25 julho 2014

BRASIL, ISRAEL E A NOSSA MÍDIA NATIVA

O massacre de Gaza e o complexo de vira-lata


, no Jornal GGN
O Governo de Israel disse que o Brasil é irrelevante e criador de problemas, segundo  manchete de O Globo. Há nisso uma contradição. Se é irrelevante não pode criar problemas. Se cria problemas não é irrelevante. Aliás, se fosse mesmo irrelevante, não teria levado o Governo israelense ao extremo de quebrar todos os códigos diplomáticos ao ponto de insultar  o Governo brasileiro com um ironia chula envolvendo a Copa, como se nós, brasileiros, fôssemos uns idiotas capazes de confundir massacre de inocentes com jogo de futebol.
Ainda pior que o insulto israelense a um país que sempre tratou com simpatia Israel, mesmo em momentos em que ele não merecia isso, é o comportamento da grande mídia brasileira. A invasão truculenta de Gaza é tratada como uma guerra entre iguais. O massacre de crianças e mulheres numa área confinada, sem saída, é apresentado como consequência natural do conflito. O recurso a uma violência extrema aparece como natural. E o Governo brasileiro é ridicularizado porque fala do óbvio, a saber, do uso desproporcional da força.
Na essência, tudo isso é a expressão reiterada do “complexo de vira-lata” da maior parte da grande mídia, segundo o qual tudo o que os Estados Unidos fazem é bom, sendo que os Estados Unidos, no caso, fazem tudo o que quer a direita israelense, e nós, subalternos e incompetentes, devemos nos alinhar cegamente a eles independentemente de uma visão crítica da política envolvida. Diante disso, ter uma atitude diplomática independente, generosa e equilibrada é assumida pela grande mídia como irrelevante na busca de humilhar o Governo, quando o que se está tentando fazer é humilhar o Estado e a própria nação.
Estamos diante do maior massacre de inocentes por uma força bruta militar, equipada com os mais modernos recursos tecnológicos do planeta, desde o Holocausto. Há, certo, uma diferença de escala. Qualitativamente, contudo, a câmara de Gaza se equipara à câmara de gás: ninguém pode sair lá de dentro enquanto os foguetes e o fogo da artilharia e dos tanques colhe a vida de crianças e mulheres. Parece que há em tudo uma contabilidade macabra: foram assassinados pelo Hamas três jovens judeus inocentes; a lei de Talião diz olho por olho, mas a lei do atual Israel diz que um judeu assassinado vale no mínimo 300 palestinos mortos, ou mais.
Ah, sim, os extremistas do Hamas! E acaso não há extremistas em Israel? O fato é que cada vez mais esses extremistas comandam o Governo israelense enterrando todo tipo de iniciativa de paz, inclusive os tratados de Oslo, em nome da posse de uma terra invadida, roubada, sob o pretexto de uma herança bíblica que enterra o amoroso Senhor da Misericórdia debaixo do ódio primitivo do Senhor dos Exércitos. Caveat, Israel é o único fator presente no mundo contemporâneo que pode levar o planeta a uma guerra nuclear. Note-se que o pequeno David já não tem fundas, tem armas atômicas!
A diplomacia brasileira talvez seja irrelevante. Junto com a da Turquia, tentou uma alternativa diplomática para resolver o impasse entre os Estados Unidos e o Irã na questão do desenvolvimento do projeto nuclear pacífico iraniano. Os Estados Unidos, insuflados por Israel, mataram a iniciativa que eles próprios estimularam. A razão foi simples: Israel queria uma guerra contra o Irã. Queria repetir o que fez com o Iraque nos anos 80: bombardear as instalações nucleares iranianas. Não foi a prudência que levou os Estados Unidos a tirar o tapete de Israel. Foi o fato de que, do outro lado, havia uma potência nuclear de primeira linha, a Rússia, com respaldo chinês, em apoio ao Irã.
Felizmente já não estamos num mundo unipolar. Se tivéssemos, Israel teria comandado as forças militares norte-americanas no ataque ao Irã apoiado no lobby judaico que, de longe, não distingue entre o que são interesses fundamentalistas da direita  com os interesses legítimos do povo que vive em Israel. Deste, a maioria provavelmente deseja a paz com os palestinos, mesmo que isso significa algum tipo de concessão, sobretudo nos assentamentos que violam a própria lei internacional que criou Israel. Nas mãos dos radicais judeus, contudo, todos estamos em risco: ave, Israel, morituri te salutant!
 
 
 
 

GENOCÍDIO EM GAZA

O silêncio oportunista


Mino Carta, na Revista CartaCapital





Não pergunto aos meus botões em que mundo vivemos, temo a resposta. A crise mundial dispensa maiores apresentações. Moral e intelectual antes que econômica, embora esta confirme aquelas precedentes. Por que a humanidade rendeu-se à religião do deus mercado? Por que aceitou passivamente as leis de uma fé que aproveita a poucos e infelicita os demais?
Às vezes me colhe a sinistra sensação de que já começou uma nova, peculiar Idade Média. O mundo, seduzido pelo chamado avanço tecnológico, vítima de uma globalização dos interesses da minoria, distanciados os homens uns dos outros não somente pelo crescente desequilíbrio social, mas também pela versatilidade da mirabolante internet, não se apercebem do eclipse dos valores e dos princípios, e da ausência de poetas e pensadores.
É nesta moldura que se desenrolam os acontecimentos destes dias a agitarem a política internacional, e também se movem minhas dúvidas e perplexidades em relação aos comportamentos dos donos do poder, das chamadas opiniões públicas e dos sistemas midiáticos. No caso, a mídia nativa confirma apenas a sua insignificância, ao imitar simplesmente os exemplos chegados de fora.
Então vejamos. Por que os restos retorcidos do avião malaio derrubado no céu ucraniano ganham a primazia nas primeiras páginas e na fala sincopada dos locutores, no confronto com os mortos e a devastação na Faixa de Gaza? Não proponho um enigma. Trata-se do resultado da demonização de Putin misturada com o longo alcance do lobby judeu. De certa forma, a queda do avião veio a calhar para os senhores do mundo, sem detrimento da brutal gravidade do fato e a desolação causada pela morte de 298 semelhantes. Serviu, porém, para desviar a atenção, até onde foi possível, de algo muito mais grave para a paz global.
É no Oriente Médio que se decide o futuro do planeta, e isso é do entendimento até do mundo mineral. A questão da Ucrânia é complexa e ameaçadora, mas o império soviético, cuja presença estaria habilitada a precipitar severas complicações, ruiu há 25 anos. O Ocidente, ainda sujeito ao império norte-americano, tende a apresentar Putin como uma espécie de herdeiro tanto da URSS quanto do czar. Não é bem assim, está claro. O defeito do líder russo é sua inteligente independência, em que pesem sua prepotência e eventual ferocidade, e sem falar das preocupações geradas por seu envolvimento na criação de uma nova ordem pelos BRICS. Outra a dimensão da questão médio-oriental, para a qual reflui o efeito dos momentos mais tensos das últimas décadas.

Feridas profundas continuam a sangrar em toda a região, marcada pela progressão do fundamentalismo islâmico, por revoluções em pleno curso, pelos erros das políticas ocidentais, que aliás são seculares. E por guerras fracassadas, por revoltas malogradas, por atrocidades sem conta, por desmandos imperdoáveis. Etc. etc. No centro deste arcabouço instável, sempre à beira do desastre fatal, está Israel, Estado poderosíssimo por força própria e de quem o sustenta, a ocupar, desde o pós-Guerra, uma terra antes habitada por outro povo, conquanto também semita, há cerca de 2 mil anos.
Eu, por exemplo, não sou responsável pelo holocausto. Lamento, mesmo porque ceifou a vida de excelentes amigos dos meus pais, mas não me induz ao remorso, e tanto menos até hoje, quando a invasão da Faixa de Gaza pelas formidáveis tropas israelenses evoca a invasão do Corredor Polonês pelo exército de Hitler em 1º de setembro de 1939, estopim da Segunda Guerra Mundial. O Ocidente neoliberal diz que Tel-Aviv tem direito a se defender contra o terrorismo do Hamas. Já o Hamas sustenta estar em luta pelo resgate da terra usurpada.

Por cima das razões de cada um, a disparidade exorbitante entre as forças não pode deixar de influenciar qualquer juízo, para fortalecer a inequívoca percepção de que de um lado morrem soldados e do outro civis, e muitas crianças, em proporções absolutamente incomparáveis. Estamos diante de uma ofensa irreparável aos Direitos Humanos. Que visa Israel? Eliminar 1,8 milhão de palestinos? Dói demais, na circunstância, a falta de reação de uma porção do mundo que se pretende civilizado e democrático e, de verdade, sucumbe à soberania do dinheiro. Avulta, nesta encenação trágica, a ausência de lideranças, a falta daquele gênero de personagens que já ofereceram espaço à política e a praticaram com competência para assumir o controle da situação e ditar as regras.
Contamos com uma galeria de figuras medíocres, quando não parvas, incapazes de enfrentar a turva realidade para impor um rumo. E isso tudo nesta hora que denigre o gênero humano e denuncia a chegada da nova Idade Média. Louvo a iniciativa da chancelaria brasileira: chama às falas o embaixador israelense e de volta ao País o embaixador brasileiro em Tel-Aviv. Mas o Brasil pode e deve muito mais. Por exemplo, convocar a ONU, como sempre inerte, a condenar o massacre e mostrar às lenientes democracias ocidentais o caminho da razão.

BATER COMO HOMEM E APANHAR COMO DAMA



 
Nova estação eleitoral: candidatos e seus
estilos

Provavelmente os que julgam que a democracia representativa é uma fraude descendem em linha direta, antes, como agora, do 1% privilegiado.
Wanderley Guilherme dos Santos


Os estilos da nova estação eleitoral estão sendo apresentados em pré-lançamento para apreciação do consumidor especializado – os eleitores. Ao contrário dos preços exorbitantes das marcas em evidência destinadas ao 1% endinheirado, a decisão eleitoral é baratíssima: atenção à propaganda, tempo de transporte à seção onde vota e o esforço de apertar alguns botões. E pensar que quando toda essa história começou só aquele 1% desfilava e escolhia ao mesmo tempo, pois o direito de voto custava uma fortuna. Provavelmente os que julgam que a democracia representativa é uma fraude descendem em linha direta, antes, como agora, do 1% privilegiado. Antes, porque eram os fraudadores, hoje porque, com o voto secreto universal e digitalizado, não podem mais sê-lo. Há razões, portanto, para a variedade de estilos em desfile.

O principal candidato oposicionista, senador Aécio Neves, tem adotado a estratégia juvenil de bater como homem e apanhar como dama. Muito comum na adolescência, as ameaças e declarações truculentas transformam-se em apelo aos irmãos mais velhos quando o caldo engrossa. Ao endossar, em primeira edição, a pornofonia vip contra a Presidenta (“colheu o que semeou”, depois retificado), e apoiar o coro agourento dos conservadores históricos sobre as conseqüências de uma derrota futebolística (“ela vai pagar o preço”), vestiu a carapuça black bloque desafiando a Presidenta com grosseria (“ela não pode andar nas ruas”).

Esse é o lado viril da juventude, logo em debandada quando se descobre (e essa foi só a primeira descoberta de um passado controverso, ainda não muito conhecido) que construiu com dinheiro público em fazenda de um tio e onde costuma pousar com jatinhos de amigos ou parentes, não está claro se de uns, outros, ou de ambos. Foi o que bastou para lamentar-se de perseguição quando seria suficiente mostrar a papelada do aeroporto legalmente exigida. Em habitual movimento de defesa buscou abrigo nas referências a opiniões de ministros do Supremo. Quando em vantagem canta de galo e em condições de igualdade foge da raia. 

Candidata a reeleição, Dilma Roussef parece acreditar na excelência do desempenho e na força da verdade. É uma estratégia olímpica cujos resultados só ficarão claros quando começar o horário eleitoral gratuito. Vi alguns filmetes e suponho que aquela narrativa com o entusiasmo burocrático de relatório incomoda até os seus eleitores fiéis, enfadonha depois de um ou dois minutos, quando todas as realizações parecem uma só (que era o quanto bastaria em cada vídeo) e fica patente a ausência de um rosto humano. Nenhum dos engenheiros que planejaram a BR-XXX, nenhum dos trabalhadores que a executaram, nenhum dos empresários por ela beneficiados, nenhum dos moradores dos locais por onde passa. É como a fazenda do tio de Aécio Neves: só tem aeroporto, não aparece ninguém para falar bem do lugar.

Os responsáveis pela campanha governista deixam a impressão de que não distinguem programa de governo de propaganda eleitoral. Formular em campanha o empenho em reforma política e federalista provoca reações contrárias de quem não terá opinião enquanto não souber o que será reformado e como (visto que os conservadores estão loucos por uma reforminha que altere o capítulo sobre direitos sociais da Constituição de 88). Isso é para ser discutido no desempenho do mandato, com o Legislativo, onde estarão representadas todas as correntes da opinião pública, e não baixada como medida provisória, com prazo compulsório de votação (“faça-se uma reforma política”).

Discutir o federalismo brasileiro é matéria urgente, mas não responde, para o eleitor, à acusação direta e concreta de que o governo tem sido mau gestor e corrupto. Parece escapismo, pois não é por aí que a oposição conservadora busca se diferenciar do governo. Até agora, portanto, o estilo da estação, para o governo, é o do discurso da verdade. Claro que alteração nenhuma deve substituir a verdade pela mentira, mas traduzi-la em propaganda para homens e mulheres comuns, isto é, a maioria esmagadora do eleitorado.

A favor do momento diga-se que não deixa de ser um desafogo para os democratas verificarem que a imprensa conservadora tem sido incapaz de modificar a convicção política dos eleitores. As pesquisas, interpretações esdrúxulas à parte, tem revelado cautela e ponderação dos eleitores em sua cuidadosa definição eleitoral. Até aqui, a imprensa conservadora, já impotente para dar um golpe com apoio dos militares, tenta manter seus recursos de chantagem com a tentativa de golpe pela via das estatísticas. Se bem observado, isto é um progresso, resultado de 13 anos de governos trabalhistas. 




(Extraído do blogue CONVERSA AFIADA, de Paulo Henrique Amorim)











UMA LEITURA CORRETA E COMPLETA

O que os números das pesquisas eleitorais também revelam

 
João Feres Júnior(*), no Brasil Debate
Ao contrário do que as manchetes da grande mídia afirmam, os números das intenções de voto, considerando as seis pesquisas feitas pelo Datafolha esse ano, é impressionantemente estático. Isso apesar do ataque sistemático sofrido pelo governo Dilma, acusado de má gestão, desmando e corrupção
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A campanha eleitoral mal começou, mas as análises “meio copo vazio” de Dilma já frequentam a grande mídia há muito tempo. A publicação de pesquisa eleitoral feita pelo Datafolha no último dia 18 foi razão para mais uma enxurrada de leituras desse tipo. Se a comunicação social deve ter uma função pedagógica, é mister mostrar que os números exibidos dão base também a outras interpretações, pelo menos para que o leitor/eleitor possa comparar, pesar e julgar.
Comecemos pelos números das intenções de voto. O quadro geral que transparece, ao tomarmos como um todo as seis pesquisas eleitorais feitas pelo citado instituto, desde meados de fevereiro deste ano, é impressionantemente estático, ao contrário do que as manchetes dão a entender. Não houve mudanças significativas da última pesquisa, coletada nos dias 1 e 2 de julho, para a atual, coletada nos dias 15 e 16 de julho.
Tampouco da penúltima, ou da antepenúltima. Todos os candidatos mantiveram-se dentro da margem de erro, ainda que, há de se notar, o cálculo das margens de erro feito pelos institutos, de 2% a 4%, seja incerto, pois a pesquisa utiliza metodologia de cotas e não puramente probabilística.
Na verdade, ao tomarmos as seis pesquisas em conjunto, notamos que Dilma somente caiu nas intenções de voto, de 44% para 38%, da primeira pesquisa, 19 e 20 de fevereiro, para a segunda, 2 e 3 de abril. Desde então, a candidata tem se mantido em torno dessa marca.
Por seu turno, Aécio Neves somente subiu, de 16% para 20%, da segunda para a terceira pesquisas, feitas nos meses de abril e maio, respectivamente. Desde então tem se mantido estático nos 20%, pesquisa após pesquisa. Eduardo Campos parece, à primeira vista, o que mais variou, pois a curva de seu gráfico pelo menos se mexe, mas sempre dentro da margem de erro.
Começa a série com 9%, em fevereiro, e acaba com 8%, na última pesquisa.
O que esses dados querem dizer? Entre outras coisas, que as preferências dos eleitores não estão mudando rapidamente. Há certa expectativa ou paralisia do eleitorado, o que é compreensível, dado que, no primeiro semestre desse ano, a Copa do Mundo da FIFA ocupou grande parte do noticiário. Esses dados também revelam o tão comentado impacto da Copa do Mundo nas percepções políticas do eleitorado. Na verdade, mais correto seria falar em falta de impacto, pois o que se constata é que o evento não alterou as preferências dos eleitores frente aos candidatos.
Mas isso não se deu em um contexto neutro. Pelo contrário, a grande mídia moveu uma forte campanha contra a organização do evento, culpando o governo federal, quando não Dilma diretamente, por supostas falhas, atrasos, corrupção, promessas não cumpridas e má administração. Tal campanha negativa ecoou fortemente nas mídias internacionais, que também passaram a projetar expectativas de catástrofe para a Copa do Brasil. Esperava-se o fracasso e que esse fracasso fosse cobrado de Dilma.
A Copa foi, contudo, um sucesso, o que aparentemente cancelou os efeitos da campanha negativa da mídia sobre as intenções de voto em Dilma. Outro dado importante a se notar é a rejeição dos candidatos. Aqui, os jornais chamaram bastante atenção para o fato de Dilma ter um índice de rejeição, 35%, que é praticamente o dobro do de Aécio, 17%, e três vezes o de Eduardo Campos, 12%.
Novamente, a informação só vem pela metade, pois o índice de rejeição tem que ser pesado juntamente com o índice de conhecimento que o eleitorado tem do candidato, e esse dado não foi apresentado, ainda que saibamos que o de Dilma, pelo simples fato de ser presidente, é quase 100%, enquanto Aécio e Campos têm índices muito menores.
As conclusões a serem tiradas desse quadro são nada óbvias. Se as coisas continuam mais ou menos da maneira como estão, Dilma teria atingido o teto de sua rejeição, pois o eleitorado já a conhece e já tem alguma opinião formada sobre ela. Já Aécio e Campos têm um caminho pela frente. Ao se tornarem mais conhecidos certamente verão seus índices de rejeição também aumentarem.
Mais uma vez, precisamos levar em consideração o contexto informacional. Até o momento, o governo Dilma e o partido da presidente, o PT, têm sofrido um ataque sistemático da grande mídia, acusados de má gestão, desmando e corrupção, enquanto os candidatos da oposição são tratados de maneira bem mais leniente, quando não francamente simpática. Ou seja, com raríssimas exceções, tudo o que o público de eleitores recebe são notícias ruins sobre o governo, acrescidas de uma cobertura que pinta o País em franca crise econômica e política, a despeito de todas as evidências em contrário.
Compondo a situação, o governo federal tem tido dificuldade em comunicar ao eleitorado notícias positivas de sua gestão e do País como um todo. A despeito do bloqueio midiático, o governo tem em suas mãos instrumentos de comunicação, ainda que limitados, mas essas informações parecem não chegar à população. Talvez embevecido por suas seguidas vitórias eleitorais, o PT também parece ter aberto mão, desde o primeiro governo Lula, de cultivar meios de comunicação que constituam alternativas reais para o grande público. Em suma, do ponto de vista informacional, estamos no pior momento possível para a candidatura da situação.
Isso não quer dizer que as coisas vão necessariamente melhorar para Dilma. Em breve, contudo, sua candidatura terá no horário eleitoral gratuito, no qual contará com muito mais tempo que qualquer oponente, uma chance real de informar os eleitores e assim resistir à avalanche de propaganda negativa da qual é objeto.
É claro que os candidatos da oposição aumentarão o tom das críticas. O mesmo devemos esperar da grande mídia, que tende a repetir o comportamento extremamente militante das eleições passadas. Enfim, entramos no período abertamente político do calendário eleitoral, no qual as máximas maquiavelianas da virtude e da fortuna imperam. O resultado do pleito de 2014 está longe de estar determinado. Vamos ao jogo!




(*)Cientista Político, professor da UERJ







24 julho 2014

UMA PIADA DIGITAL


Getúlio, Lula, as eleições e o Estadão


Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo



Fernão e os demônios
Fernão e os demônios
A boa notícia, para Fernão Lara Mesquita, um dos herdeiros do Estadão, é que nunca um artigo seu repercutiu tanto na internet.
A má é que a repercussão se deu na forma de gargalhadas.
Fernão é, neste momento, uma piada digital.
Merecidamente.
Num texto pomposo e pretensamente profundo, Fernão atribuiu todos os problemas do Brasil a Getúlio Vargas.
Getúlio se matou e entrou para a história em 1954, mas segundo Fernão ele reencarnou em Lula.
Num universo distópico, há um foco de resistência aos dois demônios: São Paulo.
São Paulo, diz Fernão, resistiu primeiro a Getúlio, na fracassada rebelião de 1932. E, mais recentemente, vem resistindo ao PT.
Um capítulo importante dessa saga paulista contra o mal se dará, avisa Fernão, nas eleições de outubro.
Bem, já foi dito que editores ruins fazem mais mal aos jornais que a internet. Antes que a internet varresse a mídia impressa, o Estadão já fora vítima disso, dos maus editores.
Mais especificamente, maus donos, uma vez que os Mesquitas sempre se puseram na condição de jornalistas.
Nos anos 1980, a Folha passou o Estadão muito mais pelos defeitos deste do que por seus próprios méritos.
O Estadão não enxergou a importância do movimento das Diretas Já, e sofreu uma humilhante ultrapassagem sem retorno.
Compare as contribuições de Getúlio e dos Mesquitas, para voltarmos a Fernão.
Getúlio deu o voto para as mulheres. Eliminou o voto de cabresto. Criou leis trabalhistas que civilizaram o ambiente do trabalho no Brasil: limite de jornada, férias, fundo de garantia foram algumas das conquistas.
Estimulou a formação de sindicatos, para que os trabalhadores não ficassem à mercê das empresas. Industrializou o Brasil. Criou a Petrobras.
Também de extrema importância, Getúlio derrotou os paulistas em 1932.
Se São Paulo tivesse vencido, o Brasil retrocederia aos tempos brutalmente arcaicos da República Velha.
Getúlio, numa frase, inaugurou o Brasil moderno.
Mais?
Por coisas assim, os barões da mídia jamais perdoaram Getúlio. Há uma passagem significativa em sua história, contada por seu biógrafo, Lira Neto.
Deposto pela direita em 1945, Getúlio foi se recuperar do desgaste em seu berço, no sul. Recebeu, um dia, jornalistas.
Perguntou a um deles o que achava de um decreto do governo que estipulava um piso para o trabalho dos jornalistas.
O jornalista teceu grandes elogios à medida.
Getúlio então disse que fora exatamente por causa do piso para os jornalistas que os barões da imprensa se bateram tanto para derrubá-lo.
Olhemos agora para o outro lado: as contribuições do Estadão.
A passagem mais marcante dos Mesquitas, na história recente, foi a participação ativa na conspiração que levou à ditadura militar.
Mas, para Fernão, o mal está em Getúlio Vargas, agora reencarnado em Lula.
Para o Estadão, portanto, a luta continua.
Enquanto essa luta épica, sem fim e sem sentido consome a energia do jornal e de seus donos, outras coisas acontecem sem serem notadas.
A passagem do tempo, por exemplo. A mudança de mentalidade das pessoas.
E, nos últimos anos, a internet.
Se você se absorve completamente numa guerra, não consegue administrar outros problemas. Pior: não os vê.
O Estadão está condenado a morrer lutando, ontem, hoje, sempre, contra um fantasma, o de GV – sem enxergar a realidade que vai liquidá-lo.
 
 
 

AÉCIO: UMA CONTRADIÇÃO EM MOVIMENTO



Aécio e sua "bolsa família": parasitismo estatal
para si, liberalismo para os outros


por Luis Carlos da Silva, especial para o Viomundo
 
 
Em várias declarações já ouvimos Aécio dizer que os petistas não podem perder a presidência da República, dentre outros motivos, para não ver cair seu padrão de vida. Provocação barata que ocupa o espaço dos debates estruturais que deveriam presidir uma disputa eleitoral da magnitude desta que temos à frente.
Mas, entremos no clima por ele proposto.
 
Aécio, de fato, não precisa se preocupar com seu padrão de vida. Ganhando ou perdendo eleições. Aliás, nunca se preocupou. Descendente das oligarquias conservadoras mineiras, que foram geradas nas entranhas do Estado, desde o império, ele não tem a menor ideia do que seja empreender na iniciativa privada. Do que seja arriscar em negócios e disputas de mercado. Do que seja encarar uma falência, uma cobrança bancária, uma perda de patrimônio.
 
Pasmem: é esse o candidato que faz apologia do livre mercado, da iniciativa individual como base para a ascensão social e da ideia do “cada um por si” como critério de sobrevivência na selva do capitalismo contemporâneo.
 
Até sua carreira eleitoral tem como fato gerador a agonia terminal do avô, cuja morte “coincidiu” com o dia de Tiradentes . Seu primeiro cargo eletivo é tributário disso: em 1986 ele obteve mais de 200 mil votos para deputado federal sem lastro político próprio. Quatro anos mais tarde, distante do “fato gerador”, ele se reelegeu com magros 42.412 votos.
 
No quadro a seguir temos um diminuto resumo da versão de sua “bolsa família”.
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Reitera-se: trata-se de um “diminuto resumo”. A história de seus avós paternos e maternos é a reprodução integral de como foram formadas as elites mineiras: indispensável vínculo estatal (cargos de confiança no Executivo, cartório e muita influência no Judiciário), formação de patrimônio fundiário à base da incorporação de terras devolutas e estreitas ligações com carreiras parlamentares.
 
O pai, Aécio Cunha, por exemplo, morava no Rio de Janeiro quando,  em 1952 retorna a Belo Horizonte e, com 27 anos de idade, em 1954,  “elegeu-se deputado estadual, pela região do Mucuri e do Médio Jequitinhonha, ainda que pouco conhecesse a região (…)” conforme descrição no Wikipédia. Seus oito mandatos parlamentares nasceram de sua ascendência oligarca. Do avô materno, Tancredo, dispensa-se maiores apresentações. Atípico sobrevivente de várias crises institucionais que levaram presidentes à morte, à deposição e ao exílio, Tancredo Neves sempre esteve na “crista da onda”. Nunca como empresário. Quase sempre como interlocutor confiável dos que quebravam a normalidade democrática.
 
Aécio Neves, por sua vez, era um bon vivant quando passa a secretariar o avô, governador de Minas Gerais, a partir de 1983. Nunca foi empresário, nunca prestou concurso público, nunca chefiou nenhum empreendimento privado. Sua famosa rádio “Arco Íris” foi um presente de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Boa parte de seu patrimônio é herança familiar construída pelo que se relatou anteriormente. O caso do aeroporto do município mineiro de Cláudio é apenas mais uma ponta do iceberg.
 
Enfim, ele é isso: um produto estatal que prega liberalismo, competição, livre mercado… para os outros. Uma contradição em movimento. Herdeiro, portanto, de uma típica “bolsa família”; só que orientada para poucos.
 
Aliás, esse parasitismo estatal é característico da maior parte das elites brasileiras. Paradoxal é defenderem os valores neoliberais.
 
 
 
Luis Carlos da Silva é sociólogo e assessor do bloco Minas Sem Censura
 




O DEBATE É ESTE

A PERGUNTA DE 2014

IBOPE confirma vantagem de Dilma e mostra dificuldade da oposição para crescer

 
Paulo Moreira Leite, em seu blogue

Os números do Ibope divulgados ontem mostram que Dilma Rousseff e Aécio Neves permanecem no mesmo patamar anterior a Copa, em 7 de junho: 38% e 22% das intenções de voto, respectivamente.
Quem caiu foi Eduardo Campos, rebaixado de 13% para 8%.
 A maioria dos analistas apressou-se em dizer que estes números mostram que a Copa das Copas não trouxe benefícios para Dilma. É uma tentativa de transformar uma derrota em vitória. 
Explico. O que a oposição pretendia – e as bolas de Cristal da mídia sobre a Copa refletiam isso – era para arrancar eleitores do governo. Apostando numa profecia que se revelou um fiasco histórico, achava inevitável que Dilma  saísse da Copa menor do que entrou.
Mas Dilma permanece  do mesmo tamanho  e os adversários não cresceram. O terceiro colocado até diminuiu. Quem você acha que ganhou?
Quem tem tamanho para jogar na defesa, sabendo que irá ganhar se impedir ataques adversários. Este é o retrato político que o Ibope desenhou. Não é uma surpresa. 
O sociólogo Antônio Lavareda, insuspeito de simpatias petistas, criou o Índice Band, que trabalha com votos válidos, universo que exclui nulos e brancos, de quem já resolveu em quem irá votar em 5 de outubro. O resultado é o seguinte:
50% para Dilma
27% para Aécio
11% para Eduardo Campos
4% para o pastor Everaldo
E só.
Isso quer dizer que se as eleições fossem hoje, Dilma levava no primeiro turno por 50% a 42% sobre o conjunto dos adversários -- muito além de qualquer  margem de erro.
Você pode argumentar que os “votos válidos” irão aumentar até o dia da eleição – e isso é verdade.  Pode até calcular que nos próximos levantamentos, os adversários de Dilma irão ganhar num ritmo maior do que o dela – é possível, até porque ela já atingiu um bom tamanho, conquistou a metade dos votos de quem já sabe em que vai votar.
 Mas o retrato do momento, a eleição real, está aqui. Lavareda construiu o Índice Band fazendo uma média dos números dos principais institutos de pesquisa. É um índice válido, cada vez mais usado, por exemplo, em eleições norte-americanas. Tem um grau de confiança maior, mas não é infalível, evidentemente. Sua vantagem é que  ajuda a evitar que institutos que têm um viés – político, regional, ou qualquer outro – possam contaminar o resultado final.  A desvantagem é que, trabalhando com vários números, de datas diferentes, pode se mostrar mais lento para apontar tendências e mudanças de ultima hora.
O dado importante é que apesar de toda torcida Aécio Neves e Eduardo Campos tem caminhado bem devagar.
Compare com 2010. Em fevereiro daquele ano, quando já não podia ser chamada de poste,  Dilma  perdia de 28% a 35% para José Serra. 
Mas em 23 de junho de 2010, a data em que o último Ibope foi fechado, Dilma já estava na dianteira, cravou 40% a 35% -- e não parou mais. 
Em julho de 2014, com um mês a menos até a votação,  Dilma lidera as pesquisas e nenhum candidato representa como uma ameaça próxima. Aécio segue firme em segundo e Eduardo Campos ainda não chegou ao patamar que Marina Silva exibia em 2010, no mesmo período. Já em abril ela havia atingido 9 pontos.
Essa situação traduz um aspecto importante. A campanha de 2014 está longe de expressar um movimento irresistível contra o governo. Dilma entrou como favorita e segue nesta situação. Em 2010, mesmo em desvantagem numérica para Serra, nenhum observador atento deixaria de apontar a candidata do PT como provável vitoriosa.  
Ainda assim, é razoável avaliar que o condomínio Lula-Dilma enfrenta, em 2014, a mais difícil disputa eleitoral em doze anos.  
A eleição ocorre em ambiente político muito diferente.
Nem a primeira vitória de Lula, em 2002, quando o mercado financeiro ameaçou jogar o país no precipício como forma de terrorismo eleitoral, ocorreu num ambiente tão hostil e difícil.
Em 2002, um executivo do Goldman Sachs, um dos principais bancos de investimento do mundo, chegou a criar o Lulômetro, instrumento que servia para elevar o pânico junto aos eleitores de classe média. George Soros, um dos maiores  especuladores do planeta, chegou a dar declarações de espírito colonial intimando o eleitorado brasileiro a votar em José Serra.
Naquela eleição, no entanto, aceitava-se a vitória de Lula como simples evento democrático: é natural que, vez por outra, ocorra uma alternância no poder. Mas era uma visão formal. Não se imaginava que o governo vitorioso em 2002 fosse implementar um conjunto de mudanças em maior profundidade, que permitiram mais duas vitórias consecutivas e a possiblidade de entrar com uma candidatura favorita 12 anos depois.
 Em 2014, o Lulômetro deixou de ser trabalho de uma instituição. A unidade entre a oposição e o grande poder econômico tornou-se explícita e abrangente, o que explica movimentos da Bolsa, que levantam e derrubam - artificialmente - os índices sempre que aparece uma novidade favorável a oposição. Se estivéssemos num ambiente político mais sério, plural, com debates consistentes, essas altas e baixas da Bolsa deveriam prejudicar a oposição. Pois seriam vistos como aquilo que são: prova de que ela faz a alegria dos especuladores, investidores que não geram um posto de trabalho, nem pavimentam o futuro do país, mas promovem um cassino onde a sociedade sempre perde e seus proprietários sempre ganham, como explicou o Premio Nobel Joseph Stiglitz ao falar do colapso de 2008.
São operações de valor 100% especulativo, já que não há a mais remota razão plausível para se imaginar que a vida dos brasileiros – nem das empresas com papéis na Bolsa, a começar pela Petrobrás, bussola dos investimentos no país  -- pode ficar melhor em caso de uma vitória dos adversários. Essa turma é contra a Petrobrás antes dela ter sido criada. Seus avôs e bisavôs políticos trabalharam pelo suicídio de Vargas, seu fundador, antes que ela começasse a explorar petróleo para valer no país.  
O lugar de Dilma se explica por um motivo fácil de entender. No retrospecto, em doze anos a vida da maioria da população tornou-se reconhecidamente melhor. Na perspectiva dos próximos quatro anos, não se vê uma proposta dos adversários capaz de proteger as conquistas obtidas, muito menos ampliar o que já foi feito. Depois de fazer uma única afirmação consistente sobre o rumo de seu eventual governo – a aplicar “medidas impopulares” – Aécio Neves preferiu manter-se em conveniente silêncio a respeito de seus planos para o país. 
Mas é este o ponto central da eleição, como explica o professor Fabiano Santos, em coluna recente no Valor Econômico:  
 “Há algo de novo no ar,” diz ele, comparando 2014 com os pleitos anteriores. “Não se percebia, no contexto do segundo mandato de Lula, o quanto havia de potencialmente conflitivo naquele modelo de crescimento, baseado em políticas de inclusão social. A economia crescia, todos ganhavam. O contexto mudou. Agora, perdas terão de ser impostas no curto prazo para que ganhos sejam retomados em bases mais seguras e promissoras no futuro. Quem pagará a conta?” pergunta Fabiano Santos.
Esta é a pergunta. Mesmo com a inflação em torno de 6%, e um crescimento fraco, ainda que real, o governo tem conseguido manter a opção que lhe permitiu chegar até aqui – e é isso que explica os números de Dilma.
Como explicou Ricardo Berzoini em entrevista para Carolina Oms, da revista Dinheiro:
 “O governo busca o centro da meta, mas há duas maneiras de se tratar a meta da inflação. Uma é tratar como objetivo único da economia. Outra é tratar a meta combinada com outros objetivos como emprego, renda dos trabalhadores, crescimento econômico, investimento público e privado. Se o governo pudesse trazer a inflação para 4,5% ao ano, traria, mas temos uma série de pressões inflacionárias. Se você usar a política monetária de maneira demasiada, vai provocar uma recessão. É importante ter um olho na inflação e outro na geração de emprego e renda. A inflação incomoda os trabalhadores. Mas, para o trabalhador, pior do que inflação é desemprego alto e arrocho salarial.”
 O debate é este.