07 janeiro 2015

QUEM NÃO DISCUTE, SE TRUMBICA

‘O Abutre’ e a regulação da mídia: onde travar o debate?

 
Alberto Dines, no Observatório da Imprensa
 
 
 
O novo ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, não perdeu tempo: tomou posse e começou a operar ao mesmo tempo. A regulação da mídia será uma das prioridades: falou em desconcentrar o setor, mas enfatizou que não tem projeto ou meta específica – antes quer fomentar um debate nacional, de modo a que o teor e o escopo da regulação sejam sugeridos por uma discussão ampla, democrática. O ministro deixou claro que a regulação abrangerá o negócio da mídia eletrônica que vive no regime de concessão pública. Se cumprimos o previsto na Constituição não haverá o menor risco de atentar contra a liberdade de expressão.
Bem-vindo ao clube, ministro! Outros já o tentaram – sem qualquer resultado.
Mas se o debate é fundamental e prioritário, onde deverá ser travado? Na própria mídia? Melhor desistir: a mídia não se discute, tem horror ao espelho, mesmo quando jornais são convocados para examinar com rigor o desempenho da TV ou vice-versa.
O Conselho de Comunicação Social, órgão auxiliar do Congresso Nacional, estabelecido pela Constituição de 1988 para funcionar como fórum de discussão, passou grande parte da sua existência (14 anos) engavetado, e depois de um curto intermezzo de atividade, foi desativado. Voltou a operar numa espécie de clandestinidade amiga para poupá-lo de críticas e evitar que a problemática escolha do cardeal do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta, para presidi-lo fosse contestada.
Cúmplices do horror
“O Abutre” é um excelente filme sobre a falta de escrúpulos de cinegrafistas freelancersque trabalham de madrugada na área de Los Angeles. É também uma crítica aos sociopatas que se drogam através de fiapos da informação na internet.
Não é o primeiro filme que faz a crítica do jornalismo. Poderia ser o milionésimo. A imprensa iniciou-se como personagem em 1909, em “The Power of the Press” (O poder da imprensa, de Van Dyke Brook). Em 1993, o maior semanário português, Expresso, em parceria com a Cinemateca Portuguesa, organizou um belíssimo ciclo com 50 clássicos sobre jornalismo, começando com o remake de “The Power of the Press” dirigido em 1920 por Frank Capra.
Editado pelo brilhante jornalista Joaquim Vieira (criador do primeiro Observatório da Imprensa, em Portugal), o catálogo da mostra lista quase quinhentas produções ao longo de 84 anos (1909-1993). De lá para cá (1993-2015) é possível imaginar que outras centenas de produções cinematográficas ou seriados de TV (como “Newsroom”) poderiam ter sido realizadas nos quatro cantos do mundo. Ásia, inclusive.
E por que razão “O Abutre” serve de paradigma para comprovar a inapetência da imprensa nativa para o autoescrutínio?
Simplesmente porque o filme está disponível na íntegra (embora em tela pequena) no YouTube, inteiramente grátis, e até o momento em que este texto está sendo redigido foi visitado apenas por pouco menos de três mil pessoas.
Por que o desinteresse de cinéfilos e “midiéfilos”? O filme é ruim? Ao contrário, excelente. Explicação: não foi badalado, nem discutido, está escondido, sujeito apenas ao movimento boca a aboca. Publicadas algumas resenhas, o assunto foi encerrado. Os códigos corporativos vigentes não permitiriam ir adiante.
Temas para debate não faltam: a começar pelo título em português – “O Abutre”, que em inglês seria “Vulture”. O nome original, “Nightcrawler”, designa um tipo de verme que rasteja durante a noite e é usado como isca para pesca de anzol.
Estes cameramen só trabalham à noite, por conta própria, cobrindo roubos, estupros, assassinatos, acidentes e vendendo imagens cruéis para alavancar as audiências dos telejornais das 6 da manhã.
Não são repórteres, nem jornalistas: a produção da emissora obtém os dados básicos, edita o material e o coloca no ar. Não é coisa de abutres (aves de porte, que rapinam à luz do dia), são rastejadores noturnos que através da faixa de rádio da polícia às vezes até se antecipam a ela. Tão sem escrúpulos quanto os bandidos cujas façanhas cobrem, entregam o produto em mãos (ou via digital), acertam o preço, geralmente não barganham e recebem a grana na hora.
Os (as) infelizes que lidam com os crawlers – plantonistas da madrugada – desempenham funções até piores (como a personagem Nina do filme) porque sabem como tirar partido do horror, mesmo quando o advogado de plantão recomenda prudência e moderação no sensacionalismo.
Fora da pauta
Não há razão para sequestrar este debate. O fenômeno não é brasileiro, mas seria instrutivo examiná-lo preventivamente: os crimes da madrugada ocorrem em comunidades da periferia onde nem a polícia chega com facilidade. Nossos sindicatos não permitem a intrusão desses lúmpen. Os baixos instintos aqui são mostrados em horário nobre, em HD, para milhões de espectadores que precisam sonhar e não para os que precisam de adrenalina para acordar.
Um dia teremos algo assemelhado aos nightcrawlers, na telona ou na telinha de celulares. E lá chegaremos lampeiros justamente porque nossa mídia está inacessível, perto do céu, fora da pauta. Mídia aqui não é assunto da mídia. Tal como os rastejadores, nossa mídia prefere a faina noturna. Parece criança que sonha em ser invisível.
 
 

CHUTANDO PRA FORA

O jornalismo Cafuringa


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Desde que foram anunciados os nomes dos novos ministros da área econômica, os principais jornais do país se esforçam para decifrar o que pode mudar no segundo mandato de Dilma Rousseff. Mas, se o leitor atento e crítico revisitar as primeiras páginas publicadas desde a última semana de dezembro, vai encontrar uma grande fartura de contradições, como resultado de apostas e conjecturas fabricadas nas redações.
A declaração do ministro do Planejamento, de que haverá mudanças no sistema de reajuste do salário mínimo, foi colhida e vem sendo tratada de maneira equivocada pela imprensa, como um sinal de limite à autonomia do triunvirato econômico. O noticiário registra um processo de idas e vindas na interpretação dos sinais emitidos pelo governo: na quarta-feira (7/1), por exemplo, os diários de circulação nacional destacam o que é anunciado como uma “decisão” da presidente da República – o corte antecipado de despesas, ainda antes de ser aprovado o Orçamento pelo Congresso Nacional.
Trata-se de medida que se repete todos os anos, em todas as instâncias da gestão pública: a intenção de reduzir despesas não obrigatórias, como viagens e compras de produtos e serviços considerados não essenciais ao funcionamento do aparelho do Estado. A diferença é que, segundo as reportagens, a decisão anunciada cria uma norma geral para a administração federal, que consiste em limitar os gastos mês a mês, até que esteja aprovado o Orçamento, o que deve ocorrer em março.
Além de destrinchar o que está subentendido nas entrelinhas do noticiário, o observador pode se distrair com outro aspecto do conteúdo dos jornais: a dificuldade que parece ter a imprensa para penetrar nos núcleos de decisão do poder Executivo. Mesmo colunistas que frequentam há anos as antessalas de ministros já não parecem ter a mesma intimidade com o poder, e o resultado é a fartura de suposições, declarações e algumas invencionices.
Apanha-se uma declaração, aplica-se sobre ela o que se imagina seja o perfil dos agentes encarregados de tomar decisões e faz-se a aposta: tal coisa só pode significar isso ou aquilo. Então, o batalhão de analistas e comentadores faz a “leitura” do fato ou da hipótese.
A nuvem de palavras
A imprensa brasileira lembra o ex-jogador de futebol Cafuringa, ponta-direita que foi astro no Fluminense e que tinha como principal talento a criatividade do drible. O problema é que, quando chegava diante do gol adversário, Cafuringa mandava a bola para longe.
No festival de “chutes” que tem marcado a cobertura do Planalto Central, são poucos os jornalistas que ainda conseguem fazer as duas coisas, ou seja, apurar as informações e dar a elas um tratamento equilibrado, interessante e desvinculado dos pressupostos dos editores.
Diante da dificuldade para interpretar declarações de autoridades, usando apenas o talento humano, eventualmente as redações apelam para a tecnologia: na quarta-feira (7), por exemplo, o Globo aplicou sobre o discurso de posse do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a técnica da “nuvem de palavras”, que permite formar uma imagem com as expressões usadas em um texto, de modo que as palavras mais repetidas aparecem em tamanho maior. Só que não deu certo e o jornal teve que apelar aos analistas de sempre, que fizeram as suposições corriqueiras.
Qualquer pessoa minimamente habilitada no uso de computadores pode criar uma “nuvem” para analisar o conteúdo de um texto. Pode-se usar para isso até mesmo o serviço “Vispublica” do governo federal (ver aqui), criado para dar mais transparência às decisões do governo. Mas, para analisar questões mais complexas de política e economia, é preciso muito mais: é necessário desprender-se de preconceitos e abrir a mente para interpretações que contrariem o viés preexistente.
Por exemplo, na análise do discurso do ministro Levy, o Globo destaca a visão de mercado, segundo a qual o novo titular da Fazenda escolheu um vocabulário cauteloso para passar uma mensagem a investidores e ao empresariado. Escondido no meio da reportagem, um economista fala que “o país não está em crise, está em situação difícil”, e que o ajuste não será tão penoso como se espera.
O jornalismo predominante no Brasil lembra mesmo o falecido Cafuringa: só sabe jogar pela direita, dribla muito mas chuta pra fora.
 
 

05 janeiro 2015

PITIZEIRA

A praga da República do Piti

, no Jornal GGN 
O maior risco do governo Dilma não é o PSDB nem o PT: é o piti.
Dilma não tem ideia de como o estilo piti da comandante se espraia por toda a estrutura de governo, em ordem inversa à da competência do pitizeiro: quanto mais medíocre, maior será o piti, como estratégia para ocultar o desconhecimento.
É só conferir o que foi o governo Collor, a partir dos “pitis” do presidente. Até contínuo do Palácio tornou-se pitizeiro.
Durante quatro anos, os grupos de mídia acusaram Dilma de ser insensível, conivente com a corrupção, assassina de crianças, terrorista e o diabo a quatro. A única crítica que pegou foi a de “pitizeira”. E pegou fundo, porque confirmada por diversas testemunhas.
Provavelmente 80% do desgaste de Dilma decorre desse estilo, do piti ou da desatenção para com interlocutores, sejam políticos ou representantes de movimentos sociais. Não significa apenas falta de respeito, mas realça o personalismo, o voluntarismo que se tornou a marca mais negativa do primeiro governo.
Daí não se entender o “piti” com o Ministro do Planejamento Nelson Barbosa, por ter anunciado mudança nas regras de cálculo do salário mínimo.
De fato, em 2015 encerra-se o prazo do cálculo atualmente em vigor. Há tempos, Barbosa defende um novo cálculo, preservando o poder de compra dos salários, mas sem a velocidade dos primeiros anos. Foi claro na afirmação da preservação do poder de compra.
Declarou isso na cerimônia de nomeação dos Ministros e houve exploração política, óbvio, que acabou conferindo uma gravidade muito maior do que o enunciado.
De que forma procederia uma comandante disposta a mudar sua imagem? Telefonaria para Barbosa, trocariam ideias e juntos pensariam em uma forma de amenizar o impacto da primeira declaração.
Em vez disso, os jornais estampam o “piti”, de que Dilma teria “ordenado” que Barbosa desmentisse a afirmação.
Se ordenou ou pediu, se foi autoritária ou compreensiva, não se sabe, porque os jornais continuarão forçando a barra em todos os episódios, da roupa de Dilma na posse até o suposto “piti” posterior.
De qualquer modo, se Barbosa foi ingênuo na sua declaração, Dilma o superou ao permitir evoluir a ideia do “piti”.
Faria melhor, ao retornar a Brasilia, em reunir todos os auxiliares, de Ministros a assessores, e montar um estatuto da gafieira: “Neste governo, ficam proibidos doravante, pitis, elevação de voz, desatenção com terceiros”.
 
 

ENTREVISTAS APRESSADAS

Para que esclarecer?

 
 
Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa
 
 
A imprensa ainda explora o desencontro entre o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, e a presidente da República, ocorrido no sábado (3/1), quando o ministro foi obrigado a desmentir declaração que havia feito na véspera sobre possíveis mudanças nas regras de reajuste do salário mínimo. A sequência do noticiário, na segunda-feira (5), coloca em contexto mais claro o suposto desentendimento, mas alguns colunistas aproveitam para levantar dúvidas sobre a autonomia dos ministros da área econômica.
Notas e frases esparsas garimpadas nos principais jornais de circulação nacional ajudam a esclarecer o episódio, que é interpretado por analistas como uma demonstração de autoritarismo da presidente e um teste para a autoridade dos novos ministros. Passado o fim de semana, o leitor que acompanhou o assunto ficou sabendo que o ministro Barbosa, assediado por jornalistas ávidos por notícias no deserto em que se transforma Brasília nos feriados, comentou na sexta-feira (2/1) que seria preciso uma nova fórmula para o reajuste do salário mínimo.
A declaração, reproduzida em meio a interpretações variadas da imprensa, tinha potencial para gerar uma crise com dirigentes sindicais, e a presidente recomendou ao ministro que esclarecesse a questão. Barbosa, então, se viu obrigado a declarar formalmente que os reajustes do salário mínimo continuarão sendo baseados na correção pela variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do ano anterior e o crescimento do Produto Interno Bruto nos dois anos anteriores.
Esclarecimentos adicionais colhidos em outras notícias sobre a situação do país permitem observar que a preocupação manifestada pelo ministro do Planejamento tem origem em um aspecto específico da economia nacional: há uma necessidade crescente de seguir reforçando o poder de compra do salário e ao mesmo tempo melhorar as condições operacionais das pequenas empresas, responsáveis pela expansão da oferta de empregos.
Assim, pode-se depreender que a resposta apressada do ministro do Planejamento a uma pergunta afoita dos repórteres foi retirada do contexto e amplificada pelos jornais, como uma declaração fora de sintonia. E a necessidade de esclarecer a questão é interpretada como uma ação autoritária da presidente, seguida de uma atitude submissa do ministro.
Entrevistas apressadas
Para o governo, a lição a ser tirada do episódio é que ministro nenhum deve dar entrevistas de improviso, apenas para atender a carência de pautas da imprensa. Para que a relação entre autoridades e jornalistas seja preservada naquilo que interessa à sociedade, questões com potencial para gerar ambiguidade devem ser tratadas formalmente, em encontros organizados nas condições adequadas, para que sejam reduzidos os potenciais de mal-entendidos.
Embora estes dias de festas tenham amenizado as relações entre a mídia tradicional e o governo federal, não se pode ignorar o fato de que há um permanente clima de mal-estar entre a imprensa e o grupo político que foi reconduzido ao poder central. Portanto, tudo que qualquer representante do governo disser, com potencial para produzir comentários negativos, será explorado negativamente.
Além disso, a imagem pública da presidente da República, em seu primeiro mandato, ficou marcada pela pecha de autoritarismo, o que determina como centro dos debates o grau de autonomia que ela estará disposta a conceder ao triunvirato que irá conduzir a política econômica. O ponto crucial dessa questão é a margem de operações dos ministros em um cenário no qual o poder de compra dos salários precisa ser preservado, como um dos principais recursos para o propósito de reduzir desigualdades e manter a economia aquecida.
O noticiário especializado não costuma explicar como convivem nas mesmas tabelas os gráficos que mostram a deterioração das condições macroeconômicas e, ao mesmo tempo, a elevada oferta de empregos e a valorização crescente da renda do trabalho.
Uma reportagem da Folha de S. Paulo (ver aqui), publicada na edição de segunda-feira (5), ajuda a entender a economia subterrânea das pequenas empresas e seu alto crescimento. Entre essa reportagem isolada e as manchetes de todos os dias forma-se a zona cinzenta que é explorada diariamente pelos jornais, sempre em detrimento dos interesses do trabalho, em oposição aos interesses do capital.
 
 

03 janeiro 2015

PARA DIAS MAIS FELIZES

A escolha adequada da mídia pode tornar
seu ano mais feliz


Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo


Ninguém merece
Ninguém merece
A mídia tem o poder de tornar o seu ano mais feliz ou mais infeliz.
Se você passa a temporada consumindo determinado tipo de notícias e análises, isso vai afetar negativamente seu humor e, em certos casos, até sua saúde mental e física.
Por isso, escolher o que você vai ler, ver ou ouvir na mídia é um ato de enorme importância como resolução de fim de ano.
Conheço muitas pessoas que se autoimpõem um flagelo. No carro, ligam a CBN ou a Jovem Pan, e ficam ouvindo Merval, Sardenberg, Sheherazade e Reinaldo Azevedo.
Na sala de casa, oscilam entre a Globo e a Globonews, e não enfrentam apenas a voz do atraso, mas também o rosto, de William Waack a Jabor.
Diante de tamanha dose de jornalismo enviesado e frequentemente envenenado, essas pessoas se revoltam, e acabam colocando sua raiva e inconformismo para fora, sobretudo nas redes sociais.
A estas pessoas, uma boa notícia: você pode viver perfeitamente sem esse martírio.
Sem zanzar freneticamente entre variadas mídias de índole maligna, você deixa de dar-lhes aquilo de que elas vivem: audiência.
De certas vozes perturbadoras você não pode se livrar: a de um chefe despótico, por exemplo. Mas ninguém obriga você a ouvir Jabor e derivados.
Algumas pessoas, erroneamente, retrucam que você tem que ver o que “eles” estão dizendo.
Não é verdade.
No mundo das redes sociais, o que eles falam ou fazem de extraordinário acaba chegando a você, sem que você tenha que consumir horas de informações e opiniões deletérias.
Ninguém teve que ficar grudado em Sheherazade, por exemplo, para saber, rapidamente, o que ela tinha a dizer sobre justiceiros.
Ninguém também foi obrigado a desperdiçar o domingo no Faustão para saber que Bonner ganhara um prêmio patético das mãos de Fernanda Montenegro.
Agora mesmo: ninguém teve que acompanhar o jornal gaúcho Zero Hora para saber a opinião de um cronista seu sobre o paraíso de Punta del Leste sem “um único negro”.
Tudo que for relevante chega rapidamente a você sem o preço brutal de acompanhar a Globonews e a CBN, a Jovem Pan ou a Veja.
Você terá um ano melhor sem a companhia de Ali Kamel e Bonner, Reinaldo Azevedo e Jabor, Sheherazade e Sardenberg, William Waack e Diego Mainardi, Lobão e Gentili, e assim por diante.
Experimente.
Sua vida ficará mais leve.
Feliz 2015 a todos.
 
 

MUDANÇAS NA EUROPA

A democracia começa na Grécia


Nuno Ramos de Almeida, no sítio OUTRAS PALAVRAS


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Gregos vão às urnas em 25/1, podendo derrubar políticas de “austeridade” e iniciar uma revolução democrática. Por isso, FMI e Alemanha já chantageiam…
Talvez 2015 — um ano que promete tudo, menos pasmaceira — tenha começado antecipadamente nesta quarta-feira, 29/12. Fracassou uma manobra do primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, para assegurar seu próprio mandato até 2016. Como resultado, haverá eleições parlamentares antecipadas em 25/1. Segundo as pesquisas, a Syriza — Frente de Esquerda Radical — é favorita para formar novo governo. Seu principal líder, Alexis Tsipras, declarou, minutos depois: “uma página foi virada. Em pouco tempo, as políticas de ‘austeridade’ impostas ao país farão parte do passado”. São, em dose mais radical, o mesmo que Joaquim Levy, o ministro da Fazenda escolhido por Dilma Roussef, quer impor ao Brasil, também a partir de 2015…
Uma vitória da Syriza teria consequências além da Grécia e da Europa. Desafiaria o estranho retorno do neoliberalismo — a política ultracapitalista que provocou a crise iniciada em 2008, mas que paradoxalmente recuperou influência, por faltarem, ainda, opções sistêmicas. Por isso, não será fácil. Imediatamente após anunciadas as eleições,  o Fundo Monetário Internacional (FMI) suspendeu o pagamento de um empréstimo à Grécia, com o qual havia se comprometido. E o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaueble, dirigiu-se aos gregos repetindo, “ipsis literis”, a frase de Margareth Thatcher: “não há alternativas”… 
Os gregos se curvarão? Talvez seja o primeiro grande desafio de 2015, o primeiro ato a definir seu sentido. “Outras Palavras” celebrará, nas próximas horas: por um ano que sacuda os acomodados e acalente os inquietos! Foi ótimo ter sua companhia em 2014. Estejamos juntos nos tempos áridos, porém cheios de oportunidades, que se abrirão. Tin-tim! (A.M.)

Quando os EUA ocuparam o Iraque enviaram um homem para mandar no país: Paul Bremer foi o escolhido. O homem que usava terno e gravata com botas militares notabilizou-se por ter defendido publicamente o seguinte: os iraquianos vão ter uma democracia, vão poder eleger todo mundo, menos os partidos com que os americanos não estão de acordo.
Apesar de o Iraque desse tempo viver sob ocupação militar e a União Europeia ser um espaço formalmente constituído por países independentes, esta é a situação dos povos a mando da troika [FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu]: os povos são livres para votar, desde que não ponham  em causa a ordem imposta a partir do eixo Berlim-Bruxelas. E para lembrar isso aos mais recalcitrantes, usam-se todas armas disponíveis: depois de o FMI anunciar a suspensão do pagamento da sexta parcela de um empréstimo, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble veio a público afirmar que “os gregos não têm alternativa” às políticas de austeridade.
A receita da chantagem e da pressão é velha, mas tem dado até agora os seus resultados. Em 2011 a troika anunciou também a suspensão de uma parcela, do primeiro empréstimo à Grécia. A decisão de ouvir o povo e fazer um referendo às medidas da troika, anunciada pelo então primeiro-ministro grego, Papandreu, deixou Berlim e Bruxelas em estado de guerra. O governo grego foi obrigado a recuar em toda a linha e a assumir que as imposições da troika não estavam sujeitas às decisões democráticas.
Nesta segunda tentativa de chantagem, a Grécia tem mais uns anitos de medidas impostas pelo estrangeiro que levaram à destruição do país e ao empobrecimento da sua população, o que faz com que nenhum habitante ignore que esta chantagem pode ser poderosa, porque apela ao medo do desconhecido. Mas sabem o fundamental: que a política da troika se limitou a garantir os lucros dos especuladores: roubar aos pobres para dar aos ricos. Nenhum dos problemas estruturais da economia grega foi resolvido: o país produz menos, tem mais desempregados, deve mais e está mais pobre e desigual. A única coisa que estas políticas, com selo da chanceler alemã, conseguiram foi dar mais dinheiro aos do costume: os especuladores e os muito ricos.
No dia 25 de Janeiro realizam-se eleições legislativas antecipadas na Grécia e pela primeira vez um partido antitroika pode ganhar. As sondagens dão como vencedor o Syriza (coligação de esquerda radical). Este pode ser o primeiro episódio de uma mudança diversa mas considerável na Europa. Depois da possível vitória da extrema-esquerda na Grécia, as sondagens dizem que em Espanha o Podemos poderá disputar o primeiro lugar das eleições. Na França, pode vir a triunfar a Frente Nacional e no Reino Unido cresce o UKIP. Todos estes partidos são diferentes, a única coisa que os une é responderem a um mal-estar crescente dos povos em relação à integração europeia e às políticas ditadas pelo governo de Berlim.
Aquilo que se verificou até aqui é que as políticas neoliberais esvaziaram a democracia e se tornaram cada vez mais autoritárias. Os povos votam em partidos diferentes, mas quem dá ordens é Berlim e Bruxelas, a mando dos interesses dos “mercados”. Até os Orçamentos do Estado passaram a ter de ter visto de Bruxelas. A única coisa que a integração na UE faz é garantir que todos pagamos os prejuízos dos especuladores financeiros. Foi esta a lição que nos deixou a crise financeira começada em 2008: quando os lucros da especulação eram altos, receberam os dividendos os especuladores accionistas do bancos; quando os bancos tiveram prejuízos ou foram à falência devido à especulação, pagamos nós. A nossa democracia foi expropriada para garantir a segurança dos lucros dos poderosos.
Só há alternativa a este estado de coisas devolvendo a soberania aos povos. A democracia só tem sentido se pudermos escolher caminhos diferentes. No dia 25 de Janeiro os gregos vão às urnas e isso pode ser o início de uma revolução democrática.
 
 
 
 
 

TORCER PARA O PAÍS ENGRENAR

Dilma 2015: os desafios do segundo mandato


Antônio Lassance, na Agência Carta Maior
Lula Marques/Fotos Públicas


"Um pessoa nunca se banha duas vezes no mesmo rio. Da segunda vez, já não será a mesma pessoa, nem o mesmo rio" (Heráclito de Éfeso).

A presidenta que tomou posse para o segundo mandato já não é mais a mesma pessoa e não está mais no mesmo Brasil de quatro anos atrás.

Dilma tem agora mais experiência. Aprendeu por tentativa e erro e, também, aos trancos e barrancos, que precisará agir de forma diferente para sobreviver às constantes tentativas de cerco contra seu governo. Precisará ser outra Dilma.

Sua popularidade começa menor, comparada à de 2011. Seus partidos de apoio diminuíram de tamanho no Congresso e estão mais pulverizados. Os movimentos sociais veem boa parte de seu ministério com desconfiança.

A oposição partidária e midiática está mais agressiva do que nunca.

A economia vai mal. Vai mal praticamente no mundo inteiro, o que torna difícil qualquer cenário mais otimista.

A única boa notícia possível é a de que este ano tende a ser um pouco melhor do que anterior, mas não o suficiente para imaginar que o Brasil e a América Latina recuperem sua atividade econômica em ritmo mais intenso.

Dilma tem em mãos muitos grandes problemas. Os três principais são:

1) na política, a relação com o Congresso, com os movimentos sociais e com a mídia;

2) na macroeconomia, a sintonia fina para reforçar as contas públicas e controlar a inflação sem comprometer o emprego e retomando aos poucos o crescimento;

3) Nas obras de infraestrutura, o grande problema é que a espinha dorsal dos investimentos depende das estatais, em especial da Petrobrás, e das empreiteiras, todas elas enredadas em uma crise instalada pelas revelações da Operação Lava Jato.

O ano de 2015 será de vacas magras. O governo precisa imediatamente preparar a população para isso.

Terá deixar claro onde serão feitos ajustes e mesmo sacrifícios e a que preço.
O grande desafio de Dilma é manter o tripé que sustentou seu governo e o de Lula: políticas sociais de redução das desigualdades, estabilidade econômica e melhoria da infraestrutura.

Esses três ingredientes serão fundamentais para o sucesso ou fracasso de seu segundo governo e estarão sob constante disputa de todos os setores - esperemos também que os movimentos sociais estejam atentos para essa agenda.

Está claro que não basta eleger presidentes da República.

O Brasil, em 2015, é um carro com pouco combustível enfrentando um terreno esburacado e íngrime.

Precisará ser empurrado para o rumo certo por aqueles que torcem para que ele possa voltar a engrenar.


(*) Antonio Lassance é cientista político.


Créditos da foto: Lula Marques/Fotos Públicas

MATERIAL RECICLADO

Reciclando a cobertura política


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Os principais jornais do país capricham na cobertura da cerimônia de posse da presidente da República, Dilma Rousseff, em seu segundo mandato. A reinauguração do governo petista mereceu nas edições de sexta-feira (2/1) um pouco mais de volume e densidade noticiosa do que a primeira posse de Dilma, em janeiro de 2011.
A própria imprensa faz algumas comparações com o evento de quatro anos atrás, mas aproveita a chance para explorar o escândalo da Petrobras e as dificuldades contábeis do governo.
Em 2011, Dilma assumiu com a fama de boa gestora, de uma “gerentona” rigorosa, mas, em termos políticos, a imprensa havia tentado colar nela a depreciativa nominação de um “poste” plantado pelo seu antecessor, o ex-presidente Lula da Silva. Duvidava-se de que seria capaz de dominar o complicado jogo das alianças que condiciona o exercício do poder em Brasília.
Na nova versão, a imprensa reconhece que a presidente implantou sua marca pessoal, distanciando-se da matriz onde nasceu sua candidatura, e procura explorar supostas divergências entre ela e seu mentor. Assim, o noticiário passa ao leitor a ideia de que Dilma sofre pressões do grupo político liderado por Lula da Silva, por admitir uma receita próxima do ideário tido como neoliberal para superar o déficit circunstancial no Tesouro e indicadores negativos em alguns aspectos da economia.
De passagem, aqui e ali alguns artigos e editoriais afirmam que as primeiras medidas anunciadas pelo Planalto contradizem promessas de campanha, embora algumas delas venham a atender recomendações da iniciativa privada vocalizadas pela própria mídia. Mas o que chama mais atenção na cobertura da posse é a diminuição do protagonismo da oposição nos cenários desenhados pelos jornalistas.
Basicamente, os jornais dedicam aos representantes oposicionistas apenas frases esparsas, negando-lhes a oportunidade de expor com clareza o que pensam dessa passagem do poder em um governo vergastado pelo escândalo da Petrobras e acossado por dificuldades nas contas públicas.
“Oposição selvagem”
A leitura cuidadosa dos três principais diários de circulação nacional mostra uma diminuição do espaço concedido rotineiramente aos representantes mais destacados da oposição. Seria um sintoma de que a imprensa hegemônica estaria recolhida para tratar as cicatrizes de mais uma derrota nas urnas? Ou a ausência de declarações retumbantes seria resultado simplesmente da falta do que dizer?
Para analisar o discurso predominante na mídia, é preciso observar as expressões que ancoram a mensagem central, e em geral esse processo de indução a certa interpretação dos fatos pode ser observado a partir de alguns pontos fixos: a manchete, um editorial e um ou dois artigos; também se pode acrescentar, eventualmente, a leitura de notas implantadas nas colunas de política para complementar essa constatação.
Assim, pode-se observar que os jornais procuram relacionar o discurso da posse presidencial ao reempacotamento de um velho produto, ou seja, tentam grudar no governo que se inaugura uma etiqueta de validade vencida. Além disso, os textos insistem em demonstrar um distanciamento entre a presidente que assume o segundo mandato e o ex-presidente que a lançou na carreira política.
O fato de o ex-presidente Lula da Silva ter participado discretamente da cerimônia de posse é apresentado como sinal de que alguma coisa não vai bem nas relações entre eles. Para complementar essa versão, usa-se o artifício das notas curtas que relatam descontentamentos nas bases do partido com algumas nomeações para o ministério.
Também é interessante observar como os jornais reduziram as citações do senador Aécio Neves, que até a semana passada era apresentado como líder da oposição. Até o cariocaO Globo, que nunca negou respaldo ao senador mineiro, o coloca em segundo plano. O personagem principal da oposição, na nova versão da imprensa, é o governador reeleito de São Paulo, Geraldo Alckmin.
O Estado de S. Paulo dedica um longo texto à disputa entre os dois, mas afirma que Aécio personifica uma “oposição selvagem”, lembra que sua passagem pelo Senado foi pouco expressiva, enquanto apresenta Alckmin como o nome natural para disputar a presidência em 2018. Já a Folha de S. Paulo praticamente ignorou o senador mineiro.
Terá mudado a imprensa ou a política?
Nem uma coisa nem outra: o que parece novo é apenas material reciclado.

01 janeiro 2015

ESTRATÉGIAS E ESTRATAGEMAS

A década do escândalo


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Os jornais de quarta-feira (31/12), último dia de 2014, analisam as escolhas até aqui anunciadas para a formação do governo no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Há uma tendência dos comentaristas a considerar que o futuro ministério marca uma separação formal entre a presidente reeleita e seu mentor, o ex-presidente Lula da Silva. A tese predominante considera que as escolhas de Dilma revelam que ela busca mais autonomia, mas fica isolada no partido que a elegeu.
A principal divergência nessa corrente fica por conta do colunista Elio Gaspari, para quem não se pode dissociar Dilma de Lula. O articulista da Folha de S.Paulo e do Globo entende que o aparente afastamento entre os dois é apenas um estratagema para dar ao governo petista duas frentes no embate político, de olho das eleições de 2018. Assim, se a atual presidente promete fazer uma faxina na Petrobras, e dá sinais de se afastar da corrente partidária mais envolvida no escândalo, Lula se empenha no discurso de defesa da estatal.
Interessante observar que Gaspari, cujos textos costumam se distanciar anos-luz das platitudes e imposturas que florescem na imprensa brasileira, usa a palavra “estratagema” em vez de “estratégia”. Em filosofia, “estratagema” significa um ardil, ou manobra, que se justifica eticamente apenas em circunstância de conflito aberto e que, em contexto não conflituoso, é condenado como engodo e farsa. Estratégia é a arte ou ciência de escolher um plano e os meios idôneos para alcançá-lo.
No texto de Gaspari, a distância entre Dilma e Lula é um ardil para alcançar o plano estratégico de ocupar o máximo de espaço na política. Assim, conclui-se que a aparente divergência entre os dois permite que o governo domine ao mesmo tempo o campo da situação, que lhe compete pela vitória nas urnas, e parte do campo da oposição, por deslocar seus dois mais importantes protagonistas para posições diferentes no conflito representado pelo escândalo da corrupção.
Enquanto isso, a oposição propriamente dita vive a reboque da imprensa, perde a iniciativa e fica na condição subalterna de alimentar manchetes de efeito duvidoso. Falta uma estratégia aos oposicionistas, e a maior prova disso é que perdeu a eleição presidencial, mesmo com o apoio maciço do maior poder fora das instituições republicanas.
Estratégias e estratagemas
Em algum momento, um desses próceres da mídia tradicional vai afirmar que o período que se encerra em 2014 terá sido a “década da corrupção”. Afinal, é da natureza dos próceres produzir manifestações extremas, como diria o Policarpo Quaresma, personagem do romance de Lima Barreto, porque têm uma necessidade extraordinária de não serem esquecidos pelo futuro. Numa imprensa que desestimula o trabalho em equipe e incentiva a carreira individual, o jornalista precisa se destacar no grito, daí a proliferação dos textos ruidosos e “definições definitivas”.
Seria mais apropriado dizer que essa tem sido a década do escândalo, mas também pode ser chamada de a década da Justiça, a se julgar pelo grau de eficiência alcançado pelo sistema punitivo do Estado, ainda que algumas de suas decisões sejam contraditórias. Também se pode afirmar que essa é a década em que o chamado “quarto poder” se apropriou de uma fração do Poder Legislativo, ao assumir a tutela do campo político que compete à oposição.
Desde maio de 2005, quando a revista Veja revelou o conteúdo de um vídeo, no qual um funcionário graduado dos Correios se vangloriava das facilidades do esquema que desaguou na Ação Penal 470, os principais meios de comunicação do país vêm se tornando protagonistas da ação partidária, emasculando as agremiações oposicionistas, que ficam a reboque de jornalistas. De lá para cá, contraditoriamente, a oposição ganhou voz e destaque na mídia, mas perdeu três eleições consecutivas.
O que é que esse breve histórico demonstra?
Que, ao se entregar à tutela da imprensa, a oposição perde o poder de elaborar sua estratégia e passa a viver de estratagemas. Também se pode concluir que, a despeito do que dizem as pesquisas sobre a credibilidade da imprensa, a mídia tradicional não tem influência suficiente para definir o resultado das urnas, ainda que transforme o clima eleitoral em uma “tempestade perfeita”.
A democracia brasileira precisa de uma oposição que jogue no campo político, em vez de se rebaixar à condição de marionete da mídia.
Um feliz 2015 para todos nós.