03 fevereiro 2014

UM ANO DIFÍCIL

Fevereiro pode definir o rumo de
2014


Antônio Lassance, na Agência Carta Maior



É possível dizer que fevereiro, junho (mês da Copa) e outubro são os três meses cruciais da presidência Dilma Rousseff.

Em fevereiro, Dilma promove sua reforma ministerial e busca, com isso, consolidar as alianças favoráveis à sua reeleição em 2014.

O Congresso, com uma pauta extremamente polêmica e, por isso mesmo, com dificuldades de acordo, corre o risco de atravessar o mês paralisado. Se houve dificuldades sobretudo com a Câmara no ano passado, neste ano os problemas tendem a ser ainda mais difíceis de serem equacionados.

No Supremo, a novidade é o andamento do mensalão tucano. O ministro relator do caso, Luís Roberto Barroso, abrirá oficialmente em fevereiro o prazo para a defesa dos acusados. Respondem junto ao Supremo apenas o deputado Eduardo Azeredo (do PSDB-MG) e o senador Clésio Andrade (PMDB-MG).

Ao contrário da AP-470, em que todos os réus responderam junto ao Supremo, o processo do mensalão tucano foi desmembrado. A maioria dos acusados responderá na Justiça de primeira instância. O ministro Celso de Mello é o ministro revisor do caso.

O julgamento do mensalão tucano faz o contraponto com o escândalo atribuído aos petistas.

De todo modo, ainda estão pendentes de decisão, sobre a AP-470, a expedição dos mandados de prisão do deputado João Paulo Cunha e do ex-deputado Roberto Jefferson.

O Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, já se manifestou pela prisão de Jefferson em estabelecimento prisional, negando inclusive a prisão domiciliar.

Os desdobramentos do caso de João Paulo Cunha no Supremo se refletirão na Câmara, que aguarda a decisão do STF para dar início ao processo de cassação do deputado.

Ao mesmo tempo, é bom lembrar que ainda há de ser concluído o julgamento dos réus do mensalão pelo crime de formação de quadrilha, o que pode elevar a pena e alterar o regime de prisão de alguns dos réus, como no caso do ex-ministro José Dirceu.

Outra questão central do mês de fevereiro é a do reajuste das tarifas de transporte coletivo. O Rio de janeiro e Porto Alegre têm possivelmente a situação mais crítica, pois pretendem realizar reajustar ainda neste mês.

O prefeito da capital fluminense anunciou que as passagens terão reajuste no dia 8 de fevereiro. Antes disso, diversos grupos promoverão, no dia 6, manifestações de protesto contra o aumento das tarifas.

O prefeito de São Paulo, por sua vez, declarou que não haverá aumento. Da mesma forma fez o prefeito de Salvador.

Em Curitiba, apesar da intenção da prefeitura de promover reajuste em 2014, o Tribunal de Contas determinou, ao contrário, que a tarifa seja reduzida. De todo modo, a decisão do Tribunal pode se tornar o próprio mote dos protestos.

Em Belo Horizonte, também já ocorreram mobilizações no mesmo sentido: forçar a redução da tarifa. A tarifa chegou a ser reduzida, no ano passado, mas as intermunicipais foram elevadas em mais de 6%.

Na Bahia, também são as passagens de ônibus intermunicipais que estão sofrendo maiores reajustes.

As prefeituras de outras cidades, como Vitória, postergaram a decisão sobre o reajuste.

O mês, portanto, promete ser um teste para avaliar em que medida podem ocorrer protestos da mesma dimensão e intensidade dos que ocorreram em 2013.

A consequência desse quadro deveria ser a retomada das discussões no Congresso para encontrar soluções de aumento dos subsídios e redução das tarifas de transportes nas cidades.

No entanto, o quadro de desavenças no Congresso torna pouco provável que isso aconteça, a não ser que os protestos ameacem mais uma vez ganhar volume e intensidade suficientes para apavorar os parlamentares e estimulá-los a retomar a pauta prioritária surgida, no ano passado, justamente a partir dos protestos.

O impasse se revela uma boa oportunidade para a presidência Dilma retomar uma ofensiva no Congresso, priorizando tal questão. Não deixaria de ser uma pauta positiva capaz de suplantar outras que, potencialmente, são consideradas explosivas, como é o caso das propostas de emenda à constituição que estabelecem pisos salariais nacionais para várias categorias.

Mesmo o marco civil da internet pode se tornar um problema. Apesar da prioridade do governo Dilma em defesa da proposta de marco civil, ela tem grandes chances de ser derrotada pela aliança do PMDB com partidos de oposição, que ameaçam retirar pontos considerados centrais, como o da neutralidade da rede.

Enquanto isso, os candidatos da oposição só devem de fato apresentar novidades em março.

A definição de Marina como vice de Eduardo Campos ainda depende do desenrolar das negociações entre PSB e Rede sobre o candidato próprio em São Paulo.

Aécio jogou para março o lançamento de sua candidatura. Embora todos já saibam que ele é o candidato do PSDB, o tucano diz que a candidatura "pode" ser lançada só em março. Ainda assim, não de forma oficial, mas oficiosa.

Enfim, fevereiro promete ser animado e cheio de surpresas. O mês tem ingredientes mais que suficientes para dar a embocadura do ano de 2014.


O REI ESTÁ NU

O poder simbólico da imprensa


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa,



O jornal O Globo traz, na edição de segunda-feira (3/1), uma página com duas reportagens sobre o tema político mais abrangente deste início de século: a submissão das ideologias à lógica da economia.
Essencialmente, é disso que falam duas reportagens que abrem a seção “Mundo” do jornal carioca. Um dos textos trata das mudanças no governo da França depois que o presidente François Hollande deu uma guinada na direção do credo liberal. O outro se refere ao governo da Alemanha, onde a chanceler Angela Merkel faz o movimento contrário.
As duas análises registram a coincidência dos acontecimentos, que apontam para a criação de um campo comum que poderá reaproximar os dois países, colocados em posições antagônicas nos debates sobre o futuro da Europa em crise. De um lado, Hollande sustentava a bandeira socialista da precedência do bem-estar social sobre o mercado; de outro, Merkel guardava o bunker do liberalismo com sua política de austeridade.
Ao se declarar socialdemocrata e anunciar medidas controversas como o corte de despesas públicas e concessão de vantagens fiscais a empresas, o presidente francês se aproxima da líder alemã, que dá uma guinada “à esquerda”, ao criar um salário mínimo nacional e reduzir a idade para aposentadoria.
Uma França mais pragmática, do ponto de vista do mercado, e uma Alemanha mais sensível aos problemas sociais, criam um processo a ser observado no contexto mais amplo do que a possibilidade de os dois países virem a compor, finalmente, um núcleo duro para a consolidação do ideal europeu da ação comum. Esse movimento convergente se torna especialmente emblemático diante do que acontece na borda leste da Europa, onde ucranianos colocam suas vidas em risco ao enfrentar o frio extremo e a violência da polícia e de milicianos a serviço da Rússia.
Porém há um significado ainda mais interessante a ser observado, e que não se apresenta nos palácios dos governantes, mas nas ruas. Trata-se do protagonismo da sociedade, que apresentou suas credenciais há cinco anos, no movimento de ocupação de espaços públicos que começou em Wall Street, Nova York.
Governantes têm que tomar decisões com um olho no poder que move as finanças, mas já não podem descuidar daquilo que se passa nas ruas.
O rei está nu
O problema, para o jornalismo, é que um dos lados dessa moeda tem seu poder efetivo amplificado pelo poder simbólico que exerce sobre a própria imprensa. Estamos nos referindo ao poder econômico institucionalizado, representado pelos 1% dos seres humanos mais ricos, que detêm 40% de todo o patrimônio contabilizável do planeta, enquanto a metade mais pobre da população mundial possui apenas 1% dos bens.
Essa perversidade só se sustenta porque os privilegiados vivem protegidos na bolha do poder simbólico, aquele poder que se sustenta em sua própria mística, e que desaparece quando desvelado. Como no conto de Hans Christian Andersen, o poder político representado por personagens como François Hollande e Angela Merkel vive hipnotizado pela roupa nova do rei, enquanto os manifestantes que transferem suas vidas para as ruas geladas de Kiev e outros locais escolhidos para seus protestos já se deram conta de que o rei está nu.
Declarações colhidas entre manifestantes mostram que eles estão fazendo uma escolha pragmática entre a democracia em crise na Europa e as boas perspectivas econômicas sob a ditadura dissimulada da Rússia. Esse é o ponto central para onde evoluiu a crise detonada em setembro de 2008, quando se revelou a farsa do mercado autorregulado.
Estamos no meio da década que será predominantemente gasta com o conserto dos estragos produzidos pelo descontrole do capital financeiro. A imprensa, de maneira hegemônica, segue mantendo a fantasia do deus-mercado, por um motivo tão simples quanto espantoso: a mídia tradicional também se sustenta no poder simbólico da mediação, ou seja, ela somente se justifica moralmente porque a sociedade acredita que os sistemas informativos são objetivos, ou, pelo menos, buscam o ideal da objetividade.
Mas, como todo poder simbólico, o poder da imprensa deve ser questionado: quem assegura que suas escolhas têm como objetivo realmente informar?
Por mais que esbravejem os pitbulls das colunas de jornais e revistas, as ruas revelam que o rei está nu. E, olhando bem de perto, não é grande coisa.
 
 

EXTREMA DIREITA RADICAL, MAL INFORMADA E BURRA

Pearl Harbor e Mariel


Mauro Santayana, na Agência Carta Maior



A inauguração, na semana passada, da primeira fase da expansão do Porto de Mariel, em Cuba, e da Zona Especial de Desenvolvimento do mesmo nome, com a presença da Presidente da República, serviu de pretexto, para o lançamento, pelos anticomunistas de plantão, de  nova campanha na internet.

Alguns deles se comportam como se a obra fosse uma surpresa e tivesse sido feita sob o mais rigoroso sigilo, quando  trata-se do maior projeto em execução na região - a duplicação do canal do Panamá está parada porque as empreiteiras espanholas e italianas contratadas querem receber mais do que foi combinado - envolveu, até agora, centenas de  empresas brasileiras e gerou mais de 150 mil empregos no Brasil.

Para os hitlernautas, e os “inocentes” úteis que os seguem, o Brasil estaria dando um “presente” para Cuba, e o BNDES sendo usado para apoiar governos esquerdistas na América Latina quando deveria estar aplicando seus recursos exclusivamente dentro do Brasil.

Ora, essa política de estado - até mesmo FHC fazia isso - vem desde o governo militar, com obras na Mauritânia e no Iraque, por exemplo. 

O Brasil não empresta dinheiro para projetos de infraestrutura na América Latina nem por filantropia nem  comunismo. Primeiro, porque os recursos emprestados a outros países pagam juros ao BNDES, e precisam ser gastos com a compra de equipamentos e contratação de técnicos e profissionais brasileiros, ou não são liberados.

E, também, porque normalmente esses projetos estão ligados ao desenvolvimento futuro de nossa economia. A linha de 500 Kv de interligação elétrica de Itaipu com o Paraguai, por exemplo, permitirá que centenas de empresas brasileiras que precisam de energia mais barata para concorrer com os chineses, por exemplo, no mercado internacional, se instalem ali. E o crescimento da economia, do emprego e renda no Paraguai, propiciado pela instalação de novas empresas,  levará ao aumento do poder de consumo da população e à  importação de mais produtos brasileiros, multiplicando, também, os empregos e as oportunidades de negócio por aqui.

O mesmo ocorre, com as obras de ligação ferroviária e rodoviária dos corredores bioceânicos que estão sendo construídas em nossas fronteiras com o Peru e a Bolívia. Por essas estradas, chegarão, com um preço mais competitivo,  produtos brasileiros aos mercados desses países, e, por meio de  portos peruanos e chilenos, ao Oceano Pacífico, à China e ao Extremo Oriente, sem precisar passar pelo Estreito de Magalhães ou o Canal do Panamá.   

As pessoas que denigrem a construção, pelo Brasil, de  Mariel - e que se pudessem, parece que gostariam de  bombardear o porto recém inaugurado, como o Japão fez com a base de Pearl Harbor na Segunda Guerra Mundial -  são as mesmas que desprezam e ridicularizam as relações de nosso país com nações como  Venezuela e Argentina, e que gostam de citar, na internet  nas rodinhas, textos escritos por “analistas” antibrasileiros  nos jornais de Miami e da Cidade do México.

Mas foram Argentina e Venezuela que nos deram 10 bilhões de dólares de superávit no ano passado, e não os EUA ou a Europa, que cortaram as importações do Brasil em 2013 e foram responsáveis por um déficit de quase 20 bilhões de dólares em nossa balança de comércio exterior.    

Se o Brasil não tivesse financiado a expansão do Porto de Mariel, outro país o faria. Países capitalistas, e até de orientação conservadora, como a Itália e a Espanha, ou grandes potências econômicas, como a China, investem mais que o Brasil em Cuba, e ninguém em seus países reclama disso como ocorre por aqui.

O BNDES está investindo bilhões de reais em obras de infraestrutura no Brasil. Mas elas não avançam por motivos que não têm nada a ver com os investimentos do BNDES no exterior, financiando - como fazem  bancos de desenvolvimento  do Japão, da Europa e dos Estados Unidos - a criação de empregos em seus países e a exportação de serviços e equipamentos para outras nações.

As obras no Brasil não andam, e às vezes saem por três vezes mais do que deveriam, porque são sabotadas, e paradas a todo momento, por qualquer razão, como já ocorreu, por dezenas de vezes, com as hidrelétricas de Belo Monte, Jirau e Telles Pires e com as novas refinarias e complexos petroquímicos que estão em construção - e dos quais dependemos para diminuir a importação de combustíveis - como o COMPERJ e a RNEST.

E também porque, enquanto em Cuba a busca do desenvolvimento é consenso, aqui existe uma extrema direita radical, mal informada e burra, que acha que, para ir contra o governo, precisa torcer contra o país.


01 fevereiro 2014

VAMOS AO QUE INTERESSA

Do ridículo ao grave e sério


Mino Carta, na Revista CartaCapital




Caso pudesse aconselhar a presidenta Dilma, diria a ela que não confie às cegas no Guia Michelin: quando fala de restaurantes estabelecidos fora das fronteiras francesas, comete amiúde erros grosseiros. Entra nisso um tanto de chauvinismo, uma dose de ideologia culinária, uma pitada robusta de business. Já a mídia nativa, que pouco entende de boa comida a ponto de enxergar em São Paulo uma capital gastronômica universal, preocupa-se não com a escolha feita pela presidenta de um restaurante lisboeta, mas com a conta do próprio. A qualidade dos nossos perdigueiros da informação avulta também nesta ocasião. Pretendem que o restaurante em questão teria sido premiado com uma estrela do Guia Michelin, mas nem isso corresponde à verdade factual. A turma é muito criativa.
O jornalismo pátrio sustenta que todos nós pagamos pelos excessos de Dilma e de sua comitiva. E, além de tudo, hospedam-se em hotéis de luxo... A acusada apressa-se a esclarecer que as contas pessoais ela paga do seu bolso. Mais pagaria se viajasse a São Paulo, ou Rio, mesmo em outros cantos do País. Temos restaurantes e hotéis que, em matéria de preços (sublinho, de preços), ombreiam com os mais luxuosos e requintados do mundo. Verdade factual esta que os nossos heróis midiáticos, premiados por salários e emolumentos variados muito superiores àqueles recebidos por qualquer profissional europeu, conhecem de cor e salteado. E nem se fale dos seus patrões.
A presidenta, de todo modo, esmera-se em incomodar. Não somente vai à Celac, cúpula dos Estados latino-americanos, que reúne em Cuba os representantes de 33 países, entre eles os presidentes, além de Dilma, de Argentina, Bolívia, Venezuela, México, Uruguai e Costa Rica. Que faz, porém, a presidenta? Cumprimenta os donos da casa, os irmãos Castro, comunistas históricos e subversivos atuantes. Não é de pasmar? O Estadão espumeja de puríssima e vetusta indignação.
Não é tudo, entretanto. A primeira mandatária está presente à inauguração do porto de Mariel, considerado entre os mais sofisticados e maiores do Caribe, em concorrência com Kingston e Freeport. O projeto, realizado em parceria pela Odebrecht e pela cubana Quality, foi em boa parte financiado pelo BNDES. Segundo o acordo selado com Havana, dos 957 milhões de dólares gastos na construção, 802 milhões destinaram-se à compra de bens e serviços totalmente brasileiros, a gerarem, informa o governo, 156 mil empregos, “diretos, indiretos se induzidos”.
Estas incursões da mídia nativa de tão primárias chegam a ser ridículas. Há outras críticas que poderiam ser formuladas. Quando o são, contudo, vestem-se de fatiotas impróprias. Atiram fora do alvo, completa e inexoravelmente. Tomemos as manifestações de quem, neste momento, pretende parar o Brasil da Copa. No caso, a reação dos manifestantes tem farta razão de ser, em um país assoberbado por questões e prioridades infinitamente mais significativas do que organizar um torneio de futebol. Mas a mídia nativa só se move contra a baderna.
É do conhecimento até do mundo mineral que o Brasil expõe-se ao risco de sediar um mundial da bola ainda pior sucedido do que o da África do Sul. Não há de nos preocupar, está claro, o senhor Blatter quando fala do atraso das obras ainda em curso. O senhor Blatter é mais um exímio discípulo de mais um brasileiro ilustre, João Havelange, enquanto José Maria Marin é da absoluta confiança de Ricardo Teixeira. Há tempo ouso sustentar que Totò Riina se sairia tão bem quanto o bando acima.
Preocupa-nos, no entanto, uma repercussão negativa mundo afora. A demonstração de uma infraestrutura insuficiente. E ainda, de pronto, o gasto exorbitante, a justificar seriíssimas dúvidas quanto ao bom uso dos recursos oficiais. E, para fortalecer as suspeitas, a escolha de cidades inadequadas para a construção de praças esportivas fadadas à inutilidade, ou mesmo ao oblívio. O quadro, aí sim, se oferece a críticas fortes, acima de crenças e ideias.
Há quem diga que é reacionário quem se posiciona contra a Copa, como se fosse quinta-coluna, conforme expressão antiga. Pois os manifestantes destes dias, focalizados na reportagem de capa desta edição, não são necessariamente de esquerda ou de direita, na percepção de CartaCapital, sem exclusão do risco de que sofram infiltrações de quantos querem apenas a baderna. Nem por isso evitamos a conclusão inescapável: sem entrar no mérito dos caminhos tomados pelo protesto, as razões de quem protesta são amplamente justificadas.

A MÍDIA E SUAS MANIPULAÇÕES

A "penúltima verdade" da Folha


Miguel do Rosário, no TIJOLAÇO



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Uma das sinopses mais comuns nos clássicos de ficção científica diz que a realidade tal qual a conhecemos não é a verdadeira realidade. Philip Dick tem algumas obras onde conta essa mesma história de maneiras diferentes. Em The Penultimate Truth (A penúltima verdade), por exemplo, a humanidade vive nos subterrâneos, trabalhando para uma guerra que já terminou há anos. Um grupo de ricaços controla as informações passadas à população, para que ela continue trabalhando em regime de semi-escravidão, vivendo em cidades construídas embaixo da terra. Inventam-se crises, batalhas perdidas, disseminam-se ameaças, esperanças, sempre mentirosas, tudo para que um grupo de conspiradores prossiga desfrutando de uma vidinha milionária na superfície do planeta.
Na literatura e no cinema anglo-americanos, há dezenas, quiçá centenas, de obras que denunciam os arbítrios e os riscos de uma mídia corporativa excessivamente poderosa. Em “O Amanhã nunca morre”, um filme da franquia 007, um poderoso magnata da imprensa mundial, Elliot carver, almeja dominar o mundo através da manipulação midiática: inventa uma guerras aqui, uma crise acolá, e vai virando dono de tudo.
Às vezes eu fico a imaginar que nossa mídia deveria ser mais explorada por nossos ficcionistas do livro e da tela. Ontem mesmo, esbarrei numa reportagem  (a da imagem acima) que me deu ideia para um romance. A história poderia ser a seguinte: meia dúzia de órgãos de mídia, organizados em cartel, tentam vender à população que seu país vive uma terrível crise econômica. Mas é mentira, não há crise nenhuma. Os conspiradores manipulam as notícias para comprar ações baratas e lucrar com o aumento dos juros.
O jornal informa que o Bradesco divulgou seu balanço de 2013. Tudo cresceu: carteira de crédito, faturamento e lucro líquido. Quer dizer, uma coisa caiu: a inadimplência (favor mandar emails para Diogo Mainardi).
Entretanto, os editores dão o seguinte título à matéria: “Bradesco diminui expansão de crédito”, o que poderia ser traduzido, com um pouquinho de humor, para “crédito aumentou, mas caiu”.
A base para a matéria sequer é a comparação entre a expansão de 2013 sobre o ano anterior com a de 2012. Não. O título busca sentido no fato do Bradesco ter “estimado”, no início do ano, expandir o crédito em 13% mas expandiu “apenas” 11%.
O Santander, outro grande banco que divulgou esta semana seu balanço de 2013, ampliou sua carteira de crédito em 7,5%.
Queda na inadimplência, aumento nos lucros, nada disso tem imporância para os editores da Folha. O que vale é investir no baixo astral e na manipulação das notícias, para que os leitores, como no livro de Philip Dick, continuem trabalhando silenciosamente nos subterrâneos, enquanto os donos da mídia e seus sócios se tornam a cada dia mais e mais ricos.
 
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AS RESSALVAS DE SEMPRE

Mas, porém, todavia, contudo


Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



Manchete na Folha de S. Paulo e destaque nas primeiras páginas do Globo e do Estado de S. Paulo nas edições de sexta-feira (31/1), o nível de desemprego caiu para 5,4% na média anual em 2013. Em dezembro, o número de desempregados foi de 4,3% do total de pessoas que buscam uma colocação no mercado de trabalho.
Trata-se do melhor desempenho em onze anos, mas os jornais tratam de minimizar o efeito positivo desse indicador, com a informação de que a renda do trabalho cresceu com menos vigor no ano passado.
Especialistas ainda se empenham em uma discussão sobre a hipótese de o Brasil ter alcançado a situação de pleno emprego, após a divulgação de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado em outubro do ano passado, mas esse aspecto da realidade brasileira perde complexidade quando chega à imprensa.
A rigor, trata-se de uma tarefa que o jornalismo dificilmente poderá cumprir, não apenas porque a economia brasileira se caracteriza por intensa mobilidade, mas principalmente porque a imprensa, como entidade corporativa, rejeita o modelo voltado para o fortalecimento do mercado interno e repudia a ação do Estado no sentido de uma economia com interesse social.
No estudo do Ipea ficou claro que, ao contrário do que vinha sendo divulgado, o Brasil não sofre um “apagão” de mão de obra qualificada. Na verdade, há carência de trabalhadores em atividades como agricultura, construção civil e trabalho doméstico, que formam a base da chamada pirâmide educacional. Esses e outros setores podem ser afetados por eventos sazonais, como o aumento da demanda por funcionários em regiões turísticas durante o verão, que tanto pode estimular a busca de empregos temporários como produzir o abandono do emprego pela oportunidade de ganhar mais com atividades informais de curto prazo. Ainda assim, a formalização do mercado de trabalho continuou aumentando em 2013, como acontece ininterruptamente desde 2003.
Esses elementos dificultam a construção de teorias sólidas num campo do conhecimento tão volátil, inconsistente e ideologicamente comprometido como o da imprensa.
A renda do trabalho
A conjunção adversativa agregada aos títulos de todos os principais jornais na sexta-feira se refere ao ritmo de aumento da renda do trabalho. Praticamente todas as análises selecionadas pelos editores afirmam que os salários continuaram crescendo em 2013, mas em ritmo menor do que em anos anteriores.
Esse é o aspecto que cabe destacar aqui: os jornais não conseguem ou não querem, em nenhuma hipótese, apresentar uma boa notícia sem agregar um elemento negativo, ainda que para isso seja necessário dar uma forçadinha nos fatos.
Ora, certamente o ritmo de aumento da renda média do trabalho desacelerou em 2013. Os números dos anos anteriores, principalmente os de 2012, vinham registrando uma situação absolutamente insustentável, no sentido positivo: em 2012, por exemplo, a renda média por pessoa em idade ativa aumentou 6,5%, muito acima do crescimento do Produto Interno Bruto e quase dois pontos porcentuais acima da inflação. Objetivamente, não houve redução da renda média, mas uma acomodação a patamares mais realistas, dadas as circunstâncias gerais da economia.
Para poder oferecer um retrato mais fiel da realidade aos seus leitores, os jornais precisariam levar em conta outros elementos, como a menor participação da indústria na composição das ofertas de emprego, o maior número de jovens que preferem apenas estudar, e o aumento real da renda familiar. Também devem ser incluídos nesse quadro a queda na inadimplência e a desaceleração da inflação no final do período observado.
O que pode ser realmente um tema preocupante passa longe dos textos jornalísticos sobre o assunto: o território nebuloso que se cria entre a ação do Estado e a dinâmica do mercado, que pode ser afetada pelo pessimismo da mídia tradicional. Assim, se o Estado estimula a formalização do emprego pela combinação das políticas de benefícios com mais fiscalização, o próprio mercado produz a informalidade, com surtos de oportunidades mais tentadoras em atividades informais – tendência que pode se manifestar ainda mais com eventos como a Copa do Mundo.
Mas essa complexidade não cabe nos jornais.
 
 
 

SEM IMAGINAÇÃO E CRIATIVIDADE

Oposição: procura-se


Wanderley Guilherme dos Santos
Arquivo


Se depender da oposição o País não vai andar. A infantilidade de seus protestos explica o agônico socorro que está pedindo à descabelada desordem urbana. De seu próprio ventre, nada. Criticar a autoridade fiscal, por exemplo, por ter usado tributos e dotações dos leilões para fechar as contas equivale a desancar o quitandeiro porque equilibra o livro-caixa recebendo o que lhe devem. É curial que o governo troca tributação por serviços, administração e projetos. Lá uma vez ou outra parte dos impostos se transforma em subsídios diretos e indiretos ao consumo e às despesas dos grupos vulneráveis. Chama-se redistribuição de renda e vem ocorrendo há pouco mais de dez anos no Brasil. É isso que provoca espuma na garganta oposicionista e a faz perder o senso de ridículo.
 
Nenhuma oposição que se preze tenta condenar um governo por fazer uma parada técnica voltando de longa viagem. Aliás, nem mesmo se fosse para simples recuperação física, independente de considerações meteorológicas ou de segurança de vôo. Pois este foi um dos brados de guerra, sem eco, da semana oposicionista.   

Desdobrar desembolsos no tempo é uma espécie de versão macroeconômica da compra a crédito, o uso calculado da renda e do gasto futuros. A dívida das pessoas deve ser compatível com a proporção comprometida da renda esperada face ao dispêndio incompressível que virá a ter. Trata-se de uma questão de ser ou não leviano em relação à própria economia. E é preciso muita leviandade para que eventuais desmandos, ou desvairada presunção, conduzam à falência. Desde a redemocratização de 1945 foram necessárias décadas dos mais variados governos, inclusive ditatoriais, até que os livrescos sábios do PSDB conseguissem a proeza de quebrar a economia brasileira três vezes em não mais do que oito anos.
 
Quando as mesmas vozes do passado esgoelam-se em advertências sobre a dívida pública, bruta ou como proporção do produto interno, com que diabos de autoridade pensam estar falando? Não possuem nenhuma imaginação ou criatividade e o bolor das receitas sugeridas tem um só resultado, se aviadas: desemprego. Existe uma crônica morbidez no pensamento conservador que o faz recuar diante da saúde e saudar os sintomas patológicos de vida social. Talvez por isso aplauda a proliferação dos micróbios (pequenos grupos de desordeiros, em geral), sem se dar conta de que estes são a hiperbólica evidência do fracasso oposicionista, ele mesmo.


Mas a pantomima máxima revela-se na busca de recordes. Os furos pelos quais compete a grande imprensa foram transferidos das páginas de esportes e da previsão do tempo para as manchetes, mas com significados distintos.
 
Excepcionais desempenhos em natação, maratona e salto a distância refletem o aprimoramento físico da espécie, o apuro no treino e a perseverança nos treinos. Já os indicadores de temperatura nos explicam o bem estar ou seu contrário em condições de exacerbado calor ou frio. Por isso comparam números de hoje com os de ontem ou de há dez anos conforme o caso. Mas as manchetes das primeiras páginas são pândegas. Títulos chamativos advertem que aumentou a ameaça inflacionária enquanto o texto explica que houve uma variação para mais no quarto dígito depois da vírgula, algo que não acontecia há dezoito, vinte e três ou não sei lá quantas semanas. Ou seja, o furo jornalístico não quer dizer absolutamente nada.
 
Pelo andar da carruagem é de se esperar escândalos informando que o desemprego na tarde de quarta feira passada foi o maior já registrado em tardes de quartas-feiras de anos bissextos. Ao anunciá-los os apresentadores de noticiários televisivos farão cara de fralda de bebê, suja.

Enquanto o País muda a pele, subverte rotinas, enfrenta e experimenta uma realidade inédita – a liquidação da miséria extrema – e veloz reestruturação de seus contingentes sociais, o reduto oposicionista balbucia indignações esfarrapadas. E a crítica competente é fundamental para o desempenho de qualquer governo. Quanto a isso, estamos à míngua. A oposição brasileira é rústica como oposição, não está preparada para governar.  

PELA CONTINUIDADE

Acabou o ciclo do PT?

 
Emir Sader,  na Agência Carta Maior
 
 
 
Emir Sader

A cantilena volta a cada eleição. Em 2006, nem era preciso, porque o ciclo seria cortado logo no início, se as previsões da oposição de que, depois da campanha midiática contra o governo e o PT e o estrangulamento de recursos no Congresso, dessem certo.

Não contavam com a astúcia do governo Lula, que já podia contar com os resultados da prioridade do social, que havia acertado a mão com as políticas sociais e pôde derrotar de novo a oposição. Em 2010 então, os que teorizavam que era o lulismo o que segurava o governo, se entusiasmavam com a possibilidade de voltarem a governar, amparados na “científica” previsão do diretor do Ibope e na galhofa de que a Dilma era um poste.

A eleição da Dilma permitiu demonstrar como o esquema de governo valia mais alem do “lulismo”, mantendo e intensificando o modelo econômico-social. Agora, a falta mal disfarçada de entusiasmo da oposição apela para um suposto "fim de ciclo do PT”, o que alentaria os desalentados candidatos da oposição a buscarem alguma esperança para encarar a mais difícil campanha da oposição.

O coro neoliberal na mídia entoa: terminou o modelo de crescimento econômico induzido pelo consumo, pela distribuição  de renda. Faz terrorismo para que as taxas de juros sigam subindo, apelando para um suposto descontrole inflacionário. Propõe o abandono do modelo econômico e a volta à centralidade do ajuste fiscal, que levou o Brasil à profunda e prolongada recessão que o FHC deixou de herança pro Lula. 

Sabemos o que é “fim de ciclo”, com o fim do curto ciclo tucano, apesar das suas ameaças que teriam vindo para destroçar o Brasil por 20 anos. A política econômica de estabilização monetária e de ajuste fiscal se esgotou, FHC conseguiu esconder a crise de janeiro de 1999 e a nova e arrasadora negociação com o FMI – que o fez levar a taxa de juros a 49% (sic) -, para poder se reeleger. Mas em seguida a economia naufragou numa profunda e prolongada recessão, sendo resgatada só pelo governo Lula.

O apoio ao governo do FHC desceu a seu mínimo, não conseguiu eleger seu candidato e, dali pra frente, só enfrentou derrotas eleitorais. Não tem nada a propor, candidatos tucanos renegavam o governo FHC, quem o reivindica ressuscita os que levaram o pais ao pântano, corre o risco de nem sequer chegar em segundo lugar nas eleições deste ano. Isso é esgotamento, fim de ciclo.

A Dilma mantem alto apoio popular, é favorita para reeleger-se este ano, os índices sociais são melhores ainda do que quando a economia crescia mais, o Lula continua a ser o maior líder politico do Brasil, o PT tem projeções para obter o melhor resultado da sua história para governadores e para o Parlamento.

Os problemas que o governo enfrenta só podem ser superados não pelo abandono do modelo que permitiu o país crescer e distribuir renda, simultaneamente, como nunca havia feito na sua história. Mas pelo seu aprofundamento, pela quebra do poder do capital especulativo, por um papel mais ativo ainda do Estado na economia, pela extensão e aprofundamento das políticas sociais. E não pelo seu abandono, para o retorno a pacotes de ajuste prometidos pelos candidatos da oposição, com as duras consequências que conhecemos.

Não há fim de ciclo do PT. Dilma e Lula tem a popularidade que falta a FHC. O país não entrou em recessão, como com os tucanos, com a exclusão social que caracterizou o seu governo. A maioria da população claramente prefere a continuidade do governo do PT às propostas regressivas da oposição. O Brasil se prepara para a segunda década de governos posneoliberais