06 fevereiro 2014

SINAIS DE VITALIDADE

Punhos sem renda


Saul Leblon, na Agência Carta Maior



Arquivo




O deputado André Vargas (PT-PR) não foi orientado por um script publicitário a erguer o braço e cerrar o punho na presença da toga que se esponja no desfrutável papel midiático de algoz do PT.

Genoíno, que o antecedeu na afirmação simbólica de identidade e protesto, ou Dirceu, que assim também se confraternizou com os militantes solidários que o aguardavam na entrada da Papuda, tampouco  obedeceram aos alertas  de ‘luzes, câmera, ação!’

Milhares de petistas e não-petistas anônimos que fizeram chegar doações a Genoíno e Delúbio – e aqueles que repetirão a solidariedade a Dirceu e João Paulo, por certo não podem ser confundidos com coadjuvantes de uma peça eleitoral.

O significado desses sinais de vitalidade enviados do metabolismo profundo não apenas do PT, da esquerda em geral,  já foram sublinhados pela argúcia de vários analistas da blogosfera.

O que eles evidenciam deixou inconformados colunistas e togas engajados em anos de desqualificação diuturna do partido, de seu legado e  valores.

Depois de tanto sangrar, o esquartejado ainda teima –e respira?

Da perplexidade ao ataque, passaram-se poucos dias até o impoluto doutor duplo habeas corpus, Gilmar Mendes,  puxar a coleira da matilha que passou a farejar operosa e incansavelmente: em algum ponto há de se achar  uma cubana das doações.

O fato é que  eles não contavam com a sobrevida da solidariedade no espinhaço ferido  da esquerda. Tudo isso já foi dito e bem dito.

Faltou dizer  que parte expressiva desta esquerda também se surpreendeu.

Surpreendeu-se  ela com o efeito demolidor de algo esquecido na prática minuciosamente monitorada pela conveniência  do exercício do poder: a espontaneidade de André Vargas.

Sem falar da solidariedade sem hesitação a Genoíno e Delúbio  –que por certo inclui doações expressivas de instituições e personalidades, a exemplo do cheque de R$ 10 mil enviado pelo ex-ministro Nelson Jobim.

Mas nada que diminua a vitalidade do que verdadeiramente incomoda e sacode: milhares de doadores anônimos não esperaram uma peça publicitária para sair em defesa de quem personifica referências inegociáveis de sua visão de vida, de mundo e de Brasil.

A criatividade inexcedível do protesto espontâneo e o efeito demonstração incomparável da prontidão solidária hibernavam na memória algo entorpecida do PT.

Há mais de uma década desafiado a ser partido de massa e governo --  a bordo das sabidas contradições que a dupla jornada encerra, o partido impôs-se, compreensivelmente, o gesso da previsibilidade e as algemas do risco zero.

Ademais dos comedimentos  da responsabilidade  de ser governo, o próprio êxito dessa trajetória  -- reiterado nas urnas—instituiu um protocolo de autopreservação: ele delega ao pensamento publicitário a última palavra (não raro a primeira também) sobre o que o partido deve falar, quando e como fazê-lo.

Cabe a pergunta: que publicitário petista orientaria um dirigente a cerrar o punho, de braço erguido, diante da toga colérica, a essa altura do jogo? E quantos bancariam uma campanha massiva de doações aos incômodos condenados do chamado ‘mensalão’?

‘E pur si muove...’

A eficácia do improvável deveria inspirar arguições no pragmatismo que planeja a campanha presidencial deste ano.

Todo cuidado é pouco  –estão aí as togas, o jornalismo isento, os mercados sedentos, os netos oportunistas e os verdes convertidos no altar do tripé.

‘Não vai ter Copa’ é o mínimo que eles ambicionam.

Mas estão aí também a democracia e o desenvolvimento brasileiro perfilados  num horizonte de encruzilhadas imunes à receita de mais do mesmo em nova embalagem e sabores reciclados.

Aquilo que cabe em um script competente, mas exatamente por isso encilhado em baixos teores de ousadia e residual  espaço à mobilização, talvez seja suficiente para vencer o conservadorismo nas urnas de outubro.

Mas o será para liderar a transição do novo pacto de desenvolvimento necessário à construção da democracia social brasileira?

A ver.
 
 
 
 

PROPAGANDA ELEITORAL E ASILOS

JANIO DE FREITAS
A lei que varia
O TSE deve algum sinal orientador entre afrouxar o rigor legal ou cobrar sua aplicação sem concessões
As diretrizes do programa de governo lançadas por Eduardo Campos e Marina Silva não saíram da mais pobre obviedade, mas, talvez como compensação, os dois saíram da linha: foi um ato de propaganda eleitoral explícita, até anunciado e com convocação da imprensa, quando a legislação ainda o proíbe.
 
Se não pretende lançar também as suas diretrizes, o Tribunal Superior Eleitoral deve aos seus sucedâneos estaduais algum sinal orientador entre afrouxar o rigor legal ou cobrar sua aplicação sem concessões. Do contrário, as eleições começam a desmoralizar-se antes mesmo de iniciado oficialmente o direito de propaganda: tanto há procuradores e juízes eleitorais vigilantes e aplicando sanções, muitas delas noticiadas, como em outros Estados a complacência prevalece.
 
Para a imprensa política, todo ato de Dilma Rousseff é relacionado com propósito eleitoral. Não seria tão difícil, porém, para os experimentados procuradores e juízes distinguir os que são atos de governo e os que seriam dispensáveis como governo, mas se prestam a propaganda. O mesmo para com atos dos governadores aspirantes a eleição ou reeleição. Logo, se a tolerância com os outros pré-candidatos se deve a um pretendido equilíbrio deles com as vantagens dos governantes, a solução estará em mais vigilância e disposição do Ministério Público e da Justiça Eleitoral para reprimir os abusos do poder. Não em relaxar aqui e endurecer ali.
 
Não deu para entender a afoiteza de Eduardo Campos e Marina Silva com suas diretrizes sem recheio. A menos que tenha sido para Marina proclamar Eduardo Campos, como fez com explicitude propagandística total, "o futuro presidente do Brasil". Uma aparente e inconvincente resposta, com tanta disputa política ainda por vir, à dúvida sobre qual deles disputará com Dilma.
 
À parte o propósito de ambos, se houve algum, foi quase uma provocação que Eduardo Campos decidisse lançar suas diretrizes de presidente em Brasília, nos domínios do Tribunal Superior Eleitoral. A cinco meses do início legal da propaganda, em 6 de julho.
 
 
DE FORA
Henrique Pizzolato preso na Itália por estar usando o passaporte do irmão. Mas Pizzolato é italiano, não precisa usar passaporte na Itália. Tem documento específico da dupla nacionalidade.
 
A médica cubana levou quatro meses entre "descobrir que ganha muito pouco" e procurar o deputado Ronaldo Caiado para pedir asilo, em vez de um dos três ministérios apropriados no seu caso. Interessante, aliás, a escolha que fez, de um deputado pouco conhecido até dos brasileiros e que nem é do Pará, onde ela estava. Sabe das coisas a brava senhora, ao menos quanto a parlamentares.
 
Mas ou não sabe o quanto ganha ou mentiu com persistência. Nas insistentes e diferentes menções à sua remuneração, omitiu sempre o pagamento que recebe da prefeitura para a alimentação, como os demais integrantes do Mais Médicos. E ainda há a moradia.
Essa história da doutora Ramona dá rumba.
 
 
(Extraído do jornal Folha de São Paulo)
 
 

05 fevereiro 2014

BRASIL 2014

Vai ter copa


Juca Kfouri (*)



Salvador Allende, o presidente chileno deposto em 1973, costumava dizer que os extremos se postavam às suas costas. Referia-se às extremas direita e esquerda que interromperam a longeva democracia no país andino, num dos golpes mais sanguinários da América do Sul.
Guardadas as proporções, temos hoje no Brasil os extremos reunidos sob a mesma ideia: “Não vai ter Copa”. Black blocs de um lado e uma certa oposição ao governo do outro.
É claro que a Copa acontecerá mais ou menos como na Copa das Confederações.
Mais se a polícia cometer excessos. Menos se a prevenção for feita com a cabeça e não com o porrete.
Mas não há como evitar que a independência crítica siga em seu trabalho de mostrar todos os absurdos que cercam o megaevento, postura longe de se confundir com complexo de vira-lata ou falta de patriotismo.
Brasil mais maduro
Se à esquerda o padrão Fifa virou paradigma para hospitais, escolas e mobilidade urbana, à direita virou rótulo das deficiências das políticas governamentais. Nos extremos das duas posturas, juntam-se a violência que bota fogo na fervura e a demagogia de quem só pensa nos excluídos como bucha de canhão.
A Copa brasileira não será a “Copa das Copas” como quer o governo, assim como o Brasil não é o país do futebol como supõe a Fifa. Ao optar pelo megalomaníaco ao fazer a Copa em 12 cidades quando deveria tê-la limitado às oito exigidas pela Fifa, a Copa do Mundo no Brasil perdeu a oportunidade de ser a Copa do Mundo do Brasil.
Denunciar os elefantes brancos, o gasto desmedido de dinheiro público com estádios em vez de investimentos nas sedes, as remoções arbitrárias, por mais que irrite o jornalismo chapa-branca, é obrigação de quem, como dizia Millôr Fernandes, sabe que jornalismo é oposição, não armazém de secos e molhados.
Mentir e distorcer como fazem os que escondem 502 anos de História do Brasil, como se o país tivesse apenas 12, são outros 500, a outra face da mesma moeda.
As manifestações de junho passado não foram exatamente contra o governo federal, mas, se também contra ele, ainda assim a seu favor, pelo aprofundamento das melhorias que trouxe para quem as desconhecia.
Lembremos que ao lado das responsabilidades indiscutíveis do PT, vimos o PSDB cúmplice, em São Paulo, da exclusão do Morumbi como um dos palcos do torneio. E em Minas, que não dá conta nem das chuvas, para não falar das estradas, mas fez outro Mineirão.
Em resumo, “Vai ter Copa” – tomara com a derrota dos que apostam no quanto pior melhor e sob a vigilância dos que não se deixam cooptar nem por gregos nem por troianos, para que ao fim dela o Brasil esteja, ao menos, mais maduro.
Com novo foco, a Olimpíada de 2016, história que fica para ou tra vez.
***
Juca Kfouri é colunista da Folha de S.Paulo

(Publicado no jornal Folha de São Paulo, em 30.01.2014. Extraído do Observatório da
Imprensa)


EGOCENTRISMO E FALSIDADES

Assassinato de reputações, o filme


Mauro Marcelo de Lima e Silva, no Observatório da Imprensa




Resisti à tentação de comprar o livro Assassinato de Reputações: um crime de Estado, de Romeu Tuma Júnior (Editora Topbooks 2013), mas acabei cedendo quando fui informado que havia menção ao meu nome. Li-o em três dias e cheguei à conclusão de que o título correto deveria ser “Como cuspir no prato que comeu”.
São mais de 500 páginas confusas e com imprecisões temporais, recheadas de acusações sem provas, chulices, deboches e bravatas, nas quais o autor chega ao cúmulo de dizer, com todas as letras, que seu pai, o Tumão, morreu de desgosto quando o autor foi defenestrado da Secretaria Nacional de Justiça. Pasmem: ele diz isso e acredita nisso.
Na sua visão obliterada, o autor foi exonerado ou por perseguir Daniel Dantas, que diz ser amigo do governo, ou por ter achado uma conta secreta nas Ilhas Cayman atribuída (mas nunca comprovada) a José Dirceu, ou por ter “peitado” o governo ao impedir a operação Satiagraha, ou por tudo isso junto. Para justificar tirá-lo do cargo, fantasia que o governo determinou à Polícia Federal que fizesse uma ultra-super-hiper-secreta investigação, interceptando conversas telefônicas do amigo do amigo do amigo dele para chegar até a sua pessoa e depois, por determinação de Lula, as gravações foram seletivamente vazadas a determinados jornalistas e panfletadas na internet, para assim “fritá-lo” perante a opinião pública e o governo, enfim, demiti-lo. Não bastava aí uma canetada do presidente? Mas é nessa chicana conspiratória que ele piamente acredita.
Centro das atenções
Encolerizado por ter sido tirado do cargo – onde se considerava a figura central da atual República – ele quer, neste cartapácio, limpar sua honra que julgou atingida por essa investigação. Para isso, dispara sua metralhadora giratória contra o ex-presidente Lula, contra os ex-ministros Márcio Thomaz Bastos e Tarso Genro, contra a Polícia Federal e seu ex-diretor, contra o DHPP de São Paulo, contra “os maquiavélicos do PT e da PF”, contra o PSDB, contra o Judiciário, contra promotores e procuradores, contra delegados de polícia, contra membros da Secretaria Nacional de Justiça, contra o jornal O Estado de S. Paulo, além de outras autoridades e instituições.
Compara o governo a traficante de favelas e brada ter atrapalhado o projeto de poder do PT e os interesses “da banda”. Ofende, menospreza, ridiculariza e calunia o ex-presidente Lula, apontando-o como informante do seu pai, Tumão. Ok. O papa Francisco é ateu, sabiam?! O papel aceita tudo, até infâmias.
Você, leitor, nunca verá tamanho egocentrismo nessa resma. Recheado de “eu fiz”, “eu sei”, “eu prendi e mandei prender”, “foi por minha causa”, “eu avisei”, “eu sou o melhor”, “eu tinha razão”, “foi minha idéia”, “eu propus”, “eu baixei a criminalidade”, “eu mostrei quem eu sou”, “eu investiguei os mais clamorosos casos no Brasil e no exterior”, “eu fui o cara certo na hora certa”, “eu fiz e desfiz”, “eu sou competente”, “eu, experiente policial”, “eu tenho capacidade técnica”, só faltando mesmo ele dizer “esse cara sou eu”, tamanho ego, que não cabe nas 560 páginas.
Na defesa de sua reputação, que considera mais valiosa que a sua própria vida, elogia excessivamente a si e a seus atos querendo ser o centro de todas as atenções julgando suas opiniões e interesses mais importantes que os pensamentos dos outros. Que nome poderíamos dar a isso?...
Verdade falseada
Quando discorre sobre a morte do prefeito Celso Daniel, narra um verdadeiro filme, um thrillerhollywoodiano com convicção baseada em achismos e especulações. Esquece que o crime foi duas vezes investigado pela Polícia Civil – instituição constitucionalmente investida no poder de investigação e capacitada para isso – que concluiu tratar-se de crime comum; mas para o autor, se ele tivesse investigado, teria esclarecido de forma diferente, pois tinha as melhores pistas, os melhores indícios e as melhores provas. Nessa trama, menciona “eu acho”, “provavelmente ocorreu isso”, “tive a sensação de que”, “acredito que”, “minha tese é”, “meu entendimento é”, “avalio eu”, “penso que”, ou seja, sua teoria é recheada de suposições e conjecturas diversas, chegando a afirmar que Celso Daniel morreu com expressão de sofrimento no rosto. Ora, como ensinado em Medicina Legal, cadáveres não têm expressão de sofrimento – algo talvez apregoado na Idade Média – pois é sabido que, após a morte, toda a musculatura do corpo relaxa, sendo impossível um cadáver estampar qualquer tipo de sentimento.
No mais fino exemplo de jactância, ele compara o Tumão, seu pai, ao Pelé da Polícia, talvez se enxergando como um Neymar desconvocado pelo Felipão...
Entre as afirmações mais absurdas, está a de que Lula foi “aluno de seu pai e aprendeu bem”, pois usou o “talento investigativo adquirido para propósitos inconfessáveis”. Chama o ex-presidente de vingativo e o acusa de criar um Estado policial e de fabricar dossiês. Afirma ter sido um “fraldão” do governo, eleito alvo pelo Palácio, precisando ser alvejado, transposto e abatido. Quando cheguei ao capítulo em que diz que ajudou seu pai a esclarecer o caso Joseph Mengele, confesso que pulei para o próximo, mas quase desisti de ler o resto, quando, na página 318, ele afirma ter ensinado ao jornalista Boris Casoy o bordão “Isso é uma vergonha!” Quanta pretensão.
Escrito a quatro mãos e quatro pés, é nítida a participação do coautor, digamos, no floreamento dos parágrafos, principalmente nas menções de leitmotif, “Razão Instrumental de Max Weber”, “leviatã de Thomas Hobbes”, “Politiburo”, “Soljenitsin”, “devir da filosofia”, “endoxa de Aristóteles” dentre outras. Destila ainda seu ódio à ferramenta de pesquisa do Google, chamado por ele de “Tribunal Superior do Google”. Será que ele sabe o que é e como funciona essa ferramenta de pesquisa, que faz a indexação de mais de 40 trilhões de páginas na web?
Talvez a única coisa correta nesse emaranhado de papéis seja o título, por meio do qual o autor – ou autores – tentam assassinar a reputação do ex-presidente Lula e demais autoridades e instituições que, pela sua ótica deturpada, tramaram pela sua exoneração.
A propósito, sou citado no livro em algumas passagens onde o autor falseia a verdade, inclusive atribuindo a si a minha indicação para fazer um curso fora do país. Ele mente. Nunca houve tal interferência. Minha conclusão? Ele – ou eles – vão precisar contratar bons advogados.
***
Mauro Marcelo de Lima e Silva é delegado de polícia em São Paulo, foi diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e é ex-diretor de Inteligência da Polícia Civil de São Paulo


MAIS UM EXEMPLO

Pane no metrô e na imprensa


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa




O metrô de São Paulo é tema do noticiário novamente, nas edições de quarta-feira (5/2), por conta de uma pane que quase desandou em tragédia. As reportagens dos dois principais jornais paulistas se desencontram ao informar as causas do problema, que afetou a linha 3-Vermelha, que cruza a cidade no sentido Leste-Oeste, e a linha 4-Amarela, que liga o Butantã, na zona oeste, à região da Luz, no centro velho.
A Folha de S. Paulo relata que a causa de tudo foi uma pane no sistema de fechamento das portas, que teria ocorrido num trem parado na estação Sé, marco zero da cidade, às 18h19 da terça-feira (4/2). Na sequência descrita pelo jornal, nos dez minutos seguintes pelo menos sete composições do trajeto foram obrigadas a parar, e alguns passageiros, agoniados pelo calor, apertaram os botões de emergência para deixar os vagões. Por volta das 20h, um novo defeito fez com que o tráfego fosse novamente suspenso, com a situação se normalizando somente perto da meia-noite.
A história contada pela Folha dá quase todo crédito à versão da Companhia do Metrô, segundo a qual houve precipitação dos passageiros, vandalismo e agressões a funcionários. O texto do jornal reforça a posição da empresa, em trechos que dizem, por exemplo, que “vagões foram depredados e seguranças, agredidos”, ou no relato segundo o qual “a Folha presenciou passageiros quebrando vidros de ao menos uma composição na Sé”. No entanto, a fotografia na primeira página mostra a multidão tentando escapar pelo túnel e um grupo de seguranças barrando a passagem, um deles ameaçando os passageiros com um cassetete.
No Estado de S. Paulo, a descrição dos acontecimentos é mais detalhada  desde o título, no qual se diz que “pane somada a atrasos, lotação e calor causa tumulto e fecha linha-3 do metrô”. No texto, o jornal explica que, diante da paralisação do sistema, passageiros abriram as portas e saíram para os trilhos, porque muitas pessoas estavam passando mal com o calor. A diferença com o outro diário começa na descrição do tumulto que se seguiu: “Na confusão, seguranças do Metrô agrediram passageiros na Estação da Sé. Houve tumulto e depredação na plataforma”.
A versão oficial
As sequências das duas versões apontam para interpretações totalmente opostas dos acontecimentos, e o leitor atento não precisa muito esforço para se dar conta de que a Folha de S. Paulo agasalhou uma história que poderia muito bem ser escrita pela assessoria do Metrô. Nesse roteiro, a empresa sofreu um problema que, afinal, pode acontecer em qualquer lugar, e o resto teria sido consequência da má educação dos passageiros.
Já o Estado abre a possibilidade de outra interpretação, informando, por exemplo, que os passageiros ficaram retidos por mais de vinte minutos nos trens parados, sem informação e sem ajuda da empresa. Conta também que o Metrô não acionou o Plano de Apoio entre Empresas em Situações de Emergência, que providenciaria ônibus e outros meios para desafogar o movimento de passageiros. Além disso, a descrição das agressões indiscriminadas a quem deixava os trens combina melhor com o que se conhece dos seguranças do Metrô, muitas vezes denunciados por abusos e excesso de violência.
Nos dois relatos, é preciso destacar o fato de que, nos momentos de maior risco, foi a atitude solidária dos passageiros que evitou uma tragédia: pessoas idosas, mulheres grávidas e cadeirantes foram protegidos nos vagões ou conduzidos para lugares seguros pelos próprios usuários, enquanto a segurança tentava apenas mantê-los parados, sob o calor infernal que assolava a cidade.
Além das divergências sobre os fatos específicos, com uma reportagem de muito mais qualidade por parte do Estado de S. Paulo, pode-se dizer que os dois jornais erraram juntos em uma questão fundamental: não vincularam a pane a problemas de manutenção do Metrô, cujos técnicos estão sendo obrigados a fazer “gambiarras”, porque os contratos foram suspensos em função do escândalo das licitações fraudulentas.
Bem longe dos tumultos, onde a imprensa publica notícias sobre corrupção, os dois diários paulistas e mais o carioca O Globo informam que o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, dividiu em dois o inquérito sobre as fraudes, mandando um deputado e três secretários do governo paulista para o foro privilegiado. Mas nenhum deles relaciona um fato ao outro.
Nesse assunto, são os jornais que entram em pane.
 
 
 

DISTACIAMENTO CRESCENTE

O jornalismo diante da agenda negativa
da imprensa


Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa



Quem acompanha o noticiário pela televisão, em especial o da TV Globo, certamente já se impressionou com o predomínio de notícias sobre violência, corrupção, tragédias, acidentes, declínio econômico, aumento de preços, congestionamentos e por aí vai. A lista de mazelas públicas e privadas exibida pelo menos quatro vezes ao dia nos telejornais poderia ser ampliada ainda mais dando margem a duas suposições: os editores e repórteres passaram a ver apenas um lado da realidade ou então existe uma predeterminação para que o pessimismo também contamine a população, pelo menos até as eleições.
Meu colega Luciano Martins Costa já abordou a agenda pessimista da imprensa a partir das manchetes dos grandes jornais brasileiros. Suas análises deixam claro que, deliberadamente ou não, existe uma tendência a priorizar o negativo seja por questões políticas ou para explorar o voyeurismo e morbidez para vender jornais. Pretendo ir um pouco além para explorar a atitude de repórteres e editores diante desta tendência.
É claro que a alternativa de só dar notícias boas, como ocorria na imprensa durante o regime militar, é tão equivocada quanto só dar as ruins. Não se trata de fazer uma escolha, mas de ter em mente que a sociedade em que vivemos é complexa, dinâmica e diversificada. Às vezes com um pouco mais de otimismo, noutras de pessimismo. É impossível um equilíbrio estático e não há uma fórmula única para avaliar os dados do dia a dia. O desafio do jornalista é achar a dose certa.
É aí que reside a especificidade da profissão. A principal função do jornalismo é a prestação de serviços de interesse público mediante a produção de notícias capazes de gerar debate e, com isso, ampliar o conhecimento coletivo e individual. O noticiário ocupa neste cenário um papel fundamental, pois é ele que alimenta a reflexão entre as pessoas e, consequentemente, as suas decisões. 
Produzir pessimismo é uma forma de induzir a decisões equivocadas porque todo mundo sabe que o quotidiano é feito de coisas ruins e coisas boas. Logo, a ênfase no negativismo, ou no ufanismo, é um sinônimo de mau jornalismo porque ignora a realidade social e engana o público ao lhe fornecer um quadro distorcido do mundo em que vivemos.
Também não se trata de adotar uma estratégia salomônica: dar uma notícia ruim e outra boa. É uma técnica ultrapassada porque a realidade é dinâmica e não adianta querer transmitir uma ideia de equilíbrio porque a mudança é permanente. Os extremos (pessimismo ou ufanismo) são mais confortáveis porque o jornalista não precisa viver a dúvida permanente se está ou não levando em conta os demais dados da realidade. Mas podem ser um erro fatal se considerarmos a sua credibilidade pública.
Para manter uma sintonia mínima com a dinâmica social, os profissionais da imprensa não têm outra alternativa senão pesquisar, duvidar, conferir e compartilhar dados, informações e conhecimentos. Isso toma tempo, o que gera um conflito inevitável com o ritmo industrial de produção jornalística adotada pelas empresas de comunicação. É aí que possivelmente reside uma das causas da atual distorção do noticiário oferecido ao público.
Uma consequência prática, fácil de perceber entre telespectadores, especialmente nas grandes cidades, é o crescente ceticismo em relação ao noticiário. As pessoas começam a mostrar cansaço em relação à insistência na ênfase negativista. Não há uma rejeição clara dos números, fatos ou eventos transmitidos, o que revelaria uma atitude proativa, mas uma tendência a não levá-los em conta como elemento essencial para a tomada de decisões. As pessoas consultam cada vez mais parentes, amigos e as redes sociais na hora de fazer uma opção.
As pessoas também se queixam que a imprensa costuma omitir nomes e marcas envolvidos em questões polêmicas. A atitude é uma compreensível precaução preventiva de empresas e profissionais contra ações judiciais dos suspeitos, mas o público acaba ficando diante de uma situação difícil: duvidar de tudo ou especular sobre o que não foi revelado. Nem uma nem outra opção atendem às necessidades dos leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas.
O resultado é o distanciamento crescente entre as pessoas e a imprensa, que passa a ser vista cada vez mais como uma distração ou voyeurismo social, em vez de ser, prioritariamente, um fator de geração de conhecimento coletivo e individual voltado para a consolidação de relações comunitárias. 
 
 
 

UMA INJUSTIÇA VISÍVEL








QUEM TEM MEDO DAS DOAÇÕES

Tentativa de criminalizar arrecadação dos réus da AP 470 procura esconder críticas cada vez maiores ao julgamento

Paulo Moreira Leite, em seu blogue
 
Só quem ainda não entendeu o que está acontecendo com a ação penal 470 implica com as doações recebidas por Genoino e Delúblo Soares.
Basta fazer uma conta de aritmética simples para entender que são números compatíveis, por exemplo, com o número de filiados ao PT. Eles somam 1,7 milhão de brasileiros. Em teoria, bastaria que cada filiado doasse R$ 1 para que o total fosse atingido. Claro que não foi isso o que ocorreu mas essa estimativa dá uma ideia do processo.
Sem que se tenha provado nenhuma irregularidade nas arrecadações, a divulgação da (suspeita? denuncia? calunia? mentira? ) sobre lavagem de dinheiro e os pedidos de investigação são apenas tentativas de esconder um fato político de primeira ordem: a visão de muitos brasileiros sobre o “maior julgamento da história” está mudando – e rapidamente.
 Em vez atender ao grotesco pedido de Joaquim Barbosa, estes cidadãos mostram que os condenados não serão punidos com o esquecimento. Pelo contrário. Tem gente que é capaz de colocar a mão no bolso para dizer que serão lembrados. 
 O esforço para criminalizar as doações é apenas uma tentativa de criminalizar um movimento político legítimo e, do ponto de vista de muitas pessoas, necessário.
 Não há nada de novo aqui, quando recordamos qual era o sentido a ação penal 470: criminalizar lideranças de um governo que, com todas as falhas e defeitos, mostrou-se capaz de realizar diversas mudanças urgentes, de interesse da maioria da população.
 O sinal novo, que não se quer enxergar, encontra-se nas doações.
 Abatidos, derrotados e desmoralizados depois do julgamento, os eleitores de Lula, os filiados ao PT,  sindicalistas e milhares de  cidadãos de convicções democráticas mostram que não perderam a capacidade de incomodar-se diante de uma injustiça cada vez mais visível.
 Perderam o medo de mostrar seu inconformismo.
 É por isso que as doações incomodam, quando deveriam ser celebradas.
 Elas expressam uma força que nossos vira-latas da sociologia barata tanto elogiam nos países desenvolvidos – a presença, em nossa sociedade, de homens e mulheres que não se dobram nem se submetem.
Já vimos, inúmeras vezes, como essa capacidade de resistência tem importância em nossa história. O processo está se repetindo, e a arrecadação é apenas um sinal.
As doações mostram, essencialmente, que cresce o número de pessoas convencidas de que tivemos um julgamento injusto, partidarizado e contraditório. Não é para menos.
Está cada vez mais evidente que não era possível impedir o desmembramento da ação penal 470 depois de garantir esse direito aos réus do mensalão PSDB-MG.
 A decisão de manter sob sigilo as provas reunidas nos 78 volumes do inquérito 2474, que pode ser acompanhada num vídeo disponível na internet, mostra-se tão ilegítima como suspeita. Pergunta-se: se as provas da acusação contra eram tão boas e tão consistentes, por que deveriam ficar escondidas?  
 Além de serem condenados por uma doutrina que dispensa provas individuais contra cada um dos réus, como manda o Direito Penal, os réus agora enfrentam penas agravadas artificialmente, apenas para garantir que eles ficassem submetidos a longas temporadas sob regime fechado.
 O voo de 15 de novembro, a guerra de laudos médicos, a tensão fabricada contra prisioneiros do AP 470 e os demais apenados,  numa tentativa tosca de denunciar “privilégios” que nunca se mostram, apenas demonstra um esforço para desmoralizar os réus, e criar um estigma político para impedir e uma discussão serena e necessária sobre o julgamento.
 O ponto é este. As pessoas que criminalizam as doações temem, acima de tudo, serem criminalizadas pela própria consciência. Sabem que poderão ser cobrados pelo silêncio, pela omissão, pela hipocrisia.
 Mais uma vez, e há uma ironia amarga, aqui, é a noção de que todos são inocentes até que se prove o contrário que está em jogo aqui.  




04 fevereiro 2014

AS PROFECIAS ECONÔMICAS

Dois mundos paralelos


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Os principais diários de circulação nacional trazem nas edições de terça-feira (4/1) notícias preocupantes sobre a economia mundial, instalando um tom sombrio nas perspectivas do cidadão que procura se informar sobre o que se passa à sua volta. O epicentro desses temores seria uma tendência geral do capital financeiro internacional a fugir de riscos, o que significa uma possível concentração de ativos em mercados maduros, onde o retorno pode não ser espetacular, mas onde o dinheiro fica supostamente mais protegido.
Um dos textos observa que não falta dinheiro no mundo – cerca de US$ 150 trilhões estariam disponíveis para investimento. O que falta, segundo essa análise, é projeto atraente para os investidores.
Por outro lado, é coerente pensar que é mais provável que esses projetos surjam exatamente nos países onde há muito a se construir, como é o caso do Brasil, da China e da Índia, principalmente. No entanto, o foco concentrado nos números do cotidiano tende a desviar a atenção para dificuldades circunstanciais e de curto prazo.
Os analistas da mídia citam como causas da turbulência os maus resultados da China, comparados às expectativas criadas pelo próprio mercado, dificuldades de outros países emergentes e a persistência da crise na Europa, além de frustrações com a recuperação da economia americana.
Um dos resultados destacados pela imprensa é a depreciação de moedas, ações e títulos públicos dos emergentes, provocada por uma revoada de investidores, cujas razões são variadas. Mas não há referência à origem desses fatores.
Embora o noticiário da imprensa não seja considerado fonte essencial para as tomadas de decisão de médios e grandes investidores – que se informam por meio de consultorias especializadas –, é certo que esses analistas podem ser influenciados pelo martelar constante da mensagem negativa. Essas consultorias são alimentadas pelas planilhas preparadas na base das organizações, por assessores submetidos a regimes estressantes de trabalho, sobre os quais pesa diretamente o clima de pessimismo criado pela mídia.
Profetas do apocalipse
É da natureza da economia de mercado a obsessão por resultados e certa aversão a riscos. Os riscos são relativizados pela perspectiva do lucro ao nível da absoluta irresponsabilidade, como aconteceu no processo que levou ao estouro da bolha financeira em 2008. De lá para cá, as dificuldades na Europa e nos Estados Unidos estimularam o apetite por mercados emergentes, que mantiveram o capital em circulação. Acontece que, reduzido o ganho e aumentado o temor do risco, ocorre a debandada.
Há bastante controvérsia em torno de medidas tomadas por países que vêm sofrendo com fuga de capitais, e principalmente em torno da reação convencional de seus governos, de aumentar os juros e desvalorizar suas moedas. No entanto, poucos se lembram que essas medidas eram defendidas pela imprensa, de modo geral, como a coisa certa a fazer, mesmo quando não havia sinais de preocupação para os investidores. Se as autoridades econômicas se deixam convencer pela arenga da imprensa, acabam por produzir o efeito anunciado.
Os especialistas que têm espaço na mídia não podem fazer outra coisa a não ser análises de curto prazo, porque é próprio do sistema da imprensa trabalhar com informações de impacto imediato. Esse bombardeio de dados produz o efeito das profecias que se autorrealizam: de tanto insuflar o temor da inflação, por exemplo, a imprensa pode provocar o aumento dos preços, pela criação de um clima defensivo no mercado.
Mas nem sempre a realidade honra os profetas do apocalipse. No noticiário de terça-feira (4), por exemplo, os jornais de circulação nacional destacam o déficit recorde da balança comercial e seu efeito na alta do dólar. No entanto, o mais recente boletim Focus, produzido toda semana pelo Banco Central do Brasil, indica uma provável melhora do saldo comercial do país ao longo deste ano, com uma visão otimista que se repete há três semanas, e projeta uma queda da inflação.
O relatório é feito com a média dos cálculos de uma centena de especialistas que atuam nas principais instituições financeiras. Se o leitor atento comparar os números oficiais (ver aqui) com o noticiário da imprensa, vai pensar que vive simultaneamente em mundos paralelos.
 
 
 
 

O CHEIRO DO POVO

A quem o povo assusta?

 
Ricardo Melo, no jornal Folha de São Paulo
 
Imagine o cenário. Vencido o prazo para os condenados da AP 470 pagarem as multas, nenhum apareceu. José Genoino, olhe só, alegou que o valor supera o preço de sua casa. Os outros tampouco respeitaram a sentença. O que aconteceria?
 
Pelo que se tem lido e ouvido, batata. "Mensaleiros do PT desprezam Justiça." Ou então: "Além de truculentos e corruptos, petistas dão calote no Tesouro". Ou parafraseando aquele ministro falastrão: "Eles merecem mais que o ostracismo: ademais de incomunicáveis, precisam apodrecer na cadeia e receber apenas uma refeição por dia. E mais: entrar para sempre na lista negra da Serasa!".
 
Outra hipótese. Com dois ou três telefonemas, ou num regabofe no coração de Higienópolis, condenados se acertam com a banca e o dinheiro surge em segundos – o tempo de uma TED. Formalmente, tudo dentro da lei: não é crime receber auxílio para pôr contas em dia. Para os banqueiros, seria apenas uma gorjeta diante de lucros nunca antes imaginados. O juízo midiático, contudo, também seria inapelável. "Cai a máscara: bancos ajudam 'companheiros' a pagar multas."
Surpresa (ou decepção) para muitos: nada disso ocorreu. Sem afrontar instituições, sem desrespeitar qualquer direito (diferentemente do que ocorre com os dos condenados), Genoino e cia. agiram como deveria ser habitual num partido de raízes populares: recorreram à militância. Quem se assustou? Todo mundo para quem não passa pela cabeça alguém doar dinheiro por acreditar em alguma coisa, alguma ideia, algum futuro.
 
A reação mostra o grau de envenenamento do clima político atual. Partiu-se para a troça. Alguns leitores pediram desde uma vaquinha para honrar carnês até auditoria implacável nas doações. Houve mais. Embaladas como coisa séria, reportagens acusaram os petistas de arrecadar mais dinheiro que a Pastoral da Criança! O que tem a ver uma coisa com a outra? Por acaso a Pastoral está em campanha? Pareceria mais razoável comparar o orçamento dessa ONG com fundos auferidos pelo Criança Esperança – mas aí a coisa complica diante do calibre dos interesses envolvidos.
 
O deputado tucano Jutahy Magalhães Júnior, por sua vez, exagerou no ridículo. "Isso é um acinte, um deboche." Por quê? Talvez porque os condenados, em vez de seguir o recém-divulgado manual de propinas de empresas como a Alstom, optaram pela arrecadação popular e voluntária.
 
Não há anjos em política, mas a democracia em vigor prevê o respeito a decisões judiciais, até num caso polêmico como a AP 470. A democracia não obriga, contudo, ao conformismo bovino – exceto no caso da vigência de ditaduras disfarçadas ou quando se está sob o tacão de juntas togadas travestidas de supremas.
 
Muito ainda vai se falar da campanha de doações petista. Pode ser que impropriedades tenham sido cometidas. Mas certamente nada tão grave, por exemplo, como a montanha de denúncias fartamente documentadas no livro primoroso do jornalista desta Folha Rubens Valente, "Operação Banqueiro". Como se sabe, a obra desvenda relações promíscuas entre Poderes da República e o personagem Daniel Dantas. Investigá-las ou não fica ao gosto do freguês.
 
Feitas as contas, o mais sincero entre os apavorados foi o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha. Como se discute o financiamento público nas eleições, o deputado sentiu a água subir: "Só o PT vai ter dinheiro. Se da cadeia ele arrumou isso, imagina da Esplanada".
 
Qual o "crime" do partido? Para o deputado, o PT é o único com militância suficiente para arrecadar grandes quantias em defesa de ideais. Em vez de fazer o mesmo e disputar apoiadores entre o povo, a turma suprapartidária de Cunha prefere levantar dinheiro na surdina para melhor abafar suas próprias causas.