 18 de setembro de 2014, o presidente François Hollande fora forçado a reconhecer que “c’est dur d’être président”. E, portanto, é duro governar. O ofício de governar, claramente, não é para normais. O presidente francês – muito bem formado e experimentado pela vida político-pública francesa – sempre disso soube. Seu apelo eleitoral foi de sensação. Agora não tem mais volta.
Homens normais – o que, por certo, jamais fora o caso do presidente Hollande – tendem a querer governar com os melhores.
Maquiavel dedica várias passagens d’O príncipe explicando a essência de se governar com os melhores. Sim, diz o florentino, é fundamental governar com os melhores. Mas nada na vida, tampouco no mestre da renascença, se faz tão simples e lógico como se intui.
“Quem se torna príncipe apenas pela fortuna pouco se esforça, evidentemente, mas a preservação é muito penosa”. Essa sentença abre o capítulo 7 de O príncipe que, em seu primor e crueza, acentua que “os homens ou se conquistam ou se eliminam”. Mesmo e, sobretudo, os melhores.
Ramiro de Orco tinha muito prestígio, competência e poder. Era um dos melhores do governo do duque de Romanha. Sua notoriedade ultrapassava as fronteiras. Um belo dia, amanheceu, em praça pública, partido ao meio. Ao seu lado, uma faca e um pau. “A ferocidade do espetáculo – diz Maquiavel – provocou no povo, a um só tempo, satisfação e perplexidade”. O mandante do crime tinha sido o próprio duque. Razão: não se governa plenamente com os melhores.
José Carlos de Assis, esse fino observador da vida política brasileira, desmascarou absolutamente a intenção da candidata Marina Silva de governar com os melhores em seu “O compromisso de Marina de governar com os melhores” (GGN, 27/08/2014). Por isso, depois do primeiro debate entre os presidenciáveis, essa expressão foi desaparecendo do vocabulário da candidata.
Por seguir bem cotadas nas pesquisas de intenção, a fúria de seus oponentes parece não ter fim. De modo obsessivo, quase todos eles vêm adesivando – muita vez com desrespeito, imperícia e sem propriedade – em Marina Silva a condição de pessoa normal, ordinária e banal.
Não se chega aonde Marina Silva chegou e vem chegando, no Brasil ou alhures, sendo uma pessoa banal, ordinária, normal. Evidente que Marina Silva não é uma pessoa normal. Mas caso seja eleita presidente terá a contínua demanda de reconhecer, pública e intimamente, que não se governa de modo inocente ou impune. Do contrário, terá de muito lutar para, politicamente, não morrer.
Daniel Afonso da Silva é professor da Universidade Estadual da Paraíba.