03 agosto 2014

ASSASSINATO DE REPUTAÇÕES

Tange, ferra, engorda e mata


Carlos Brickmann, no Observatório da Imprensa




Um ótimo filme, de 1951, é um retrato do jornalismo da época. Mas vale até hoje. Com Kirk Douglas, dirigido por Billy Wilder, “A Montanha dos Sete Abutres” mostra como as coisas realmente funcionam.
Kirk Douglas é Charles Tatum, repórter decadente em busca de emprego. Um dia, soube que um escavador tinha ficado preso num desabamento, na montanha dos Sete Abutres, numa pequena cidade dos EUA. Tatum decide apostar no caso: a vítima, embora imobilizada por terra e por pedras, tem condições de dar entrevistas. E transforma o salvamento, que poderia ser rápido, em algo demorado. Precisava do tempo para transformar o caso numa grande notícia.
Enquanto rodam as lentas engrenagens do salvamento, Tatum engrandece o drama. Muita gente vai à montanha assistir ao espetáculo. Aparecem os vendedores de cachorro-quente e pipoca, os serviços paralelos, uma roda-gigante. Ganham todos, e a todos interessa a farsa: o povo se diverte, os vendedores faturam, as autoridades estão felizes com o turismo, os jornais vendem, o repórter decadente vira estrela.
Ganham todos? Nem todos: a saúde da vítima se deteriora. Um dia, morre de pneumonia.
O parque em volta da montanha é desmontado, os turistas vão embora. O repórter, arrependido, decide contar a história real. Transforma-se então na segunda vítima: é demitido. Como sempre, e até hoje, todos acreditaram em suas mentiras. Ninguém acredita quando conta a verdade.
“Apesar das acusações...”
O filme tem 63 anos. O jornalismo continua o mesmo –mas com maior força de difusão, com a internet, que espalha uma notícia, mesmo falsa, por tantos lugares que se torna impraticável desmenti-la.
Um grande veículo publica uma notícia (vazada por autoridades anônimas, apresentada como “documentos a que a reportagem teve acesso”), com a defesa da parte atingida (normalmente resumidíssima, mas, embora nem sempre, existente). Centenas de clientes que compram a notícia republicam a informação ignorando a defesa.
Um famoso procurador de Justiça sugeriu a seus colegas que usassem a “relação simbiótica” com a imprensa para que os juízes fossem mais facilmente persuadidos a atendê-los. Relação simbiótica? Sim, é o que ocorre quando dois organismos distintos se aliam para fortalecer-se.
Como no filme, todos ganham com a simbiose: repórteres, que têm a matéria pronta, com tudo o que as autoridades querem dizer; autoridades, com a divulgação garantida e sem contestação; veículos, que ganham prestígio como justiceiros. Mas há quem não ganhe com isso.
Os atingidos, mesmo inocentes, têm a reputação para sempre prejudicada; empresas são preteridas por concorrentes, têm o crédito reduzido ou eliminado, e estarão a caminho da falência. Quantas empresas já fecharam por isso? Quantas foram atingidas por manobras de concorrentes mais bem relacionados? Quantos empregos se perderam? Algum repórter já foi verificar isso?
Monta-se tudo para que o acusado seja considerado culpado. Frase recente de um grande jornal sobre um empresário que sofreu denúncias e foi inocentado mostra isso: “Apesar das acusações, a Justiça Federal absolveu Fulano”. Absolvição, para o redator (e para a opinião pública já trabalhada), é um absurdo.
Lembremos Théo de Barros e Geraldo Vandré, em “Disparada”: “Porque gado a gente marca/ tange, ferra, engorda e mata”. Mas com gente deveria ser diferente.
***
Carlos Brickmann, 69, foi repórter especial da Folha e editor-chefe da Folha da Tarde. É diretor da Brickmann & Associados Comunicação
 
 
 

O MAIOR CABO ELEITORAL

O canhão Lula


Maurício Dias, na Revista CartaCapital




Presidente da câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves é o candidato favorito ao governo do Rio Grande do Norte, estado que a família Alves domina há muitos anos e onde o partido dele, o PMDB, trava nesta eleição um combate por votos com o PT, do qual o ex-presidente Lula é presidente honorário.
“O PMDB quer um espaço maior na campanha, saber qual a estratégia da presidenta Dilma nos palanques estaduais e como será a presença do canhão Lula”, já disse Alves.
O ex-presidente é uma espécie de vice-rei do Norte-Nordeste, para usar uma referência política dos anos 1930, quando Getúlio Vargas indicava os governadores, então chamados presidentes dos estados. Alves não é o único aliado preocupado com os efeitos da intervenção de Lula no processo eleitoral. No Rio de Janeiro, o senador petista Lindbergh Farias conta com ele para ganhar o poder no estado. Note-se que, oficialmente, Dilma apoia Luiz Fernando Pezão, do PMDB.
Quem estranhar o interesse de Alves e Lindbergh sobre a presença do ex-presidente nas eleições, confira as razões. Uma delas, a pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau, em novembro de 2010, tira qualquer dúvida sobre a influência político-eleitoral de Lula naquela região.
Pergunta do pesquisador: “Qual foi o melhor presidente do Brasil?”
A resposta está inserida no livro Eleições não São para Principiantes – Interpretando eventos eleitorais no Brasil, do cientista político Adriano Oliveira e outros autores, que em poucos dias sairá do forno para as livrarias.
Segundo 89,6% dos eleitores pernambucanos, o sexto maior colégio eleitoral do País (com mais de 6 milhões de votos), o pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva foi o melhor presidente da história do Brasil. Ele é secundado pelo ex-presidente FHC, que alcança 1,9% de citações e é seguido por Getúlio Vargas, com 1,0%. De qualquer modo uma surpresa, já que Vargas desapareceu da vida pública em 1954. Optou pelo suicídio, como se sabe, diante de pressão extrema da direita liderada então por Carlos Lacerda, da UDN.

Poderia haver nesta resposta uma contaminação emocional de conterrâneos. Talvez. A influência de Lula, e do lulismo, é, porém fenômeno pressentido e estudado pelos acadêmicos. E tudo vai muito além de Pernambuco.
“O bem-estar econômico dos brasileiros contribuiu – à parte outros fatores (...) − para a avaliação pujante da administração do presidente Lula e o elevado índice de confiança nele depositado”, explica Adriano Oliveira.
Ele faz outras considerações: “Embora o survey tenha sido realizado em um único estado brasileiro, os dados apresentados lançam hipóteses de como o lulismo se manifesta em outras regiões do Brasil”.
Quando se considera, no entanto, o poder de fogo de Lula na campanha eleitoral, Adriano Oliveira pondera que “não se deve desprezar a ação das circunstâncias políticas e econômicas e o desempenho eleitoral de diversos atores, uma vez que as consequências delas podem possibilitar o fortalecimento ou o enfraquecimento do capital eleitoral do ex-presidente”.
 
 
 

OS EUA E SEUS CONFLITOS

Por que os EUA perdem

POR QUE OS EUA PERDEM 

O Brasil e os Estados Unidos, cada um por suas razões, acabam de retirar seu pessoal diplomático de Trípoli, na esteira da desastrada intervenção dos EUA e da OTAN na Líbia, que teve como consequência a entrega de uma das mais desenvolvidas nações do continente africano a uma matilha de quadrilhas radicais islâmicas, após a derrubada e o assassinato de Muamar Kadafi, em 2011.

Brasília está fechando sua embaixada para proteger seus funcionários. Os EUA, porque, assim como ocorreu no Iraque, foram taticamente derrotados e falharam em colocar no poder governos fantoches, apesar de terem destroçado política e socialmente esses países, deixando, como está acontecendo na Síria, como rastro de sua interferência, direta ou indireta, centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados.
Único país do mundo a possuir, sem necessidade de lastro, uma impressora de dinheiro em casa, e a contar com gigantesca máquina de inteligência, espionagem e propaganda, os EUA teriam tudo para, se quisessem, como diria o teórico da auto-ajuda Dale Carnegie, “ganhar amigos e influenciar as pessoas”, incentivando a paz e o desenvolvimento nos países mais pobres, por meio de “soft power”.

Cinco principais razões, no entanto, impedem a república norte-americana de fazer isso:

Em primeiro lugar, o grande business do medo, tocado, protegido, irrigado como frondosa e delicada árvore, todos os dias, por milhares de pseudo-intelectuais, “filósofos”, acadêmicos, “pesquisadores” e jornalistas, que vivem de provocar, induzir e realimentar as indústrias do anti-comunismo, do anti-islamismo, do “anti-chinesismo”, do anti-russismo, do anti-castrismo, do anti-bolivarianismo, etc.

Em segundo lugar, o complexo imperial da direita fundamentalista norte-americana, que acredita, piamente, ter herdado, dos pais fundadores, exclusivo e expresso mandato recebido – como as Tábuas da Lei - diretamente das mãos de Deus, para conduzir o mundo e o destino da Humanidade.

Em terceiro lugar, a política interna, na qual democratas e republicanos, e concorrentes a indicações e a candidaturas, às vezes até do mesmo partido, se acusam mutuamente de desdenhar a segurança, o que coloca a questão da defesa sempre em primeiro plano no embate político, partidário e eleitoral.

Em quarto lugar, os interesses de um imenso complexo industrial-militar que movimenta milhões de pessoas e centenas de bilhões de dólares na pesquisa, desenvolvimento e fabricação de novas armas, que precisam ter sua existência justificada e ser usadas de alguma forma.

E, finalmente, em quinto lugar, uma política externa e uma diplomacia que não conseguem sobreviver sem a desconfiança e a arrogância. Em seu trato com o resto do mundo, principalmente as nações menos favorecidas, os Estados Unidos poderiam usar a cenoura, mas preferem, como qualquer valentão de bairro, brandir o porrete, porque isso lhes dá prazer e a ilusão de força.

Com base em mentiras, como a existência de armas de destruição em massa, os EUA mataram Saddam Hussein e derrubaram Muammar Kadafi, armando um bando de psicopatas que linchou, no meio da rua, a socos e pontapés, o líder líbio, transformando seu rosto em uma espécie de hambúrguer.

Era Kadafi um tirano? Quando convinha, a Europa e os EUA não se aliaram e fizeram negócios com ele, assim como com outros ditadores que são ou foram apoiados pelo “ocidente”, em estados como a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes, ou em países como o Chile de Pinochet e a Indonésia de Suharto ?

Sob a liderança de Saddam Hussein, o Iraque chegou a ser um dos países mais prósperos do Oriente Médio, com uma infraestrutura invejável, boa parte dela construída por brasileiros nos anos 1970 e 1980; e a Líbia, sob Muamar Kadafi, tinha o maior IDH africano.

Hoje, depois de guerras fomentadas e promovidas pelo “ocidente”, os dois países estão entregues a rebeldes islâmicos radicais, perto dos quais Kadafi e Saddam Hussein pareceriam anjos. E os Estados Unidos, depois de um custo financeiro e humano incalculável, estão saindo de Trípoli e de Bagdá escorraçados, como saíram do Vietnam e da Somália.

Em “Von Kriege”, Clausewitz escreveu que “a guerra é a continuação da política por outros meios...” querendo afirmar a primazia da razão política sobre a força das armas. Para os Estados Unidos, a política é a continuação da guerra.

De uma guerra permanente que os opõe – como podemos ver pela espionagem contra seus próprios aliados, entre eles a Alemanha – ao resto do mundo.

Não por acaso, as únicas vezes em que os EUA foram efetivamente bem sucedidos, do ponto de vista bélico, foi quando lutaram claramente não em defesa de suas empresas e de sua elite, mas pela liberdade, no conflito contra a Inglaterra pela independência de seu território, e na Primeira e na Segunda guerras mundiais.

A Guerra Fria não passou de uma estratégia contínua e paranoide de isolar e enfraquecer a União Soviética, que saíra da Segunda Guerra Mundial e da Batalha de Berlim como uma nação vitoriosa, sem a qual o nazismo não teria sido derrotado.

Hoje, embora não o admita, a direita norte-americana está extremamente preocupada com o avanço do BRICS e mais especialmente da China.

Nos próximos anos, se os EUA não mudarem, esse avanço será cada vez mais eficaz e inexorável.

Não pelo fato de que Pequim esteja se armando militarmente, assim como os outros BRICS. Mas porque, na maioria dos lugares em que chegam, países como o Brasil e a China o fazem por meio de obras, comércio, investimentos, portos, estradas, pontes, ferrovias. E os Estados Unidos, a OTAN, e seus aliados, por meio de mentiras, intrigas e discórdia, bombardeios, drones e porta-aviões.




(Extraído do ESQUERDOPATA)



 


O brasileiro paga muitos impostos?

O verdadeiro peso dos impostos


Miguel do Rosário, n'O CAFEZINHO



Reproduzo abaixo um artigo publicado há pouco no Brasil Debate. Ele traz uma informação que contradiz o clichê martelado por nossa mídia sobre a questão dos impostos. O texto revela que o Brasil tem uma das menores alíquotas máximas de imposto de renda no mundo.
Estados Unidos, todos os países europeus, China, Israel, Coréia do Sul, Japão, todos tem alíquotas máximas maiores do que as praticadas no Brasil, país onde, portanto, os ricos pagam pouco imposto (e ainda reclamam).
*
Depende de qual brasileiro se está falando. O brasileiro pobre paga, sim, muitos impostos. O rico? Não. Explica-se. Há diversos tipos de impostos, mas pode-se resumi-los em dois grupos: impostos indiretos, cobrados sobre mercadorias e serviços, e impostos diretos, cobrados sobre a renda e patrimônio.
A estrutura tributária brasileira, herdada do período de ditadura militar, caracteriza-se por tributar mais mercadorias e serviços do que a renda e o patrimônio. A implicação disso é que pobre paga mais impostos proporcionalmente à sua renda do que o rico.
Um grande exemplo disso é o imposto de renda. Um levantamento da consultoria KPMG mostra a alíquota máxima de imposto de renda para diversos países. A partir do levantamento, o gráfico abaixo foi elaborado contando com os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e de países-chave nos demais continentes.
Pode-se verificar que, na verdade, o Brasil (marcado em verde no gráfico) tem uma das menores alíquotas máximas de imposto de renda dentre os países selecionados. A alíquota máxima de imposto de renda que aqui se pode pagar corresponde a menos da metade da alíquota máxima campeã, a da Suécia.
Este é o principal motivo pelo qual o Brasil precisa de uma reforma tributária: tornar sua estrutura tributária mais progressiva, contribuindo positivamente para uma melhor distribuição de renda. E é contra isso que os conservadores lutarão.
gráfico-reforma-tributaria2





NÃO SEGUIU O CONSELHO

FHC e a arte de se apequenar
antes e depois


, no Jornal GGN
Perguntam-me dos motivos para a implicância com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
São vários.
O principal é que tinha base de apoio no seu partido, conhecimento, descendia de família de militares que participaram de episódios centrais de formação do país; tinha formação e adesão de parcelas importantes da opinião pública para montar um governo socialdemocrata, que conduzisse reformas mas lançasse as bases de políticas sociais legitimadoras. Tinha tudo, até a assessoria luxuosa da verdadeira estadista que era dona Ruth para lançar as bases do combate à miséria.
Em vez disso, terceirizou a política econômica para os financistas do seu governo, permitiu a manutenção de políticas cambial e monetária ruinosas, mesmo após três graves crises externas. Jamais conseguiu pensar como um verdadeiro estadista. Era deslumbrado com as pompas do poder, mas não com a possibilidade de mudar realidades.
Fora do poder, poderia ter se tornado um desses sábios referenciais dos quais toda Nação necessita, os mais velhos que trabalham para mostrar rumos, para conciliar, para ajudar na construção de consensos.
Pequeno antes, manteve-se pequeno depois.
Seu artigo de hoje, no Estadão (clique aqui), é tão medíocre que merecia ser assinado por Roberto Freire – o único (repito o único!) Senador da República que, em 1999, foi contra o projeto de renda mínima proposto em comum acordo por ACM e Eduardo Suplicy.
É medíocre por ser falsamente esperto, e pela absoluta falta de respeito de FHC pelos fatos e pela sua própria biografia.
Diz o artigo:
“O que fez o PSDB quando as pesquisas eleitorais de 2002 apontavam para a possível vitória do PT?”.
1.     Elevou os juros, mesmo antes das eleições, reduzindo as próprias chances eleitorais.
Coloca como se fosse um ato de desprendimento e não um gesto de desespero, ante os erros colossais cometidos pelo então presidente do Banco Central Armínio Fraga, que jogou a cotação do dólar nas alturas e quase explodiu com a economia brasileira.
Primeiro, Armínio criou o sistema de pagamento eletrônico, que passou a medir de forma muito mais intensa os movimentos de juros intrabanco e as cotações dos títulos do Tesouro. Depois, introduziu o sistema de “marcação a mercado” – pelo qual os fundos tinham que contabilizar diariamente suas cotas pelo valor de negociação dos títulos a cada dia.
Exemplo pequeno:
·       um título vale 100 no momento de resgate; a taxa de juros do mercado está em 10%. Logo o valor presente do título é 90,9. Ou seja, se alguém comprar por 90,9 e levar até o dia do vencimento, receberá os 100.
·       ai a taxa aumenta para 15%.  Imediatamente o valor a mercado do título cairá para 86,8 – para garantir os 15% de juros no vencimento.
Mesmo que os fundos levassem os títulos até o vencimento, para receber os 100, a nova regra obrigava-os a remarcar o valor da cota de acordo com o valor de negociação diária dos títulos.
Finalmente, lançou uma operação desastrosa de vender títulos pré-fixados amarrados a hedge cambial – visando empurrar goela abaixo do mercado os pré-fixados, em uma atitude de um voluntarismo tal que nada fica a dever às medidas de Dilma Rousseff, e muito mais ruinosa.
Os investidores passaram então a comprar o pacote, a ficar com o hedge e a desovar os pré-fixados no mercado. Esses títulos eram uma parcela ínfima do estoque de pré-fixados do mercado. Mas o valor das cotas de todos os papéis dependia das negociações diárias.
Quando os pré-fixados foram desovados no mercado, houve queda de sua cotação e imediatamente todos os fundos que tinham pré-fixado em carteira foram obrigados, pela marcação a mercado, a desvalorizar o valor de sua cota. Da noite para o dia, investidores se deram conta de que havia caído o saldo de suas aplicações nesses fundos.
Foi um pânico generalizado no mercado, que ajudou a fortalecer o falso temor de que, eleito, Lula confiscaria a poupança.
Foi uma barbeiragem tão grande que em muitas cabeças passou a impressão de ter sido intencional, para espalhar o temor nas eleições que se avizinhavam.
As medidas posteriores foram mero paliativo para impedir que a economia explodisse nas mãos de FHC como consequência dessa barbeiragem.
2.     Sustentou mundo afora que não haveria perigo de irresponsabilidade de Lula, pois as leis e cultura haviam mudado.
FHC baseia-se em uma versão falsa de ter conduzido a aproximação de Lula com o governo Bush Jr, versão devidamente desmascarada aqui por pessoas que participaram diretamente das reuniões prévias entre as equipes de Bush e de Lula. O principal homem de FHC em Washington, embaixador Rubens Barbosa, sempre acenou com fantasmas para o Departamento de Estado norte-americano.
3.     Pediu empréstimo ao FMI, com previa anuência dos candidatos.
Mas é óbvio que o FMI só emprestaria com aval do futuro presidente. Não se tratou de concessão, mas de um ato de moratória, quatro anos após o anterior, devido ao fato de adiar a tomada de medidas urgentes para não atrapalhar as eleições - prática que ele aponta em Dilma, em seu artigo.
FHC termina o artigo prevendo tempos duros, de autoritarismo e repressão.
E conclui: “Vejo fantasmas? Pode ser, mas é melhor cuidado do que não lhes dar atenção”.
É por essas e outras que jamais será a figura reverencial que poderia ter sido, depois de deixar o poder.
Comprova o pior receio de Sérgio Motta quando, pouco antes de morrer, mandou um bilhete implorando: “Não se apequene”.
 
 
 

01 agosto 2014

MARQUETEIROS

Dúvidas atrozes


Mino Carta, na Revista CartaCapital




Dúvidas costumam me assaltar, sou dado a muitas. Neste exato instante, sobrevém a seguinte: sir Winston Churchill tinha um marqueteiro? Meus botões gargalham. Peço explicações, receio me tenham como humorista. Aplacado o ictus de desmesurada diversão, pacatamente explicam ter-se permitido imaginar Duda Mendonça que se chega ao pé do ouvido de sir Winston e lhe sugere prometer sangue, suor e lágrimas ao povo em guerra. Quem riu agora fui eu.
Poderia formular a mesma pergunta sobre o emprego de marqueteiros em relação a alguns outros homens de Estado que ornaram o mundo em tempos relativamente recentes. Roosevelt, De Gaulle, Adenauer, De Gasperi. Todos habilitados a dispensar os préstimos de quem se arvora a conhecer a alma humana melhor de quem o contrata. E tanto mais, pago o serviço tido como indispensável a preços transbordantes.
Conselheiros qualificados e das mais diversas extrações, e até bons amigos afastados do cotidiano da política, serão sempre bem-vindos pelo político arguto, assim como publicitários atilados têm condições de organizar campanhas de anúncios eficazes. A minha dúvida diz respeito ao marqueteiro, cujas funções, se bem entendi, se espalham bem além das tarefas acima, a abarcar conhecimento em todas as latitudes e longitudes, como de resto demonstram os emolumentos que lhe são granjeados. Às vezes, parece-me que o marqueteiro nasce do singular enlace entre Albert Einstein e Norberto Bobbio.
De onde vem a figura, digo, como númeno? Como modelo ideal, pronto e acabado? Dos Estados Unidos, obviamente. Quando adolescente cheguei ao Brasil, a nossa meca cultural situava-se em Paris. Nada má, a escolha. Tratava-se, no fundo, da herança de um século e meio, deixada por dom João VI e sua missão francesa, turma de reacionários que fugiam de Napoleão, mas que sabiam de arte e coisas mais. A imitação do exemplo francês, por mais provinciana que fosse, não deixou de ser infinitamente mais louvável do que a tentativa seguinte, de imitar os Estados Unidos. Sem contar, ponto a favor no meio disso tudo, Machado de Assis, um gênio capaz de assimilar a melhor forma da literatura inglesa.
O marqueteiro à brasileira é um dos resultados desta operação desastrada que em certas áreas metropolitanas do País não passa de cópia fracassada de aspectos de uma cultura diferente e até oposta à nossa. A presença do marqueteiro não é edificante, pelo contrário, representa uma espécie de atestado de mediocridade, nem mais nem menos que em São Paulo a arquitetura da Avenida Berrini: em lugar de repetir Nova York, consegue dar vida a Gotham City, extraída da história em quadrinhos.
No mundo de hoje parece-me enxergar dois conspícuos marqueteiros de si próprios. Trata-se de personagens de peso e vulto, por razões diversas e de certa maneira contrastantes. Primeiro, refiro-me a Putin, cercado, em vez de marqueteiros, de mafiosos ex-agentes e companheiros da KGB. Feroz no exercício do poder, a Putin não se negue tino político e senso de oportunidade à mesa internacional. O outro é o papa Francisco, personagem inesperada, empenhado, até agora com êxito, na tarefa de redimir seu império, posto à prova depois de quanto tornaram sua secularização clamorosa e perversa além da conta, com a única, nítida exceção, embora efêmera, de João XXIII. Sem detrimento da intervenção de conselheiros preciosos, Putin e Francisco lidam diretamente com os problemas da sua exposição coram populo.
E a respeito de Putin, outra dúvida me assoberba: por que Estados Unidos e União Europeia cuidam sofregamente de aplicar sanções contra sua Rússia em nome do conflito ucraniano, e não fazem ao menos o mesmo em relação a Israel de Netanyahu e Lieberman, chanceler de catadura francamente nazista? O massacre, como definiu com extrema precisão a presidenta Dilma, em pleno desenvolvimento na Faixa de Gaza, é tragédia de proporções muito maiores do que a guerra intestina que dilacera a Ucrânia, questão, antes de mais nada, entre ucranianos. A de Gaza é outra história, entre quem foi expulso à força e quem à força lhe tomou o lugar.
 
 
 

O BRASIL DA IMPRENSA VAI MAL

O "manchetômetro" e a imprensa
partidária


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa









A Folha de S. Paulo acaba de descobrir que o racionamento de água que ocorre em São Paulo é racionamento mesmo, e não efeito colateral de obras de manutenção da rede. Essa constatação faz a manchete do jornal nesta sexta-feira (1/8): “Ação de SP na crise da água equivale a racionamento”.
No texto que se segue, o leitor fica sabendo que o racionamento que sofre na prática há um mês também é racionamento na teoria. O diário paulista só percebeu que o racionamento de fato é também um racionamento em termos técnicos quando alguns bares da Vila Madalena, região da boemia frequentada por jornalistas, tiveram que fechar por falta de água.
A nova interpretação da Folha para a crise de abastecimento chama atenção porque acontece ao mesmo tempo em que o jornal anuncia uma campanha para esclarecer aos leitores seu posicionamento diante de alguns temas tidos como importantes: casamento gay, pena de morte, cotas raciais, política econômica, aborto e legalização de drogas. A direção do jornal quer mostrar que, embora tenha posições claras sobre os assuntos, abre espaço para opiniões divergentes.
 Essa mudança responde em parte a especulações feitas por protagonistas das redes sociais sobre a persistência da Folha de S. Paulo em pressionar o senador Aécio Neves (PSDB), candidato a presidente da República, a dar uma explicação para o caso do aeroporto privado feito em Minas Gerais com dinheiro público quando ele era governador do Estado.
Foi a Folha que revelou essa história, obrigando os outros jornais a seguirem a pauta, e o veículo que mais mantém o assunto em evidência. Com a insistência do jornal paulista, Aécio Neves finalmente admitiu que usou o aeroporto “algumas vezes” e, nesta quarta-feira, acusa a Agência Nacional de Aviação Civil de atrasar a homologação do campo de pouso, o que pode ter feito com que ele, “inadvertidamente”, usasse as instalações irregulares.
No mesmo dia, em editorial, a Folha exige mais explicações, acusa o ex-governador de haver privilegiado a cidade onde sua família possui terras, observa que a obra “no mínimo, é conveniente para ele e seus parentes” e conclui que a questão “não está mais que esclarecida”, como quis Aécio.
O Brasil da imprensa vai mal
Alguns leitores escrevem comentários dizendo que o jornal paulista se descola de seus concorrentes, que poupam quanto podem o candidato tucano. No entanto, é mais fácil explicar a aparente guinada da Folha em dois aspectos: o jornal sempre foi muito próximo do ex-governador José Serra, que, embora correligionário, não tem qualquer entusiasmo pela candidatura de Aécio Neves; a Folha, como os outros diários de circulação nacional, segue demonstrando seu partidarismo em favor do PSDB em outros aspectos, principalmente no que se refere aos problemas de São Paulo.
Se não fosse pela simples observação crítica que o leitor mais atento costuma fazer, o partidarismo dos principais diários do País vem sendo registrado por um grupo de pesquisadores da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Suas análises da valência das informações destacadas pela imprensa mostram uma dicotomia presente nas escolhas editoriais, que reforçam aspectos negativos ou positivos dos acontecimentos conforme os protagonistas.
O Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) da UERJ demonstra, com seu “manchetômetro” (ver aqui), como os jornais blindaram Fernando Henrique Cardoso e expuseram Lula da Silva no passado recente, como tratam desigualmente o governo federal e o governo paulista, como as notícias sobre Aécio Neves são mais equilibradas do que o material referente à presidente Dilma Rousseff, bombardeada na proporção de 182 informes negativos para apenas 15 positivos, por exemplo, e como esse bombardeio se intensifica no período eleitoral.
Além disso, o noticiário econômico apresenta um resultado consolidado de mais de 90% de notícias negativas, numa linguagem dicotômica e com poucas nuances, “interpretando os fatos e dados econômicos como sinais de uma crise, ou em andamento, ou prestes a acontecer”.
Os gráficos da cobertura agregada dos três jornais, por exemplo, mostram que a economia teve em julho 97,6% de notícias negativas contra apenas 2,4% de notícias positivas.
Se o Brasil fosse o que mostra a imprensa, estaríamos todos mortos de fome.
Essa é uma das evidências de que a imprensa hegemônica rompeu com o jornalismo.




SÓ PARA O 1%

O que vai acontecer no Brasil caso a receita de
Thatcher seja reaplicada com Aécio


Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo





Dama de Ferro
Dama de Ferro
O terrorismo econômico está aí.
Essencialmente, o que os conservadores estão dizendo é que a política econômica descarrilhou sob Dilma.
Só Aécio salva, é a mensagem.
O que a direita quer para a economia é, numa palavra, a receita thatcheriana.
Os pilares da doutrina consagrada nos anos 1980 por Margaret Thatcher podem ser resumidos assim: privatizar, desregulamentar e reduzir ao máximo as despesas sociais.
A busca, em suma, do Estado mínimo.
É o que o “mercado” quer por razões óbvias: as empresas, nacionais e internacionais, ganham barbaramente com isso.
Como em todo jogo alguém perde, os trabalhadores pagam a conta. A Inglaterra sob Thatcher regressou a níveis de desigualdade próximos do abismo que existia na era vitoriana.
Esqueça, por um momento, questões como ideologia ou mesmo justiça. A questão é: a receita funciona?
Ou sob outro ângulo: se o Brasil adotar os preceitos thatcherianos reivindicados pelos conservadores a economia vai deslanchar?
A resposta, se você olha a história, é: não.
Os mandamentos de Thatcher são bons apenas para o chamado 1%. Para os demais 99%, não.
Para o país como um todo, para a saúde da sociedade, menos ainda. Seguir Thatcher é uma calamidade nacional.
O thatcherismo está na raiz da crise econômica que castiga o mundo desde 2008.
Sob Reagan, os Estados Unidos abraçaram o thatcherismo. O mercado financeiro foi desregulamentado, para dar liberdade aos bancos e assim, alegadamente, promover a economia.
Depois de alguns anos, veio a hecatombe.
Na busca de lucros exorbitantes, os bancos americanos – livres de regulamentação – afrouxaram todos os controles para quem pedia empréstimo para comprar casa.
Até que começou a inadimplência.
Milhares, milhões de tomadores de empréstimo não tinham condições de honras as dívidas.
Os calotes se multiplicaram. Grandes bancos quebraram. E a crise econômica se espalhou rapidamente pelo mundo.
Nunca mais a economia mundial se recuperou. A locomotiva dela, os Estados Unidos, vem se arrastando desde então.
Em breve, graças à estagnação americana, a China deve se converter na maior economia do mundo.
Também a Inglaterra de Thatcher ainda hoje enfrenta as consequências econômicas e sociais da falsa revolução da Dama de Ferro.
A ressaca do thatcherismo tornou Thatcher tão detestada que os ingleses fizeram celebrações em praças públicas quando ela morreu.
Não existe uma única estátua dela na Inglaterra, sequer em sua cidade natal: ela seria derrubada em dias, talvez horas.
É esta mesma receita que os conservadores querem para o Brasil agora.
Suponha que ela seja adotada pela próxima presidência. Rapidamente, os suspeitos de sempre lucrarão – a plutocracia, ou o 1%.
Num país cujo maior desafio é mitigar a desigualdade social, seria uma tragédia.
O país avançou socialmente nos últimos anos. Menos do que poderia e deveria, é verdade. Mas avançou.
O thatcherismo faria o Brasil retroceder várias casas na questão social em pouco tempo.
Num momento de franqueza desconcertante, Aécio prometeu a empresários “medidas impopulares” caso se eleja.
Seu guru econômico, Armínio Fraga, um fundamentalista do thatcherismo, falou que o salário mínimo cresceu muito nos últimos anos.
Avisos do que vem por aí caso o thatcherismo seja posto em ação no Brasil não faltam, portanto.
Os thatcheristas prometem a você o paraíso. Mas entregam o inferno. Paraíso, só para eles mesmos.