29 maio 2014

MINORIA TIRANIZANDO A MAIORIA



O verdadeiro discurso do medo




Wanderley Guilherme dos Santos, na Agência Carta Maior
Arquivo


Também seguimos inseguros, os empenhados existencialmente nesse fluxo histórico de espetacular transformação da comunidade brasileira. Também seguem meio desorientados os que apostaram na capacidade de um punhado de políticos de boa cepa ensinar ao país que é possível perseguir uma sociedade justa, não obstante os entulhos de um passado oligarca e suas reencarnações tatibitati. Mas incomoda vê-los hesitar diante das vociferações dos antidemocratas de todas as cores. A imagem de meia dúzia de desatinados, entre os quais índios sem teto ou sem oca, expostos a selfies na marquise do Congresso não prenuncia nada engraçado. Muito menos folclóricos ainda são os gigantescos engarrafamentos castigando a população que retorna do trabalho, à conta da intimidação promovida por uns poucos buldogues ameaçadores, fora da linha sindical. São movimentos de carregação aproveitados, bandeiras à vista, por legendas partidárias sem expressão e sem voto, desafio da força bruta ocasional à tolerância democrática.

A democracia é, por certo, um sistema político que garante voz a quem deseja acabar com ela, mas não é um arranjo institucional de espinhela caída a permitir ações que constrangem a maioria da população. O conhecido e histórico oportunismo de certos grupos sociais – trabalhadores em transportes, especialmente de massas, e empregados em saúde pública – e de rótulos partidários sem energia própria podem, parasitando a inércia das instituições legítimas e com divulgação garantida, persuadir a maioria não organizada dos cidadãos que são eles os minoritários. Imprensados entre a balbúrdia com proteção jornalística e o silêncio governamental, ficam os trabalhadores em dúvida sobre se a melhoria em suas condições de vida não constitui imerecida exceção num país aparentemente em ruínas.

Quem conhece o todo e não compartilha informação com os beneficiados comete grave erro de propaganda política. Faz parte da obrigação governamental não apenas fazer, mas fazer saber. Em 27 de maio último, por exemplo, o Senado aprovou proposta tornando legal a expropriação de empresas que explorem trabalho escravo. Não há em nenhum lugar do mundo legislação semelhante. Tal como o programa bolsa-família, essa legislação será em breve copiada por outros países, pois o trabalho escravo não é monopólio de países pobres. Contudo, notícia de tal importância foi relegada a páginas remotas dos diários ou nem mesmo registrada. Do mesmo modo, o imenso planejamento das benfeitorias que serão deixadas pela Copa de futebol, muitas das quais já operando, foi até aqui esmagado por uma das mais estúpidas campanhas jamais patrocinada pelo conservadorismo oposicionista e uisquerdóides de todos os tempos. Pois vai ter Copa, sim, assegurada pela maioria real do país e apesar do paralisante acidente vascular do governo.

Minorias têm direitos, mas não podem ter o poder de subjugar a maioria. Tratá-la como maioria é traição institucional e política. A população trabalhadora tem direito a exigir transportes suficientes e em boas condições, mas previamente tem o direito constitucional de ir e vir. Conta-se que, na China pré-conquista do poder, o Partido Comunista organizava greve de bondes fazendo os transportes rodarem gratuitamente. Não li que jamais os incendiasse e obrigasse os trabalhadores seguirem a pé para suas casas. Já no Chile, o primeiro ato da derrubada de Salvador Allende desenrolou-se com uma paralisação de transportes seguida de um lock-out do comércio de alimentos. Não conheço tratado de política em que tais movimentos prenunciem avanços democráticos. Conheço histórias em que os desfechos foram tiranias longevas.

Há razão para a ansiedade de parte da população e para o desejo de mudança. Já não é tão claro, apesar de destemidos intérpretes e fora os itens costumeiros de melhor transporte, saúde, educação e segurança, o que deseja a significativa maioria da população. Pelo que costuma responder sobre a difusão da violência, o anarquismo sem rumo dos blaquiblocs e aparentados, esplendidamente repelidos, o que a maioria deseja é mudar a sociedade. É importante que as autoridades meditem sobre isso, não se entreguem às interpretações velhacas e tragam segurança jurídica e existencial à maioria. São pagas para isso.


Créditos da foto: Arquivo








27 maio 2014

OS EMPACADOS

As particularidades da eleição


Marcos Coimbra, na Revista CartaCapital




Andamos um bom pedaço de 2014 e a eleição de outubro está a apenas quatro meses. Como a Copa do Mundo vai durar cerca de 60 dias (o período de realização somado a uma quinzena antes e outra depois), chegaremos a ela antes de nos darmos conta.
As últimas pesquisas mostraram queda na avaliação positiva do governo federal e redução nas intenções de voto na presidenta. Dilma Rousseff busca a reeleição e seu trabalho é escrutinado diariamente pelo eleitorado, que precisa decidir se ela merece permanecer no cargo. Os insatisfeitos querem sua saída.
Um de seus antecessores passou por algo parecido em momento análogo. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso tentava novo mandato, direito que adquiriu à custa de pesados “argumentos” e muitos “entendimentos” no Congresso.
A certa altura daquele ano, parecia ter feito péssimo negócio. No fim de maio, segundo dados do Datafolha, seu governo era aprovado por 31% dos entrevistados, o que se refletia nas intenções de voto: empatava com Lula e estava em queda, enquanto a trajetória do petista era de ascensão. Apesar do Plano Real ainda jovem, da maciça propaganda governamental e do apoio da mídia corporativa, FHC estava mal.
A propaganda eleitoral o salvou. Apresentou realizações que a população desconhecia (algo fácil para qualquer governante), repaginou-se como personagem (ficou mais simpático aos olhos do eleitorado que, com razão, o considerava “elitista”) e se aproveitou do criativo slogan inventado por seus marqueteiros: “O homem que derrotou a inflação vai derrotar o desemprego”. Nada havia de verdade na formulação, como a população logo descobriria, mas foi suficiente para despertar esperanças. Sem sonhos não se ganham eleições. Para uma coisa a experiência serviu: ensinou a todos como vencer em condições parecidas.
As pesquisas feitas desde o segundo semestre de 2013 mostram um quadro surpreendente. As candidaturas de oposição permanecem fundamentalmente imóveis, mesmo diante das oscilações negativas do governo e da presidenta. Uma característica inédita das eleições deste ano.

De setembro de 2013 para cá, Aécio Neves, do PSDB, foi de 20% para… 20%, com pequenas variações no intervalo. Ao longo de nove meses, mexeu-se um pouco para a frente, um pouco para trás, e acabou no mesmo lugar.
Eduardo Campos, do PSB, fez igual, embora em patamar inferior. No período, passou de 10% para… 10%. Ele e o tucano disputam o campeonato da estabilidade, ou, mais exatamente, do não crescimento.
É interessante comparar o ocorrido em 2002 e o cenário atual. Especialmente por aquela ter sido uma genuína eleição de mudança, como alguns pensam que esta será. Nela, inexistiu estagnação igual.
De janeiro a maio daquele ano, o tucano José Serra viu sua intenção de voto multiplicar-se por quatro. Estava com 7% e foi a 28%, segundo o Datafolha. Depois caiu, mais perto da eleição. Anthony Garotinho, então no PSB, foi de 11% a 22% e assumiu o segundo lugar, atrás apenas de Lula. Perdeu, porém, o posto. Ciro Gomes, à época no PPS, começou o ano em quarto, com menos de 10%, e suplantou seus competidores mais próximos em julho. Chegou em 30%, a encostar em Lula, para terminar aniquilado por Serra.
Todos, salvo Lula, eram “desconhecidos”, mas a cada janela de mídia partidária cresceram em saltos expressivos, reflexo dos movimentos de um eleitorado que ativamente buscava opções. Que queria conhecer os nomes de quem disputava a Presidência e se expunha à comunicação política.
No fundamental, as regras não mudaram desde aquele tempo e os candidatos têm hoje as mesmas oportunidades de acesso ao eleitor (se não forem maiores). Por que Aécio Neves, Eduardo Campos e os nanicos mal se mexem?
A imobilidade das candidaturas de oposição pode derivar da lamentável e tola campanha de descrédito do sistema político em curso, patrocinada pela mídia conservadora e seus heróis, alguns encastelados no Judiciário. Pode decorrer da desconfiança básica do eleitor popular em relação aos nomes oferecidos pela oposição. Pode derivar de uma parte do País estar em compasso de espera, aguardando os acontecimentos dos próximos dias, em particular a Copa do Mundo.
A eleição deste ano é de fato estranha,  a mais parada desde o fim da ditadura. Pela lógica, esse comportamento deve beneficiar quem representa a continuidade.
 
 

DISTRIBUIÇÃO DE RENDA

Por que a elite brasileira odeia tanto o
salário mínimo


João Sicsú, na Revista Fórum


A partir de 2004/05, houve uma grande melhora a favor dos trabalhadores no perfil distributivo da renda. O Brasil mudou a sua estrutura econômica. Construiu um enorme mercado de consumo para as massas trabalhadoras. Mais de 40 milhões de trabalhadores se tornaram consumidores regulares.
Os principais responsáveis por essa mudança distributiva e pela ampliação da democracia econômica foram: o aumento do salário mínimo e a redução do desemprego. Nos últimos anos, o salário mínimo foi valorizado em mais de 70% em termos reais e o desemprego foi reduzido em mais de 50%.
A elite brasileira não suportou. Seu DNA é de direita e conservador. Inventaram dois argumentos, um para cada objetivo, mas ambos conectados na narrativa da oposição – seja aquela representada pela mídia das famílias (Globo, Veja, Folha de S. Paulo e Estadão), seja aquela representada pelo seu braço político, os partidos de oposição (o PSDB e o PSB/Rede).
Para combater a valorização do salário mínimo, argumentam que estaria alto demais e que o custo da folha salarial estaria retirando competitividade da economia, isto é, retiraria capacidade de investir das empresas. É uma visão interessada e ideológica, não tem base nas relações econômicas reais e nas experiências históricas.
Salários não representam apenas custo, representam principalmente demanda, capacidade de compra, que é o que estimula o investimento. Sem a pressão do consumo “batendo na porta” e a tensão da baixa de estoques, os empresários não investem. Em verdade, o que os empresários não suportam não é a ausência de possibilidades de investimento (que, aliás, existem) – de fato, o que a elite não suporta é enfrentar engarrafamentos onde suas BMW’s ficam paradas por horas ao lado de milhares de carros populares… ao mesmo tempo, suas empregadas domésticas viajam no mesmo avião que viajam as senhoras esposas dos empresários.
Para combater a redução do desemprego, levantam a bandeira do combate à inflação, que estaria descontrolada. Argumentam que há muito consumo e que isso estaria estimulando reajustes de preços. Novamente, um argumento desconectado da vida real. A inflação de hoje está no mesmo patamar dos últimos dez anos. Aliás, ao final de 2013, o Brasil completou a marca de dez anos de inflação dentro das metas estabelecidas. Querem mais desemprego simplesmente para colocar os trabalhadores de joelho nas negociações salariais. Esta é a verdade – nada a ver com combate à inflação.
O investimento não tem crescido de forma satisfatória devido ao clima geral de pessimismo econômico criado pela mídia das famílias e por erros de política econômica cometidos pelo governo. Não tem nada a ver com o valor do salário mínimo. Aliás, existe financiamento abundante e com taxas de juros reais irrisórias no BNDES para a compra de máquinas, equipamentos e construção empresarial. E, para além disso, a inflação que é moderada está sob controle e tem sido resultado de pressões que vem basicamente de variações de preços dos alimentos – decorrentes de choques climáticos. Não há um excesso de compras generalizado, apesar da democratização do acesso a bens de consumo.
O que é cristalino é que as elites (empresarial, banqueira e midiática) não aceitam que a participação das rendas do trabalho tenha, nos últimos anos, aumentado tanto na composição do PIB, tal como mostra o gráfico abaixo. O gráfico é da tese de doutorado de João Hallak Neto, defendida recentemente no Instituto de Economia da UFRJ, intitulada A Distribuição Funcional da Renda e a Economia não Observada no Âmbito do Sistema de Contas Nacionais do Brasil.
renda trabalho PIB
A consequência direta é que a participação no PIB das rendas do capital tem diminuído. Contudo, devemos reconhecer que o nível de participação das rendas do trabalho ainda é baixo. Mas o que assusta a elite é a trajetória constituída a partir de 2004-05. Assusta sim porque a elite é conservadora e de direita. É de direita porque quer manter privilégios a partir da concentração da renda e da injustiça social. A elite também é mentirosa e perigosa porque inventa argumentos relacionados ao controle da inflação e à necessidade de estímulo ao crescimento/investimento que não estão conectados com o que dizem, mas sim com o que sentem: querem a manutenção do seu poderio econômico e financeiro às custas da concentração da renda.
 
 
 

O BRASIL NÃO MERECE ESSE RETROCESSO

O avanço cultural e eleitoral da direita


Theófilo Rodrigues, no Jornal Correio do Brasil



Aécio Neves (C) tem um dos planos econômicos mais conservadores já apresentados aos brasileiros nas últimas décadas
Aécio Neves (C) tem um dos planos econômicos mais conservadores já apresentados aos brasileiros nas últimas décadas
Neste domingo o povo europeu foi para as urnas. Diversos países realizaram eleições para escolher seus representantes para o Parlamento Europeu. Além disso a Ucrânia elegeu seu novo presidente. O resultado foi um verdadeiro balde de água fria para os cosmopolitas e internacionalistas de todo o mundo. A vitória da direita anti-imigrantes foi generalizada no Parlamento Europeu enquanto um bilionário assumiu a presidência da Ucrânia. Também no domingo ocorreram eleições municipais na Venezuela onde candidatas anti-chavistas venceram. Mas o que tudo isso significa para o Brasil?
Na França o partido da extrema-direita, Frente Nacional, foi o maior vitorioso da eleição para o Parlamento Europeu que ocorreu neste domingo. O partido de Jean Marie Le Pen e de sua filha Marine Le Pen alcançou 25% dos votos dos franceses ampliando a voz da xenofobia e do racismo no país. Para os desavisados, Le Pen é aquele que disse em recente comício que a solução para o fim da imigração na Europa seria o mortal vírus africano Ebola. “O ‘Sr. Ébola’ é capaz de resolver tudo isso em três meses”, afirmou um sombrio Le Pen. Gente finíssima. O partido conservador UMP ficou em segundo lugar com 20% dos votos, enquanto o Partido Socialista, do presidente François Hollande, em terceiro com 14%. O que mais impressionou foi o alto nível de abstenção que passou de 57%.
Na Alemanha, o partido conservador CDU, de Angela Merkel, venceu a eleição para o Parlamento Europeu mais uma vez. Contudo, o dado mais relevante está no fato de pela primeira vez, o partido neonazista alemão NPD ter eleito um representante para o Parlamento Europeu.
Na Inglaterra o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), de extrema direita, liderado por Nigel Farage e que se posiciona abertamente contra a imigração também foi o vitorioso na eleição para o Parlamento Europeu. Isso num país que já é dirigido pelo Partido Conservador do primeiro-ministro David Cameron. Já na Dinamarca foi o anti-imigrantes Partido do Povo Dinamarques o grande vitorioso.
Na Ucrânia o magnata Petro Poroshenko, conhecido como o “rei do chocolate”, acabou de vencer a eleição presidencial do país. Em sua primeira declaração pública disse que irá governar o país como se fosse sua empresa, a Roshen. O que isso quer dizer ainda não se sabe.
Do lado de cá do Atlântico a Venezuela realizou também neste domingo eleições em dois municípios. Candidatas da oposição antichavista, Patricia de Ceballos e Rosa de Scarano conquistaram as prefeituras de San Cristóbal, capital do estado de Táchira, e de San Diego, em Carabobo, respectivamente. Patricia de Ceballos ganhou a prefeitura de San Cristóbal com 73,4% dos votos, enquanto Rosa de Scarano conquistou 87,8% dos votos em San Diego.
O Brasil não parece ser um caso diferente do que vem ocorrendo no resto do mundo. Não que a direita esteja ganhando eleições por aqui nos últimos anos. Todavia, suas ideias vem ocupando certo espaço no imaginário social e político.
O principal candidato do campo conservador para as eleições que ocorrerão em outubro deste ano, Aécio Neves, do PSDB, afirma publicamente que está “preparado para medidas impopulares”. Seu principal consultor econômico, Armínio Fraga, em entrevista para o jornal Estado de São Paulo mencionou quais serão as balizas do programa econômico do PSDB: (1) para reduzir os custos do governo será necessário baixar o salário mínimo que está muito alto; (2) para baixar a inflação terá que aumentar a taxa de desemprego. Tudo isso sob a elegante insígnia de “choque de gestão”.
No entanto, não é apenas na dimensão eleitoral que a direita vem arregaçando suas mangas. No espectro simbólico e cultural o preconceito truculento e reacionário também vem crescendo. Após alguns comentários recheados de ódio feitos pela comentarista do Jornal do SBT, Rachel Sheherazade, uma série de crimes de vingança e linchamento começaram a ocorrer por todo o país, como o caso da jovem que foi agredida até a morte no interior de São Paulo. Papel tenebroso televisionado absurdamente por uma concessão pública e que encontra sócios em grande parte dos meios de comunicação.
O Brasil que na luz do dia vem retirando milhares de pessoas da condição da pobreza, desenvolvendo suas forças produtivas, redistribuindo renda e avançando nas relações sociais de produção não pode perder para o Brasil da minoria obscura que quer o ódio elitista e a volta do passado. O Brasil não merece tal retrocesso. Mas isso depende da nossa capacidade criativa de construir e vocalizar um projeto coletivo de futuro, feito de baixo para cima e alicerçado na solidariedade. Como diria Martin Luther King, “o que me preocupa não é o grito dos maus, mas sim o silêncio dos bons”.
Theófilo Rodrigues é mestre em Ciência Política pela UFF e doutorando em Ciências Sociais pela PUC-Rio.
 
 

25 maio 2014

DILMA VOLTA A SUBIR

O papel decisivo de Lula na
campanha






Antonio Lassance, na Agência Carta Maior
Ricardo Stuckert


A última pesquisa Ibope (maio 2014) mostrou que Dilma voltou a crescer, continua tendo chances de vitória no primeiro turno e, se houver segundo turno, enfrentaria um candidato "com o cheiro da derrota" - para usarmos a expressão de Marina Silva que, pelas pesquisas, serve tanto para Aécio quanto para a sua candidatura do PSB, com Eduardo Campos.

O mais significativo resultado foi que Dilma demonstrou ter reagido ao arrastão partidário-midiático que se fez contra ela e interrompeu a tendência de queda que a acompanhava até então.

Sua reação começou com o pronunciamento para o 1° de maio. A defesa da política social como eixo do desenvolvimento voltou a falar mais alto no discurso presidencial do que a pauta reativa. Depois, as aparições no programa partidário do PT e a propaganda dos "Fantasmas do Passado"  também ajudaram.

A pauta partidário-midiática está se consolidando em torno de quatro pontos cardeais para a campanha: Copa, inflação, Petrobrás e antipetismo.

De agora até as eleições, além de redirecionar o eixo do debate, o desafio da presidenta é administrar bem os riscos em torno de cada uma dessas questões. Isso equilibraria o jogo.

Com a política, os políticos e os partidos em baixa na visão do eleitorado, a campanha deste ano tende a ser uma disputa entre rejeições - fator que deve pesar em maior medida agora que nas anteriores.

Mais que Dilma, é Lula quem deve partir para o ataque e fazer a diferenciação com os outros candidatos.

O papel de Dilma é o de assumir compromissos com mudanças, apontar rumos e dizer o que e como pretende fazer diferente. Mostrar que pode realizar um governo melhor, como Lula conseguiu, em seu segundo mandato, após superar as dificuldades de seus primeiros quatro anos, é um bom mote para a própria Dilma.

Será de Lula o papel de mostrar quem são os outros. Não necessariamente falar mal dos demais candidatos - isso também -, mas deixar claro quem e o que eles representam.

Em maio, Lula já se mostrou um fator decisivo. O mês marcou o início de uma maior exposição do ex-presidente. Ele viajou mais, falou mais, cutucou mais os adversários. Reforçou que a decisão do PT por Dilma está tomada e não se fala mais nisso. Limpou a área.

A partir do final de junho, quando a candidatura Dilma estiver sacramentada, Lula terá que reeditar quase o mesmo papel que cumpriu em 2010, ou seja, colocar o modo lulista de de fazer política em campo e mostrar que ainda há mais por fazer, e que Dilma é a mais qualificada dentre os candidatos.

É tudo o que Dilma precisa e a oposição não quer: que esta seja, de novo, uma campanha lulista.

A tarefa de Lula não será apenas a de ser o grande puxador de votos de Dilma e dos demais candidatos do PT. Será a de favorecer que a candidatura Dilma adquira um caráter diferente para um segundo mandato.

Diferentemente de 2010, Lula não está no cargo de presidente e o quadro conjuntural é outro, bem mais complicado.

Mesmo assim, o tempo passa, o tempo voa e Lula continua sendo essa figura decisiva na política nacional, não apenas na hora de conquistar votos, mas para empurrar o País na direção de mudanças.


(*) Antonio Lassance é cientista político.
 

ENGANANDO O ELEITOR

A GUERRA CONTRA A COPA

Depois de combater políticas de bem-estar, nossos dinossauros escondem números reais e usam fantasia social

 
 
Paulo Moreira Leite, em seu blogue

 
Na medida em que dados concretos começam a ser divulgados, começa a ficar claro que a guerra contra a Copa é expressão de um delírio conservador que recebe, acessoriamente, o apoio ruidoso de uma retórica de ultra-esquerda – bastante comum em situações políticas como a atual.
 Alguns números.
A sugestão de que os estádios de futebol tiveram reajustes e sobrepreços excessivos não resiste a uma matemática contábil. A inflação acumulada do país, no período, chegou a 40%. A alta média dos estádios ficou em 36%. Num país que convive com metas inflacionárias como política oficial, reajustes desse tipo são parte natural da paisagem dos investimentos públicos e privados.
  Imaginar que o futebol retirou dinheiro da Educação é um acinte. Em 2007, quando o país foi confirmado como sede da Copa, o orçamento do Ministério da Educação consumia R$ 50,4 bilhões. Em 2014, a conta é de R$ 112,3 bilhões – mais que o dobro, em valores deflacionados.
   Os gastos totais com a Copa, somando empréstimos públicos, privados, investimentos estaduais e municipais, chegam a R$ 26,7 bilhões.
    Não é pouco dinheiro, convenhamos. Mas é menos, por exemplo, que metade do patrimonio da família Marinho, dona da TV Globo, segundo a revista Forbes. Em outra conta: num país com PIB de R$ 4,5 trilhões, os R$ 26 bi continuam  sendo um bom dinheiro mas não vamos perder a perspectiva dos números. 
Agora, algumas ideias.
É claro que toda pessoa tem direito de ser contra a realização da Copa no Brasil.
Em 2007  levantei críticas neste espaço – como qualquer pessoa, interessada na arqueologia da internet, poderá comprovar.
Sete anos depois, essa discussão está fora de lugar. Depois da crise de 2008, a maior do capitalismo mundial em 85 anos, não é possível ignorar o lugar da Copa no estimulo a investimentos realizados no país. Os trabalhos da Copa garantem um acréscimo anual de 0,4% no PIB brasileiro. Também ajudam a criar 3,6 milhões de empregos. Talvez não seja a melhor saída. Nem a mais duradoura. Mas cabe lembrar que, sem alternativas, que jamais foram apresentadas, as pessoas não tem o que comer nem o que vestir, não é mesmo? Do ponto de vista dessas pessoas, a Copa já é uma vitória, ainda que parcial, beneficiando a população mais pobre. Ou desemprego no orçamento dos outros não arde?
Além de sugerir medidas de austeridade, que afundaram a Europa, alguém apareceu com ideias mais adequadas, socialmente aceitáveis? 

A campanha contra a Copa é antiga. Se você fizer a arqueologia de seus críticos, irá encontrar declarações solenes de que o governo brasileiro deveria render-se definitivamente a supostas  mediocridades nacionais e devolver a Copa para a FIFA. O argumento, na época, é que nem os estádios ficariam prontos. Sem comentários, não é mesmo?
O debate seguinte foi outro. Nossos dinossauros se tornaram sociais – e foi para isso que a aliança com porta-vozes de uma retórica de ultra-esquerda se tornou necessária.
Repare: a mesma turma que em 2007 – o ano em que o Brasil foi escolhido como país-sede --derrubou a CPMF, aquele imposto semi-invisível que garantia verbas para a saúde pública, resolveu pedir dinheiro para postos de saúde como argumento para combater a Copa.
Sem ruborizar, teve a mesma reação diante do programa Mais Médicos.
   A tecnologia política é conhecida. Depois de negar recursos que poderiam, de forma consistente e duradoura, promover uma mudança real na saúde pública, vamos à rua pedir hospitais padrão-FIFA.
   Com todo respeito pela população que dá duro na fila dos hospitais públicos – e também pelos que são ludibriados regularmente pelos planos privados – cabe perguntar: quem queremos enganar com isso?
    Quem está falando de indignação real? Quem joga na hipocrisia total?
 
A resposta virá em outubro. Até lá, o que se quer é enganar o eleitor.  
 
 

REGRAS

Cerco inútil ao caixa 2


Maurício Dias, na Revista CartaCapital





Entra ano, sai ano, as regras da competição eleitoral são mudadas no Brasil. Tudo é feito apoiado em discurso sobre a moralidade do pleito. As regras têm como objetivo criar dificuldade para a circulação do dinheiro, seja o legal, seja o clandestino, que alimenta o nebuloso caixa 2, do qual se servem praticamente quase todos os partidos políticos e, como se serviram, comprovadamente, em eleições recentes o PT, o PSDB e o DEM.
O foco das propostas de mudança em 2014 tem sido, principalmente, o dinheiro. Tentam bani-lo do processo eleitoral, como se fosse possível, em nome da sanção moral incentivada pelo julgamento dos “mensalões” do PT e do PSDB. Esse último tardiamente apurado e, hoje, politicamente confinado em Minas Gerais, onde o julgamento avança no ritmo ditado por uma parelha de jabutis.
Em velocidade mais ou menos semelhante, está no Supremo Tribunal Federal o julgamento de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) requerida pela Ordem dos Advogados do Brasil, cujo objetivo é acabar com as doações de empresas nas eleições.
Apresentada em setembro de 2011, ela começou uma caminhada vitoriosa no plenário do Supremo, mas, de repente, parou. O ministro Gilmar Mendes pediu vista e adiou o fim do julgamento já com o placar de 6 votos favoráveis à proposta da OAB. Mendes justifica sua decisão demonstrando muita intimidade com o funcionamento do sistema. Para ele, as doações já estão sendo feitas e seria inútil freá-las agora. Deve estar bem informado sobre isso.

Em linhas gerais, a Adin, bem recebida pelas empresas e mal recebida pelos políticos, pede que sejam declarados inconstitucionais dispositivos da legislação eleitoral que autorizam doações de empresas a candidatos e a partidos políticos. Na ação, a OAB requer ainda o estabelecimento de um limite para doações feitas por pessoas físicas.
Esperançoso, o ministro Dias Toffoli, ao assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), há duas semanas, fez sugestão nessa direção de forma menos ambiciosa. Propôs ao Congresso criar um limite de gasto, a ser fixado até o dia 10 de junho.
Tanta lei, tanta regra, tanta restrição pode, aparentemente, fazer o dinheiro desaparecer da vista. Basta olhar, porém, por baixo da mesa para ver por onde ele também circula.
De fato, a contaminação produzida pelo dinheiro falseia a representação e, muitas vezes, alcança o patamar chamado por José de Alencar de “extorsão da soberania popular”. O romancista expressa o sentimento predominante no Brasil de que é possível, numa democracia de massa, em um país de dimensão continental com mais de 130 milhões de eleitores, realizar eleições sem dinheiro. Seja o dinheiro público, seja a contribuição privada.
Entra governo, sai governo e, na competição eleitoral, já se falou, todos seguem uma única regra: é proibido perder.

 

DEVENDO EXPLICAÇÕES

Greves colocam a imprensa contra a parede


Carlos Castilho, n Observatório da Imprensa




Greves de ônibus simultâneas em pelo menos 13 cidades brasileiras de médio e grande porte levantam suspeitas generalizadas, mas a imprensa ignora olimpicamente as dúvidas sobre os interessados nos movimentos e apenas faz um registro burocrático das paralisações, deixando a população duplamente confusa.
O papel da imprensa, em especial dos jornais das capitais e dos telejornais em rede nacional, não identificam quem são os grupos políticos que estão por trás de greves que tornaram ainda mais tensa e confusa a vida de milhões de brasileiros. As dúvidas que atormentam os usuários do transporte coletivo nas cidades afetadas pelos movimentos de cobradores e motoristas de ônibus variam desde a incerteza na hora de sair para o trabalho até as suspeitas sobre quem teria interesse num protesto que dá sinais de ser coordenado por alguém.
É difícil especular sobre os reais interessados nessas greves, mas a responsabilidade da imprensa parece bem clara. Ela não está contribuindo para resolver as dúvidas da população em São Paulo e dez outras cidades paulistas, em São Luiz, Cuiabá e Teresina.
O caso das greves em São Paulo foi exemplar. A paralisação dos dias 21 e 22/5 foi promovida por dissidentes do sindicato mas em momento algum eles foram identificados. Além disso, a Polícia Militar paulista se mostrou passiva e nenhuma autoridade estadual ou do Poder Judiciário resolveu aplicar a lei. A imprensa não cobrou nada, limitando-se a documentar ocorrências e relatos irritados de pessoas sem transporte.
Numa situação como a de uma greve de transportes públicos, milhões de pessoas são afetadas e consequentemente têm o direito de exigir uma solução rápida para a falta de ônibus. Mas, para fazer isso, as pessoas precisam de informação para poderem cobrar medidas pertinentes dos responsáveis pela situação, no caso funcionários e donos de empresas do transporte público. Quem deveria fornecer essas informações é a imprensa, porque ela é uma instituição cuja missão é oferecer dados para que o cidadão possa tomar decisões.
Quando a imprensa não fornece as informações que permitam às pessoas cobrar soluções, ela deixa de cumprir o seu papel social e passa a ser apenas um negócio. O papel social da imprensa é investigar situações confusas e complexas para dar ao público elementos para avaliar contextos, consequências e responsáveis. É o que está escrito em todos os manuais de redação e é mencionado sempre nos discursos dos donos de empresas jornalísticas.
Esta é função da imprensa, que se transforma num mero sindicato de donos de empresas quando se omite em sua responsabilidade social. O governo, as empresas privadas e organizações corporativistas (incluindo sindicatos) têm outros interesses que devem ser identificados para que a população não seja enganada.
A informação pública é um serviço cada vez mais importante na emergente sociedade digital porque é a base para a produção de conhecimento, fator indispensável tanto para a produção econômica como para viabilizar as transformações sociais inevitáveis num período de transição de modelos.
A produção de conhecimento não é um atributo exclusivo dos intelectuais, pesquisadores, tomadores de decisões e empreendedores. No momento em que começamos assistir a um irreversível processo de descentralização política, administrativa e produtiva, os segmentos sociais da chamada base social passam a ser indispensáveis no desenvolvimento de soluções inovadoras para problemas locais. 
Fica cada vez mais claro que as grandes decisões sobre problemas, como transporte público urbano, não poderão mais ser tomadas apenas por burocratas de uma prefeitura de grandes cidades, mas também pelos usuários, que conhecem o problema de perto e sofrem diretamente as suas consequências. Mas para que isso seja possível é necessário ter informações, o que não acontece e nem aconteceu nas greves de ônibus pelo país.
Nós jornalistas exercemos uma função complexa porque somos orientados pela missão social da imprensa, mas ao mesmo tempo integramos uma estrutura industrial movida pela lógica dos negócios.
A convivência entre ambas funções é possível e viável, mas há conjunturas que as colocam em situações opostas, como a que está acontecendo agora com as greves no transporte público, movimentos de protesto que podem ter implicações eleitorais. Quando isso ocorre, os jornalistas acabam diante de um dilema: manter o emprego ou correr o risco de perder a credibilidade do público, o que pode ser fatal para o exercício da profissão.
 
 
 

FALTA DE RESPEITO

A brincadeira da mídia com a opinião pública


, no Jornal GGN
É inacreditável o nível de autossuficiência atingido pelos grupos de mídia, na fase mais crítica da sua história.
 
Meses e meses batendo nos gastos da Copa, ajudando a criar essa barafunda informacional, de misturar investimentos em estádios com gastos orçamentários, criticando os "elefantes brancos", anotando cada detalhe incompleto de obras que ainda não estavam prontas, ignorando o enorme investimento na imagem do país.
 
De repente, como num passe de mágica, fazem uma pausa e, em conjunto, passam a enxergar as virtudes da Copa - maior evento publicitário do ano para eles.
 
O Estadão solta enorme matéria sobre "a Copa das Copas", lembra o óbvio - vai ser o evento de maior visibilidade para o Brasil, em sua história. 14 mil jornalistas levando a imagem do país para todos os cantos, o maior público de televisão para um evento.
 
A Folha dá o óbvio incompleto: a informação de que os gastos com a Copa representam um naco dos gastos com educação. Não ousou explicar que são recursos dierentes, que financiamentos não podem ser confundidos com gastos orçamentários, que gastos com obras são permanentes. Mas vá lá!
 
O que é impressionante é supor que se pode brincar dessa maneira com a opinião de seus leitores, levá-las para onde quiser, ao sabor da manchete do momento, da estratégia de ocasião. Será que não há uma cabeça estratégica para explicar que essa desconsideração para com o leitor é veneno na veia da credibilidade?
 
Dia desses o Ministro Aldo Rabello ao que parece assimilou as críticas contra sua ausência dos debates da Copa e deu uma boa entrevista a TV Brasil, com números e argumentos sólidos.
 
A explicação para a anomia do governo com o tema foi chocante. O marqueteiro do Palácio desaconselhou qualquer campanha de esclarecimento porque, segundo ele, as pessoas não estavam associando Copa com governo e a campanha poderia estabelecer essa associação.