04 junho 2014

VAMOS AO QUE INTERESSA

Branco sobre branco


Saul Leblon, na Agência Carta Maior



A máscara sorridente de Aécio Neves, de um sorriso fixo excessivamente  fixo,  é tão humana e confiável quanto a fala aerada de quem sabe de antemão que não precisará oferecer nada além dos dentes às grandes audiências.

As bocas autorizadas a argui-lo não cobrarão muito mais que isso da sua. E esse é uma espécie de protocolo consuetudinário  que marca religiosamente  a relação da mídia com seus candidatos in pectore a cada eleição.

Graças a esse mutualismo, o tucano pode exibir  olimpicamente seu branqueamento  sobre o relevo igualmente  de brancas superposições  que compõe  o cenário do programa  Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, no qual  foi o entrevistado desta 2ª feira.

A harmonia  monocromática só foi atritada quando o dono do sorriso fixo  acabou  convidado a comentar  sua propalada intimidade com a cocaína, tema que fez o mediador  e centurião das boas causas tucanas ,Augusto Nunes,  aspirar  fundo e elevar o tom de voz para mudar de assunto.

Até aí, porém, ficamos no branco sobre branco.

A  verdade é que interessa  menos  ao país  saber o que Aécio aspira ou deixa de aspirar pelas narinas, do  que  a substancia tóxica  que os interesses  nele personificados  aspiram  despejar sobre a sociedade na forma de uma restauração  agressiva da lógica neoliberal na economia.

Que não tenha havido no programa da TV Cultura um questionamento desse projeto com igual ou superior contundência  dispensada  ao tema da cocaína,  diz muito sobre a pertinência do que é  reservado hoje pelo filtro da comunicação ao discernimento da sociedade em relação aos grandes desafios brasileiros. 

É sintomático que nenhum dos destacados  jornalistas  presentes  tenha se lembrado de ler  para Aécio o relato de um sugestivo episódio protagonizado por ele na casa do animador de eventos do ‘Cansei’, João Dória Jr, em 01-04 (conforme Mônica Bergamo; Folha).

A cena é ilustrativa da endogamia estrutural entre o dinheiro grosso e a candidatura do PSDB.

Conforme o relato da Folha, a cena é narrada  pelo próprio Aécio que se gaba diante dos comensais ao reproduzir um diálogo travado com um de seus fiadores junto ao mercado : ‘Eu conversava com o Armínio e ele me perguntou: ‘Mas é para fazer tudo o que precisa ser feito? No primeiro ano?’. E eu disse: ‘Se der, no primeiro dia’.

O fato é que a candidatura  Aécio Neves, de todas as oferecidas pelo PSDB  desde 2002, é a mais assumidamente letal do ponto de vista de um retorno puro e simples ao arrocho que ele reiteradamente abraça nos encontros de portas fechadas com a plutocracia brasileira.

Nos demais  colóquios, como no caso do Roda Viva, desfruta da cordura de entrevistadores que se contentam  com pouco.

A esse pelotão camarada  Aécio dá-se o direito de negar hoje o que afirmara ontem, e de se desdizer amanhã sobre o que cometeu no dia anterior.  Sem arguição. Branco sobre branco.

Em 05-05 , por exemplo, ele se gabou que estaria preparado para tomar ‘medidas impopulares’.

No Roda Viva, em 02-06,  recuou afirmando que , as “medidas impopulares foram tomadas (pelo atual governo)”.

Crítico do reajuste de 10% no benefício do Bolsa Família, anunciado pela Presidenta Dilma na véspera do 1º de Maio,  o tucano, dia 02-05, ‘não quis assumir o compromisso de aumentar os repasses (ao programa), caso seja eleito’ -- noticiou a Folha de SP então.

Vinte e seis dias depois, na última 3ª feira,  fez aprovar na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, uma medida que exclui limites de renda e tempo para a permanência de famílias pobres no programa, elevando intrinsicamente os repasses.

Haveria outras formas de se cobrar do sorriso fixo um grau maior de serenidade  e coerência na abordagem dos graves  problemas  nacionais.

Seria necessário que o noticioso isento das corporações em pé de guerra contra a regulação da mídia  –e  o colunismo  da indignação seletiva--  facultasse ao eleitor brasileiro, por exemplo,  uma conexão crítica  entre os planos  do candidato conservador  para o Brasil e a realidade devastadora criada por  esse mesmo projeto na Europa nos dias que correm.

O balanço da OIT  divulgado nesta 3ª feira sobre o saldo dos seis anos de arrocho nos países das UE mostra o quanto seria mais corajoso questioná-lo  sobre esses escombros, do que sobre o pó eventualmente aspirado por suas polêmicas narinas.

Leia, abaixo, trechos publicados pela mídia do Relatório "A Proteção Social no Mundo":

“Em 2012, 123 milhões de pessoas nos 27 Estados-Membros da União Europeia, ou 24% da população, estavam em risco de pobreza ou exclusão social e cerca de mais 800 mil crianças viviam na pobreza do que em 2008.

O aumento da pobreza e da desigualdade resultou não apenas da recessão global, mas também de decisões políticas específicas de redução das transferências sociais e de limitação do acesso a serviços públicos de qualidade, que se somam ao desemprego persistente, salários baixos e impostos mais altos.

Em alguns países europeus, os tribunais declararam os cortes inconstitucionais.

O custo do ajustamento foi transferido para as populações, já confrontadas com menos empregos e rendimentos mais baixos há mais de cinco anos.

Os ganhos do modelo social europeu, que reduziu significativamente a pobreza e promoveu a prosperidade no pós-2ª Guerra Mundial foram erodidos por reformas de ajustamento de curto prazo.

As medidas de contenção orçamentária não se limitaram à Europa. Em 2014, nada menos que 122 governos reduziram a despesa pública, 82 deles de países em desenvolvimento.

Entre essas medidas, tomadas depois da crise financeira e econômica de 2008, incluem-se: reformas dos regimes de aposentadoria, dos sistemas de saúde e de segurança social, supressão de subsídios, reduções de efetivos nos sistemas sociais e de saúde.

Mais de 70% da população mundial não tem uma cobertura adequada de proteção social, definida como um sistema de proteção social ao longo da vida que inclua o direito a prestações familiares e para menores, seguro contra desemprego, em caso de maternidade, doença ou invalidez, aposentadoria e seguro saúde.

39% da população mundial não têm acesso a um sistema de cuidados de saúde, porcentagem que sobe para 90% nos países pobres.

Faltam cerca de 10,3 milhões de profissionais de saúde no mundo para garantir um serviço de qualidade a todos os que necessitam.

49% das pessoas que atingiram a idade para se aposentar não recebem qualquer pensão. Dos 51% que recebem, todavia, muitos têm pensões muito baixas e vivem abaixo do limite de pobreza.

Só 12% dos desempregados de todo o mundo recebem seguro desemprego, porcentagem que varia entre 64%, na Europa, e menos de 3% no Oriente Médio e na África".


ADVINHAÇÕES

As eleições e as cartomantes


Wanderley Guilherme dos Santos, na Agência Carta Maior



Cartomantes, videntes, intérpretes de pesquisas eleitorais e, muito especialmente, editorialistas e colunistas muito mais especialmente ainda, não são interpelados sobre a inexatidão dos prognósticos e profecias com que assustam ou embriagam seus clientes. Certo, vez por outra recebem leves críticas pelo fiasco das previsões, sem serem acionados por charlatanice ou falsidade ideológica. E a maioria dos viciados volta a procurar todos, e todas, sempre que temem o futuro.
 
Convenhamos, é coisa de enorme fragilidade emocional acreditar que o que lhe está desde já reservado, caso existisse de fato, se revela na manipulação matreira de valetes de copas, azes de espada e as cobiçadas damas de alcova, quero dizer, damas de outros, ou melhor, damas de ouros. Há modos de entender o fenômeno sem a necessidade de convocar entidades sub metafísicas ou supra psicanalíticas.

Há pouco, boatos de nobre origem alimentaram a expectativa de que os computadores iriam desarranjar-se sem conserto com a passagem do século. De 1999 para 2000 ou deste para 2001, contudo, nada aconteceu. E nessa dúvida cronológica já se encontra metade dos subterfúgios com que fracassados profetas justificam o escandaloso vexame, a saber: a volubilidade do tempo e a pobreza dos calendários. Esse negócio de contar o tempo não é fácil, como se comprova por consulta ao Google ou à Wikipédia. Papas e imperadores sempre desejaram aprisionar em métricas comedidas aquelas anomalias da natureza disfarçadas de micro milionésimos de segundos ou minutos e que, quando menos se espera, viraram algumas horas, dia até, ocasionando “bolos” históricos e rupturas matrimoniais. Calendários ditos Julianos, Gregorianos, lunares, sub-lunares, solares, maias e astecas, é vasta a oferta do modo de contar o tempo. Steven J. Gould, em Questioning the Millenium, faz erudita e bem humorada recensão de todas as tentativas. 

Pois é ao caráter fugidio do tempo que os profetas apelam para justificar a decepção de suas apostas. Tratar-se-ia de erro de contagem nas mensagens cifradas das cartas, nuvens, borras de café, vísceras de aves e teclados de computador. Quem sabe o 1 era 2 e o 2, 3, e o dia do Juízo Final dos computadores se dará na passagem do ano de 2 999 para 3 000? Isso, claro, se o mundo não for destruído, antes, por herético conciliábulo entre reis, rainhas, damas e valetes de heterogêneo e pecaminoso conjunto de naipes.  

Ao explicar o normal andar dos dias oposto aos reboliços prometidos por mais cuidadosa leitura do tempo, preservam a suposta dádiva da antevisão e a reputação do visionário, culpando os cosmólogos por não traduzirem corretamente os indícios emitidos pelo movimento e duração dos astros (Ponho aqui “indício” de caso pensado, termo tornado célebre por juízes e repórteres ao tomá-lo, tal como as cartomantes, por equivalente a “evidência”. Nos tempos que correm, conforme o calendário Juliano ou Gregoriano, não importa, indício quer dizer evidência, ou não, só quando convém, é evidente). No caso, defendem-se os catastrofistas com a desculpa de que os indícios não apontavam para evidências e, portanto, a data anunciada ficou comprometida. Pena só se ter tomado ciência disso depois de queda nas bolsas, suicídios antecipados e uísques tomados por conta. No próximo fim de mundo, ou de governo, asseguram, não falharão.

A outra muleta de profetas do não acontecer chama-se, petulantemente, dissonância cognitiva. Trocada em miúdos, a dissonância do mal arrumado profeta refere-se ao óbvio descompasso entre o que ele vê e o mundo real dos paralelepípedos e procissões religiosas. Se cismar de perceber nestas últimas a obscenidade de ritos pagãos não há santo que os persuada do contrário.
 
Cantochões tomados por convites à devassidão, paramentos anunciando a variedade de strip-tease que será apresentada, e por aí vai. Em suma, reinterpreta-se o mundo para fazê-lo conferir com a pretensa cognição. Nas seitas milenaristas, que anunciam o fim dos tempos, quando a desculpa não é o calendário que teria sido mal composto, é a dissonância cognitiva, isto é, os sinais ainda não teriam atingido sua forma derradeira e estaríamos ainda às vésperas dos grandes acontecimentos.

Há quem morra acreditando que o fim do mundo está próximo. E há quem viva crente de que será o beneficiário de riquezas inesperadas, conquistas inauditas e glórias, e poder, prestígio e pesquisas. Andaço muito comum em períodos eleitorais, levando os fiéis a permanente romaria entre a dissonância e o calendário. Nada a fazer além de deixar o tempo passar e só tocar no assunto no ano seguinte. A ressaca é longa.      


02 junho 2014

JB: AUTORITARISMO POPULISTA

Afirmações inválidas


Jânio de Freitas, na FSP


As cassações de direito ao trabalho externo, lançadas recentemente por Barbosa, já lhe prenunciavam uma sucessão de derrotas no STF

Nem o motivo, nem a ocasião apontados para a repentina renúncia de Joaquim Barbosa merecem crédito.

Disse ele que se decidiu por deixar o Supremo Tribunal Federal "naqueles 22 dias que tirei em janeiro, estive na Grã-Bretanha e na França, aquilo foi decisivo para minha decisão". Como respondia a perguntas sobre o motivo de comunicar a renúncia naquele dia, subentende-se que a ocasião estava escolhida desde janeiro.

Ainda que citar a decisão europeia não incluísse a data, a incongruência permaneceria. Em entrevista de estreia do jornalista Roberto D'Ávila na Globonews no fim de março, Joaquim Barbosa admitiu que deixaria o Supremo mas não por ora, com Roberto logo explicitando que isso significava ficar até o fim do mandato de presidente, "até novembro?". E o entrevistado foi sucinto e definido: "Sim".

Janeiro e novembro foram afirmações inválidas. A citação de novembro, em março, invalidou a de janeiro, e a renúncia em maio invalidou as duas. Algum motivo dos últimos dias, ou no máximo semanas, levou Joaquim Babosa a precipitar suas visitas à presidente da República e aos presidentes do Senado e da Câmara, ainda manhã da última quinta, para informá-los da renúncia. À tarde comunicada ao plenário do Supremo.

Coincidência ou não, na véspera o advogado José Luis Oliveira Lima encaminhou ao presidente do Supremo o pedido de habeas corpus para seu cliente José Dirceu. De quem o leu, por certo com objetividade, posso transmitir a opinião de que o considerou muito bem feito, como argumentação jurídica e no caso específico, requerido também o seu julgamento pelo plenário.

A tese e as cassações de direito ao trabalho externo, lançadas recentemente por Joaquim Barbosa, já lhe prenunciavam uma sucessão de derrotas no tribunal. O novo habeas corpus tem que ser julgado em futuro próximo. Com a renúncia, já neste julgamento Joaquim Barbosa estará em condições de dizer que, pendente o seu afastamento apenas de formalidades burocráticas, não participará da discussão e da decisão. E pode sair do plenário sem o testemunho da derrota.

Além de comprovadas provocações, Joaquim Barbosa pode ter sofrido ameaças. Não as citou, porém, cabendo a jornalistas invocá-las, sem oferecer fundamentação factual, como causa de precipitação da renúncia.

A serem mesmo o motivo, a renúncia seria uma fuga. E um exemplo desonroso saído do próprio cume do Poder Judiciário para os bravos e dignos procuradores, promotores e juízes, mulheres e homens, que processam e a cada dia condenam criminosos perigosíssimos, porque assim é o dever que assumiram. Os seus condenados não se chamam Dirceu e Kátia, Valdemar e Genoino. Chamam-se Fernandinho Beira-Mar, Nem, Marcola.

Mas fugir de ameaça e ficar por aí nada mudaria. Convenhamos que ameaças seriam um bom pretexto para morar no exterior, por exemplo no apartamento comprado em Miami. O repouso de quem personificou no Supremo o populismo autoritário. Ou, melhor no seu caso, o autoritarismo populista.


(Extraído do ESQUERDOPATA)

DO MÍNIMO AO MÁXIMO

SALÁRIO MÍNIMO E RENDA MÁXIMA

Imagine o poder político e a influência social de executivos com renda mensal de R$ 350 000

 
Paulo Moreira Leite, em seu blogue

 Devemos ao professor Claudio Deddeca, da Unicamp, uma informação preciosa sobre a realidade salarial brasileira. Num artigo publicado na Folha de hoje, destinado a discutir o futuro da lei do salário minimo, o professor lembra qual é o nosso salário máximo.

Ele mostra que os 400 executivos das 50 maiores empresas registradas na Bovespa embolsam o valor médio de R$ 4, 2 milhões por ano, fora benefícios como auxlio saude, carro executivo e assim por diante.
 É isso que você leu. Os altos dirigentes do capitalismo brasileiro recebem em torno de R$ 350 000 por mês. Ou R$ 10 000 por dia. Ou R$ 416 por hora, se forem incluidos os momentos período de sono. Ou R$ 6,9 por minuto. Ou 11 centavos por suspiro. Olha só: enquanto um miserável das grandes cidades corre pelo trânsito para erguer o braço no farol fechado e pedir uma moedinha, a turma dos 350 000 só precisa respirar: dez cenavos já entraram na conta bancária.  
Compare esse rendimento com o mínimo atual, de R$ 724: é 450 vezes maior. Compare com a renda média do trabalhador brasileiro, que é de R$ 1055 para quem tem menos de 24, ou de R$ 1945 dali por diante.  
 Por cada hora de trabalho, a turma dos 350 000 já fica por cima.  Supondo uma jornada de 40 horas semanais,  cada 60 minutos no escritório permite receber R$ 2187,50.
 Estes exercícios matemáticos ajudam a ter uma ideia da desigualdade brasileira, que vai além da economia, da sociologia e chega aquilo que interessa quando se fala em mudanças. Estamos falando de poder político num grau absoluto – pois um abismo dessa natureza não é obra da lei da oferta e da procura, nem de diplomas em Harvard, pós-graduação em Stanford nem de ideias supostamente geniais num seminário num retiro de monges.
Só se explica a partir de uma posiçao de força, que vai muito além dos muros de uma empresa e só sobrevive se for alimentada e reforçada todos os dias, para impedir mudanças que possam questionar um pouco, as vezes só um pouquinho, esse feudalismo social.
 É dali que partem as grandes pressões para impedir toda mudança capaz de questionar essa renda exorbitante, seja pela criação de impostos de acordo com a capacidade de cada um,  seja pela criação de políticas públicas favoráveis aos mais pobres. É ali que nasceu o impostômetro, foi ali que se dinamitou a CPMF que poderia reforçar a saúde pública, é de lá que vem os petardos permanentes para impedir a consolidação de um estado de bem-estar social que, como os mais lúcidos reconhecem, ficou definido até na Constituição de 1988.
 O que se argumenta é que a lei do salário mínimo atual, que prevê uma recuperação com base na inflação e na produtividade dos dois anos anteriores, já cumpriu seu papel e que seria hora de deixar o mercado fazer sua parte.
(Entenda-se por mercado o mundo dos 350 000/mês.)
 É possível questionar este argumento não só pelo valor atual do mínimo,  quantia que joga a renda média da população brasileira para um patamar bastante baixo, limitando alternativas de crescimento da economia.
 De forma moderada, viável, como mostra o professor, a recuperação do mínimo superou uma elevação de 50% ao longo dos anos, mudança que fez bem ao orçamento não só de trabalhadores, mas reforçou  ganhos do grande número de aposentados e pensionistas da Previdência, que em várias cidades do país respondem pelo sustento de boa parte da família, inclusive de netos.
 O debate é este.
Como lembra o professor, é impossível discutir seriamente o salário mínimo sem levar em conta o máximo, concorda?
 
 

REPACTUAR O FUTURO

O vice de Dilma é a Constituinte da
Reforma Política


Saul Leblon, na Agência Carta Maior



Estamos a 10 dias do início da Copa do mundo.

A violência na  rua emerge como a derradeira aposta de quem, sucessivamente, ancorou o seu futuro no julgamento da AP 470, na explosão da inflação, no apagão  das hidrelétricas, no abismo fiscal e, ainda há pouco, na hecatombe decorrente da redução da liquidez nos EUA.

Cada uma dessas alternativas, mesmo sem deixar de impor constrangimentos objetivos ao país e ao governo,  mostrou-se incapaz de destruir  o contrapeso  de acertos e conquistas acumulados ao longo dos últimos 12 anos.

A irrupção de protestos em plena Copa do mundo tornou-se assim a nova bala de prata acalentada por aqueles que, corretamente, ressentem-se de um amalgama capaz de injetar torque e dinamismo  ao acerto de contas que buscam contra a agenda progressista brasileira.

Não  se espere indulgência ou trégua a partir dessa avaliação.

Está em curso o vale tudo  para mobilizar uma classe média eterna aspirante a elite, ademais de segmentos que consideram indiferente ter na chefia da nação  Dilma,  Aécio  ou Campos.

Juntos eles compõem o novo rosto da velha agenda conservadora.

Sugestiva reportagem do Estadão neste domingo  anuncia  --após  ‘exaustiva’ consulta a 16 membros do agrupamento--  que  os black blocs  buscam uma parceria com os não menos carbonaros  integrantes do PCC para tocar fogo nos grandes centros urbanos durante a Copa.

Mobilizações de massa  não são a primeira escolha de elites mais afeitas a golpes e arranjos de  cúpula.

Seu medo atávico às ruas remonta às revoluções burguesas do século XVIII, sendo a contrarrevolução  francesa um exemplo clássico do empenho em capturar o poder  para a segurança de um diretório armado, se preciso.

As reticências empalidecem, no entanto, em momentos  da história  em que a rua é o que de mais palpável  se apresenta ao seu interesse em uma correlação de forças que ameaça escapar definitivamente ao controle.

A campanha do PT  em 2014 não pode hesitar diante dessa mistura de esgotamento  e vale tudo.

Se o conservadorismo  se inclina  às ruas , a resposta progressista  não pode  se reduzir à importante, mas insuficiente  agregação de minutos   a sua grade no horário eleitoral gratuito.

A representação da  sociedade  no atual sistema político  –a exemplo de seu mosaico de mídia--  já não expressa o aggiornamento  verificado no mercado de massa e na correlação de forças nos últimos anos.

É justamente a urgência dessas atualizações institucionais  que a agenda petista deve incorporar  à campanha eleitoral de 2014.

Não como recurso ornamental de um cuore publicitário, ou mero  fecho exclamativo   do discurso.

Não se trata de criar uma antídoto  às ruas.

Mas de mobilizar as ruas.

Levando a elas  uma referência efetiva de renovação histórica, uma resposta  palpável às expectativas  sistematicamente fraudadas pelos que hoje se fantasiam de justiceiros  sociais.

Ou se declaram ‘envergonhados’   do Brasil , como ontem se diziam enfadados nos meetings  do ‘Cansei’.

Se agora eles convocam as ruas é porque o extraordinário bate à porta.

E quando o extraordinário acontece  não bastam as receitas da rotina.

A campanha eleitoral de 2014 fará um bem inestimável ao Brasil se assumir uma natureza  híbrida.

Ser, ao mesmo tempo, a luta pela reeleição da Presidenta  Dilma;  e a mobilização educativa  pela convocação de uma Constituinte Exclusiva e  Soberana para renovar o sistema político brasileiro.

Não há rigorosamente uma receita macroeconômica capaz de resolver a frio os desafios da encruzilhada vivida pelo desenvolvimento do país.
 
O conservadorismo tem razão quando acusa os governos progressistas de Lula e Dilma de terem desequilibrado a rigidez estrutural do capitalismo  por aqui.

Ao propiciarem o ingresso de mais de 50 milhões de brasileiros pobres  à fila do caixa, eles acionaram um  movimento de placas  tectônicas  em direção a um ciclo épico de investimento em produção, infraestrutura e logística social.

A engorda do capital rentista em piquetes de juro alto é incompatível com esse degelo social.

 No fundo, o conservadorismo sabe que um Brasil morreu para sempre depois que  esse deslocamento histórico se pôs em marcha.

Velhas estruturas e limites  tornaram-se  disfuncionais  --sempre o foram,  mas agora  a inadequação  ficou  incomodamente escancarada.

O que se almeja  é resistir. Desgastar. Disseminar o vírus do menosprezo pelo país que ainda somos.

 Na esperança de ganhar tempo para que o desalento faça o resto.

E desmoralize  a política, abatendo  no ar o salto histórico do discernimento social em relação ao Brasil que poderíamos ser.

Uma  retração econômica redentora cuidaria do serviço sujo, injetando  arrocho  e ordem no xadrez  político, no desesperado esforço de devolver  ao ‘crescimento’  o sentido excludente e genuflexo que ele sempre teve por aqui.

Repita-se : estamos diante de limites da tensão política extraordinários.

E quando  o extraordinário acontece  as receitas da rotina já não são eficazes.

Nenhuma panaceia  técnica substituirá  a sociedade naquilo que lhe cabe decidir:  os pactos, os prazos, as metas , as concessões e as salvaguardas inerentes ao passo seguinte do seu desenvolvimento.

A  reeleição da Presidenta Dilma é um passo indispensável  a essa repactuação  do futuro. A eleição de uma Constituinte  que injete soberania popular  à  democracia brasileira  é outro.

Um não se equilibra sem seu par.

Na grande aliança para o Brasil avançar,  o vice de Dilma é  a  Constituinte da Reforma Política.   

INTERPRETANDO PESQUISAS ELEITORAIS

Eleitor à deriva


Maurício Dias, na Revista CartaCapital



E a mídia e os intérpretes das sondagens de intenção de voto contornaram de mansinho uma explicação da recente pesquisa Ibope. Ela pode ajudar a decifrar o comportamento dos eleitores nesse momento. A quatro meses da disputa presidencial a intenção eleitoral do entrevistado abre um contraste de difícil interpretação.
Ao responder à pergunta – “como se sente com relação à vida que vem levando hoje?” – uma ampla maioria dos entrevistados respondeu de forma categórica estar muito satisfeita (9%) ou satisfeita (71%) em oposição a uma minoria (17%) de insatisfeitos ou muito insatisfeitos (3%).
Qual a explicação? A satisfação e a insatisfação, maior ou menor de uns e outros, não existem apenas pelo prazer ou pelo desgosto de viver. Há fatores circunstanciais como o amor e o desemprego, fundamentais à vida. Embora não sejam os únicos.
Independentemente do nível de escolaridade e a renda familiar , os eleitores aparecem em igual sintonia. Segundo a pesquisa, o grupo daqueles que se declaram satisfeitos varia de 67%, com os entrevistados da 5ª à 8ª série do ensino fundamental, a 75% de satisfação entre os integrantes do ensino superior.
A mesma aproximação ocorre no mundo dos insatisfeitos e dos muito insatisfeitos. A renda familiar e o nível de ensino praticamente não os distingue na resposta. Juntos, formam uma média de 3% de eleitores. Ou seja, entre a base e o topo da pirâmide social há respostas iguais.
Há, porém, um abismo brutal no comportamento desses dois grupos na cabine eleitoral. O voto os separa.

Que relação existirá entre a manifestação de satisfação ou insatisfação e a resposta à pergunta sobre a aprovação ou a desaprovação “da maneira como Dilma vem administrando o País?”
A pirâmide dividida em classes dá resposta a isso. No topo dela há uma desaprovação de 56%, contra 38% de aprovação. Na base, a desaprovação cai para 26% e a aprovação dá um salto e alcança 69%. Na renda familiar, esse afastamento se repete. Do alto da pirâmide 59% contemplam a administração de Dilma e a desaprovam. Na base, a aprovação é de 60%. Ou seja, reação de igual intensidade em sentido inverso, sentenciaria Newton, aplicando uma lei de física à regra eleitoral.
Um desfecho importante para esse contraste vem da pergunta sobre o interesse pelas eleições manifestado agora. Há 41% dos que se consideram com “muito interesse” e “interesse médio”. Surpreende a manifestação de “pouco interesse” e “nenhum interesse”: 57%.
Os eleitores potenciais de Dilma, os mais pobres, avaliados pela escolaridade e pela renda, ainda se mantêm, em grande número, distantes do processo eleitoral. Portanto, a oposição deve ser comedida ao comemorar uma eleição de dois turnos.