02 maio 2014

O JORNALISMO NATIVO

Porque tudo isso é política


Mino Carta, na Revista CartaCapital



Silvio Berlusconi dispensa apresentações e a respeito da lamentável figura direi apenas que começa para ele a prestação de serviço a doentes de Alzheimer. Trata-se de cumprir a pena cominada com sentença definitiva no processo por fraude fiscal. Outras condenações virão inexoravelmente, e bem mais pesadas, inclusive por compra de votos para derrubar o governo de Romano Prodi em 2008.
Pensei em Fernando Henrique Cardoso, comprador de votos durante seu primeiro mandato presidencial para conseguir a alteração constitucional destinada a permitir sua reeleição. Foi operação conduzida praticamente às claras, a contar inclusive com o testemunho de parlamentares envolvidos. A Justiça brasileira encarou os fatos com aquela olímpica impassibilidade recomendada quando lhe cabe zelar pelos interesses da casa-grande.
E que dizer do clangoroso silêncio que cercou a maior roubalheira-bandalheira da história do País, a fantasmagórica operação das privatizações da comunicação, embora não faltassem provas abundantes da tramoia tecida entre o Ministério das Comunicações, o BNDES e o banco Opportunity. Lá pelas tantas, surgiu a chance do recurso ao príncipe do jogo, FHC, alcunhado “bomba atômica”, conforme os grampos que tive o desprazer de ouvir à época. O interesse, no caso, era aquele de um grupelho de graúdos moradores da casa-grande, e para eles o desfecho do enredo não poderia ter sido melhor.
A Justiça brasileira não é vendada porque não se importa com quem está à sua frente e sim com o crime cometido. Ela desvenda-se a toda hora e faz triagem prévia dos crimes, a fim de excluir quantos põem em risco o privilégio. Está além do óbvio que esse gênero de atuação obedece a critérios e injunções políticas. Presta-se à disputa do poder a favor da minoria. Quando o ex-presidente Lula diz que o chamado “mensalão” foi um processo sobretudo político, constata apenas e tão somente a verdade factual.

É do conhecimento até do mundo mineral que mensalão, com o sentido de propina periódica, não houve. Nem mesmo formação de quadrilha o Supremo logrou provar. Houve uso de caixa 2, executado talvez com inédita desfaçatez. Mas o recurso é conforme a tradição da política à brasileira. E por que este delito não foi punido inúmeras vezes antes que respeitasse ao PT? E por que o mensalão tucano, bastante anterior ao petista, somente agora vem à baila, de sorte a encaminhar-se alegremente para uma tertúlia final na pizzaria?
A Justiça brasileira age politicamente desde o momento em que poupa o rico da cadeia. Já escrevi neste espaço, e me agrada repetir: este é o país onde José Genoino está preso e Daniel Dantas solto. Em Nova York e em Londres o banqueiro do Opportunity foi condenado, no Brasil não. Quem haverá de ligar para isso? Não será certamente uma minoria que imagina viver em Dubai, e seus aspirantes, ainda e sempre esperançosos de compartilhar visão tão peculiar.
Volto à fala de Lula, a suscitar o repúdio irado de Joaquim Barbosa, que o próprio ex-presidente elevou à glória do STF. De Barbosa não se espera que retribua com eterna gratidão, não foi esta, porém, a única oportunidade em que ele desrespeitou a lógica e o ordenamento democrático. Nem se fale do empenho midiático na tentativa de precipitar a derrota petista em outubro próximo. Que cada qual defina sua preferência por este ou aquele candidato, por este ou aquele partido, é digno, justo e salutar. No entanto, o que acontece por aqui no desempenho do jornalismo nativo é algo único na face da Terra.
A mídia, salvo raríssimas exceções, mira no mesmo alvo, é o que clamam as manchetes sobre a fala de Lula a respeito do “mensalão” e sobre o “repúdio” de Joaquim Barbosa, ou desfraldadas em nome de uma pretensa campanha à sombra do “volta Lula”. Não se exclua que vários políticos e empresários prefiram o ex-presidente em lugar de Dilma, mas uma campanha em marcha ao rufar dos tambores é a da própria mídia. A qual, ao apostar no besteirol reinante, preocupa-se até com o tamanho da cela ocupada por José Dirceu na Papuda, e a propósito veicula uma informação inexata. Exata é a seguinte: uma delegação de cinco parlamentares visitou a prisão, dois acharam a cela maior do que a reservada aos demais condenados do “mensalão”, três a viram igualzinha. E se fosse maior?

PREPARANDO O MATERIAL DE CAMPANHA




A certeza da impunidade


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa









Trecho de uma reportagem publicada pelo Globo na edição de quinta-feira (1/5) esclarece como os operadores de crimes financeiros se sentem seguros e confortáveis em suas atividades. A personagem principal da história é a doleira Nelma Kodama, considerada responsável por uma das quatro maiores centrais de movimentação ilegal de moeda estrangeira no Brasil.
O texto relata que a doleira cansou de ver sua casa de câmbio, em Santo André, na região metropolitana de São Paulo, ser devassada pela polícia, e agora recebe seus clientes num imóvel dissimulado como restaurante chinês. Ali não existe a hipótese de se apreciar os rolinhos primavera, ou, como diz a repórter, “comer sukiyaki é bem difícil”: o que a casa oferece é câmbio de moedas. Segundo o Globo, seus clientes costumam entregar a ela grandes somas, em alguns casos volumes com mais de R$ 100 mil, e circulam em seu esquema pelo menos R$ 4 milhões por mês.
A doleira foi apanhada com 200 mil euros escondidos sob a roupa, durante a Operação Lava-Jato, que trouxe novamente às primeiras páginas o nome de Alberto Youssef, apontado como o articulador da principal quadrilha que se dedica à lavagem de dinheiro em contas no exterior.
A Polícia Federal afirma que, somente entre maio e novembro de 2013, ela remeteu ilegalmente para fora do país um total de US$ 5,2 milhões, usando 91 operações fictícias de importação, para as quais utilizou apenas uma de suas várias empresas de fachada. Foi apanhada em flagrante quando tentava embarcar para a Europa com os 200 mil euros porque, segundo a imprensa, detalhes sobre a Operação Lava-Jato haviam vazado dos inquéritos sigilosos.
O Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo noticiam, também na quinta-feira (1/5), que Alberto Youssef e Nelma Kodama planejavam fugir porque souberam que a investigação iria resultar na prisão dos dois. Gravações de conversas entre os doleiros revelam, segundo os jornais, que eles tinham um helicóptero preparado para retirá-los de cena.
Material de campanha
Deixemos de lado, por enquanto, o noticiário sobre o suposto vazamento de informações de um inquérito da Polícia Federal, porque não contém qualquer novidade: a longa carreira dos grandes lavadores de dinheiro, sob a mais límpida impunidade, só pode ser explicada pela certeza que eles sempre tiveram de que o esquema está resguardado pela omissão ou a cumplicidade de autoridades. Fiquemos, então, com o relato do Globo sobre o perfil da doleira Nelma Kodama, cuja fonte parece ser a Polícia Federal.
Espanta, nessa reportagem, como ela movimenta tanto dinheiro há tanto tempo, tendo sido investigada já em 2006, durante a CPI dos Bingos, e sendo considerada pela polícia como uma das maiores operadoras do câmbio ilegal no país. Gravações cujo conteúdo é citado pela repórter do jornal carioca mostram que a doleira trata sua situação com ironia: numa das conversas, ela diz que não possui bens em seu nome – o que tem de seu é apenas um chip de telefone celular.
No processo em que aparece como ré, na Justiça Federal do Paraná, busca-se o paradeiro de nada menos do que R$ 103 milhões, que passaram por oito empresas de fachada e seis contas bancárias controladas por ela em nove países. Trata-se, portanto, de um esquema amplo, que, como já foi revelado em outras operações policiais, envolve políticos de vários partidos, empresários, atletas de futebol, artistas, publicitários e muito mais.
O texto do Globo reforça a ideia de que a Operação Lava-Jato levanta apenas uma borda do amplo tapete sob o qual se esconde o dinheiro da corrupção, da sonegação, da evasão de lucros e provavelmente também do tráfico de drogas. No entanto, o que diz o título da reportagem que traça o perfil da acusada? Diz assim: “A doleira que teria trabalhado para o PT”.
Ou seja, usa-se como fonte um inquérito que já virou processo judicial, no qual se revela um amplo e diversificado esquema criminoso, e o jornal joga toda a suspeição num único partido.
Por que não dizer “a doleira que trabalhou para políticos e empresários”? Porque a imprensa não tem interesse em desvendar o grande esquema de lavagem de dinheiro, mas usar uma parcela das informações para apontar o dedo em uma direção específica. Afinal, é desse material jornalístico que se municiam os marqueteiros de campanha.




VENDETTA

A perseguição desumana de JB a dois homens
indefesos


Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo



Ele
Ele
Não é justiça. É vendetta.
O que Joaquim Barbosa faz com Genoino e Dirceu não tem nada a ver com o conceito de justiça em si – um ato em que existe ao menos uma parcela de uma coisa chamada isenção, ou neutralidade, para usar uma palavra da moda.
Barbosa é movido por um ódio infinito.
Ele mantém Dirceu confinado na Papuda por raiva. E quer Genoino engaiolado, mesmo com problemas cardíacos, também por raiva.
A precariedade do sistema jurídico brasileiro é tamanha que se dá a um homem poder para fazer o que Barbosa vem fazendo, com uma hipócrita base de fatos que são fabricados para que a perseguição tenha ares legais.
Você escolhe médicos que vão dizer que Genoino está bem, e que não precisa de cuidados especiais. Isto funciona como aqueles repórteres da Veja que são escalados para provar, aspas, teses já definidas antes da primeira entrevista. O objetivo não é descobrir coisas, não é investigar um assunto. É chancelar uma conclusão que vem na frente dos fatos.
E depois que os médicos fazem seu servico abjeto, você exerce sua vingança mesquinha como se fosse um magistrado de verdade.
O caso de Dirceu é igualmente vergonhoso. Uma nota de jornal — um jornal tão famoso pelos erros que conquistou a alcunha de Falha de S.Paulo — vira uma prova contundente contra Dirceu. Numa inversão monstruosa da ideia da justiça, você tem que provar a inocência, e não o contrário.
Num cenário de reiterada desumanidade, destoou o gesto do deputado Jean Wyllys ao se negar a inventar ‘regalias’ para Dirceu. O partido de Wyllys faz oposição ao PT, e era presumível, diante do que se tem visto na cena política do país, que ele denunciasse as condições ‘espetaculares’ de Dirceu na Papuda.
Mas Wyllys optou pela honestidade. Relatou o que viu. Foi fiel ao que testemunhou. Não adulterou o que seus olhos encontraram. Seria um gesto banal, não fosse o ambiente de cinismo, cálculo e desonestidade que domina hoje o debate político nacional numa reprodução do que aconteceu, com trágicas consequências, em 1954 e 1964.
Joaquim Barbosa provavelmente esteja frustrado. O sonho de virar presidente naufragou miseravelmente. Só a mídia queria, além dele próprio e de um punhado de fanáticos de direita.
Ele foi obrigado a despertar para a dura realidade de que os holofotes lhe são dados apenas para dizer o que interessa à mídia. Ele queria falar recentemente do processo que move contra Noblat por alegado racismo. Ninguém na imprensa lhe deu espaço. Tentou trazer este assunto na entrevista que deu a Roberto Davila na Globonews. Davila mudou de assunto com um sorriso.
As declarações de Lula sobre o conteúdo político do Mensalão também não devem ter ajudado no humor de Barbosa. Sua obra magna, aspas, corre um sério risco de se desfazer em impostura.
Joaquim Barbosa é hoje uma fração do que pareceu ser, e amanhã será ainda menor, e o que sobrar provavelmente se cobrirá de ignomínia para a posteridade.
Para Dirceu e Genoino, o problema é que enquanto ele não volta ao nada de que saiu JB se dedica à arte sadica de persegui-los, sem que eles consigam se defender, prostrados que estão pelas circunstâncias, cada qual de seu jeito.
Neste sentido, não é apenas uma vingança, mas uma covardia.
 
 
 

Não me venha com mentiras, meu filho.

PRISAO NO 1 DE MAIO

"Só não me venham com mentiras", reagiu Maria Laiz, mãe de Genoíno, quando soube da volta do filho a prisão

Paulo Moreira Leite, em seu blogue
      A prisão de José Genoíno é um novo sinal político. Só durante a ditadura os militantes do movimento operário eram presos no 1 de maio. Depois disso, a data era respeitada. Havia um compromisso tácito, um respeito por aqueles milhões de brasileiros que ajudaram a transformar o país numa democracia.
     A primeira a perceber o que se passava foi Maria Laiz Nobre Guimarães. Aos 89 anos, ela  acompanhou o noticiário sobre a volta do primogênito à Papuda pela TV parabólica da casa onde mora, em Encantado, no interior do Ceará. Quando atendeu ao telefone, ficou com receio de que tentassem amenizar sua dor:
--Só não me venha com mentiras, meu filho, disse ao deputado José Guimarães, irmão de Genoíno.
 Genoíno retornou a Papuda no 1 de maio, data histórica dos trabalhadores, depois de ter sido preso pela primeira vez em  15 de novembro, da República.
   Justo Genoíno, que tentou organizar trabalhadores rurais no Araguaia, onde seu partido, o PC do B, queria montar uma guerrilha contra a ditadura militar. Que foi torturado. Que ajudou a aprovar as principais leis a favor dos assalariados no Congresso, onde foi uma das lideranças mais importantes desde a democratização. Que ajudou a incluir cláusulas democráticas na Constituição.
   (E que continuou vivendo com a dignidade de seus vencimentos de parlamentar num sobrado comprado com financiamento da Caixa na Vila Indiana, Zona Oeste de São Paulo).
     Veja só. Ele foi condenado por corrupção ativa e cumpre pena de quatro anos e oito meses. Genoíno embolsou algum no esquema? Nem um centavo. Colocou a mão em algum trocado? Não. Entregou para alguém? Assinou os empréstimos do PT. Sabe o que a PF concluiu? Que foram empréstimos legítimos, entregues ao partido.  
     Este é o corrupto preso do 1 de maio.
     Como disse dona Maria Laiz: “só não me venha com mentiras, meu filho.”
     É mais  engraçado do que isso.
     Pimenta da Veiga, um dos fundadores do PSDB, ministro das Comunicações no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, é hoje candidato ao governo de Minas Gerais.
     A Polícia Federal informa, desde 2006 – está lá, no inquérito 2474 que ficou escondido dos ministros do STF até o julgamento da AP 470 --  que Pimenta da Veiga recebeu R$ 300 000 das agências de Marcos Valério.
     Até agora, Pimenta não foi julgado nem condenado. Já colheu um benefício: o tempo trabalha para ele. A PF encontrou zero centavo a mais na conta de José Genoíno. Também apurou as contas de familiares – e nada. O ministério público atesta sua honestidade. Admite isso.
      Mas ele voltou a Papuda, ontem.
      O dinheiro caiu na conta de Pimenta da Veiga muitos meses antes de várias remessas da AP 470. Seu valor é maior até do que os R$ 296 000 que Henrique Pizzolato mandou um auxiliar buscar no Banco Rural. Como já lembrei aqui, é seis vezes maior que os R$ 50 000 que João Paulo recebeu na mesma instituição. João Paulo disse que usou o dinheiro para fazer pesquisas eleitorais e até encontrou uma testemunha para confirmar a história. Pizzolato garante que não colocou a mão no dinheiro e mandou para o PT. Acredite você no que quiser. A quebra do sigilo fiscal e bancário de Pizzolato não conseguiu demonstrar que ele mentia.
    Pimenta da Veiga, ao contrário de Pizzolato e de João Paulo, admitiu que o dinheiro foi para ele. Explicou que eram honorários advocatícios.
    Ao contrário de João Paulo, não apresentou documentos para provar o que dizia além de sua própria palavra.  Quando os policiais perguntaram qual era a causa  que poderia justificar honorários tão bons, Pimenta alegou que fizera serviços internos para as agencias de Marcos Valério. Ele, que acabara de deixar o ministério das Comunicações, três meses antes do dinheiro entrar na conta, já estava advogando para as agencias do valerioduto. Em serviços internos.
    Recebeu um dinheiro que, com algum reforço,  daria para  Genoíno comprar uma casa ao lado da sua.
     Se um dia Pimenta da Veiga se tornar réu, terá assegurado o direito a um julgamento em segunda instância. Se tudo der errado, dará certo para ele.
    Terá muito mais chances de provar seus pontos de vista. É o correto.
      Pela idade, tem 100% de chances de escapar das penas a que eventualmente venha ser condenado porque já terá completado 70 anos, quando a denúncia – se for feita – estará prescrita. Olha outro momento de sorte. Outro azar de Genoíno. Ele completa 68 anos amanhã, na cadeia.     
      Pimenta  recebeu o dinheiro no início de 2003, meses depois de deixar o ministério. Mesmo assim, está enquadrado no mensalão mineiro, que é de 1998. Deve ser um milagre de denuncia retroativa.
     Confesso não saber se Pimenta é culpado de alguma coisa. Acho errado pré condenar qualquer pessoa. Ele tem o direito de ser tratado como inocente, até que se prove o contrário.  
      A discussão política, contudo, é útil.
     Numa tentativa tosca para justificar o retorno de Genoíno a prisão, Joaquim Barbosa praticou um truque demagógico manjado. Apresentou estatísticas que mostram o elevado número de prisioneiros  que têm doenças semelhantes a de Genoíno e nem por isso cumprem regime domiciliar.
    É um truque que se utiliza de dados verdadeiros para sustentar teses falsas quando é conveniente. Não vamos lembrar os muitos momentos históricos em que isso foi feito porque seria muito constrangedor. Basta dizer que seu efeito é estimular o ressentimento e não a vontade de Justiça. 
      Numa homenagem ao 1 de maio,  não custa lembrar um episódio comum sob a ditadura militar. Sempre que os trabalhadores faziam greve, os amiguinhos dos generais na política e na imprensa diziam  que os sindicatos eram egoístas, queriam dar aumento para quem já ganhava bem, tinha carteira assinada, enquanto a maioria do povo vivia na miséria. Entendeu, né? É por isso que aos 89 anos dona Maria Laiz sempre avisa que não quer ouvir mentiras.
    Este mesmo raciocínio se tenta aplicar hoje contra Genoíno. Todo mundo sabe que ele sofre de uma cardiopatia grave, ainda que controlada. A mortalidade de sua doença é alta, ainda que sua cirurgia de implante de um tubo de PVC no peito tenha sido feita pelos melhores médicos do país.
     Qualquer médico sabe que ele estará melhor em casa, em situação de melhor conforto e cuidado, do que num presídio. Os médicos que examinaram Genoíno discordam sobre a conveniência de enviá-lo para a Papuda.
     A maioria dos médicos que examinou Genoino deixou claro, por vias claras ou indiretas, que as condições de tratamento em casa são melhores. Elas ajudam a explicar sua recuperação. É sintomático que ninguém tenha ficado surpreso com o fato de que Joaquim Barbosa tenha optado pelo laudo mais favorável ao encarceramento. Medicina? Não. Política. 
     Numa atitude correta, mas cuja razão de fundo é fácil de adivinhar, Joaquim autorizou o médico de Genoíno a entrar na Papuda a qualquer momento.  
     Se milhares de prisioneiros, com problemas de saúde equivalentes, não conseguem cumprir prisão em regime domiciliar, embora tenham o mesmo direito, a responsabilidade é do sistema prisional, do Estado, quem sabe até do presidente do STF ou mesmo do ministro da Justiça. Só não pode ser imputada a Genoíno, certo?     
     O médico particular de Genoíno mediu sua coagulação e prova, com base em laudos do laboratório Sabin, um dos mais respeitados de Brasília, que seus índices estão abaixo da média recomendável. O índice de é de 1,7, enquanto o recomendável fica entre 2 e 3.
     Os outros prisioneiros-pacientes da Papuda têm o mesmo atendimento? Têm o mesmo médico? É claro que não. Infelizmente.
     Da mesma forma, poucos brasileiros com dores lombares terríveis têm direito a um tratamento caro e sofisticado para amenizar seu sofrimento. Joaquim Barbosa teve, com recursos pagos pelo contribuinte. Tirou licenças tão prolongadas no seu trabalho que chegou a ser criticado publicamente por colegas. Descobriu clínicas modernas, tratamentos de vanguarda.
     Está errado? Não. É um direito dos ministros do Supremo.
    A desigualdade estrutural de um país não impede nenhuma pessoa de fazer o que tiver a seu alcance – dentro da lei -- para defender seus direitos.
     É errado culpar um indivíduo pelo conjunto de mazelas de uma sociedade. É uma espécie de covardia retroativa. Um dos mais eruditos juizes da Suprema Corte dos Estados Unidos, Antonio Scalia, de insuspeitas credenciais conservadoras, deu uma lição inestimável para o debate desses casos.       
    Lembrou que ninguém pode ser responsabilizado individualmente pelos erros das gerações passadas.
     Num debate sério, produtivo, Genoíno deveria ser comparado com com pessoas de condição equivalente. Por exemplo, Pimenta da Veiga.
      O problema aí é um efeito desagradável. Na condição de relator da AP 470, Joaquim Barbosa foi um dos responsáveis, ao  lado do procurador geral Antonio Fernando de Souza, de manter o laudo 2474 em segredo de Justiça – e ali  aparecia o curioso pagamento a Pimenta da Veiga.      
       O ministro do STF Celso de Mello chegou a cobrar, em tom indignado, que o 2474 fosse exibido aos ministros, antes do julgamento. Joaquim se negou. Disse que não traria maiores novidades. Alegou que poderia provocar novos atrasos. Foi uma pena.
      Na época  ninguém estava prestando a devida atenção ao julgamento. A  maioria dos observadores apenas engrossava o coro de “Morte aos cães!” que eles tanto condenavam quando era ouvido em tribunais stalinistas. Mas seria curioso tomar conhecimento de casos fora do roteiro do “maior espetáculo da terra.”
        Imagine se, por acaso, alguém entrasse na página 179 do Relatório da Polícia Federal, incluído no inquérito, e encontrasse o dinheiro para Pimenta da Veiga. 
Quinze vezes mais do que o dinheiro recebido pelo professor Luizinho que, após oito anos de massacre midiático, foi inocentado.  
        Genoíno pode, sim, ser julgado por seus atos e por suas ações políticas no presente. E aí vamos combinar que poucos cidadãos brasileiros – dentro ou fora prisão – construiram uma folha de serviços tão respeitável na luta contra a desigualdade e pelo progresso dos mais pobres.
     A postura combativa mesmo na prisão  lhe gerou punições suplementares quando  Genoíno organizou um protesto pela morte de Vladimir Herzog, o jornalista  assassinado no porão pela atividade militante no PCB, em 1975. Estimulados por Genoíno, os presos batiam nas grades, gritavam o nome de Herzog, faziam todo barulho que conseguiam. Por causa disso, Genoíno foi punido e enviado para o Ceará, onde teve de cumprir parte de usa pena. Saiu arrastado da cela. 
     São cenas corajosas, que ajudam a mostrar quem é quem e quem se tornou quem, 39 anos depois. Que tristeza. Um assessor do PPS, sigla que herdou o espólio do PCB, é o principal suspeito de cometer um ato lamentável de provocação na Papuda: a filmagens clandestina de Dirceu enviada aos jornais. Na mesma ocasião se disse que a cela de Dirceu – a mesma que Genoíno ocupa desde ontem – oferece banho quente aos detentos. Mentira. Canalhice. A água é fria, como de toda a Papuda – mas, no clima de estimular o ressentimento, a falsa notícia foi até manchete de jornais. Falando nisso: água quente é luxo? 
      
   Essa é a diferença, que salta aos olhos no 1 de maio. 
   -- Não me venha com mentiras, meu filho.
 
 

FALA DILMA, FALA

A nova Dilma que emerge do
primeiro de maio


Luis Nassif, no jornal GGN



Em seu pronunciamento aos trabalhadores, pelo 1o de maio, a gerente Dilma Rousseff abriu espaço para a política Dilma, mostrando uma faceta até agora inédita: a de uma líder buscando a aproximação com os trabalhadores e movimentos sociais das quais se afastou depois de eleita.
É um discurso ao melhor modelo getulista, intercalado por vários “trabalhadoras e trabalhadores” e terminando com um apoteótico “temos o principal: coragem e vontade política. E temos um lado: o lado do povo. E quem está ao lado do povo, pode até perder algumas batalhas, mas sabe que no final colherá a vitória. Viva o primeiro de maio! Viva a trabalhadora e o trabalhador brasileiros! Viva o Brasil!”
***
Vai causar estranheza mas mostra, pela primeira vez, Dilma tentando vencer a marca da dubiedade política e do imobilismo, apontado por seus adversários políticos. “Mudar não é fácil, e um governo de mudança encontra todo tipo de adversários que querem manter seus privilégios e as injustiças do passado. Mas nós não nos intimidamos”.
***
O discurso tem três etapas.
Na primeira, a dos afagos. Anunciou a correção da tabela do Imposto de Renda na fonte, a atualização em 10% dos valores da Bolsa Família e a continuidade da política de valorização do salario mínimo.
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No segundo, uma tentativa de reconciliação com sindicatos e movimentos sociais.
Para rebater as críticas contra a falta de diálogo diz que “nosso governo nunca será o governo do arrocho salarial, nem o governo da mão dura contra o trabalhador! Nosso governo será, sempre, (...) um governo que dialoga com os sindicatos e com os movimentos sociais e encontra caminhos para melhorar a vida dos que vivem do suor do seu trabalho”.
Menciona o episódio Petrobras, reitera o compromisso com o combate aos “malfeitos” mas critica a exploração política contra a Petrobras.
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Reitera também o compromisso com o crescimento com estabilidade, o controle rigoroso da inflação e a administração correta das contas públicas.
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E faz um balanço das medidas tomadas pós-manifestações de junho passado.
Segundo ela, as manifestações motivaram três pactos.
O pacto pela educação resultou na lei destinando parte relevante dos royalties do petróleo para a educação. O pacto pela saúde gerou o Mais Médicos, “e, em apenas seis meses, já colocamos mais de 14 mil médicos em 3.866 municípios. E o que é mais importante: estes números significam a cobertura de atenção médica para 49 milhões de brasileiros”.
O pacto pela mobilidade urbana, segundo Dilma, estaria levando a investimento de 143 bilhões de reais na implantação de metrôs, veículos leves sobre trilhos, monotrilhos, BRTs, corredores de ônibus e trens urbanos. 
***
A terceira etapa é apontando o futuro.
Nela, limita-se a reiterar a necessidade de uma reforma política e a proposta de consulta popular encaminhada ao Congresso Nacional – e da qual não se ouviu mais falar depois que baixaram os ecos das manifestações.
Termina com uma conclamação: “Sempre estive convencida que sem a participação popular não teremos a reforma política que o Brasil exige. Por isso, além da ajuda do congresso e do judiciário, preciso do apoio de cada um de vocês, trabalhador e trabalhadora”.