03 março 2015

O NEGÓCIO DO DIABO

O fim da religião


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa


Tornaram-se muito populares, nos anos recentes, vídeos que mostram sessões de exorcismo e supostas curas de males produzidos pelo demônio. Também tem causado muita repercussão manifestações polêmicas do papa Francisco, que se expressa publicamente sobre temas em voga na mídia, como as relações homoafetivas, educação infantil e uso de drogas. Da mesma forma, ganham espaço na imprensa manobras de parlamentares brasileiros tentando impor uma agenda religiosa sobre questões de Estado. No entanto, não estamos falando de religião.
Temos tratado, neste Observatório, do efeito crescente da mídia sobre a sociedade, especialmente na expansão exponencial da cultura de massa, impulsionada pelas tecnologias digitais de comunicação, e de como esse efeito se dá pela construção de simulacros.
O propósito é refletir sobre as consequências de se vivenciar a cópia em vez da vida real, e de observar como grandes contingentes de cidadãos podem ser levados a tomar atitudes contrárias a seus próprios interesses por causa dessa distorção.
Uma busca na internet em torno do nome do papa vai mostrar uma coleção de frases de grande apelo midiático, algumas beirando ideias progressistas, outras repetindo o espírito conservador da Igreja Católica. De vez em quando, ele experimenta uma polêmica, como quando tratou de planejamento familiar, mas em geral suas afirmações tomam o caminho fácil do lugar comum. E o lugar comum é um terreno pantanoso nesta contemporaneidade movida a mudanças.
Por outro lado, no território da mídia nacional, chama atenção a proliferação de eventos televisivos que têm como atração principal a figura do demônio. Explica-se: nos últimos cinco anos, duas das principais organizações chamadas neopentecostais vêm disputando a hegemonia no setor que os estudiosos chamam de “evangelho da prosperidade”, no qual o fiel busca não apenas a salvação de sua alma, mas principalmente um negócio com a divindade que lhe garanta o bem-estar material imediato.
O que esses episódios têm em comum é que nem os líderes das seitas chamadas de neopentecostais, nem o papa, estão praticando religião quando usam a mídia. Estão apenas construindo a imagem que vai posicioná-los nesse contexto mercadológico.
O negócio do diabo
O terreno do sagrado tem outras dimensões e, para a prática dos crentes, precisa apenas de fé e doutrina. As manifestações periféricas, como a cena de um papa chutando uma bola ou de um pastor, profeta, apóstolo (ou como queira ser chamado o líder da congregação), sacudindo o diabo para fora do corpo de alguém, são ações típicas de relações públicas.
No caso de Satanás, o filósofo Vilém Flusser já tratou de desmoralizá-lo publicamente, em sua biografia (não autorizada) intitulada A história do diabo. O personagem que frequenta templos da Igreja Universal do Reino de Deus, da Igreja Mundial do Poder de Deus e outras denominações semelhantes, é um simulacro do ser mítico que habita ainda hoje os temores mais recônditos do ser humano. Trata-se de um personagem de circo.
Aquilo que a mídia muitas vezes chama de religião nada mais é do que a encenação de um compromisso de negócio cuja principal característica é a monetização da salvação da alma que, para ser concretizada, necessita de um processo de securitização, no qual o risco permanente e cotidiano é a ameaça do demônio.
O pagamento do dízimo é o sinal que o crente dá para a aquisição do produto-salvação, que vem com o benefício da prosperidade. Mas esse patrimônio precisa ser protegido pelo seguro contra todas as tentações que possam afastar o fiel desse comércio.
A mulher que se celebrizou no Youtube (ver aqui) por declarar que seu intestino passou a funcionar por causa do “travesseirinho santo” do líder da Igreja Mundial, estava testemunhando o cumprimento desse contrato: o anjo caído havia dado um nó em suas tripas, e bastou comparecer ao culto, adquirir a pequena almofada azul e amarrá-la na cintura para desobstruir seu fluxo intestinal. Têm o mesmo sentido as sessões em que homossexuais são “curados”, numa repetição constante de um espetáculo no qual o demônio é a atração principal.
Qual é o problema? Nenhum, a não ser o fato de que não se trata de religião. Trata-se de um negócio que ocupa canais públicos de rádio e televisão, enquanto as emissoras educativas vivem às moscas e emissoras comunitárias são caçadas como piratas.
 
 

RIO 450 ANOS

Onde nossa imprensa nasceu, cresceu e
morre

Alberto Dines, no Observatório da Imprensa


Irreverente, alegre, generosa, agradável, criativa, solidária, refinada e o escambau: da noite para o dia, a cidade do Rio virou a queridinha do Brasil, metrópole ideal, utopia materializada, perfeita transposição do século 16 ao 21que com alguns poucos bilhões de reais facilmente será esticada até o século 22.
Ninguém lembrou dos elefantes brancos – a Cidade das Artes na Barra da Tijuca, por exemplo – e os monumentos históricos – o Palácio Monroe, sede do Senado Federal – que os grandes jornais locais permitiram converter-se em pó em troca de favores do governo do antigo estado da Guanabara.
A cidade como coisa viva foi menos celebrada do que os Jogos Olímpicos de 2016, que durarão apenas 40 dias. O Engenhão, construído a toque de caixa para abrigar os Jogos Panamericanos de 2007, ficou mais tempo fechado do que em funcionamento. Culpa das empreiteiras.
A charmosa Lapa carioca sobreviveu e hoje floresce porque os tubarões imobiliários locais estavam falidos, sem recursos para arrasá-la e transformar os românticos sobrados em espigões comerciais. A escassez, em certas circunstâncias, pode ser socialmente mais útil do que a fartura. São Paulo é o exemplo oposto.
Anos depois
Não basta ser bonita, uma cidade precisa ser amada, se possível venerada. Lisboa tem desde sempre os olissiponenses (da Olisipo romana), devotados amantes de sua história, guardiões de sua alma, passado, figuras e logradouros. Portugueses são colecionadores natos – o país é minúsculo, precisa ser preservado. Nós brasileiros, ao contrário, somos dissipadores, temos tudo em demasia Ou tínhamos – basta lembrar o que aconteceu com a água.
Delegar apenas aos arquitetos, urbanistas e historiadores a maravilhosa missão de amar o recanto natal é uma forma enganosa de perenizar uma cidade. Nada contra esses profissionais, mas eles são profissionais; precisamos de diletantes, amadores e amantes vestindo a camisa da cariocofilia – cervejeiros, advogados, farmacêuticos, filólogos, filatelistas, padeiros e quitandeiros, manicuras, futebolistas, músicos, médicos, fotógrafos, funcionários públicos, taxistas, desenhistas, tipógrafos e, principalmente, sobretudo, mormente jornalistas.
Na temporada pré-450 apareceram alguns jornalistas cariocofílicos ou cariocômanos, louvados sejam para todo e sempre. Precisamos de um contingente dez vezes maior. Jornalismo é uma forma de registrar o passado em movimento, ou de fazer história sobre pressão – como dizia o inesquecível Alceu Amoroso Lima.
Prova da desgraçada carência: não apareceu uma só reportagem para lembrar que a primeira tipografia autorizada a funcionar na colônia foi aquela que veio de Londres via Lisboa encaixotada no porão da nau Medusa logo depois da chegada da família real em 1808 e que custou cem libras esterlinas.
Ninguém teve a audácia para lembrar que o país passou os primeiros 308 anos de sua história ignorando os poderes daquela prensa que não diferia muito da outra, a que esmagava azeitonas para fazer azeite e aperfeiçoada pelo fundidor alemão Johannes Gutenberg. Mais da metade de nossa existência legal (515 anos) foi passada em condições semelhantes às da Idade Média.
O período de trevas poderia ter sido encurtado em 61 anos se uma tipografia trazida de Lisboa em 1747 não tivesse sido impiedosamente desmantelada obedecendo às ordens (evidentemente manuscritas) vindas da Inquisição de Lisboa.
Com a tipografia instalada no Rio (provavelmente nas cercanias do atual Passeio Público) foi possível imprimir, em 10 de setembro de 1808, o primeiro periódico na América portuguesa, a Gazeta do Rio de Janeiro, precursora dos diários oficiais. Mesmo assim, acredita-se que não conseguiu ser o primeiro veículo jornalístico a circular na cidade-aniversariante: é bem possível que o Correio Braziliense, ou Armazém Literário, mensário impresso em Londres, em 1 de junho, tenha chegado antes ao Rio. De qualquer forma, tinha a vantagem de não ser censurado e jamais o foi nos 14 anos seguintes.
O texto introdutório de Hipólito da Costa (seu fundador e único redator) é considerado o marco fundador da imprensa livre no Brasil. Da primeira às 61 linhas seguintes, um compromisso do jornalista com o bem-estar da sociedade e seu desenvolvimento cultural.
Quando D. Pedro I foi proclamado imperador (12 de outubro de 1822, fato que marcou efetivamente nossa emancipação), já estavam sendo impressos no Rio quatro periódicos livres de censura (além do londrino Correio e do baiano Idade d’Ouro do Brasil, fundado em 1811): o Revérbero Constitucional Fluminense (de 1821), O Patriota (de 1813), o Correio do Rio de Janeiro, de 1821 e A Malagueta (também de 1821).
São Paulo só conheceu uma imprensa local 19 anos depois (em 1827); o Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal ainda em circulação da América Latina, é anterior (1825). No entanto São Paulo é a dona da mídia brasileira
Cidade midiática
Na festa dos 450 anos do Rio não apareceu uma alma generosa para lembrar as glórias passadas, a primazia e o protagonismo da imprensa carioca ou fluminense. Em 2008, por ocasião das festas para lembrar os 200 anos da chegada da corte ao Brasil, a lembrança dos 200 anos da fundação da nossa imprensa foi rigorosamente escamoteada. Não convinha, era melancólico demais.
Aquela imprensa exuberante, diversificada e excitada que conseguiu chegar ao quarto centenário do Rio, em 1965, está hoje reduzida a dois jornais: o ônibus chamado Globo & o irmão caçula Extra, e o valente O Dia.
Naquele ano surgia a TV Globo. Valeu a troca? Cartas para a redação.
Desapareceram, foram para o espaço – ou para as nuvens – as aguerridas e adversárias Última Hora e Tribuna da Imprensa, o onipotente Correio da Manhã, o engravatado Diário de Notícias, o charmoso Diário Carioca e o jornal-símbolo, jornal-escola, jornal-saudade, jornal-país, dito “do Brasil”.
A cidade midiática, emissora, tambor ouvido do Oiapoque ao Chuí, hoje se contenta em imaginar-se sedutora. Disfarça, olha para o lado, finge que não vê os escombros do Leviatã desnorteado que soçobrou na praia.
 
 

02 março 2015

JORNALISMO MEDIÚNICO

Não, Noblat, Lula não é uma ameaça á democracia. É uma ameaça à ditadura da mídia

 
Fernando Brito, no TIJOLAÇO
 
 
noblatreinaldo
Começo o dia lendo a coluna de Ricardo Noblat, em O Globo, espantado em como o “estilo Veja” de jornalismo mediúnico – e grosseiro – passou a ser uma regra na imprensa brasileira.
Noblat conta histórias “em detalhes” sobre encontros privados de Dilma e um “presidente de uma entidade financeira estatal”:
“Cale a boca. Cale a boca agora. Você tem 50 milhões de votos?”
Ao ler, ocorreu-me: que tipo de “presidente de uma entidade financeira estatal”  ouviria um “cale a boca” sem, ato contínuo, pedir as contas e ir embora?
E será que alguém que ouvisse isso, murchasse as orelhas e seguisse no cargo ia contar a “proeza” de ter sido assim humilhado?
No máximo de boa-vontade com Noblat, para o caso de ele ter conversado mesmo com um masoquista deste jaez, é de presumir que – tratando-se de pessoa de tão pouco caráter assim – possa simplesmente ser uma mentira.
Depois, descreve algo semelhante envolvendo o próprio Lula, desta vez com interlocutores identificados: José Dirceu, Gilberto Carvalho e Luís Gushiken.
Consegue o distinto leitor e a cara leitora imaginar um dos três procurando Noblat para contar-lhe como foram “escovados” por Lula, já presidente da República?
Depois, diz que “Lula não perdoa Dilma por ela não ter cedido a vez a ele como candidato no ano passado”.
Mesmo, Noblat?
Lula lhe disse isso?
Ou foi a Marta Suplicy?
Ou os “espíritos”?
Se Lula, de fato, quisesse ser candidato, estava aí mesmo o “Volta, Lula” para embalá-lo e ninguém que conheça o PT pode sequer imaginar que Dilma teria forças para resistir a esta pretensão do ex-presidente.
Afora o “modo Chico Xavier” de apurar diálogos, Noblat incorre no caminho da grosseria, algo que os comentaristas políticos, até por necessidade de manter diálogo em todas as áreas, foge.
Falo dos comentaristas políticos, não dos propagandistas da direita feroz, no padrão Arnaldo Jabor e Reinaldo Azevedo.
Mais grave ainda porque Noblat deveria guardar o exemplo de Carlos Castello Branco, que conheceu no  velho Jornal do Brasil, e que, por qualidade de texto e por ter modos, jamais escreveria frases de pretensão divina como as que ele escreve hoje.
“(Lula) procede assim por defeito de caráter”
“(Lula) agora (é) um milionário lobista de empreiteiras”
Em que Noblat se converteu, em Sérgio Moro de um tribunal de caráter?
Mas há algo que é verdadeiro no que ele escreve, o fato de Lula ser uma ameaça e que é
Não à democracia, como afirma, sem maiores explicações.
Mas a algo que a prepotência açula e o farisaísmo dissimula.
À ditadura da mídia, com sua monocórdia voz, a dizer quem e o que serve para o Brasil.
Falta só arranjar um chapéu para o Noblat
 
 
 

Onde está a sabedoria?

O fim do bom senso


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



A insistência de um grande grupo de parlamentares em conduzir a agenda política na direção oposta ao que indica a evolução da democracia no Brasil pode levar muitos cidadãos a desanimar da vida republicana. Como efeito colateral, também pode ser afetada a reputação da imprensa, ao dar abrigo a certas propostas que significam um retrocesso em conquistas importantes da cidadania.
A leitura dos jornais e a audiência atenta aos principais noticiosos do rádio e da televisão dão a impressão de que o Congresso Nacional se deslocou da contemporaneidade e busca uma ancoragem em algum ponto do século passado. Há uma clara estratégia em curso, que consiste em inserir no senso comum determinados valores que se enquadram melhor em doutrinas religiosas do que nos compêndios legais de um país moderno.
O processo pelo qual se restringe o conceito de razoabilidade a visões de mundo condicionadas por crenças, em lugar do conhecimento, tem o claro objetivo de estabelecer uma interpretação conservadora em questões relativas a alguns dos direitos humanos fundamentais. Por trás desse movimento rosnam propostas reacionárias como a liberação da venda de armas de fogo, a limitação de garantias para homossexuais e a tutela sobre o arbítrio das mulheres.
O diagnóstico e o questionamento desse processo são extremamente difíceis e imprecisos, porque os autores do movimento reacionário fundamentam suas ações numa irracionalidade que encontra um ponto de apoio na fé, enquanto a resistência ao retrocesso precisa elaborar argumentos fundados na razão para discutir essa irracionalidade. Questões como essas, referentes ao tipo de escolha que atende ao interesse de uma sociedade, exigem um trabalho de mediação que, estando nas mãos da mídia tradicional, não produzirá equilíbrio.
Mesmo no campo teórico, há uma enorme difusão de conceitos sobre o que seria o senso comum ou o bom senso. Uma epistemologia do que deve ser considerado como o melhor entre as noções de realidade que a ideologia constrói precisa ser submetida ao teste de origem e validade do conhecimento que fundamenta cada tipo de visão, e já na origem se trava o debate, porque uma das partes está se lixando para o conhecimento.
Onde está a sabedoria?
A epistemologia do senso comum pode ser vista como um sistema cultural, construído por meio da comunicação ao longo da História. Não foi outro o papel da imprensa, em passado recente, ao registrar os passos da humanidade até se chegar consensualmente à convenção segundo a qual deve haver um processo civilizatório. No entanto, a adesão de um grande número de indivíduos de determinada sociedade a esse conjunto de valores depende de o sistema comunicacional estar a serviço desse movimento em direção à modernidade.
Se os indivíduos que têm uma convicção oposta, segundo a qual esta sociedade deve se submeter a critérios religiosos no ordenamento de suas normas, conseguem se organizar num dos pilares da República, o país perde o rumo. Será preciso uma ação enérgica dos demais poderes para reconduzir os legisladores na direção do respeito aos pressupostos da Constituição que definiu o que deve ser o Brasil sob uma democracia.
O bom senso se constrói com a cidadania, que transforma a experiência do cotidiano em balizamento para o futuro. O sentido de cidadania instiga o indivíduo a dar o melhor de si em sua ação e em suas reflexões. O contrário disso é o caminho apontado pelas forças reacionárias que se instalaram no Congresso Nacional - usando o instrumento democrático do voto para condicionar a democracia a seus juízos.
A dificuldade de agir contra aquilo que parece, do ponto de vista da cidadania, como irracionalidade, também é provocada pelo alto grau de subjetividade que a crônica da política impõe à narrativa das disputas de poder. A imprensa precisa se manter ao lado da modernidade, mas pode ser atraída por vantagens pontuais na banda do conservadorismo, se isso significar uma influência maior no jogo político.
Essas são as razões básicas pelas quais o leitor crítico de jornais e atento espectador do noticiário na mídia televisiva tem a impressão de que o bom senso e a sabedoria se ausentaram de Brasília.
 
 

O RETRATO PERFEITO DA SOCIEDADE

O suicídio do Brasil

Aqui estão os responsáveis pela crise, após séculos de predação e escravidão
 
Mino Carta, na Revista CartaCapital
 
 
Com a maior urgência o Brasil haveria de implorar por um New Deal para enfrentar a gigantesca crise em que o meteram. Caso se desse conta da necessidade, ainda assim faltariam um Roosevelt e um Keynes brasileiros para executá-lo. Convém admitir, por outro lado, que, nos começos dos anos 30 do século passado, o presidente americano e seu extraordinário inspirador britânico, se não careciam de coragem para desafiar a elite dos Estados Unidos, não se viam, entretanto, às voltas com uma Operação Lava Jato.
Na entrevista a CartaCapital publicada na primeira edição deste ano, o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, ao afirmar que o Brasil tem de recuperar o crescimento, entendia como medida essencial investimentos em infraestrutura. “São portos – dizia Gabrielli –, estradas, ferrovias, aeroportos e, no caso do petróleo, estaleiros, sondas, plataformas...”
Gabrielli não nos brindava com uma revelação, e sim com uma constatação. O New Deal significou um enorme investimento em infraestrutura, em benefício do trabalho e do emprego. É o que se recomenda neste momento de recessão brava, com óbvia tendência a se acentuar, mais e mais. Nem por isso, a despeito das evidências, outras são as receitas sugeridas, ou reclamadas com veemência.
Duas saltam aos olhos, apresentadas como antídotos seguros ao desastre iminente. Uma, a do impeachment de Dilma Rousseff, como se, uma vez afastada a presidenta, o sol da ordem e do progresso voltasse a raiar. Trata-se, obviamente, de uma hipótese não somente golpista, mas também estúpida. Outra, defendida inclusive por sábios do jornalismo nativo, parece supor que, uma vez atingidos os corruptos por punições exemplares, o País reencontraria seu eixo. Nada impede que as duas receitas sejam tidas como complementares.
No primeiro parágrafo deste editorial, aludia ao Brasil como vítima. De quem? De Dilma? Da corrupção? Do Partido dos Trabalhadores? Vejamos. Dilma foi reeleita com vantagem de 5% dos votos sobre Aécio Neves. Vitória clara. A corrupção é doença crônica no País. O PT não cumpriu o que prometia e no poder portou-se como os demais. Ou seja, aqueles que mantêm a tradição partidária brasileira, vetusta ao contrário do tempo de vida do PT, nascido depois da reforma criada pela ditadura em 1979, e capaz, por mais de duas décadas, de se parecer com um partido de verdade, na melhor acepção democrática e republicana.

O combate à corrupção tem todas as justificativas, mas a Operação Lava Jato é apenas o último (espera-se, se ainda houver espaço para esperanças) ato de um longo enredo. Juscelino conferiu às empreiteiras um papel determinante, a ditadura o fortaleceu e ampliou. Desde o primeiro ato, a peça desenrola-se ao sabor da corrupção. E de muita incompetência até na hora de roubar. E de prepotência e manobras escusas, e da insuportável conciliação das elites.
Não são poucos os brasileiros competentes e honestos. São, porém, minoria absoluta, e não podem fazer a diferença. Campo livre para a chamada elite, cujo empenho total foi e é manter de pé a casa-grande e a senzala. Ou, por outra, uma Idade Média dotada de computadores e celulares de infinitas serventias. A Operação Lava Jato, ao mirar nas empreiteiras, sem entrar no mérito das razões que a movem e exigem justas condenações, precipita o impasse paradoxal.
A nossa elite, a turma do privilégio, os correntistas do HSBC da Suíça e de quem sabe quantos mais paradeiros de dinheiro lavado e sonegado, é a única, inescapável vilã do entrecho. Sem empresas adequadas à tarefa, Roosevelt e Keynes não teriam condições de levar a cabo o New Deal salvador. Aqui, com o processo às nossas empreiteiras, assistimos ao suicídio imposto ao Brasil por cinco séculos de predação e três séculos e meio de escravidão.
Apelo ao perdão não é admissível, está claro. Registre-se, apenas, o desfecho de uma tragédia, que parece até agora não percebida em toda a sua imponência por quem a provocou e por quem a sofre. E ainda mais sofrerá, vítima anunciada o tempo inteiro.
Dois episódios desta semana são o perfeito retrato da sociedade que condena o Brasil ao suicídio. Trata-se dos moradores da casa-grande e de quantos sonham em chegar lá e já agem como se fossem inquilinos. O juiz que se apossa do carro do réu. Os apupos dos frequentadores do Hospital Albert Einstein de São Paulo dirigidos contra o ex-ministro da Fazenda em visita a um amigo enfartado.
Exemplos eficazes e aterradores, reveladores de uma sociedade que ostenta, a par de suas grifes, ignorância, parvoíce, vocação de trapaça, incapacidade crônica para a ironia e o senso de humor, prepotência e arrogância sem limites, hipocrisia e desfaçatez, velhacaria e vulgaridade. São estes os brasileiros que impõem o suicídio a um país favorecido pela natureza como nenhum outro.
 
 

01 março 2015

CORRUPÇÃO E SONEGAÇÃO

Por que mídia escondeu a sonegação de R$ 502 bilhões em 2014?

28 de fevereiro de 2015 | 06:00 Autor: Miguel do Rosário, no TIJOLAÇO
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A confirmação de abertura da CPI do Suiçalão no Senado pode ser uma grande oportunidade.
Aliás, doravante podemos até mudar o nome dela para CPI da Sonegação.
Há algumas semanas, o Sindicato dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz), divulgou um estudo em que estimava a sonegação tributária no ano passado em R$ 502 bilhões.
Para efeito de comparação, os estudos oficiais sobre a corrupção no Brasil costumam estimar um prejuízo em média de R$ 70 a 80 bilhões por ano.
Um estudo da Câmara Federal estimou precisamente em R$ 85 bilhões por ano.
A Veja, que tem interesse em apresentar o Brasil como o país mais corrupto do mundo, estima que a corrupção no Brasil atingiu R$ 82 bilhões por ano.
Procurei a informação sobre o estudo do Sinprofaz na grande mídia.
Nada.
Por que “sonegaram” essa informação?
Os procuradores estimam que a redução da sonegação poderia permitir uma queda brutal da carga tributária.
Eu prefiro nem pensar assim.
Prefiro pensar que poderíamos, ao invés de reduzir a carga tributária, aprimorar de maneira extraordinária a qualidade dos serviços públicos oferecidos aos brasileiros.
Esse mais de meio trilhão de reais por ano dá para bancar, para início de conversa, uma revolução na infra-estrutura, construindo metrôs, trens, vlts, novas estradas, portos, aeroportos em todo país.
Por que a mídia abafa obsessivamente as denúncias e os debates sobre a sonegação e evasão fiscal no país, notadamente a maior do mundo, segundo a ONG Tax Justice?
Diante deste quadro, que arrasa as contas públicas nacionais, o escândalo do HSBC oferece excelente oportunidade para combatermos a cultura da sonegação.
A mesma coisa vale para a sonegação da Globo.
As eleições do ano passado, extremamente turbulentas, sobretudo por causa da morte trágica de Eduardo Campos, abafaram um pouco a divulgação dos documentos completos da sonegação da Globo.
Entrem neste post do Cafezinho, baixem os arquivos e me ajudem a estudar o processo da Receita Federal contra a Globo.
Há vários documentos com as assinaturas dos irmãos Marinho, proprietários da Globo.
Não é nenhuma “delação premiada”.
São provas materiais, concretas, de crime contra o sistema tributário nacional.
Um crime cometido por uma concessão pública de TV que ganha bilhões e bilhões de recursos públicos, de todos os governos, municípios, estatais, e todo o tipo de órgão público nacional.
A Globo é a última empresa que poderia sonegar impostos e evadir recursos para o exterior ilegalmente.
E, no entanto, ela fez isso.
A Globo não pode sair impune tão facilmente de uma operação que envolveu a tentativa criminosa de escamotear recursos que pertencem ao povo brasileiro.
Não adianta falar que pagou o Darf.
Evasão fiscal e lavagem de dinheiro não podem ser perdoados porque se pagou uma dívida.
A Justiça e o Ministério Público não zelam, de maneira tão rígida, pelo bem público, a ponto de pretenderem fechar e quebrar todas as grandes empreiteiras nacionais em nome disso?
Por que um zelo obsessivo, até mesmo destruidor, de um lado, e nenhuma disposição para investigar os grandes sonegadores nacionais?
A nossa mídia faz uma campanha sistemática contra os impostos, sem jamais explicitar que a sonegação representa o crime mais lesivo aos cofres públicos.
Por que isso, se a sonegação é a seis vezes maior que a corrupção?
Queremos mais informações sobre o estranho roubo do processo da sonegação da Globo, um roubo que resultou em grande vantagem para a emissora, porque postergou a sua transferência para a esfera criminal do Ministério Público.
Esperemos que a CPI do Suiçação, enfim, abra uma brecha neste mórbido pacto de silêncio da mídia quando o assunto é o principal problema brasileiro, aquele que atinge diretamente as contas públicas nacionais.
Também estamos curiosos para entender porque o PSDB não assinou o requerimento da criação da CPI do Suiçalão?
O PSDB não acha que a sonegação brasileira seja um problema nacional?
E a mídia, por quanto tempo vai bloquear o debate sobre a evasão fiscal brasileira?

AGÊNCIAS DE "RISCO" E CONVERSA FIADA

moodys




“Quando entrei na Moody’s, no fim de 1997, o pior temor de um analista era contribuir para uma classificação falsa, causar danos à reputação da exatidão da Moody’s e perder o emprego”
“Quando saí da Moody’s (em 2008), o pior temor de um analista era fazer algo que colocasse em perigo a participação no mercado da Moody’s, de causar dano a seu negócio e deteriorar as relações da agência com seus clientes”.


(Mark Froeba, ex-diretor da Moody's)







A “nota” da Petrobras e a “nota” da Moody’s

Mauro Santayanna
A agência de classificação de “risco” Moody´s acaba de rebaixar a nota de crédito da Petrobras de Baa2 para Ba2, fazendo com que ela passe de “grau de investimento” para “grau especulativo”.
Com sede nos Estados Unidos, o país mais endividado do mundo, de quem o Brasil é, atualmente, o quarto maior credor individual externo, a Moody´s é daquelas estruturas criadas para vender ao público a ilusão de que a Europa e os EUA ainda são o centro do mundo, e o capitalismo um modelo perfeito para o desenvolvimento econômico e social da espécie, que distribui, do centro para a “periferia”, formada por estados ineptos e atrasados, recomendações e “notas” essenciais para a solução de seus problemas e a caminhada humana rumo ao futuro.
O que faz a Petrobras ?
Produz conhecimento, combustíveis, plásticos, produtos químicos, e, indiretamente, gigantescos navios de carga, plataformas de petróleo, robôs e equipamentos submarinos, gasodutos e refinarias.
De que vive a Moody´s?
Basicamente, de “trouxas” e de conversa fiada, assim como suas congêneres ocidentais, que produzem, a exemplo dela, monumentais burradas, quando seus “criteriosos” conselhos seriam mais necessários.
Conversa fiada que primou pela ausência, por exemplo, quando, às vésperas da Crise do Subprime, que quase quebrou o mundo em 2008, devido à fragilidade, imprevisão e irresponsabilidade especulativa do mercado financeiro dos EUA, a Moody,s, e outras agências de classificação de “risco” ocidentais, longe de alertar para o que estava acontecendo, atribuíram “grau de investimento”, um dos mais altos que existem, ao Lehman Brothers, pouco antes que esse banco pedisse concordata.
Conversa fiada que também primou pela incompetência e imprevisibilidade, quando, às vésperas da falência da Islândia – no bojo da profunda crise europeia, que, como se vê pela Grécia, parece não ter fim – alguns bancos islandeses chegaram a receber da Moody´s oTriple A, o mais alto patamar de  avaliação, também poucos dias antes de quebrar.
Afinal, as agências de classificação europeias e norte-americanas,  agem, antes de tudo, com solidariedade de “classe”. Quando se trata de empresas e nações “ocidentais”, e teoricamente desenvolvidas – apesar de apresentarem indicadores macro-econômicos piores do que muitos países do antigo Terceiro Mundo – as agências “erram” em suas previsões e só vêem a catástrofe quando as circunstâncias, se impõem, inapelavelmente, seguindo depois o seu caminho na maior cara dura, como se nada tivesse acontecido.
Quando se trata, no entanto, de países e empresas de nações emergentes, com indicadores econômicos como um crescimento de 400% do PIB, em dólares, em cerca de 12 anos, reservas monetárias de centenas de bilhões de dólares, e uma dívida pública líquida de menos de 35%, como o Brasil, o relho desce sem dó, principalmente quando se trata de um esforço coordenado, com outros tipos de abutres, como o Wall Street Journal, e o Financial Times, para desqualificar a nação que estiver ocupando o lugar da “bola da vez”.
Não é por outra razão que vários países e instituições multilaterais, como o BRICS, já discutem a criação de suas próprias agências de classificação de risco.
Não apenas porque estão cansados de ser constantemente caluniados, sabotados e chantageados por “analistas” de aluguel – como, aliás, também ocorre dentro de certos países, como o Brasil – mas também porque não se pode, absolutamente, confiar em suas informações.
Se houvesse uma agência de classificação de risco para as agências de “classificação” de risco ocidentais, razoavelmente isenta – caso isso fosse possível no ambiente de podridão especulativa e manipuladora dos “mercados” – a nota da Moody´s, e de outras agências semelhantes deveria se situar, se isso fosse permitido pelas Leis da Termodinâmica, abaixo do zero absoluto.
Em um mundo normal, nenhum investidor acreditaria mais na Moody´s, ou investiria um centem suas ações, para deixar de apostar e aplicar seu dinheiro em uma empresa da economia real, que, com quase três milhões de barris por dia, é a maior produtora de petróleo do mundo, entre as petrolíferas de capital aberto, produz bilhões de metros cúbicos de gás e de etanol por ano, é a mais premiada empresa do planeta – receberá no mês que vem mais um “oscar” do Petróleo da OTC – Offshore Technologies Conferences – em tecnologia de exploração em águas profundas, emprega quase 90.000 pessoas em 17 países, e lucrou mais de 10 bilhões de dólares em 2013, por causa da opinião de um bando de espertalhões influenciados e teleguiados por interesses que vão dos governos dos países em que estão sediados aos de “investidores” e especuladores que têm muito a ganhar sempre que a velha manada de analfabetos políticos acredita em suas “previsões”.
Neste mundo absurdo que vivemos, que não é o da China, por exemplo, que – do alto da segunda economia do mundo e de mais de 4 trilhões de dólares em ouro e reservas monetárias – está se lixando olimpicamente para as agências de “classificação” ocidentais, o rebaixamento da “nota” da Petrobras pela Moody´s, absolutamente aleatória do ponto de vista das condições de produção e mercado da empresa, adquire, infelizmente, a dimensão de um oráculo, e ocupa as primeiras páginas dos jornais.
E o pior é que, entre nós, de forma ridícula e patética, ainda tem gente que, por júbilo ou ignorância, festeja e comemora mais esse conto do vigário – destinado a enfraquecer a maior empresa do país – que não passa de um absurdo e premeditado esbulho.


(Extraído do TIJOLAÇO, de Fernando Brito)