08 agosto 2014

APENAS ESTUPEFAÇÃO

Opinião abalizada


Parece ingenuidade, mas é apenas estupefação.

Como pode a maior emissora do País, os maiores jornais em circulação e a revista semanal mais vendida se unirem para vender aos seus leitores e espectadores a ideia de que houve um escândalo, um crime vergonhoso, na CPI da Petrobras, apenas por que alguns dos depoentes receberam algumas das perguntas que seriam feitas por alguns dos parlamentares?

O que há de ilegal, imoral ou ao menos ilógico nisso? Qual o problema se um diretor da empresa foi treinado por assessores ou técnicos sobre como responder às prováveis perguntas que lhe seriam feitas? O que se espera de um aliado além de apoio e aliança? Alguém impediu que alguma pergunta terrível fosse feita? Algum representante da oposição teve sua palavra cassada?

Os jornalistas da grande imprensa perderam completamente o senso de ridículo, além da remota honestidade? Vocês não tem o mínimo de vergonha na cara? Por que os senhores ainda não foram à merda?

Ah, é. Porque o PT e o Lula e a Dilma não bancaram a regulamentação da mídia, porque eles se acovardaram, preferiram lamber as botas dos tubarões e são uns bostas que impedem que o Brasil puna abusos e mentiras de sua imprensa marrom, ideologizada e mesquinha (diferentemente dos EUA, Inglaterra, França e muitos países ditos desenvolvidos que criaram mecanismos democráticos e juridicamente perfeitos para proteger o cidadão e a democracia).

Mas sabe o que é pior, insuportável? Ver amigos supostamente inteligentes consumindo esse estrume que acham ser informação e vomitando o mesmo esterco pela boca, achando que se trata de uma opinião.

Quer saber? Já que é assim, vou-me embora pra Passárgada. Lá, sou amigo do Rei.


(Extraído do ESQUERDOPATA)


 



JUDEU, SIONISTA, SEMITA, HEBRAICO, ISRAELITA

Judaísmo não é sionismo


Breno Altman, no Opera Mundi



O presidente da Confederação Israelita do Brasil, Claudio Lottenberg, publicou na Folha um artigo instigante. O título embute uma premissa fundamental: "Antissionismo é antissemitismo". Trata-se de conveniente cláusula para interdição do debate: não seria possível confrontar as ideias de Theodore Herzl sem se confundir com os que levaram seis milhões de judeus ao extermínio.

Tal escudo moral, amparado na vitimização, resvala para o cinismo. Sucessivos governos sionistas, afinal, transformaram Israel em país ocupante de territórios alheios, impedindo a soberania de outro povo, o palestino. Os requintes de brutalidade para manter essa dominação colonial, nos últimos anos, ofendem a comunidade internacional. O álibi do Holocausto, nessas circunstâncias, constitui insulto à humanidade e à memória judaica.
Agência Efe

Netanyahu afirmou que a incursão militar de Israel em Gaza é “justificada” e “proporcional”

Lottenberg nem sequer se refere ao massacre de Gaza, mesmo diante dos corpos de mulheres e crianças. Prefere apresentar versão edulcorada do sionismo, que seria "a expressão moderna da autodeterminação nacional judaica". Não faz qualquer questão de se diferenciar dos bandos mais reacionários, como o Likud de Benjamin Netanyahu.

O autor vai ainda mais longe. Para ele, os judeus "definem-se por uma religião (o judaísmo), uma língua (o hebraico) e uma terra (Israel)". De uma penada, expurgou, por exemplo, os judeus que são ateus, aqueles cuja língua é a do país no qual vivem e os que não consideram primordial a existência de Israel.

Atualmente hegemônico entre os judeus, o sionismo é apenas uma corrente de opinião, que se caracteriza por abordagem nacionalista. Não equivale a eventual código histórico-cultural dos povos judeus. Trata-se tão somente de uma orientação político-ideológica fundida à religião e ao Estado.

O epicentro de seu discurso sempre foi a criação de uma "pátria judaica". Vários dos fundadores do sionismo eram agnósticos, mas selaram aliança com chefes religiosos para reforçar seu poderio, ainda que às custas de construir o Estado de Israel como entidade confessional.

Ao contrário da autodeterminação dos negros na África do Sul pós-Mandela, forjando uma república laica e não racial, o nacionalismo sionista pressupõe supremacia judaica e religião estatal. Essa concepção levou a uma nação com tripla personalidade: democracia para judeus, cidadania de segunda classe para árabes-israelenses e regime de apartheid para palestinos dos territórios ocupados.
Nem todos os sionistas, é verdade, são defensores do colonialismo. Muitos, como o próprio Lottenberg, são partidários da solução dos dois Estados e da retirada para as fronteiras anteriores a 1967. Constitui manobra repulsiva, porém, afirmar que seja antissemitismo a contraposição ao sionismo. Essa é a lógica que dirigentes sionistas sempre quiseram impor aos críticos da política belicista e expansionista de Israel.

Não é ser antissemita negar aos grupos dominantes do sionismo o direito de cometer crimes de limpeza étnica, discriminação e agressão armada contra o povo palestino.

Não são definitivamente antissemitas os judeus que, honrando longa história de participação nas lutas pela emancipação dos povos e pela paz, se apresentam para combater a doutrina supremacista que rege o Estado de Israel.

* Breno Altman é jornalista e diretor do site Opera Mundi

** Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo desta sexta-feira (08/08)
 
 
 

07 agosto 2014

HAJA HIPOCRISIA

Se é crime, são dois



Jânio de Freitas, na FSP




Os parlamentares do PSDB querem explorar a denúncia de uma banalidade que também é praticada por eles

Com os amigos que tem no PSDB, Geraldo Alckmin deve ao menos proteger as costas. Enquanto se ocupa de sua promissora campanha eleitoral, os parlamentares do PSDB que passam por Brasília qualificam como crime, e querem submetida a processos, "a armação" de parlamentares governistas e funcionários que prepararam depoentes da Petrobras para inquirições no Congresso. Bem, isso é o que senadores e deputados do PSDB aparentam à primeira vista.

Os adversários de Geraldo Alckmin jamais o identificaram com crime de qualquer espécie. Não é assim, porém, a conduta dos seus companheiros. Se atos de determinadas pessoas são criminosos, outras que os cometam, idênticos, incidem também em atos criminosos. Eis, então, o que há apenas 62 dias era publicado no "Painel" da Folha:

"Preocupado com a CPI mista que investigará o cartel do metrô, o governo de São Paulo começou a treinar os parlamentares do PSDB escalados para defendê-lo. Nesta quarta (4), foram ao Congresso Marcio Aith, subsecretário de Comunicação, e Roberto Pfeiffer, representante da Corregedoria do Estado" [a nota continuava].

Exatamente as providências de que os deputados e senadores ligados ao governo federal estão acusados, a propósito das CPIs sobre as suspeitas de corrupção levantadas contra a administração passada da Petrobras.

Pode-se admitir que Geraldo Alckmin não soubesse das providências de sua assessoria. O senador Aloysio Nunes Ferreira não admite. Disse ele, responsabilizando Dilma Rousseff pelo apontado acerto entre inquiridores governistas e depoentes da Petrobras: "Seria impossível que ela não soubesse que estava se armando este crime contra uma instituição da República" [o Congresso e sua CPI]. Se é "crime" e o governante dele tem conhecimento inevitável, Alckmin e Dilma estão igualados pelo candidato a vice-presidente na chapa de Aécio Neves, tanto no conhecimento como no crime.

O "Painel" informava ainda: "A ordem é reduzir os danos à campanha de Geraldo Alckmin à reeleição. O presidente do PSDB paulista, Duarte Nogueira, defendeu atenção redobrada à CPI: Sabemos que o PT tentará usá-la para atacar nosso governo'. O líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), também foi à reunião. Os tucanos lamentam não poder contar com o deputado Carlos Sampaio (SP) na defesa do governo paulista. Ele já estava escalado para fustigar o Planalto na CPMI da Petrobras".

Por incompetência açodada ou descuido preguiçoso, para não falar em omissão hipócrita, os parlamentares do PSDB decidiram explorar eleitoralmente a denúncia sensacionalista de uma banalidade, no entanto, também por eles praticada. Com igualdade até no objetivo eleitoral que atribuem aos governistas: "A ordem é reduzir os danos à campanha" de Alckmin.

Em obediência ao seu zelo pela ética parlamentar, Renan Calheiros, presidente do Congresso, decidiu que uma comissão investigue a denúncia de "armação" na CPI da Petrobras. Mas, até por experiência própria, ou a das suas vaquinhas coadjuvantes em certo inquérito do Senado, Renan Calheiros sabe que os partidos se representam nas CPIs para a defesa combinada de seus correligionários e ataque combinado aos adversários. Farsa, como sabe a imprensa, é fingir que as CPIs não são assim.
 
 
(Extraído do ESQUERDOPATA)
 
 
 

06 agosto 2014

ECOS DA COPA

A mão que puxa para baixo


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Passado quase um mês do encerramento da Copa do Mundo, é interessante analisar como o noticiário da imprensa pode ter afetado as expectativas da população sobre a capacidade do Brasil de sediar um grande evento como aquele.
Uma pesquisa realizada pelo Ibope Inteligência, inédita até este momento, revela que 68% dos consultados foram influenciados pelo noticiário intenso sobre problemas na organização da Copa.
As manifestações de rua, em primeiro lugar, e as notícias veiculadas pelos jornais, revistas, rádio e TV, criaram um ambiente pessimista que persistiu até que os fatos desmentissem essa expectativa.
A coleta de opiniões foi realizada entre os dias 18 e 21 de julho, com 2002 pessoas de 16 anos ou mais, entrevistadas em 141 municípios de todas as regiões do País. O instituto considera uma margem de erro de dois pontos percentuais e aplica um nível de confiança de 95% na acuidade das respostas.
A amostragem obedeceu a estratos representativos, na população, das devidas proporções em termos de raça/cor, gênero, idade, escolaridade, renda familiar, porte e característica do município onde vivem, conforme sua localização, se na capital, em região metropolitana ou no interior.
Os números gerais mostram que 43% dos entrevistados consideraram, que, independentemente do desempenho da seleção brasileira, a Copa do Mundo no Brasil foi “boa” (34%) ou “ótima” (9%). Um quarto dos brasileiros (24%) consideraram regular e 32% disseram que foi ruim (10%) ou péssima (22%).
Há uma grande regularidade nas respostas, com leve prevalência de uma avaliação positiva entre as pessoas de renda mais alta e com mais anos de escolaridade.
Interessante observar que, embora o evento tenha sido bem avaliado, 40% consideraram que a Copa do Mundo trouxe mais prejuízos que benefícios para o Brasil, enquanto 31% disseram que a Copa trouxe mais benefícios.
Minando a confiança
A influência da imprensa no estado de espírito dos brasileiros antes da Copa do Mundo pode ser mensurada nas respostas à questão direta sobre o assunto. Ao comparar o evento com o clima que se criou nos meses anteriores, a maioria considerou que sua expectativa foi revertida positivamente: 16% disseram que a Copa foi “muito melhor do que esperava”; 25% acharam que foi “um pouco melhor do que esperava”; 27% consideraram que o evento não surpreendeu sua expectativa, enquanto 18% acharam que foi um “pouco pior” e 11% entenderam que foi “muito pior”.
Quanto às causas do pessimismo que rondou os brasileiros antes da Copa, 33% apontaram “notícias veiculadas nos meios de comunicação”, 40% foram influenciados pelas manifestações e protestos (que, diga-se de passagem, foram destacados no noticiário), 24% deram como causa a descrença na capacidade do Brasil de realizar o evento e 20% citaram a infraestrutura das cidades-sede, enquanto 9% se declararam afetados pelo conteúdo das redes sociais.
Para 44% dos entrevistados, o noticiário da imprensa nos meses anteriores à Copa foi predominantemente negativo, enquanto 29% consideraram positivo e 23% entenderam que não foi uma coisa nem outra. A percepção da influência do noticiário negativo foi mais elevada (49%) no Sudeste, onde a presença dos grandes jornais é maior do que nas outras regiões do País.
Esse ponto focal ajuda a entender o efeito do noticiário negativo sobre outros temas, como a economia e o potencial dos brasileiros de evoluir em questões como educação e competitividade.
A pesquisa também permite observar como algumas questões se cruzam na visão dos brasileiros sobre seu próprio país. Por exemplo, a percepção de que a infraestrutura das cidades não satisfaz as necessidades de seus habitantes se relaciona diretamente com os protestos que contribuíram para aumentar o pessimismo e afeta a crença na capacidade do País de realizar grandes eventos.
A regularidade no padrão das respostas pode indicar que há uma influência generalizada dos meios de comunicação – principalmente a televisão – sobre a população brasileira como um todo. Por outro lado, essa mesma característica indica uma homogeneidade no viés do noticiário, já que uma diversidade maior de abordagens sobre o assunto teria equilibrado as expectativas antes da Copa.
Em cima desse caldo de insatisfações, uma imprensa interessada em pintar um quadro deletério do país pode produzir grandes estragos ao minar a confiança dos brasileiros em si mesmos.
 
 
 

05 agosto 2014

CISCANDO NO LIXO

O banal faz escândalo


Janio de Freitas
Os oposicionistas não pesquisam nada, só ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo
Perguntas de aliados do depoente, em CPI, jamais, em qualquer tempo e em qualquer país, fugiram a este princípio: destinam-se a ajudar o depoente. Nem teria sentido que fosse o contrário entre aliados. Tal princípio explica, por exemplo, o motivo das lutas pela composição das CPIs sérias, o que não é o caso das duas simultâneas a pretexto da Petrobras --dose dupla cujo despropósito denuncia a sua finalidade de apenas ajudar eleitoralmente a oposição.
De aliado para aliado, nem o improviso em indagações surpreende o indagado. Mesmo que sugerido por uma situação de momento, segue as instruções já dadas pela liderança ou as combinações na bancada. Mais ainda, as perguntas e respostas previamente ajustadas, entre inquiridor e depoente, sempre foram e serão condutas lógicas e, pode-se supor, as mais frequentes entre correligionários nas CPIs. Assim como fazem todos os advogados ao preparar seus clientes para depoimentos policiais e judiciais.
 
O escarcéu em torno do jogo de parceiros, entre inquiridores governistas e depoentes da Petrobras, é o escândalo da banalidade. Bem conhecida de jornalistas, que provavelmente vão explicar qual é a fraude existente, e a que tanto se referem, na colaboração de condutas sempre vista por eles nas CPIs. A explicação é conveniente por ser bem possível que a fraude não esteja na conduta de integrantes da CPI, mas em outras.
Este e os demais capítulos do caso Petrobras, à margem da importância que possam ter ou não, ficam na mastigação de chicletes por estarem nas mãos da oposição mais preguiçosa de quantas se viu por aqui. As lideranças do PSDB e do DEM ficam à espera do que a imprensa publique, para então quatro ou cinco oposicionistas palavrosos saírem com suas declarações de sempre e com os processos judiciais imaginados pelo deputado-promotor Carlos Sampaio. Não pesquisam nada, não estudam nada, apenas ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo. Com tantos meses de falatório sobre Petrobras e seus dirigentes, o que saiu de seguro (e não é muito) a respeito foi só por denúncias à imprensa. Mas a Petrobras sangra, enquanto serve de pasto eleitoral.
PALAVRAS
O bombardeio à terceira escola da ONU em Gaza, igualando o "ataque humanitário" lançado sobre hospitais, foi recebido pelo governo americano e pelo secretário-geral da própria ONU com rigor: "Bombardeio vergonhoso"/"É um ultraje moral e um ato criminoso". E depois, nada? Para dizer isso não é preciso ter o controle de tantos poderes.
Se é para ficar em palavras, eis um acréscimo feito agora ao vocabulário do jornalismo: os milicianos palestinos apanhados pelos israelenses são ditos "presos"; o tenente israelense apanhado pelos palestinos é "sequestrado".
PAX AMERICANA
Por falar em paz, agora mesmo faz cinquentenário um momento muito didático. Em 2 de agosto de 1964, a Marinha dos Estados Unidos informou que o seu contratorpedeiro Maddox foi atacado no golfo de Tonquim por lanchas-torpedeiras do Vietnã do Norte.
Em 48 horas, o governo americano comunicou ao mundo que apurara o ocorrido e, em razão dele, deixou de apenas apoiar as forças militares do Vietnã do Sul e passou à ação própria e direta, com o envio imediato de tropas e o início de bombardeios.
 
 
(Extraído do Jornal GGN)
 
 
 

SÓ MATERIAL DE CAMPANHA

Banalidade e entropia na cobertura
eleitoral

Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Abandonada há muitos anos pelos pesquisadores, a Teoria Matemática da Comunicação, elaborada em 1948 pelo matemático americano Claude Shannon, voltou a ser aplicada recentemente em estudos sobre as trocas de informações em sistemas digitais. Basicamente, trata-se de mensurar a eficiência do processo de transmissão do valor ou significado de mensagens, quando submetido aos efeitos da entropia, redundância, ruídos e imprevisibilidades.
O assunto é parte central das preocupações de programadores e criadores de aplicativos, que precisam de um máximo de resultado com o menor dispêndio de energia e da capacidade de armazenagem ou manipulação de dados. No entanto, continua sendo um campo de conhecimento desprezado pelos estudiosos da comunicação jornalística, que hipoteticamente deveriam levar em conta a eficiência de suas mensagens, num ambiente cada vez mais afetado pelas probabilidades de interpretação correta do enunciado.
Em muitos congressos de jornalistas, como o recente encontro promovido em São Paulo pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o tema da precisão das informações é comumente situado no processo de coleta dos dados que irão compor uma reportagem. Por isso há sempre uma grande ênfase na organização de bancos de dados e em métodos para análise de valor das informações.
Associar o histórico de eventos semelhantes é tido como um dos métodos mais eficientes para a investigação jornalística. No entanto, quase sempre se ignora que tanto o fenômeno da entropia como seu contrário, a redundância, podem estar presentes na origem, ou seja, nos dados que o investigador vai buscar como sendo sua fonte primária.
Toda informação sofre alguma distorção ao ser retirada de sua origem e transposta para um novo contexto, e por isso se considera que não é a soma de informações que assegura a ordem orgânica do sistema, mas seu potencial de evitar a perversão produzida pela entropia. Por isso se ensina que evitar anomalias na ordem das informações pode ser mais importante do que coletar dados.
Material de campanha
O leitor habituado a abordagens diretas dos assuntos tratados diariamente pela imprensa deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com a análise do jornalismo brasileiro?
Essa questão é respondida de maneira direta e muito mais simples pelo colunista Janio de Freitas (ver aqui) ao analisar o barulho que faz a imprensa brasileira com o fato de que autoridades convocadas a depor na CPI da Petrobras receberam treinamento especial antes de responder as perguntas dos senadores.
O articulista da Folha de S.Paulo observa que perguntas de aliados em comissões de todo tipo são feitas para isso mesmo: para facilitar a vida do depoente e, se possível, neutralizar os ataques dos adversários. Para isso se fazem os ensaios que os profissionais de comunicação chamam de media training – é o mesmo processo pelo qual os assessores de um entrevistado o preparam para tirar proveito das perguntas dos jornalistas.
É claro que esse treinamento é feito com base nas questões que estão em evidência, e que muito provavelmente farão parte dos interrogatórios e debates para o qual se está preparando. Nas entrevistas do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, por exemplo, é evidente o estilo recomendado por seus assessores, que criaram para ele o papel do administrador que está sendo constantemente surpreendido pelos fatos desagradáveis e prometendo que tudo será “rigorosamente apurado”.
No caso da Petrobras, como constata Janio de Freitas, o media training apenas mostra que os representantes da oposição não investigam nada – “apenas ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo”.
Na opinião deste observador, é isso e algo mais: oposição e imprensa hegemônica se mesclam em perfeita simbiose, atuando em conjunto para criar constrangimentos ao grupo político que está no poder em Brasília.
O “manchetômetro” da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (citado aqui na sexta-feira, 1/8) demonstra o partidarismo predominante nos principais jornais de circulação nacional.
O jornalismo investigativo, se aplicado objetivamente no cotidiano com o mesmo entusiasmo que desperta nos alegres convescotes de acadêmicos e repórteres aposentados, com certeza ajudaria a imprensa a revelar os vícios da nossa República – em todas as instâncias. Mas o interesse não é investigar: é apenas produzir material de campanha.
 
 
 

HAJA NICHOS

A tendência do jornalismo é o nicho de
mercado


Por Ricardo Kotscho, em seu blogue




 A tendência do jornalismo é o nicho de mercado
O jornalista Glenn Greenwald

"Não há jornalistas sem opinião. A questão é se você as expõe ou finge que não as tem e engana seus leitores".
Também acho. O autor da frase é o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que se tornou uma celebridade no nosso meio, ao revelar os documentos secretos vazados pelo ex-agente da NSA Edward Snowden.
Em debate sobre os rumos do jornalismo no penúltimo dia da Flip, em Paraty, o autor de "Sem lugar para se esconder" tocou num ponto em que há tempos venho pensando: a tendência cada vez maior da criação de nichos de mercado de opinião na imprensa, de que é exemplo o Fla-Flu a que assistimos nesta campanha eleitoral. Melhor até seria falar em reserva de mercado.
O problema, para mim, é quando o jornalista deixa de lado a informação e ocupa seus espaços no papel ou na tela com panfletos político-partidários, sem nenhum compromisso com os fatos e a verdade, para defender um ou outro candidato, um ou outro governo, um ou outro país em guerra, um ou outro time de futebol. São os que torturam os números de pesquisas, distorcem declarações entre aspas, recusam-se a admitir erros.
Você já sabe o que vai ler quando vê o nome do autor, não importam o assunto, a época, o lugar. Num jornalismo como o brasileiro, em que os veículos da nova ou velha mídia são cada vez mais indiferenciados, seguidores de um pensamento único no noticiário e nos editoriais, a concorrência feroz agora se dá entre colunistas e/ou blogueiros que disputam estes nichos de mercado.
Quanto mais radicais e agressivos, trocando argumentos por ofensas, numa campanha permanente a favor das suas "causas", mais eles ganham audiência e leitores, e criam verdadeiras seitas de seguidores fiéis. Com isso, os grandes jornais têm hoje, em suas versões impressas ou on-line, mais colunas do que a Grécia Antiga e sobra pouco espaço para as reportagens, que em outros tempos faziam a diferença entre um veículo e outro.
Sempre defendi, e pratiquei isso, que jornalista deve ter lado, ou seja, deixar claro o que pensa, mas não precisa ser, necessariamente, o lado do preconceito, da mentira, da arrogância, da grosseria, da manipulação, como temos visto por toda parte.
O resultado disso é que os leitores ficam sem saber o que, afinal, está acontecendo no Brasil e no mundo. Vira e mexe a imprensa é surpreendida pelos fatos porque vive brigando com eles, até mesmo em manchetes de jornal. Se os fatos contrariam minhas teses, danem-se os fatos, devem pensar estes escribas panfletários que podem estar fazendo qualquer coisa, menos jornalismo.
Fechados em seus aquários com ar condicionado e sem contato com a realidade, conversando sempre com as mesmas fontes, que pensam como eles, têm horror a sujar os sapatos e a conversar com anônimos. São "jornalistas" que não tomam sol nem chuva, escravos de suas verdades absolutas, não admitem contestação. Quem não pensa como eles é idiota, vendido, terrorista, canalha, biltre.
Rara exceção neste cenário de quem já tem uma velha opinião formada sobre tudo e sobre todos, o veterano Clóvis Rossi, que já fez reportagens quase pelo mundo todo e participou da mesa da Flip em que estava Glenn Greenwald, lembrou uma singela lição: ir para a rua ainda é a melhor forma de se exercer o jornalismo: "É a graça da profissão. O que me atrai mais nela é a possibilidade de ser testemunha ocular da história".
Pois os jornalistas dos nichos ou da reserva de mercado já não se conformam em ser testemunhas, querem eles ser os protagonistas da história. E quem são eles? É preciso nominá-los? São tantos que não lhes darei esta colher de chá _ até porque, não precisam, posto que têm o apoio irrestrito de seus patrões, de quem se tornaram alegres porta-vozes. Multimídias, já ocupam quase todos os espaços e horários nos veículos da comunicação hegemônica, e não param de se multiplicar. Haja nichos...
 
 
 

04 agosto 2014

JORNALISMO DESMORALIZADO

Veja continua (inacreditavelmente)
pautando a mídia


, no Jornal GGN
Nos anos 2.000, a Folha cometeu o maior erro estratégico da sua história moderna, indo a reboque da revista Veja. Não apenas ela, mas os demais veículos.
Dias desses cruzei com o diretor de redação de uma grande publicação, ferozmente anti-governo. Sem que o provocasse, comentou comigo que Veja não faz jornalismo.
Ou seja, mesmo na frente-mídia montada em 2005, o jornalismo de Veja é motivo de vergonha, a maneira como ideologizam qualquer besteira, o fato de não ter a menor preocupação em se ater aos fatos.
Ou seja, o padrão Veja ajudou a desmoralizar o jornalismo como um todo, lançou ao descrédito todos os grupos de mídia. É só conferir o desafio gigantesco da  Folha para recuperar a imagem perdida, tendo que "explicar" aos leitores qual sua posição e qual a dos colunistas.
Aliás, a posição de um jornal não é o que sai nos editoriais (de baixa leitura) mas na cobertura diária.
A repercussão dada ao factoide da Veja desta semana - tratando como escândalo o suposto conhecimento prévio, pelos convocados da CPI da Petrobras, das perguntas que seriam formuladas, beira o ridículo. Escândalo é continuar se valendo de instrumentos de espionagem, mantendo o padrão que, na Inglaterra, levou jornalistas à prisão, e por aqui continua sendo totalmente tolerado.
Ontem um amigo me ligou dizendo que o Jornal Nacional dedicou quase dez minutos de cobertura. O efeito-manada faz com que Estadão e Folha vão atrás.
Não adianta. Mesmo com o Instituto Millenium, com o fórum da ANJ, com os consultores midiáticos, a mídia padece de uma ausência total de visão estratégica. Não tem o menor cuidado ao se misturar com a lama.
 
 
 

SEM SENTIDO. APENAS MAIS UMA INVENÇÃO

 A nova e estranha denúncia contra a
Petrobrás

Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo



A refinaria de Pasadena
A refinaria de Pasadena
Falta sentido à mais recente denúncia sobre a Petrobras.
Não exatamente sobre a Petrobras, aliás. Sobre a CPI que investiga a compra da refinaria em Pasadena.
Segundo a Veja, um vídeo mostraria que os convocados tiveram acesso às perguntas. E teriam se preparado para elas.
A história contada pela Veja tem tons rocambolescos, e adjetivos furiosos. O vídeo, diz a revista, foi gravado por alguém com uma microcâmara escondida numa caneta.
Coisa de Bond. James Bond. Tanto mais que a motivação do autor, sempre segundo a Veja, permanece um mistério.
Bem, ajudar a campanha de Dilma certamente não foi a intenção do dono da caneta espiã.
A fragilidade do alegado escândalo se revela quando você sai da superfície e tenta entender a história.
Você pode perguntar: os convocados a depor tiveram acesso a perguntas de arquiinimigos do PSDB e do DEM?
Não.
Não tiveram.
Numa decisão bizarra para quem defendera a CPI com tanto ardor, tanto o PSDB quanto o DEM decidiram não indicar integrantes para a CPI da Petrobras.
Se tivessem feito, PSDB e DEM teriam absoluto controle sobre as perguntas consideradas cruciais para a compreensão do caso.
Mas abdicaram de participar da CPI, por algum estranho cálculo.
Examinemos agora as questões supostamente antecipadas.
Em qualquer sabatina, você se prepara exaustivamente para responder toda sorte de perguntas.
Isso se chama media training.
Muitas vezes, neste treinamento, há uma figura chamada de “advogado do diabo”. Ele faz a você as perguntas que seu pior inimigo faria.
É uma prática também comum para candidatos quando se preparam para um debate.
Que perguntas sobre o caso Pasadena não teriam sido previstas pelos convocados a depor em sua preparação para o depoimento?
É virtualmente impossível imaginar uma “pergunta surpresa” em situações como aquela.
Não é uma prova de vestibular, em que pode cair uma questão sobre a Revolução Russa ou outra sobre a Revolução Francesa.
Na CPI é um assunto só. E um treinamento competente deixa você preparado para a sabatina.
Um esforço genuíno de investigação jornalística se centraria não nas perguntas, mas nas respostas.
Elas foram inconvincentes? Trouxeram informações erradas? Se sim, quais são as falácias e onde está a verdade?
É um trabalho duro para jornalistas, muito mais árduo que bater bumbo em torno de um vídeo tirado de uma caneta.
Você só entende a opção pelo caminho fácil jornalístico à luz de, simplesmente, tentar gerar um escândalo à beira das eleições.
O objetivo, nestes casos, não é esclarecer o público e sim confundi-lo.
Não tem sido fácil transformar Pasadena num novo Mensalão, ou coisa do gênero.
Empresários e executivos acima de qualquer suspeita como Fabio Barbosa, Jorge Gerdau e Claudio Haddad faziam parte do Conselho de Administração da Petrobras na época da compra e a chancelaram.
Por que ninguém os entrevista sobre o assunto?
Porque não interessa. Porque não ajudaria naquilo que se deseja: inventar um mar de lama.
 
 
 

APENAS TORCEDORES




As "previsões" do mercado


As análises eleitorais do setor financeiro são hoje pouco mais que exercícios do wishful thinking, quando não armações para lucrar






por Marcos Coimbra, na Revista CartaCapital


 

Uma das peculiaridades do momento atual é a intensa e despropositada divulgação das especulações do mercado financeiro a respeito da eleição presidencial. Quase todo dia, a mídia oposicionista faz circular prognósticos eleitorais de bancos e consultorias. E trata-os como se merecessem crédito especial. Talvez considere que nessas empresas existam especialistas notáveis da vida política brasileira, cujas opiniões e pontos de vista precisariam ser conhecidos por todos.

Sem subestimar a competência dos profissionais do mercado financeiro, é fantasia imaginar que possuam grande habilidade analítica em assuntos políticos e eleitorais. Ao contrário, a regra é que estejam improvisados circunstancialmente no papel de “analistas políticos”, o que deixarão de ser tão logo passe a eleição. Em três meses, lá estarão de volta aos afazeres que conhecem, na interpretação de cenários do agronegócio no Piauí, da indústria de calçados ou do comércio de bebidas.

Os bancos, as consultorias econômicas e outras instituições financeiras, nacionais ou não, claro está, têm o direito de elaborar análises da situação política brasileira. E não é de hoje que monitoram os processos eleitorais, para avaliar o impacto dos resultados em seus negócios. Desde a eleição de 1994, muitos dos mais importantes tornaram-se clientes de institutos de pesquisa, às vezes por meio da contratação de pesquisas próprias, às vezes na busca de assessoramento técnico.

Duas coisas são diferentes neste ano. De um lado, há uma proliferação de atores menores, pequenas empresas que buscam espaço no campo das “previsões eleitorais”, algumas no esforço de vender um know-how que não possuem. Quem dispuser de dinheiro para jogar fora que as compre.

De outro, e mais importante, temos atualmente, na imensa maioria dessas “análises”, um extraordinário predomínio do desejado em relação ao observado. Nas “previsões eleitorais” disponíveis, o que encontramos é o retrato do que seus autores gostariam de ver, não do que é mais provável.

Isso fica claro no uso seletivo das pesquisas e na relutância em aceitar o que elas mostram de fato. É o inverso do que o mercado fez em eleições passadas, quando recebia os números com a cautela devida, mas não brigava com eles.

Hoje, a regra passou a ser não acreditar no que as pesquisas dizem e procurar pretensos significados “ocultos”, escondidos nas entrelinhas.

A larga vantagem de Dilma Rousseff, que tem, sozinha, mais intenções de voto do que a soma dos adversários? O fato de ela ter o dobro do segundo colocado e quase cinco vezes o obtido pelo terceiro? A constatação de que os “outros candidatos” sempre terminam com desempenho modestíssimo na urna e são irrelevantes para propiciar o segundo turno? A dianteira da presidenta ante todos em um possível segundo turno? Não dizem nada para quem gasta tempo a perscrutar tabulações e cruzamentos de dados à cata de algum sinal negativo para a presidenta.

E nossa história eleitoral, que indica que quem mais cresce quando começa a propaganda eleitoral na tevê e no rádio são os candidatos à reeleição? E a experiência internacional, que mostra que o “tempo de antena” é um fator decisivo nas eleições modernas? Nada, tudo seria irrelevante, pois viveríamos agora em um hipotético mundo pós-televisivo, no qual o eleitorado conheceria e selecionaria os candidatos por meio das redes sociais.

Engraçado: nas pesquisas esses analistas enxergam apenas o que lhes interessa: a “vontade de mudança”, a “rejeição a Dilma”, o “desgaste do PT”. Para isso serviriam, mas, para qualquer outra coisa, poderiam ser desconsideradas.

As “análises eleitorais” do mercado são hoje pouco mais que exercícios de wishful thinking (quando não são armações para lucrar à custa dos incautos). Os responsáveis por elas fazem “previsões” com base nos desejos de um determinado resultado. Preferem a derrota de Dilma e a anunciam ao mundo.

Lembram o que alguns “analistas” brilhantes da mídia oposicionista ofereceram aos diplomatas norte-americanos na última eleição e o WikiLeaks revelou: um monte de interpretações equivocadas e previsões furadas. No fundo, são muito semelhantes aos comentaristas e colunistas da mesma mídia hoje em dia. Apenas torcedores. Nada mais.