09 maio 2014

O PROBLEMA REAL

Uma receita para a desigualdade


Saul Leblon, na Agência Carta Maior


Arquivo


O conservadorismo costuma se declarar  vítima do maniqueísmo que regularmente carimbaria na testa de seus candidatos  rótulos  depreciativos aos olhos da população.

Elitistas  e entreguistas, por exemplo.

O problema real parece ser outro. Candidaturas conservadoras mostram dificuldade  para conciliar o discurso de palanque com a identidade do projeto que defendem para o país.

Na história recente tornou-se emblemático o caso do governador Geraldo Alckmin.

Presidenciável tucano em 2006, ele se fantasiou com adesivos de estatais brasileiras  na vã tentativa de afastar compreensíveis suspeitas do eleitor.

Convenceu tanto quanto o lobo vestido de vovozinha na história da Chapeuzinho Vermelho. 

Ou então Serra. Em 2010, já descendo a ladeira, aliado ao humanista bispo Malafaia para atacar gays, aborto e petistas, o tucano chegou a acenar com um gesto generoso.

O governo propunha então R$ 538 reais para o salario mínimo válido a partir de  2011, um valor calculado conforme a regra pactuada com CUT e sindicatos quatro anos antes.

 ‘Acho pouco’, disse o tucano e sapecou:

 ‘Vou fixar em R$ 600 reais’ (veja aqui: www.youtube.com/watch?v=qzyOIv--uKw).

Não contente, prometeu um aumento de 10% para os aposentados.

E arrematou com o compromisso de incluir 15 milhões no Bolsa Família (o programa reunia  então 12,3 milhões; hoje são 13, 8 milhões), ademais de  assegurar  um 13º pagamento a todos os beneficiados.

Digamos que Dilma tomasse decisão semelhante hoje.

O que diriam os centuriões do equilíbrio fiscal que saíram de faca na boca diante do reajuste de 10% para o Bolsa Família, somado à correção da tabela do IR, ambos anunciados no discurso presidencial do 1º de Maio?

No caso de Serra, zumbiu um  silencio obsequioso.

Inútil.

A credibilidade do discurso tucano não superou as desconfianças entranhadas no personagem.

O resultado é sabido:  Dilma venceu as eleições de 2010, no 2º turno, por uma diferença de mais de 10 milhões de votos sobre o delfim do conservadorismo.

Tome-se agora o caso dos gêmeos ideológicos, Aécio & Eduardo.

Ambos querem devolver aos mercados  o comando do país.

Há diferenças de estilo, mas nisso são univitelinos.

Em linguagem explícita ou cifrada vão alternando, como num jogral,  detalhes  de como se faz esse cozido de uma Nação.

Junte um Banco Central independente (da sociedade), a um choque de juros; acrescente mais duas voltas de arrocho com um superávit de 3,5%. Pique a meta da inflação ao gosto dos rentistas. Depois misture tudo com a batedeira  da liberdade irrestrita aos capitais; leve ao forno da abertura comercial plena, geral e irrestrita.

Sirva fervendo.

Só falta explicitar  à opinião pública os custos de cada ingrediente.

Colunistas isentos  (ideológicos são os blogueiros ) adornam a omissão com uma condescendência melosa e enjoativa.

A  exemplo do que fizeram com Serra não arguem o preço social e estratégica do cardápio maturado na cozinha  dos gêmeos ideológicos.

Coube à Presidenta Dilma quebrar  o segredo culinário nesta 3ª feira, ao calcular aquilo que se omite deliberadamente:

‘Baixar a meta da inflação para 3% (como querem os gêmeos) jogaria 8,2% dos trabalhadores no desemprego’, advertiu escancarando a linha tênue que separa o salitre  impopular do lacto purga antipopular.

Preguiçosa nos cálculos quando  se trata de escarafunchar  a cozinha conservadora,  a mídia reagiu celeremente ao discurso do 1º de Maio.

Manchetes faiscantes denunciavam no dia seguinte  a ‘gastança’: R$ 8,9 bi vai  custar o reajuste de 10% para o Bolsa Família e a correção da tabela do IR.

A assimetria da reação reflete uma divergência de prioridades.

Um aumento anterior de impostos providenciado pelo governo, sobre cervejas e refrigerantes, custeará quase a metade da despesa anunciada no 1º de Maio (R$ 3,6 bi).

O mercado financeiro reagiu inconsolável.

Do Itaú, o Banco Central tucano, veio a explicação: ‘esperava-se que a receita extra fosse cobrir despesas das elétricas para não prejudicar ainda mais o superávit de 2014’.

Em bom português:  teme-se que a hidráulica fiscal vire o registro para subtrair  água dos que já tem a caixa cheia, em benefício de que vivem de gota em gota.  
Só no 1º trimestre deste ano, por exemplo, R$ 13,048 bilhões  foram adicionados  à caixa dos rentistas da  dívida interna.

O volume poderia ser significativamente menor se o registro dos juros girasse para baixo.

O Brasil paga o terceiro juro real mais alto do mundo, cerca de 5%, depois de uma queda de braço em que Dilma conseguiu, momentaneamente, trazer para  3,5%, uma taxa real que foi da ordem de 11,5%, em média, no segundo governo Lula e de 18,5% na média do segundo governo FHC.

As medidas que os gêmeos ideológicos listam para o país requisitam um cavalo de pau nessa trajetória descendente.

Com elevado risco de  retornos pífios em relação aos seus próprios objetivos.
É o que demonstra o pulso agonizante de países europeus que desde a crise de 2008 vem sendo tratados com o receituário que Aécio & Eduardo  querem agora ministrar aqui.

Vejamos.

Depois de três anos de arrocho, que decepou  7% de sua economia, a dívida pública em Portugal  saltou de 108%  para  129% do PIB. O desemprego médio passa de 15%; e supera os 30% entre os jovens.

Na Espanha, que começou o arrocho antes do vizinho ibérico,  ainda com o PSOE, e o aprofundou com a chegada da direita ao poder, em 2011, o quadro é ainda mais sombrio. 

A ponto de o país registrar um déficit fiscal que é quase o dobro daquele anterior à crise.

O arrocho congelou a economia e decepou a receita do governo. A recessão fez o resto e tornou  a crise autossustentável.

Há quase  seis milhões de desempregados na Espanha (24% da força de trabalho)

A população ativa encolhe mês a mês pela desistência pura e simples de se  procurar o que não tem: emprego.

Hoje ela  é inferior à existente há seis anos  --evolução semelhante a uma situação de guerra, quando os adultos em idade produtiva, jovens, sobretudo, vão para os campos de batalha e não retornam.

Na Espanha eles estão indo às filas de embarque .

A taxa de desemprego na juventude espanhola passa de 55%. Significa que metade de uma geração inteira talvez nunca encontre trabalho em sua terra.

Pior  só a Grécia.

Seis de cada 10 jovens gregos estão desempregados e cerca de 4 milhões dos seus 11 milhões de habitantes vivem em um labirinto de pobreza e exclusão.

Há seis anos sob implacável terapia de arrocho, o país perdeu 25% de seu PIB. Em compensação, a taxa de suicídio aumentou 45% desde 2007.

O conservadorismo sabe as consequências da receita que preconiza  para o Brasil.

O colunismo especializado, que encena esclarecimento diante do livro de Thomas Piketty (‘ O Capital no Século XXI’), tem a exata dimensão do que está em jogo. 
Está em jogo assegurar aos endinheirados  uma fatia da riqueza crescentemente superior ao desempenho médio da economia. Exatamente o traço forte do capitalismo atual denunciado minuciosamente por Piketty.

Ao fixar essa estaca, a conta de chegar não fecha para o resto da sociedade.

O capitalismo assume a sua genética como usina imbatível de assimetrias sociais. 
Ou não será exatamente essa a raiz da desordem europeia nos dias que correm? 
 Rentistas e banqueiros (alemães, sobretudo) festejam a ‘retomada’,  laços sociais se desintegram e a extrema direita colhe os frutos desesperados da pobreza e do desemprego propondo uma ordem policial contra a anomia neoliberal.

Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como biscoito fino para o país.

Apenas os mais afoitos admitem que o segredo da massa remonta  a uma tradição  que vem da casa grande no trato com a senzala.

Trata-se da receita da desigualdade, segundo a qual , para uma  sociedade avançar , é preciso o seu povo regredir.
 
 
 
 

A BADALAÇÃO DA VIOLÊNCIA

As muitas causas da violência


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



A violência, em suas formas variadas, segue ocupando amplos espaços no noticiário de sexta-feira (9/5). O leitor de jornais pode achar que o Brasil mergulhou numa espécie de guerra civil, na qual todos os conflitos passam a ser resolvidos a pauladas.
O Globo ouve dois sociólogos, que repetem o conhecido mantra da omissão do Estado e a tese da falência das instituições republicanas. Interessante observar que cada uma das análises abrigadas pela imprensa traz um pouco da verdade sobre as múltiplas causas que levam à busca da solução de conflitos por meio da violência. Mas o conjunto dos textos não chega perto da complexidade da questão, a começar pela simples constatação de que as estatísticas não mostram um aumento dos casos. O que tem havido é mais notícias sobre violência.
No caso recente de maior repercussão, o linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, ocorrido na cidade de Guarujá, no litoral paulista, trata-se de mais um em dois milhares de ocorrências do mesmo tipo registradas nos últimos trinta anos. Portanto, não se pode afirmar que há uma conexão direta entre o suposto descrédito das instituições e a ação das hordas que se pretendem autoras de “justiçamentos”.
Os cidadãos brasileiros foram excluídos do poder durante todo o período do regime militar, experimentaram um choque de protagonismo logo após a primeira eleição direta para presidente da República e depois foram envolvidos no banho-maria das políticas de alianças, que sequestraram o poder público em favor de interesses partidários.
O texto do Globo cita uma pesquisa que é realizada desde 1989, ano da eleição de Fernando Collor, na qual se verifica a perda de confiança nas instituições. No entanto, não se pode associar automaticamente esse fenômeno aos atos delinquenciais coletivos que a imprensa registra. Mais lógico seria considerar que, vendo-se desamparado pelo Estado, o cidadão procure cuidar de sua vida da melhor maneira possível, alienando-se do jogo de poder e até mesmo abstendo-se de votar. Observa-se, porém, que há grande participação nas eleições em todos esses anos.
Contradições da sociedade
O linchamento de Fabiane Maria de Jesus no Guarujá, ou o assassinado de uma menina de 13 anos em Foz do Iguaçu, morta a pedradas por duas amigas, não têm necessariamente uma relação com a baixa expectativa de parte da população quanto aos poderes republicanos. O caso do Guarujá, movido por uma história de terror que contaminou a comunidade, e o crime de Foz do Iguaçu, motivado por ciúmes entre adolescentes, não remetem a esse tipo de correlação.
A violência é um traço marcante da vida brasileira que, contraditoriamente, acompanha outra característica exatamente oposta da nossa população, a da confraternização. Ela está presente na forma como produtores rurais assassinam fiscais do Ministério do Trabalho que investigavam o trabalho escravo, no caso do empresário que manda matar um aproveitador que namora sua ex-mulher, nos assassinatos de crianças que de vez em quando chegam ao noticiário, e nos confrontos entre delinquentes fantasiados de torcida de futebol.
Trata-se de um fenômeno complexo como a própria vida. A imprensa não dá conta de abarcar todos os seus aspectos, e, como o jornal tem que circular, procura-se a simplificação referendada por títulos acadêmicos. No entanto, é preciso acrescentar a tudo o que se disse o novo contexto criado pelas tecnologias de comunicação e informação, no qual um meme, ou seja, um elemento cultural isolado, pode rapidamente se espalhar para lugares distantes, influenciando comportamentos.
Há aspectos da violência que nunca são abordados pela mídia, e que no entanto poderiam ajudar a compreender as ocorrências de maior impacto. Por exemplo, um surto de desenvolvimento em determinada região pode provocar o deslocamento de famílias da zona rural para a periferia das cidades, onde o agricultor tradicional tem dificuldade para encontrar trabalho. Eventualmente, a mulher consegue se adaptar melhor e passa a prover a renda, o que provoca um choque nas relações familiares. Essa foi, por exemplo, uma causa observada no aumento da violência doméstica em cidades da Amazônia na década passada.
Em 2007, o Conselho Nacional de Secretarias Estaduais de Saúde produziu um estudo justificando a inclusão do tema violência como um problema de saúde pública. Nesse documento (ver aqui) estão identificadas as várias formas com que a questão se manifesta na sociedade contemporânea.
Acontece que esse tipo de reflexão não vende jornal.
 
 

07 maio 2014

O JORNALISMO SABUJO

Quem precisa de um Carlinhos Cachoeira?



 
Najla Passos, na Agência Carta Maior
Arquivo

 

Brasília - A parceria entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira, políticos de oposição e veículos de imprensa ruiu, depois que uma CPI Mista, instalada em 2012 pelo Congresso Nacional, desmascarou a que interesses ela servia. Carlinhos Cachoeira foi preso, o ex-senador pelo DEM Demóstenes Torres perdeu seu mandato, mas a imprensa continuou impune. E sem punição, transformou o mal feito em escola: a velha fórmula de obtenção ilegal de imagens permanece sustentando pretensas reportagens dos jornalões.
 
Em 2011, o ex-ministro José Dirceu teve sua intimidade violada, no hotel em que residia, em Brasília, por imagens publicadas pela revista Veja. A “justificativa” da revista era mostrar que, mesmo afastado do governo, ele continuava a receber autoridades da República para “conspirar” contra a presidenta Dilma Rousseff, acusação que a reportagem José Dirceu mostra que ainda manda em Brasília em nada contribui para comprovar, em um texto todo ele baseado em ilações.  
 
O repórter Gustavo Ribeiro até que tentou conseguir algum fato concreto para sustentar a manchete, só que por meio de prática criminosa. Chegou a ser denunciado à Polícia pela direção do hotel, que o flagrou tentando invadir o quarto de Dirceu. Não deu em nada. Só mais tarde, com a explosão das denúncias contra a quadrilha de Cachoeira, ficou claro que a organização clandestina teve participação na obtenção das imagens veiculadas por Veja, assim como influiu no enfoque de várias outras reportagens.
 
Escutas obtidas com autorização judicial comprovaram que Policarpo Junior, diretor da sucursal da revista em Brasília, mantinha contato periódico com Cachoeira e outros membros da quadrilha para discutir pautas da revista. O assunto foi fartamente explorado pela CPI criada para investigar as relações escusas de Cachoeira com políticos. Os jornalistas envolvidos com a máfia chegaram a ser apontados no parecer do relator, deputado Odair Costa (PT-MG), conforme noticiou Carta Maior na reportagem “Quem são e o que fazem os jornalistas de Cachoeira”. No relatório final, porém eles foram isentos de responsabilidades.
 
Na semana passada, o mesmo José Dirceu, que agora cumpre pena no Complexo Penitenciário da Papuda, foi novamente vítima da publicação de imagens ilegais, obtidas durante uma visita da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, dessa feita publicadas pelo jornal Folha de São Paulo. E de forma ainda mais grave, já que a Lei de Execuções Penais é clara ao determinar que a intimidade do preso deva ser preservada. Além de que a juíza da Vara de Execuções Penais, Débora Valle de Brito, havia autorizado a visita com a condição de que não fossem feitos registros em fotos ou vídeos.
 
O Governo do Distrito Federal (GDF) abriu sindicância para apurar responsabilidades, mas é certo que o autor entrou na unidade penitenciária junto com os parlamentares que fizeram a visita. Em ofício encaminhado à juíza para esclarecer os fatos, a CDH descreve quem eram os membros da comitiva, entre deputados e assessores, e aponta quais dos últimos atenderam à determinação de  aguardar na sala do diretor, enquanto apenas os parlamentares se deslocavam até a cela de Dirceu. O documento deixa claro que um deles descumpriu a ordem.
 
Trata-se do assessor técnico da Liderança do PPS, Wiliam Pereira dos Passos, que, na ocasião, acompanhava o deputado Arnaldo Jordy (PPS-PR). Dois dos cinco deputados presentes afirmaram à Carta Maior que viram um assessor de Jordy na cela de Dirceu. Houve uma confusão inicial em relação ao nome do suspeito, visto que o secretário parlamentar de Jordy, Vicente Bezerra, também participou da comitiva. Mas os outros assessores que aguardaram na sala da direção confirmaram que Bezerra estava com eles. William, não.
 
William, assessor do PPS, é casado com uma jornalista da Rádio CBN, que é amiga do repórter fotográfico da Folha de S. Paulo, Alan Marques, que assina a reportagem que apresentou o vídeo ao país.  O episódio, certamente, não será pauta de nova CPI. Mas os resultados da investigação conduzida pelo GDF serão encaminhados à Corregedoria da Câmara, que poderá ou não determinar punição para o culpado. No máximo, a responsabilidade recairá sobre um dos elos da parceria que resultou na publicação do vídeo.
 
A imprensa, sem dúvida, seguirá com as mesmas práticas. No Brasil, como se sabe, não há nenhuma lei que regulamente o exercício profissional do jornalismo. Sequer o direito de resposta, princípio sagrado da profissão, está respaldado. Também não há nenhum controle dos veículos de comunicação, nem mesmo daqueles que são concessões públicas, os canais de rádio e TV. A imprensa brasileira é, cada vez mais, uma terra sem lei, onde certos agentes políticos e jornalistas assumem práticas ilícitas como coisa corriqueira. E se entendem entre si, sem sequer precisar terceirizá-las para bandos ou quadrilhas, como no passado. Em um cenário desses, quem precisa de um Carlinhos Cachoeira?



Créditos da foto: Arquivo

JOGANDO NO COLO ALHEIO

O linchamento do jornalismo


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



O enterro da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, linchada no sábado (3/5) num bairro de Guarujá, litoral paulista, mantém no noticiário o festival de horrores composto pelo crime bárbaro em si e por interpretações apressadas e tendenciosas dos jornais.
Compreende-se o espanto produzido neste lado da sociedade, que se acredita detentor de razão e sensibilidade, pelo conhecimento dos detalhes que seguem as narrativas sobre o crime. Mas é preciso registrar que a imprensa passa ao largo de questões centrais na análise do acontecimento, e não resiste à tentação de politizar a tragédia. O papel e a tela aceitam quase tudo, então, dá-se um jeitinho de incluir o embate eleitoral nas entrelinhas do material jornalístico sobre o crime hediondo.
Na Folha de S.Paulo, o editorial de quarta-feira (7/5) afirma que “não se trata apenas de obscurantismo atávico, já em si lamentável, mas de sintoma do imenso atraso que caracteriza o Estado brasileiro”. NoGlobo, a arenga sobre uma suposta “percepção popular” da falência de instituições dá um jeito de vincular o linchamento ao “péssimo exemplo dado por partidos políticos, do PT ao PSDB, pelo envolvimento de correligionários em casos de corrupção”. Ora, diria o comediante, só o PT e o PSDB? Cadê os outros?
Trata-se, na verdade, de um preâmbulo para o discurso que tem marcado a imprensa brasileira na última década: “O mau exemplo do PT chega a ser mais daninho, por ter conquistado o poder com a aura de extrema seriedade e honestidade. Ao trair as promessas de defesa intransigente da ética, dá grande contribuição, infelizmente, ao descrédito da população diante dos poderes constituídos”, conclui o editorial.
Pronto: dá-se um jeito de jogar no colo do Partido dos Trabalhadores – e, por lógica extensão, da presidente da República que vai tentar a reeleição –, a culpa pelo linchamento de dona Fabiane Maria de Jesus.
Seria o caso de se perguntar ao editorialista da Folha qual seria a relação entre o crime do Guarujá e o suposto “atraso” do Estado brasileiro, mas não convém analisar o texto do Globo, porque já não se trata de jornalismo, mas de panfletagem pura e simples.
Mergulho no obscurantismo
Seria desrespeitoso considerar que os profissionais responsáveis pelos textos citados padecem de ignorância sobre fenômenos como o do linchamento. A mesma imprensa que comete essa atrocidade contra a razão, ao inserir suas preferências políticas no cenário da barbárie, cita pesquisadores que relatam a banalidade de fatos como esse no Brasil moderno: em entrevista ao Estado de S.Paulo, o sociólogo José de Souza Martins diz ter catalogado 2 mil casos de linchamento nos últimos 30 anos.
Os jornais não encontraram nenhuma condenação da Justiça para os acusados desses crimes, porque ele não é tipificado no Código Penal e, no meio do distúrbio, torna-se impossível definir quem deu a paulada ou quem atirou a pedra que causou a morte da vítima.
Mais plausível é observar como a imprensa atua contra o sistema democrático ao conectar qualquer evento negativo, seja o linchamento, seja o torcedor morto por um criminoso que atirou um vaso sanitário do alto do estádio, a uma suposta “falência do Estado” – e, imediatamente, apontando para o partido que ocupa o governo federal.
Ao repetir o bordão segundo o qual vivemos em regime de anarquia, afirmando que há uma “percepção popular da falência de instituições”, os jornais estão estimulando o vandalismo e as soluções fora da lei, justificando as mentes insanas que se julgam no direito de impor à sociedade o fruto de seus delírios de “justiçamento”.
Recentemente, um assassino entrevistado num desses programas policiais da televisão, disse que havia atirado no desafeto porque ele era “folgado”. Ora, isso nada tem a ver com o Estado de hoje, mas com o Estado histórico. Tem a ver com a permanência de bolsões de miséria, onde o lumpesinato vive sua rotina desumana. Se houve alguma mudança nesse cenário nas últimas décadas, ela se deve justamente às políticas sociais que vêm reduzindo a miséria.
Não se salta da aldeia medieval para a aldeia global por decreto, mas é fácil entender que, numa sociedade em transição, a modernidade tem que conviver com a barbárie.
Ao se desviar dessas questões e politizar o que é marginal à política, a imprensa mergulha no obscurantismo e promove o linchamento do jornalismo.
 
 
 

FALTA CREDIBILIDADE

Você acredita no que lê nos jornais?

 
Venício A. Lima, no Observatório da Imprensa
 
 
 
Credibilidade, no dicionário Aurélio, é a “qualidade do que é crível”, isto é, “que se pode crer, acreditável”. É uma construção, tanto para pessoas como para instituições e, claro, tem a ver com compromisso reiterado com a verdade e coerência, no longo prazo.
A palavra escrita (não necessariamente, impressa), no correr dos séculos, carrega com ela uma enorme credibilidade. Os judeus atribuem um valor mágico à escrita. A Palavra (“No princípio era o Verbo”) foi ditada diretamente de Deus a Moisés. Os muçulmanos têm a fórmula “Maktub” ou “Maktoob” (estava escrito) para justificar o destino. Tanto uns quanto os outros usam patuás ou amuletos (pequenas trouxas costuradas de couro ou pano) contendo trechos da Torá ou do Alcorão para proteção divina. Para a escola do positivismo jurídico, desde Bentham até Kelsen, vale a norma que está escrita. Os direitos só se efetivam se estiverem codificados, se forem escritos como leis. Ademais, o que está escrito pode ser mais facilmente confrontado com os fatos e, supõe-se, quem escreve não quer correr o risco de ser flagrado na mentira.
Muitas vezes se ignora que textos escritos que se tornaram referência de credibilidade têm sua origem em tradições orais milenares, anteriores a registros escritos. Além disso, desde que se pode “gravar” o que é dito, a possibilidade de confronto com os fatos inclui também a palavra falada, não só a palavra escrita.
No mundo moderno, os mediadores tecnológicos capazes de tornar as coisas públicas, de forma centralizada, em diferentes plataformas (a mídia oligopolizada), muitas vezes se tornam poderosos mais pelo que omitem – isto é, “deixam” de falar, escrever e/ou mostrar – do que pelo que falam, escrevem (publicam, de publicare, tornar público) ou mostram.
De qualquer maneira, ainda é relativamente comum, sobretudo entre aqueles de gerações anteriores à dominância da mídia eletrônica – cinema, rádio, televisão e, hoje, internet –, usar o argumento da verdade associado ao fato de algo estar escrito e/ou publicado. Assim como na subcultura popular da contravenção, “vale o que está escrito”.
A credibilidade dos jornais
Tudo isso vem a propósito de anúncio de meia página feito publicar pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, instituído pelas Nações Unidas em 1993 e, este ano, celebrado no dia 3 de maio. O curto texto do anúncio introduz um neologismo:
“Credibiliberdade. Jornal. Onde credibilidade e liberdade andam sempre juntas.”
Para além da carga de credibilidade da palavra escrita (impressa), secularmente impregnada na nossa cultura, aproveito o anúncio da ANJ para algumas observações.
Escola Base de São Paulo
Por uma infeliz coincidência, o anúncio sobre a credibilidade dos jornais aparece apenas um dia após a divulgação da morte de Icushiro Shimada (ocorrida em 16 de abril), um dos donos da Escola Base. Como se sabe, 20 anos atrás, os donos da escola que funcionava na zona sul de São Paulo foram transformados publicamente em pedófilos pela grande mídia, sem oportunidade de defesa. “Kombi era motel na escolinha do sexo”, publicou em manchete o extinto Notícias Populares e “Perua escolar carregava crianças para a orgia”, foi manchete da também extinta Folha da Tarde, ambos jornais do Grupo Folha [cf. Alex Ribeiro; Caso Escola Base – Os Abusos da Imprensa; Editora Ática, 1995].
O triste caso da Escola Base certamente escapa à “credibiliberdade” dos jornais a que se refere o anúncio.
Jornais: preferência de apenas 1,5%
Talvez os criadores da peça publicitária tivessem a intenção de “pegar carona” na divulgação recente (março de 2014) de uma pesquisa de hábitos de mídia da população brasileira pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom-PR). Um dos capítulos do relatório trata exatamente de “confiança na mídia” [capítulo 6, ver relatório completo aqui].
A pesquisa mereceu a devida atenção da grande mídia, em particular dos jornais, que insistiram em dizer que eles são os veículos de maior credibilidade. O jornal O Globo, por exemplo, em matéria sobre a pesquisa publicada no dia 7 de março afirma:
“Entre os entrevistados, 53% dizem confiar sempre ou muitas vezes no que leem nos jornais impressos. 50% confiam nas notícias que ouvem no rádio; 49% confiam nas notícias televisivas; 40% nas publicadas em revistas; 28% nas que saem nos sites; 24% nas divulgadas pelas redes sociais e 22% confiam nos blogs” [ver aqui].
Todavia, não é exatamente isso que revelam os dados. A base para a pergunta “Gostaria de saber quanto o (a) Sr.(a) confia nas notícias que circulam nos diferentes meios de comunicação” foi “apenas entrevistados que usam o meio em questão (TV, rádio, jornal, revista e internet)”. Vale dizer, os 53% que dizem confiar sempre ou muitas vezes nos jornais impressos estão entre os 25% do total de entrevistados que declaram ler jornais pelo menos uma vez por semana ou entre aqueles 1,5% (exatamente, 1,5%) que declaram ter no jornal seu meio de comunicação preferido.
Mesmo levando-se em conta que a avaliação da credibilidade de todos os meios tinha como base “apenas entrevistados que usam o meio em questão (TV, rádio, jornal, revista e internet)”, e que a credibilidade dos “usuários” dos jornais impressos em relação ao jornal é maior do que a dos usuários dos outros meios em relação a eles (TV, 50%; rádio 49%; revistas 40%; sites; 28%; redes sociais, 24% e blogs, 22%), a credibilidade real dos outros meios – à exceção das revistas –, em números absolutos, é muito superior aquela dos jornais porque o número de usuários é muito maior (TV, 97%; rádio, 61%; internet 47%).
Não será por distorções como essa na divulgação dos resultados da pesquisa da Secom-PR que a preferência pela leitura de jornais impressos (1,5%) só não é menor do que a preferência pela leitura de revistas (0,3%)?
Parceria com 80 bi de cigarros/ano
Chama ainda a atenção no anúncio da ANJ o registro da Souza Cruz como “Empresa Parceira”. Será que isso significa que a empresa dogrupo British American Tobacco pagou a veiculação do anúncio?
A Souza Cruz/British American Tobacco é “a líder do mercado nacional, que possui seis das dez marcas mais vendidas no Brasil e produz cerca de 80 bilhões de cigarros por ano e controla (2º semestre de 2012) 60,1% do mercado total brasileiro”[ver aqui]. Ela tem sido a principal parceira da ANJ nas ações de defesa da chamada “liberdade de expressão comercial” [ver Sobre a ‘liberdade de expressão comercial’“].
Esse curioso conceito que transforma em equivalentes dois tipos totalmente distintos de informação – a jornalística e a publicitária – se ampara na falácia liberal conservadora de que o Estado autoritário pretende “tutelar os consumidores, como se eles não tivessem capacidade de decidir o que querem consumir”, para combater a norma constitucional e a Lei nº 10.167, de 27 de dezembro de 2000, que “dispõe sobre as restrições ao uso e à propaganda de produtos fumígenos, bebidas alcoólicas, medicamentos, terapias e defensivos agrícolas”.
Está no capítulo V (Da Comunicação Social) do Título VIII (Da Ordem Social) da Constituição de 1988:
Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.
(...)
§ 3º – Compete à lei federal:
(...)
II – estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente.
§ 4º – A propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias estará sujeita a restrições legais, nos termos do inciso II do parágrafo anterior, e conterá, sempre que necessário, advertência sobre os malefícios decorrentes de seu uso.
Nunca é demais lembrar a dimensão social do problema contido no tabagismo. Estudo recente realizado pela Aliança de Controle do Tabagismo (ACT) revela que “o Brasil gasta em torno de R$ 21 bilhões no tratamento de pacientes com doenças relacionadas ao cigarro. O tabagismo é responsável por 13% das mortes no País. São 130 mil óbitos anuais, sendo (350 por dia). Dados do Ministério da Saúde indicam que a fumaça do cigarro reúne cerce de 4.700 substâncias tóxicas diferentes, muitas delas cancerígenas” [ver aqui].
Será que a “credibiliberdade” dos jornais se constrói combatendo normas legais expressas em decisões da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), em restrições a anúncios de cigarros e à propaganda de alimentos e produtos dirigidos a crianças?
“Credibiliberdade”
Por fim resta um breve comentário sobre a afirmação de que nos jornais “credibilidade e liberdade andam sempre juntas”.
Se o conceito de liberdade se refere à liberdade que os donos de jornal têm de imprimir o que querem de acordo com seus interesses privados – notícias, entretenimento e anúncios – não poderia haver equívoco maior.
As bases sobre as quais se funda a credibilidade do leitor(a) têm a ver com uma “outra” liberdade. Uma liberdade que é também um direito e atende ao interesse público: ser informado corretamente, sem inverdades, sem omissões e sem distorções.
***
Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador de Para Garantir o Direito à Comunicação – A lei argentina, o relatório Leveson e o HGL da União Europeia, Perseu Abramo/Maurício Grabois, 2014; entre outros livros
 
 
 

PREPARANDO O PALCO

Mudou o cenário político


Renato Janine Ribeiro, no jornal Valor Econômico




 
Tudo mudou esta semana, na campanha presidencial. Tínhamos quatro pretendentes ao Planalto, agora são dois. O quadro pode até se alterar de novo, mais tarde, mas Dilma Rousseff afastou Lula e Aécio Neves passou bem à frente de Eduardo Campos. A disputa se polarizou. O PT geralmente conta com o que eu chamo o "terço gordo" do eleitorado, isto é, fica alguns pontos acima dos 33%, mas segundo a pesquisa mais recente Dilma estaria batendo no limite inferior desse piso, com 35%. Já o antipetismo, que normalmente conta com um "terço magro" garantido, estaria superando o terço aritmético, ao somar os 23,7% de Aécio e os 11% de Eduardo. Teríamos um segundo turno no horizonte e, embora a mesma pesquisa dê vitória nele a Dilma, sua tendência de queda poderia continuar.

O primeiro sinal de mudança, esta semana, foi que Dilma decidiu lutar pela reeleição.Humorista Mode = ON Jornalistas bem informados asseguravam que Lula se dispunha a ser candidato. A presidenta fez então uma declaração sem precedentes em sua história: disse que confiava na "lealdade" de Lula a ela. Ora, a palavra "lealdade" tem uma cor hierárquica. É mais comum eu me dizer leal a meu superior, do que ele se considerar leal a mim, seu subordinado. O que Dilma disse foi, em outras palavras: "Eu sou a presidenta". E quero continuar sendo. Não desisto fácil - nem mesmo em favor de Lula.Humorista Mode = OFF

Ao mesmo tempo, Aécio adquiria uma vantagem sobre Eduardo, que perdia votos ao demonstrar excessiva timidez em suas tomadas de posição. O ex-governador de Pernambuco tenta, faz tempo, caracterizar-se como uma oposição "light", que procuraria ser o pós-PT mais que o anti-PT.

Esse, aliás, parece ser o segredo do negócio: quem bater pesado demais no PT corre o risco de assustar os que admiram a inclusão social que esse partido promoveu. Assim, desde José Serra, em 2010, os candidatos da oposição procuram falar em "pós-PT" ou pós-Bolsa Família, em vez de baterem de frente no que o Partido dos Trabalhadores fez no governo. Quem conseguir que os eleitores acreditem nisso terá fortes chances de ser eleito.

Mas Eduardo também procurou ser o tucano leve. Quis ser aceitável para os que se cansaram de um lado ou outro, mas sem com isso irem do PSDB ao PT ou vice-versa. O problema, com isso, é que o candidato ficou sem identidade ou público próprio.

Marina Silva não deve gostar do resultado. Ela pode muito bem ter um projeto econômico que em muitos pontos converge com o dos tucanos, mas seu diferencial está na origem ecológica, que é o que dá cor ética à proposta dos sustentáveis. Porém, quando vemos Eduardo Campos parecendo fazer o segundo de Aécio, no encontro empresarial de Comandatuba ou no comício da Força Sindical em S. Paulo, ou quando lemos nos jornais cálculos de como seria um governo de coligação entre os dois partidos de oposição, a mensagem específica da terceira via se perde. Com isso perde a Rede, que não esperava isso ao se incorporar ao PSB, mas também perde o Partido Socialista, que fica parecendo mais um segundo PSDB do que uma agremiação com proposta e convicções identificáveis.

Some-se, a esse redesenho dos candidatos, uma mudança na postura interna ou na atitude pública dos empresários. Faz dois meses, ainda parecia dominante, nesse importante segmento da opinião, a preferência por Lula, o pragmático. Mas, ou porque Lula não será candidato, ou porque a ideologia da oposição sorri mais ao capital, esta semana viu definições claras de líderes patronais contra o PT.

Tal panorama favorece, em primeiro lugar, os dois partidos que ocuparam o Palácio do Planalto desde a eleição de 1994. O PT está tendo êxito em colar nos dois ex-ministros de Lula que devem formar a chapa do PSB, Eduardo e Marina, a marca de candidatos de oposição. A proposta de promover uma conciliação entre os dois lados, um meio termo (Eduardo), ou uma terceira via com uma alteração sensível no conceito de desenvolvimento (Marina), ficará seriamente prejudicada se o PT conseguir apresentá-los como defensores do arrocho salarial ou, ainda, como vertente auxiliar do PSDB. Essa estratégia, por sinal, acabará favorecendo também os tucanos, porque se no País tivermos só duas forças políticas principais, por que votar no PSB em vez do PSDB, por que preferir o incerto ao conhecido?

Em segundo lugar, o PT também está alcançando um certo êxito em pregar nos candidatos de oposição a imagem de opositores das políticas sociais. A declaração de Aécio Neves, prometendo aos empresários "medidas impopulares", pode ter sido positiva para o candidato tucano granjear apoios substanciais nesse setor, inclusive reduzindo o espaço de Eduardo - mas sinaliza, para o restante da sociedade, o risco de uma opção preferencial pelos ricos, com um arrocho salarial.

Para o PT, esse é um bom cenário de disputa, que fica entre ricos e pobres ou, para ser mais preciso, entre os vulneráveis a qualquer soluço da economia e aqueles cuja renda ou fortuna superior protege melhor de recessões e depressões. É claro que, do lado antipetista, este confronto será chamado de anacrônico, ou será debitado na conta do PT, como se o conflito pela apropriação dos recursos fosse uma invenção retórica, esquerdista, sem base na realidade. Mas há uma disputa real, entre os que consideram que deve prosseguir a agenda petista de inclusão social e os que a criticam porque a economia, se continuar no rumo petista, estaria em sério risco. O aspecto bom disso tudo é que é melhor debater a economia na campanha eleitoral, do que desviar a atenção destas questões, cruciais, apelando à agenda moralista do ataque a aborto, casamento homossexual e ateísmo.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. 
 
 
 
 

TEMPOS DE VIOLÊNCIA

A Perenidade do Mal e a Batalha dos Justos


O mundo comemorou na semana passada o Dia do Holocausto judeu. Em nome de um mito - a escolha de Jesus por uma multidão, no lugar de Barrabás, às vistas de um Pilatos de mãos recém lavadas, para percorrer as estações da Paixão, até seu definitivo encontro com o Pai, no alto do Gólgota - os hebreus foram discriminados, roubados, torturados e assassinados por quase dois mil anos, até encarar, em lugares como Auschwitz-Birkenau, Maydanek, Sobibor, Bergen-Belsen, Dachau, Terezin, Babi Yar, Treblinka, o ponto culminante de seu calvário.

Jesus era judeu – e seis milhões deles foram exterminados na Europa - mas poderia ser cigano, um povo que vaga, quase que desde a mesma época, pelo mundo, e que perdeu, nos mesmos campos de extermínio erguidos pelos nazistas da Divisão da Caveira, quase dois milhões de homens, mulheres e crianças. Muitas como vítimas de experiências médicas, como as do Dr. Joseph Mengele (foto), que injetava tinta nos olhos de meninos e meninas em Auschwitz e dissecava gêmeos com poucos dias de vida, logo depois de chegados ao campo.

Jesus era judeu, mas poderia ter sido um dos 30 milhões de russos, que morreram na Segunda Guerra Mundial, muitos deles executados e enterrados em valas comuns logo que os assassinos dos Einzatzgruppen chegavam, precedidos das tropas da Wermacht, para cumprir sua tarefa de matar  comunistas - o que incluía a maioria da população soviética - quem soubesse ler e escrever, os judeus, os ciganos, e os vira-latas, para que o Exército Vermelho não os adestrassem para entrar debaixo dos Panzers alemães, com minas antitanque amarradas na barriga.
  
O virulento retorno do anticomunismo; a tentativa solerte de comparar o comunismo ao nazismo, quando foram os  comunistas que derrotaram os nazistas, na Batalha de Stalingrado, no cerco de Leningrado, até o covil do diabo, na Batalha de Berlim, levando Hitler e outros dirigentes nazistas ao suicídio; o aumento do número de internautas que propugnam, livremente, o assassinato de suspeitos, a institucionalização da tortura, e a quebra do Estado de Direito, com o fim do voto e a instauração de nova ditadura; tudo isso mostra que os demônios do conservadorismo e da ignorância continuam unidos, em tenebroso pacto, e conspiram para arrebatar corações férteis para o ódio e o preconceito. Como nas vésperas da chegada de Hitler ao poder, que levou ao sadismo ensandecido dos campos de extermínio.

O Dia do Holocausto Judeu, que nos lembra também outros holocaustos perpetrados pelos nazistas, como o dos aleijados e doentes mentais, o dos padres e pastores, o dos comunistas e socialistas, o dos homossexuais, o das Testemunhas de Jeová, serve para manter viva em nossa memória a noite que se abateu sobre a Europa há 75 anos, há não mais que alguns instantes, portanto, em termos históricos. E a necessidade de estar sempre atentos ao mal e a combatê-lo, cortando sua cabeça, que renasce, como as da Hidra, todas as vezes que ela insistir em se erguer, passando por entre as gretas que nos separam do inferno, para se insinuar em nosso mundo.