10 abril 2015

CONFORME A MÚSICA

tangoaroeira










Andares da crise

Janio de Freitas, na Folha
 
Recebidos, até para não fugir à regra da Presidência, como operações desastradas, o convite recusado pelo ministro Eliseu Padilha e o convite aceito pelo vice Michel Temer, para a coordenação política do governo, compõem a primeira operação promissora da ininteligível Dilma Rousseff do segundo mandato.
O período de Eliseu Padilha como ministro de Fernando Henrique mostrou, além de inteligência do companheiro de Nelson Jobim na advocacia, um político sagaz e hábil. Foi o que agora a sua recusa ao convite confirmou. E mais ainda o seu passo seguinte: a ele é atribuída a sugestão de Michel Temer como o dotado das condições políticas e pessoais para obter de Eduardo Cunha e Renan Calheiros um refreamento dos seus ímpetos atuais, e enfim ouvir e talvez negociar.
Temer é calmo, mantém certa distância respeitosa e elegante, conhece o território e detém um posto-chave para as circunstâncias. Não o de vice-presidente da República, que hoje Eduardo e Renan supõem olhar de cima. O de presidente do PMDB, e portanto deles, visto e ouvido no partido com atenção e seriedade.
Como coordenador político ligado às duas principais partes a serem coordenadas, Michel Temer será um fator de constrangimento para as atitudes provocativas que têm suas impróprias fontes nas presidências da Câmara e do Senado. Com isso, “a crise” transfere-se, sob o correto nome de “problema”, da Presidência da República para o PMDB. Eduardo Cunha e Renan Calheiros perdem a liberdade de afrontar o governo e seus representantes, porque ao fazê-lo estarão afrontando o respeitado presidente do seu partido. O que, com muita probabilidade, levaria o próprio PMDB a uma crise muito prejudicial ao partido que sonha com iniciar nova inserção nas eleições, em linha própria.
Eduardo Cunha e Renan Calheiros não precisam mudar as respectivas estratégias, se as têm, mas, se não quiserem a crise em casa, lhes conviria mudar a linguagem e os modos excessivos de suas táticas. O que pode até, quem sabe, beneficiá-los, já que os seus desgastes emitem sinais claros. E para o governo será o bastante a justificar o convite ao vice Michel Temer.


(Extraído do TIJOLAÇO, de Fernando Brito)

08 abril 2015

MOVIDOS A PRESS-RELEASE

O jornalismo em chamas


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



O incêndio que eclodiu às 10 horas de quinta-feira (2/4), nos tanques da distribuidora Ultracargo, em Santos, pode resultar em grave desastre ambiental, mas pouca gente vai ficar sabendo sua real dimensão. Três dias depois, os principais jornais do país pareciam não haver se dado conta da intensidade e das consequências do fogo que consumia milhões de litros de combustíveis na ilha da Alemoa.
Uma espécie de sonolência atingiu as redações, que em outras ocasiões investigaram e deram grande destaque a acidentes desse tipo. A exceção tem nome: já no dia seguinte à primeira explosão, o Expresso Popular, que pertence ao grupo A Tribuna, de Santos, estampava na capa apenas dois títulos. Na manchete, sobre uma foto de página inteira, resumia a gravidade do incêndio: “Sem controle”. No pé da página, informava: “Filho caçula do governador Alckmin morre em queda de helicóptero”. Entre os aspectos mais importantes, destacavam-se em subtítulos dois fatos que os principais jornais do país deixaram de lado: “Combate ao fogo não tem dia nem hora para acabar”; e “Há risco de dano ambiental na Serra do Mar”.
Na segunda-feira (6/4), quatro dias depois que o jornal popular da Baixada Santista havia alertado para a grande dimensão do desastre, o Estado de S. Paulo admite, em nota de duas linhas na primeira página, que “Incêndio em Santos ameaça meio ambiente” e a Folha de S. Paulo posta uma foto com legenda informando que, 80 horas após a primeira explosão, observa-se a morte de peixes e moradores são obrigados a deixar suas casas. Ou seja: os grandes jornais levaram três dias para admitir a gravidade da situação, detectada no primeiro momento pelo Expresso Popular.
Ainda no domingo (5/4), o site Globo.com informava, erradamente, que um laudo preliminar da Cetesb apontava a ocorrência de poluição grave na água da região; mais tarde, a informação foi corrigida: o laudo era da Ultracargo, não da Cetesb. Dois dias antes, a empresa estatal de controle ambiental havia divulgado nota, sem contraponto dos jornais, afirmando que a fumaça que alcançava 50 metros de altura e espalhava cinzas e partículas incandescentes pela região, não representava perigo.
Movidos a press-release
No domingo, os dois principais jornais paulistas haviam noticiado que o governo do estado decidira criar um gabinete de crise para acompanhar a situação. A maior parte das iniciativas era tomada pela prefeitura de Santos, que desde o primeiro momento havia mobilizado a Petrobras e órgãos federais.
O governo paulista parecia paralisado pela morte do piloto Thomaz Alckmin, filho do governador de São Paulo, ocorrida na tarde da mesma quinta-feira, em um acidente de helicóptero. Compreende-se que o governador estivesse fora de combate, e a ninguém ocorreria ir perguntar a ele, em meio ao luto, o que estava sendo feito para controlar a situação na Baixada Santista e manter a população informada sobre o desenrolar do incêndio. Mesmo porque, com o feriado da Páscoa, era previsto grande movimento de turistas em direção ao litoral.
Mas o estado tem um vice-governador, secretários, técnicos, e a empresa de controle ambiental. Os jornais simplesmente compraram a primeira versão oficial, segundo a qual não era preciso tomar providências especiais nem nos bairros mais próximos ao terminal da Alemoa, e não estranharam o fato de que um gabinete de crise só foi montado no terceiro dia após a primeira explosão. Ressalte-se que o grupo de acompanhamento não inclui um representante da Secretaria da Saúde, mas tem entre seus participantes o subsecretário de Comunicação. O perfil é muito parecido com o do gabinete de crise que foi instituído mais de um ano após o esgotamento das principais reservas de água na região metropolitana de São Paulo.
Em condições normais de bom jornalismo, não teria escapado às redações o fato de que, não apenas em São Paulo, mas na administração pública em geral, a gestão de crises quase sempre se limita ao potencial de estrago que as emergências podem provocar na imagem dos governantes.
No caso do incêndio em Santos, as informações mais importantes para que o cidadão tomasse suas precauções foram dadas no primeiro momento pelo Expresso Popular. Os grandes jornais mandaram repórteres e fotógrafos para registrar o fogo espetacular, mas rechearam suas reportagens com os press-releases do governo.
Quase dá para ver as cinzas do bom jornalismo sob as chamas da Alemoa.
 
 

06 abril 2015

DA ESQUERDA PARA A DIREITA

Dilema político


Maurício Dias, na Revista CartaCapital



Cresceu a pressão sobre a presidenta Dilma Rousseff para forçar a escolha do substituto de Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal (STF).
JB renunciou à presidência do STF há oito meses. A Corte de Barbosa, de breve e confusa duração, com cinco indicações de Lula, fez a direita aplaudir satisfeita depois do temor de ter uma Corte “aparelhada” e, talvez, subordinada às linhas políticas do Partido dos Trabalhadores. Isso, como se sabe, não aconteceu. Mas foi uma brutal grosseria com os indicados sobre os quais insinuavam que votariam sob o comando do presidente da República. São eles, Cezar Peluso, Carmem Lúcia, Ayres Britto, Ricardo Lewandovski e Dias Toffoli.
Ao contrário, Joaquim Barbosa agiu de forma implacável com os réus petistas do chamado “mensalão”. Usou calibre grosso e tornou inteiramente político o julgamento. Desinteressou-se pela justiça básica das decisões e avançou pela larga estrada da politização.
O presidente Richard Nixon (EUA) cozinhou durante um ano a indicação do substituto de Earl Warren, legendário juiz e presidente da Suprema Corte americana. Nixon, buscava um nome que pensasse como ele, o presidente. A  Suprema Corte americana, onde juiz é juiz e não ministro, julgou durante um ano com oito dos nove que compõem a casa. No Brasil o STF tem 11 juízes. Ainda a exemplo de outro fato ocorrido na Corte norte-americana, Lula deve ter pensado no que o ex-presidente Eisenhower, conservador até a medula, disse em voz alta diante das decisões protetoras dos direitos humanos de Warren, escolhido por ele: “O mais amaldiçoado erro que jamais cometi”.
Aqui e agora, no Brasil, uma reação odiosa e preconceituosa de Eduardo Cunha, presidente da Câmara, no papel de primeiro-ministro de um parlamentarismo marginal, botou em votação a PEC da Bengala. Ela estende de 70 para 75 anos a permanência no Supremo. Vitorioso na Câmara, o projeto vai ao Senado.

A extensão da aposentadoria forçada por mais cinco anos pode até ser uma boa medida. No caso de agora, entretanto, se aprovado, Dilma deixará de indicar mais cinco ministros até o fim do segundo mandato, em 2018. Dois ou três substituirão ministros já escolhidos pelos governos do próprio PT.
A questão no STF tem fundo político e não partidário. Há os ministros liberais e há os conservadores. Com o governo nas mãos do PT, mais precisamente da presidenta Dilma, a direita teme ficar sitiada no cume das instituições da Justiça brasileira. Assim é possível entender melhor o cuidado de Dilma, que tem pela frente um Senado sob o comando do ambíguo Renan Calheiros. Isso aumenta o risco na indicação.  Eisenhower, conservador, indicou o republicano Earl Warren, que, na Suprema Corte, vestiu a toga do liberalismo radical diante do reacionarismo político nos anos 1950 nos EUA. Lula, de esquerda, buscou supostos liberais com viés progressista ou de quem se comportava como tal. Não deu certo.
O trânsito ideológico no Brasil é, quase sempre, da esquerda para a direita.
O Supremo precisa, no entanto, de um liberal de indiscutível saber jurídico e, de preferência, iluminado pelo progressismo.
 
 

A VELHA ARROGÂNCIA DE SEMPRE

A proposta de Moro


Luiz Gonzaga Belluzzo, na Revista CartaCapital



Em artigo publicado nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, o magistrado da moda, Sergio Moro, e o presidente da Associação de Juízes Federais defenderam a necessidade de mandar às enxovias os réus condenados em primeira instância. É o mais recente episódio da novela “A Derrocada das Instituições”.
Não é de hoje que fenece o desassombro dos intérpretes da lei, acovardados diante da ferocidade dos homens-massa que pretendem resolver os conflitos com o exercício puro e simples das próprias razões. Nas complexas sociedades modernas, a punição executada ao arrepio da lei e com desrespeito às incontornáveis instâncias de recurso garantidoras da presunção de inocência é tão grave e devastadora quanto a impunidade.
Nada pode ser mais trágico para uma sociedade enredada na malha das relações mercantis e da diversidade de interesses do que a invasão da vingança particularista na prestação da justiça. No Brasil, essa forma deformada da aplicação da norma abstrata e impessoal denuncia a capitulação dos órgãos encarregados de vigiar e punir aos ditames da sociedade-espetáculo. Os brasileiros de todas as classes assistem – uns embevecidos, outros atônitos – ao espetáculo da Justiça ou às façanhas da Justiça-Espetáculo.
O protagonismo judiciário em exibição nos palcos brasileiros desmente a tese de Michel Foucault exposta no livro Vigiar ePunir. Ao examinar a execução das penas entre os fins do século XVIII e os inícios do século XIX, Foucault desvenda a passagem do suplício público para “um jogo de dores mais sutis, mais despojado de seu fausto visível”. Em poucas décadas, diz Foucault, “desapareceu o corpo supliciado, esquartejado, amputado, simbolicamente marcado no rosto ou nos ombros, exposto vivo ou morto, apresentado como espetáculo. Desapareceu o corpo como alvo principal da repressão penal... A sombria festa punitiva começa a extinguir-se”.

A contaminação do aparelho judiciário tem avançado sem qualquer reação dos que percebem o fenômeno e o abominam, mas que preferem se recolher diante da contundência e da ousadia dos que buscam substituir a “disciplina” prisional pelos festivais de exibição midiática, encenados em um ambiente social entregue às farândolas do Pouco Pão e Muito Circo
Não há limites à ação pessoal e atrabiliária de autoridades atraídas pelos frêmitos e cintilações da “sociedade do espetáculo”, o brilhareco de 15 minutos de fama. São exemplos impecáveis de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência ao exibicionismo das telas e das manchetes, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado.
As relações promíscuas entre as autoridades judiciais e a mídia colocam os cidadãos brasileiros diante da pior das incertezas: a absoluta imprecisão dos limites da legalidade. As garantias da publicidade do procedimento legal são, na verdade, uma defesa do cidadão acusado – e ainda inocente – contra os arcanos do poder, sobretudo das predações do poder não eleito. Pois essas conquistas da modernidade, das quais não se pode abrir mão, vêm sendo pisoteadas por quem deveria defendê-las. Ocultam à sociedade, em cujo nome dizem agir, a dedicação com que laboram para tecer a corda em que enforcarão as garantias individuais. É comum e corriqueira entre nós a transformação das prerrogativas funcionais em privilégios individuais e pessoais.
É a velha arrogância oligárquica nutrida por uma certeza: são todos da mesma turma, aquela que manda e desmanda. Há um trânsito contínuo de pessoas e de influência entre as esferas do poder: o big business, a grande política, as burocracias públicas e as corporações do mass media; e, muito mais que isso, há a formação de uma cultura comum.
Ao concluir, recordo, mais uma vez, as palavras de um magistrado de outros tempos proferidas em seu discurso de aposentadoria. “Preferi a tranquilidade do silêncio ao ruído das propagandas falazes; não suportei afetações; as cortesias rasteiras, sinuosas e insinuantes, jamais encontraram agasalho em mim; em lugar algum pretendi subjugar, mas ninguém me viu acorrentado a submissões; dentro de uma humildade que ganhei no berço, abominei a egomania e a idolatria; não me convenceram as aparências, e para as minhas convicções busquei sempre os escaninhos. Particularizando, no exercício das minhas funções de magistrado diuturnamente, dei o máximo dos meus esforços para bem desempenhá-las e, ainda que em meio de uma atmosfera serena e compreensiva, em nenhum momento transigi com a nobreza do cargo; escapei de juízos temerários, tomando cautelas para desembaraçar-me das influências e preferências determinantes de uma decisão; e, se alguma vez, inadvertidamente, pequei contra a lei, vai-me a certeza de que o fiz para distribuir bondade e benevolência.”
 
 

TAMBÉM HUMILHADOS E OFENDIDOS

Pobres e desprezados


Mino Carta, na Revista CartaCapital



Um livro de recomendabilíssima leitura acaba de sair na França, intitulado Le Mépris du Peuple, o desprezo do povo. Subtítulo: de como a oligarquia fez da sociedade seu refém. Autor, Jack Dion, jornalista de origem esquerdista.
Escreve Dion: “Quando os partidos que chegam ao poder se tornam instrumentos de defesa do establishment, o povo transforma-se em inimigo e passa a simbolizar um perigo potencial”. O autor aponta o emprego enganoso do termopopulismo para negar alternativas ao liberalismo, ou seja, à ortodoxia neoliberal, como único caminho destinado a preservar a democracia.
Dion recorda que há 40 anos o então chanceler alemão, Helmut Schmidt, socialista, dizia que os lucros de hoje serão os investimentos de amanhã e os postos de trabalho de depois de amanhã. Quarenta anos após, são os dividendos de amanhã e o desemprego de depois de amanhã. E em lugar de Schmidt, a Europa e o mundo padecem Angela Merkel.
Caso voltasse seus olhos para o Brasil, Dion anotaria, como sinônimo de populismo, outro termo esbanjado, chavismo, eventualmente associado a comunismo, em um país cujos burguesotes em 2010 qualificavam a candidata Dilma Rousseff como guerrilheira. Com o estímulo e o apoio dos escribas da mídia nativa, sem deixar de sublinhar que a palavra escriba não indica lida fácil com o vernáculo.
Dion escreve um vigoroso libelo contra a esquerda do ex-Primeiro Mundo, insensível e desarmada diante da concentração da riqueza nas mãos de uma minoria cada vez mais diminuta, fenômeno de maior evidência nos Estados Unidos, onde, faz seis anos, 95% do crescimento é confiscado por 1% da população. E haja Tea Party. Pois saiba Dion que nós temos o nosso Tea Party, promovido pela mídia nativa, com o beneplácito, quando não da colaboração de quem já se disse de esquerda, ou ainda se diz, impávido.
Sejamos claros: o primeiro governo de centro-esquerda na história do País foi o de Lula. Houve, a precedê-lo, a Carta aos Brasileiros e, após a posse em janeiro de 2003, a entrega do Banco Central a Henrique Meirelles. Logo, porém, políticas foram praticadas para tirar da miséria mais de 30 milhões de cidadãos. Lula liquidou a dívida externa, encheu as burras do Estado, inaugurou uma política internacional independente. Ótimo governo que conseguiu escapar aos dias piores da crise econômica global.

Esta, contudo, não poupou Dilma, e nem poderia. Inútil, além de hipócrita ou estulto, negar que o recrudescimento da crise foi determinante na baixa progressiva do nosso PIB. Erros foram cometidos, inegavelmente, para piorar a situação. O descaso governista em relação à indústria, antes de mais nada. Mesmo assim, parte das políticas sociais cultivadas por Lula foi mantida, e algumas até reforçadas.
Foi quanto bastou para justificar o apoio de CartaCapital à candidatura da presidenta ao segundo mandato, na certeza de que uma vitória tucana nos devolveria ao final do século passado, quando FHC reinava. Em meio às vicissitudes, esperávamos por um governo de centro-esquerda, aquilo que o de hoje não é, submisso ao mercado, indiferente ao rentismo dominante, em retirada nas políticas sociais, refém de predadores do porte mais primário, para não dizer primitivo, de Eduardo Cunha e Renan Calheiros.
Há tempo CartaCapital reconhece a necessidade de um reajuste fiscal, permite-se, no entanto, a seguinte dúvida: pode a manobra ser da responsabilidade de um discípulo de Angela Merkel? Não dos mais atilados, diga-se, seu depoimento de terça 31, no Senado, é uma obra-prima de incongruências. Se Dion encarasse o Brasil, não deixaria de verificar que por aqui está em curso um ataque à própria razão, não bastassem as mesuras a quem faz o mal do mundo. Para combater a criminalidade, cogita-se de atirar menores nas cadeias superlotadas. Para combater a corrupção, pretende-se aprisionar réus a partir da condenação em primeira instância. Meu professor de Direito Romano na Faculdade do Largo de São Francisco, Alexandre Correa, padeceria de um sobressalto interior, talvez fatal.
E o ministro da Justiça opina a respeito? Silêncio condescendente. Em compensação, contamos na pasta da Agricultura com uma latifundiária, a representar aquele 1% que detém a propriedade de 50% das terras agriculturáveis. Os ricos erguem seus palácios, blindam seus carros, exigem valet parking nos logradouros públicos e seguranças engravatados enquanto circulam de bermudas e havaianas. Ao mesmo tempo, 40% do território nacional não é alcançado pelo saneamento básico e mais de 60 mil brasileiros morrem assassinados anualmente. E nada disso fere a consciência dos demais. Alegremente desprezam-se os pobres, e estes deixam-se desprezar.
 
 

03 abril 2015

MAIORIDADE PENAL

Um grande passo atrás


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Os jornais destacam, nas edições de quarta-feira (1/4), a aprovação, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, da proposta de emenda constitucional que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. As reportagens registram que a iniciativa foi apoiada majoritariamente pelos principais partidos da oposição – PSDB, DEM e Solidariedade – com adesão da maior parte da bancada do PMDB, que oficialmente ainda integra a aliança governista.
A primeira página do Estado de S. Paulo reflete não apenas o perfil típico do Congresso, tomado pelo obscurantismo – com grande número de parlamentares comprometidos com agendas reacionárias –, mas revela principalmente o caráter conservador que vem dominando a própria imprensa brasileira. A escolha editorial de completar o relato factual da decisão parlamentar com dois quadrinhos de texto, um a favor da proposta e outro contrário, é indicador da pobreza de raciocínio que orienta a mídia tradicional.
Uma das características dos midiotas – aqueles cidadãos que se orgulham do pouco que sabem, e buscam consolidar sua ignorância em textos da imprensa – é acreditar em soluções mágicas para problemas complexos. A proposta de criminalizar a adolescência é parte desse rol de crenças, que, em grande medida, inclui ainda a convicção de que a pena de morte seria adequada para a redução da violência.
O problema se torna uma questão de interesse nacional quando uma parte significativa do Congresso Nacional parece atacada da mesma síndrome, e a imprensa finge que uma questão como essa tem apenas dois lados.
O fato de a proposta de redução da maioridade penal ter partido de integrantes da chamada “bancada da bala” precisa ser destacado para lembrar que esse conjunto de parlamentares representa um resquício do que houve de mais deletério no período da ditadura militar. A eles se juntam líderes de seitas religiosas conhecidos pela similaridade com os grupos de militantes que pelo mundo afora são chamados, de modo tão genérico quanto equivocado, de “fundamentalistas”. Mas indivíduos que pregam a lei de talião, ou da retaliação, não podem ser chamados, como costuma dizer a imprensa, de “cristãos fundamentalistas”.
Os “humanos direitos”
Escudados na religião, recortam seletivamente os textos que os cristãos consideram sagrados para criar uma versão comercial do Evangelho. A esses personagens horroriza tudo que se refere aos direitos humanos, ainda que eles atuem na fronteira de tolerância da democracia, ou seja, agem constantemente contra a própria democracia – e, por extensão, contra seus próprios direitos. Entre as pérolas declamadas por esses atores e seus acólitos, em discursos na tribuna ou nas redes sociais, citam uma suposta contradição entre os “direitos humanos” e os “humanos direitos”.
A imbecilidade é uma debilidade mental que se caracteriza pela dificuldade do indivíduo em definir o território em que sua singularidade se mescla ao campo social. Assim, o midiota – expressão do imbecil em sua relação com o ambiente midiático – julga-se diferenciado da humanidade por ser, segundo seu próprio arbítrio, um ser humano “direito”, portanto, superior aos demais. Faltou a ele dar o passo definidor do processo civilizatório, entre o “eu” e o “outro”.
Pois é para esse cidadão sem cidadania que legisla a Câmara, ao admitir uma mudança na Constituição para criminalizar a adolescência. No entender dos parlamentares que votaram pela proposta, uma sociedade ideal deve armar seus cidadãos e estabelecer a punição como princípio basilar na relação entre o Estado e a sociedade.
Mas esses parlamentares não ganhariam um mandato se não tivessem sua popularidade amplificada pela mídia – em alguns casos, atuando como radialistas ou participantes de programas populares de televisão, em outros pregando sua visão de mundo retrógrada sob o manto da religião, e quase sempre ganhando espaços nobres para suas patacoadas maniqueístas.
A chamada mídia tradicional, aquela que precisa manter ao menos uma imagem de compromisso com o processo civilizatório e a modernidade, trata como iguais duas visões de mundo antagônicas e inconciliáveis. Uma delas puxa a sociedade para baixo, para o conflito, a intolerância e a barbárie. A outra luta desesperadamente para preservar e fazer avançar o que foi conquistado até aqui de civilizado no período que se sucedeu às trevas da ditadura militar.
Por que a imprensa não se engaja integralmente no campo democrático e progressista?Porque é entre os midiotas reacionários que encontra as bases de sua ação política.
 
 

AO LARGO

‘Zelotes’, nome errado para a mãe de todos os escândalos

 
Alberto Dines, no Observatório da Imprensa
 
 
Ao revelar à sociedade brasileira a designação da nova operação contra as malfeitorias praticadas contra o erário pelos maiores grupos empresariais do país, a Polícia Federal errou na filologia: na linguagem corrente, zelote ou zelota (do grego zelotes, imitador) tem conotação negativa: zelo falso, devoção simulada, tartufo, enganador.
Sob o ponto de vista estritamente histórico, o grupo de judeus que se intitulavam Canaim, Cananeus (século I da Era Comum), eram fervorosos defensores da expulsão dos romanos da Terra Santa. Pagaram por isso. Inclusive o mais célebre de todos. Um dos seus seguidores, conhecido como Simão, o Zelota, fez parte deste grupo.
O termo foi resgatado recentemente por um diligente historiador americano de origem iraniana, Reza Aslan, que coligiu e compactou os mais importantes estudos publicados nos últimos dois séculos sobre os primórdios do cristianismo e produziu o best-seller Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré (Zahar, 2013).
O alvo da operação policial são as empresas que tentaram eliminar ou diminuir os seus débitos junto ao CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão que funciona como uma espécie de tribunal da Receita Federal). Pagaram fabulosas propinas aos funcionários do órgão para produzir pareceres favoráveis às empresas infratoras e/ou tentaram outras maracutaias.
Quem recebeu a documentação da Polícia Federal e teve o privilégio de revelar o escândalo foi o Estado de S.Paulo, por meio de sua sucursal de Brasília (sexta-feira e sábado, 27 e 28/3, com manchetes na capa). Não fez investigações complementares. Em compensação, publicou tudo. Ou quase.
Ao largo
Considerado o maior escândalo na história da Receita Federal, o prejuízo contabilizado por enquanto é de quase 6 bilhões de reais, mas envolve processos que somam 19 bilhões de reais – quase o dobro do dez bilhões de reais da Operação Lava Jato. Entre as empresas implicadas na malfeitoria estão os bancos Bradesco, Santander, Pactual, BankBoston e Safra, as montadoras Ford e Mitsubishi, o conglomerado-gigante BR Foods (marcas Sadia e Perdigão, entre outras), Light e grupos Gerdau e RBS.
No caso desta última, o Estadão mencionou que se trata de um grupo que opera no ramo das comunicações, omitiu que se trata do terceiro maior do país nesse segmento e importante parceiro da Rede Globo no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Não revelou os títulos dos importantes veículos do conglomerado, porém detalhou os valores da infração, aliás a menor da lista: pagou a propina de 15 milhões reais para obter uma redução de 150 milhões no seu débito. Excelente negócio.
No sábado (28/3), o intrépido Globo não teve outra alternativa senão noticiar a Operação Zelotes (numa distante página da seção de Economia) citando nominalmente alguns infratores. O nome do parceiro da Rede Globo evaporou. Isso acontece quando o tempo está quente. Evidentemente respeitou-se o sobrenome da família que fundou e tem o controle do conglomerado. Afinal, há jornalistas com o mesmo sobrenome e brilhante currículo que nada tem a ver com a Zelotes. Naquela noite o Jornal Nacional, ao noticiar a operação, deu o nome do grupo e a sua filiação à Rede Globo. Mas rapidinho, como convém.
Na Folha de S.Paulo de sábado, igualmente na última página do caderno “Mercado-1” (B-7), há um resumo da operação da PF com o nome dos denunciados inclusive no ramo da comunicação social.
Em dívida com os seus leitores, o Valor Econômico de segunda-feira (30/3) passou ao largo do escândalo. As empresas implicadas agradecem. As que pagam seus compromissos e respeitam a lei devem se sentir lesadas. Isso também acontece.
 
 

DILEMA ATROZ

A síndrome da notícia ruim


Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa



Quando a avalancha de informações econômicas pessimistas se soma à rotina de notícias sobre assassinatos, balas perdidas, chacinas, tragédias familiares, assaltos e atentados contra a economia popular, a agenda diária da imprensa leva o leitor a um dilema atroz: ter ataques de fúria ou simplesmente ignorar a realidade – o que, no caso da imprensa, significa desinteressar-se pelas notícias para preservar a sanidade mental.
Está é a escolha que um número crescente de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas brasileiros está sendo obrigado a fazer diariamente na hora de ler um jornal, revista ou assistir a um telejornal. Está cada dia mais difícil suportar a carga de pessimismo transmitida pelas manchetes e por âncoras de telejornais, alguns dos quais parecem ter prazer em anunciar novas tragédias e novos sacrifícios para um cidadão que passou da euforia e otimismo até o inicio do ano passado para um estado de choque agora em 2015.
A associação do noticiário pessimista com a estratégia oposicionista de desconstrução do governo Dilma Rousseff pode até ser casual, mas o fato concreto é que o crescentedéficit de esperança do público consumidor de notícias tem consequências de médio prazo e que não são nada animadoras para o futuro da imprensa.
O que se nota atualmente é que uma parcela considerável do público começa a descrer do que a imprensa publica por associar as notícias ruins a uma estratégia política e ideológica. A outra parte da clientela de jornais, revistas, telejornais e redes sociais vincula-se a esses veículos não por sua missão informativa, mas porque oferecem abrigo e conforto para posicionamentos ideológicos. Ambos os casos deveriam preocupar os executivos da indústria jornalística porque eles não garantem a sustentabilidade futura das empresas que dirigem.
A descrença tem efeitos prolongados porque afeta a credibilidade de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Já a identificação ideológica pode ser transitória porque as conjunturas mudam e, com elas, a fidelização do público simpático às opções do veículo jornalístico. No caso atual, na hipótese de a presidente Dilma ser afastada, como deseja a extrema direita, o fator ideológico perderá relevância logo após as eventuais mudanças no governo, repetindo o que ocorreu antes e depois do golpe militar de 1964.
Saturadas por tantas notícias pessimistas ou irritadas com o impasse político-ideológico, as pessoas promovem nas redes sociais da internet uma catarse coletiva online, que por um lado pode aliviar temporariamente as tensões pessoais mas, por outro, carrega ainda mais o já pesado ambiente informativo .
Há dias li no Facebook o comentário de um internauta que dizia: “Eu já sei que está ruim e vai ficar pior. Por que a imprensa não nos acompanha na busca de soluções?” O angustiado consumidor de notícias deu vazão ao que muita gente pensa e tem muita dificuldade para transformar em prática.
A dificuldade é que fomos educados a cobrar e esperar que os governos e as empresas resolvam todos os nossos problemas. Hoje verificamos que nem um nem outro têm condições e vontade de atender às nossas expectativas. Os governos, de todas as tendências, se transformaram em entidades corporativistas preocupadas com seus próprios interesses. As empresas perderam a perspectiva de sua missão social e só pensam no próprio lucro num momento de crise.
O leitor pode cobrar da imprensa a aplicação do chamado jornalismo de soluções, uma opção que já é praticada em vários países, principalmente nos Estados Unidos, e que tem como condição prévia o desapego ideológico e partidário. O engajamento com o leitor é prioritário em relação às alianças politicas. O fundamental passa a ser ouvir o que as pessoas têm a dizer, identificar problemas a partir da base e não dos desejos e preferências dos editores. O principal objetivo é criar um ambiente de diálogo permanente entre o veículo jornalístico e as comunidades que ele elegeu como público alvo.
O bombardeio negativista nas manchetes e comentários pode agradar ao fígado e projetos de alguns jornalistas, políticos e empresários envolvidos na batalha entre petistas e antipetistas, mas já está saturando o público, que num impulso de sobrevivência social passa a olhar para o outro lado. Para muitos, este outro lado é simplesmente ignorar a imprensa, algo que deveria tirar o sono de executivos, diretores de redação e editores.
 
 
 

O JORNALISMO HOJE

Com licença, este é nosso campo


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



A Folha de S. Paulo publicou, na quinta-feira (2/4), texto não assinado no qual noticia: “Jornalistas articulam novo modelo de conselho” (ver aqui). Ali se afirma, inicialmente, que “mais de uma década após a rejeição à criação de um Conselho Federal de Jornalismo, pelo então presidente Lula, a proposta voltou a ser articulada, agora por profissionais reunidos no grupo Jornalistas Pró-Conselho”... e por aí vai.
Trata-se da primeira manifestação da imprensa hegemônica contra essa iniciativa, e começa com uma mentira. Na verdade, os jornalistas pró-Conselho, que fizeram o lançamento oficial do movimento no dia 28 de março, não pretendem a retomada daquela proposta, que efetivamente foi rejeitada pelas lideranças do Congresso em 2004, não pelo ex-presidente Lula da Silva. Originalmente, a Federação Nacional dos Jornalistas defendia a criação de um Conselho Federal de Jornalismo; o intenso lobby das empresas de comunicação derrubou a ideia, mesmo depois que a Fenaj propôs alterar a configuração da entidade, para Conselho Federal de Jornalistas.
O que se realiza no presente caso é um debate sobre a possibilidade de vir a ser criado um conselho profissional de jornalistas, o que exclui a participação das empresas de comunicação, como entidades corporativas. O grupo que organiza essas discussões ainda recolhe opiniões sobre a natureza da instituição que se pretende criar, e seus integrantes sabem que tanto pode ser uma autarquia como uma rede referente (no sentido que os estudantes de Jornalismo aprendem na faculdade, ou seja, nosso objeto é o Jornalismo, e o conceito, ou referência, é o seu exercício profissional).
Isso quer dizer que estamos, como jornalistas, criando um foro específico para tratar de questões profissionais e nossa referência é o Jornalismo, ou seja, o grupo procura identificar o que define essa profissão hoje em dia. Não por acaso, a primeira pergunta que se propôs a responder era: “O que é o Jornalismo hoje?”
A regulamentação da profissão deixou de existir com a decisão do Supremo Tribunal Federal, em junho de 2009, ao considerar inconstitucional a exigência do diploma para seu exercício, mas isso não impede que se coloque em pauta esse questionamento.
Liberdade para uns
A reação das corporações de imprensa, como prenunciado pela Folha de S. Paulo, será, certamente, contrária a tal iniciativa, porque as empresas de comunicação não querem um debate sobre Jornalismo. Conforme foi divulgado, os três temas que conduziram o encontro do dia 28/3 foram: diagnóstico sobre o atual momento da profissão; formação e regulamentação da profissão; e Conselho Profissional de Jornalistas – autarquia ou associação civil?
Por que os jornais teriam interesse em impedir a evolução desse debate, ainda que restrito ao universo dos jornalistas profissionais, aos estudantes e professores das faculdades de Jornalismo?
Entre outras razões, porque o aprofundamento das questões específicas da profissão vai desmoralizar alguns dos principais argumentos utilizados pelas corporações de imprensa quando exercitam seu poder junto às instituições da República. Por exemplo, pode-se afirmar que a falta de uma regulamentação da mídia – e não uma autorregulamentação ou o cumprimento da norma constitucional sobre a propriedade dos meios – é uma ameaça à liberdade de expressão.
Basta observar que os principais veículos de imprensa usam a omissão das leis para patrocinar um jornalismo unilateral, irresponsável, manipulador, para se evidenciar que a livre expressão é privilégio de autores com o perfil ideológico aprovado pelas redações, livres até para usar a linguagem chula.
Essa é apenas uma das questões que desafiam o exercício da profissão no Brasil; é preciso enfrentar muitas outras, algumas das quais de abrangência global, como o desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e comunicação, o crescimento das redes sociais, a robotização do jornalismo utilitário (informes meteorológicos, situação do trânsito, programação dos cinemas etc.), a depreciação do jornalismo de ciências, o encolhimento do mercado de trabalho dos jornalistas etc.
Esses são desafios típicos dos jornalistas profissionais, daqueles que ensinam e dos que procuram o conhecimento específico numa faculdade de Jornalismo – não de historiadores ou sociólogos que obstinadamente conquistaram um espaço na imprensa.
Há diferenças profundas entre um ensaísta que escreve eventualmente num jornal ou revista – ainda que se declare jornalista – e um profissional que vive cotidianamente as questões complexas do Jornalismo.
Com licença, este é o nosso campo.